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1 E 2 carta de Timótio
1 E 2 carta de Timótio

COMENTARIO DE 1 TIMÓTIO

 

Necessidade de Refutar os Falsos Ensinamentos (1.3-7)

 

Os comentadores têm procurado em vão encaixar a viagem de Paulo à Macedônia, aqui mencionada, nas narrativas do livro de Atos. Primeiramente, Paulo chegou à Macedônia em resultado de sua visão em Trôade (ver o décimo sexto capitulo do livro de Atos). Não demorou que Timóteo se tornasse companheiro de viagens do apóstolo dos gentios, tendo-o acompanhado a Beréia. Entretanto, ameaças de violência forçaram o apóstolo a apressar-se para ir a Atenas, sendo provável que ali é que Timóteo se tenha reunido a ele (ver I Ts 3:1 e ss., embora o trecho de Atos 18:5 pareça dizer algo em contrário). Paulo passou cerca de um ano e meio em Corinto tendo feito uma viagem a Jerusalém, a Antioquia e às regiões da Galácia e da Frigia; e então passou cerca de dois anos em Éfeso, e finalmente voltou à Macedônia. Dessa vez Timóteo foi enviado à frente (ver At 19:22). Não sabemos dizer onde exatamente, na Macedônia, Paulo se encontrou com Timóteo; mas, a caminho de volta, Timóteo, juntamente com outros, seguiu à sua frente para Trôade, onde Paulo veio reunir-se a eles. Isso não deixa espaço para a viagem mencionada no presente versículo, a menos que tenha tido lugar enquanto Paulo estava em Éfeso, não sendo episódio registrado no livro de Atos sob hipótese alguma. Isso é possível, pois, com base no estudo daquele livro, pode-se afirmar que sua história é fragmentar, precisando ser preenchida, em muitos pontos, com informes dados nas epístolas de Paulo. E mesmo assim é perfeitamente possível que Paulo tenha estado em muitos lugares sobre os quais nada nos é informado. Seja como for, seria difícil explicar se a viagem ocorreu quando Paulo escreveu a Timóteo (estando o apóstolo em Éfeso), e quando planejava retornar em breve, podendo entrar em contacto direto com Timóteo. Essas dificuldades, que impedem que se encaixem as «epístolas pastorais» dentro do esquema histórico do livro de Atos, têm feito muitos intérpretes suporem que elas estão completamente fora da narrativa do livro de Atos. Antes, parece que pertencem a um intervalo entre dois aprisionamentos (no caso da primeira epístola a Timóteo e da epístola a Tito), e em seguida durante um segundo período de aprisionamento, depois que Paulo estivera no ocidente, na Espanha, e entre esse lugar e Roma, na viagem de volta (no caso da segunda epístola a Timóteo). Essa idéia tem algum apoio nos escritos dos primeiros pais da igreja.

Não obstante, há estudiosos que pensam que a tradição inteira de uma suposta quarta viagem missionária depende totalmente do desejo expresso de Paulo por fazer tal viagem (ver Rm 15:24), e que essa «tradição», como era costumeiro, foi esticada a ponto de ser criada uma narrativa inteira para adorná-la. É verdade que as «tradições» sempre procuram fazer o que é vago tornar-se «específico», deleitando-se em adornar seus informes; pelo que também, apesar de conter alguns pontos valiosos, seu testemunho sempre é suspeito. A referência do terceiro versículo, portanto, permanece vaga, não podendo nós termos certeza que possuímos a verdade sobre essa questão. Talvez não haja maneira de recuperarmos a verdade acerca desse particular.

O trecho de 1Tm l:3b-7 apresenta um dos principais temas deste livro. A heresia penetrara na igreja, provavelmente da variedadegnóstica, com certas nódoas judaicas. Estas três epístolas «pastorais» foram essencialmente escritas para dar combate à heresia, conferindo aos ministros instruções para esse combate.

«Apelo a Timóteo. Que fossem advertidos os falsos mestres de Éfeso que não perdessem seu tempo com mitos, genealogias e ensinos sobre a lei, com negligência do verdadeiro alvo espiritual do evangelho. Aqueles indivíduos compreendiam de forma totalmente errada os autênticos propósitos da lei, conforme vistos à luz do evangelho. Seu propósito era controlar o pecado, mas o evangelho salva o pecador; sim, salva até mesmo o principal dos pecadores, e eu (Paulo), recebi o direito de ser pregador dos evangelho. Portanto, na qualidade de meu verdadeiro filho, faz teu papel, deixando-te advertir pela sorte que coube a Himeneu e Alexandre» (Lock, in loc).

 

1:3: Como te roguei, quando partia para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinassem doutrina diversa.

As palavras «...de viagem, rumo da Macedônia...», mui provavelmente falam de uma viagem de Paulo, após ter sido liberto de seu primeiro período de aprisionamento, não coincidindo com o tempo coberto pela narrativa do livro de Atos.

«...te roguei...» No grego temos o termo familiar, «parakaleo», que significa «exortar», mas que freqüentemente também significa «consolar». Neste ponto, a idéia de exortar sem dúvida é o sentido tencionado. A forma nominal, «paracleto», é um dos títulos dados ao Espírito Santo, que o destaca como o «Consolador», como o «Ajudador», sentido lato que esse vocábulo pode ter. O uso desse verbo, neste ponto, provavelmente indica certa relutância, da parte de Timóteo, por permanecer em Éfeso, porquanto mui provavelmente ele queria viajar em companhia do apóstolo dos gentios. Mas Timóteo tinha em Éfeso certa missão a cumprir. Todas as pessoas têm uma missão, cada indivíduo é sem-igual, tanto agora como por toda a eternidade, pois a cada um é dado algo especial para fazer, algo especial para ser.

«...permanecesses ainda em Éfeso...» Com base nessas poucas palavras surgiu a tradição que Timóteo agia como «bispo de Éfeso» e das áreas circunvizinhas. Aquela área se tornara sua responsabilidade, pelo que também Paulo ter-lhe-ia escrito a fim de encorajá-lo a resistir aos falsos ensinamentos, a consagrar pastores devidamente qualificados, e esses são os dois temas dominantes das «epístolas pastorais». Éfeso se tornara um centro cristão de primeira grandeza. Antes, fora centro do paganismo religioso. Era a sede principal da adoração aos imperadores romanos deificados. Ali estava o famoso templo de Artemisa ou Diana (ver At 19:23 e ss.), sendo também centro de vários cultos pagãos, de artes mágicas, etc, sendo apenas natural que ao cristianismo se fizesse amarga oposição naquela localidade. Além disso, ali florescia a doutrina gnóstica, havendo forte oposição do gnosticismo, fora e dentro da comunidade cristã, à doutrina cristã. Toda a literatura que chegou até nossas mãos, vinda de Éfeso, que descreve a situação religiosa do lugar, subentende a natureza sincretista da religião do lugar. Para a mente cristã havia ali uma caótica aglomeração de elementos judaicos, pagãos e cristãos, do que emergiu o gnosticismo tingido de judaísmo, que as «epístolas pastorais» atacam.

«... Sempre é bom relembrar que é em seus períodos criativos que a igreja tem conseguido suas mais significativas declarações de fé, nem inconsciente das correntes de pensamento de sua época, e nem em mansa conformidade com essas correntes, mas reagindo e interagindo com elas». (Gealy, in loc).

Éfeso era igualmente a principal cidade política da Ásia Menor, o centro de seu governo, a sede do proconsulado da província. Era uma localização que tendia para a abundância de bens, por ser a extremidade ocidental do grande sistema de estradas romanas. Paulo, Apolo, Áquila e Priscila trabalharam ali, sem falarmos em Timóteo. Há quatro epístolas para Éfeso, a saber, primeira e segunda a Timóteo, Efésios (embora o destino dessa epístola seja duvidoso, e a epístola de Ap 2:1-7. Uma possível quinta epístola é a do décimo sexto capítulo da epístola aos Romanos, o qual, segundo muitos estudiosos, teria sido enviado a Roma, como carta de apresentação deFebe, mas que veio a ser vinculado à epístola aos Romanos, maneira como que chegou às nossas mãos. A literatura joanina, isto é, o evangelho de João e as três epístolas de João, mui provavelmente também emanou daquela cidade. A primeira epístola de Inácio (escrita em cerca de 110 D.C.) também foi enviada aos crentes daquela cidade. A tradição enriquece a história dessa cidade, do ponto de vista cristão, afirmando que Timóteo, João e Maria, mãe de Jesus, foram sepultados ali.

«...admoestarei a certas pessoas...» No grego temos «paraggelo», que significa «dar ordem», «comandar», «instruir», «dirigir», vocábulo usado acerca de todas as classes de pessoas que exercem autoridade, tanto mundana quanto religiosa, incluindo até mesmo o Senhor Jesus e seus apóstolos. Nesta primeira epístola a Timóteo é palavra usada por cinco 5 vezes, a saber, I Tm 4:11; 5:7; 6:13,17 e aqui. A despeito dos comentários em contrário, por parte de certos intérpretes, esse vocábulo pertence ao vocabulário paulino, pois é usado em I Ts 2:11; II Ts 3:4,6,10,12. Também se acha com freqüência no livro de Atos, e por algumas poucas vezes nos evangelhos.

«... certas pessoas...» Essas palavras podem ser confrontadas com os trechos de I Tm 1:6; 4:1; 5:15,24 e 6:21, todos os quais falam de modo indefinido, como aqui. Mui provavelmente Paulo não quis dignificar as heresias ligando-as a nomes específicos. Também é possível que Paulo usasse essa expressão, «certas pessoas», a fim de diminuir-lhes a importância. É interessante que os estudiosos que negam a autoria paulina das «epístolas pastorais» vêem aqui uma outra prova para a sua opinião, explicando que a maneira «indefinida» de falar se deve à natureza «fabricada» dessas declarações, pois se Paulo tivesse escrito a Timóteo sobre essa questão, tê-lo-ia feito com a menção de nomes de pessoas, em uma epístola pessoal. Porém, não nos olvidemos ser provável que Paulo não conhecia por nome a nenhuma dessas pessoas, pois o problema inteiro poderia ter surgido após ter-se ele ido embora de Éfeso, durante a sua longa ausência dali. Seja como for, Timóteo haveria de compreender a quem Paulo se referia.

«...afim de que não ensinem outra doutrina...» O restante desta epístola fornece detalhes acerca do que seria essa «...outra...» doutrina. Tratava-se de um «outro evangelho», sem qualquer base na autoridade apostólica. Essa afirmativa pode ser confrontada com o trecho de Gl 1:8,9. O original grego aqui é verbal, «eterodidaskalein», que literalmente traduzido seria «não ensinar diferente». Utilizando-se da mesma palavra inicial, «etero», temos nosso termo moderno «heterodoxo», que significa ensinamento contrário à «doutrina ortodoxa». Já o termo grego «ortho» vem de «orthos» que significa «direito», «reto». O termo grego «heteros» significa «outro de outra espécie»; isso quer dizer que Paulo se referia a algo que não "ê* «direito», «reto», mas é justamente o oposto. Tal doutrina era contrária à «sã doutrina» (ver o décimo versículo deste capítulo). O versículo seguinte, mas também o restante das «epístolas pastorais», fornecem vários detalhes sobre essa «outra doutrina», considerada contrária ao evangelho anunciado pelos apóstolos.

As pessoas apontadas por Paulo se ufanavam em serem mestres da lei e da verdade; mas, na realidade, eram ensinadores de novidades; destruidores, que não tinham lugar dentro do sistema cristão doutrinário. O termo «eterodidaskaleo» é novamente usado em I Tm 6:3, mas essas duas ocorrências esgotam seu uso nas páginas do N.T. Eusébio (História Eclesiástica iii.32) utiliza-se desse termo para indicar os «mestres hereges». É possível que o autor das «epístolas pastorais» tenha cunhado tal palavra. O trecho de Tito 2:3 contém um uso similar, «kalodidaskalos», que significa «mestres de coisas boas», palavra essa que também é uma das «hapax legomena» do N.T. Estas «epístolas pastorais», a bem da verdade, contêm um grande número de vocábulos que não são usados no restante do N.T., ainda que encontrem paralelo em outra literatura grega, mormente do século II D.C. Dentre os novecentos e dois, vocábulos usados nas «epístolas pastorais», nada menos de trezentos e seis isto é, mais de um terço, não se encontram nas outras reputadas dez epístolas paulinas, e cento e setenta e cinco deles não aparecem em qualquer outra porção do N.T. Com base em fatos assim é que algus duvidam da autoria paulina das «epístolas pastorais».

Não há que duvidar que, neste versículo, se faz alusão a alguma forma de gnosticismo.

 

1:4: nem se preocupassem com fabulas e genealogias intermináveis, que antes promovem discussões do que o serviço de Doas, na fé.

«...nem se ocupem...» traduzem o verbo grego «prosecho», que quer dizer «voltar a atenção para», «seguir», «preocupar-se com», «apegar-se-a». (Ver a mesma palavra em I Tm 3:8; 4:1,13 e 6:3, e comparar com Tt 1:14). Essa palavra também não se encontra nas «outras» epístolas paulinas. A ordem aqui baixada dá a entender a grande importância das questões que passam a ser numeradas, bem como o tempo e a energia dispendidos nas mesmas, mas que era um desperdício, segundo o parecer de Paulo, visto que não eram atividades edificantes, mas destrutivas.

«...fábulas...» No grego temos «muthos», que significa «mito», «fábula». Essa palavra ocorre nas «epístolas pastorais», aqui e em I Tm 4:7; II Tm 4:4 e Tt 1:14. No resto do N.T., aparece apenas em II Pe 1:16. Na Septuaginta (tradução do original hebraico do A.T. para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã) aparece em Sabedoria de Salomão 17:4 e Eclesiástico 20:19, sempre nos livros apócrifos. Deve-se observar que, no trecho de Tito 1:14, a alusão é às «fábulas judaicas». Mas essa referência, sem qualquer qualificativo, é incerta. Provavelmente Paulo se referia a histórias fabricadas, suposta­mente dotadas de valor religioso e espiritual, baseadas em heróis judeus da fé, como Abraão e os outros patriarcas da narrativa do A.T. Esse tipo de atividade era bastante evidente nas várias tradições, proeminente nos «apocalipses judaicos». O «haggada» (parábolas e anedotas) do Talmude também ilustram as histórias «inventadas», cujo desígnio era servir de instrução religiosa. O livro dos Jubileus, que procura reescrever a história primitiva do ponto de vista da lei, fazendo com que já fosse conhecida e praticada até mesmo entre os anjos, e então desde o começo mesmo do livro de Gênesis, fornece várias narrativas míticas. O livro das Antiguidades Bíblicas (atribuído a Filo), uma crônica lendária da história do A.T., desde Adão até Saul, datado do primeiro século da era cristã, também encerra tais fábulas. A alusão a janes e Jambres, em II Tm4,3:8, mui provavelmente é derivada dessas «haggada» lendárias.

Outros eruditos têm pensado que os mitos «gnósticos», concernentes à natureza e à atividade dos «aeons» angelicais é que são aqui aludidos, ou ainda outras narrativas lendárias de origem pagã. É perfeitamente possível que tanto os mitos «pagãos» como os mitos «judaicos» sejam aludidos neste versículo, sem que um exclua ao outro. É provável que Filo tenha descrito corretamente essa espécie de atividade, de que tanto os mestres gnósticos gostavam, no tocante a essas fábulas, embora não tenha ele escrito diretamente a respeito deles. 

 

A Incumbência: Deter os Falsos Mestres (1.3-11)

 

Paulo começa a carta propriamente dita de um modo que não lhe é característico — sem as costumeiras ações de graças. De suas cartas anteriores, somente em Gálatas (fato bastante significativo) faltam as ações de graças. A ausência dessa expressão gratulatória aqui sustenta a observação já feita de que 1 Timóteo visa, realmente, o benefício da igreja tanto quanto do próprio Timóteo, ou ainda mais; o que está ocorrendo na igreja não é motivo para dar graças (dar graças em tudo?).

Ao invés, Paulo entra de imediato na ocasião e no propósito da carta. Em verdade, todas as questões cruciais que compõem a estrutura e conteúdo de 1 Timóteo estão exibidas no parágrafo inicial (vv. 3-7). A igreja corre grande perigo em virtude de alguns presbíteros que talvez se julguem mestres da lei (v. 7), mas, com efeito, ensinam outra doutrina (v. 3). Timóteo foi deixado em Éfeso para conter a maré. Ele não é o "pastor"; antes, foi deixado para atuar em nome de Paulo enquanto Paulo estiver ausente. Esta carta autorizará a Timóteo — perante a igreja — a opor-se àqueles enganadores e seus adeptos. Portanto, o palco está montado: A carta no seu todo é uma reação à presença dos falsos mestres.

 

1:3 A sentença inicial proporciona a ocasião da carta, acrescida de todos os "atores" significativos — Paulo, Timóteo, a igreja (implícita no em Éfeso), e os falsos mestres.

Embora não haja certeza quanto a se Paulo havia estado recentemente em Éfeso, isso parece estar implícito ao rogar a Timóteo que fique em Éfeso enquanto ele, Paulo, partia para a Macedônia. Mais adiante (3:14), ficamos sabendo que Paulo esperara ir para Éfeso em breve; contudo, no caso de demora (o que de fato aconteceu, dada a evidência de 2 Timóteo), Paulo queria que seu companheiro mais jovem tivesse "por escrito" o motivo para ele estar ali.

Os começos da igreja em Éfeso estão muito envoltos em mistério (At 18:19-21; 18:24 - 20:1), embora fique claro do relato de Atos, corroborado por referências passageiras em 1 Coríntios 16:8-9, 19, e 2 Coríntios 1:8-9, que se tratava de uma igreja paulina (talvez composta por muitas igrejas-lares; veja 1 Coríntios 16:19). Éfeso era ao mesmo tempo a capital da província e centro religioso da província da Ásia. Devido ao lodo que o entupia, no tempo de Paulo, o porto sofria declínio comercial; mas isto ainda era compensado, contudo, por sua importância passada e pela presença do seu templo de Artemis (Diana), uma das Sete Maravilhas do Mundo antigo e atração turística que obviamente rendia não pequenos lucros líquidos aos audazes vendilhões de lembranças religiosas (At 19:23-41). O culto de Artemis refletia mistura (sincretismo) religiosa, mas basicamente era um rito de fertilidade oriental, com práticas sensuais eorgásmicas. A igreja efésia era muito importante na estratégia missionária de Paulo; daí sua preocupação em desarraigar o erro neste centro-chave.

Não há indício algum de que em qualquer das cartas a Timóteo alguns homens que ensinavam outra doutrina fossem elementos de fora, como no caso ocorrido na Galácia (Gl 2:4) e em Corinto (p.e., 2 Co 11:4, 12-15). De mais a mais, o discurso de despedida de Paulo aos presbíteros efésios, conforme registrado em Atos 20:17-35, prediz com clareza que os "lobos cruéis" que "não pouparão o rebanho" serão alguns homens "dentre vós mesmos" (vv. 29-30). Portanto, que os falsos mestres talvez fossem presbíteros encontra apoio em diversos trechos de 1 Timóteo: o presumirem ser "mestres da lei" (v. 7), responsabilidade essa dos presbíteros (5:17; cp. 3:2); o fato de que foi Paulo quem citou e excomungou dois deles (1:19-20), e não a igreja, como em 2 Tessalonicenses 3:14 e 1 Coríntios 5:1-5; e o repetido interesse pelos presbíteros nesta carta, quer quanto à qualificação deles — sem mencionar deveres — em 3:1-7, quer quanto à disciplina a eles aplicada e evidente substi­tuição em 5:19-25.

A expressão traduzida por ensinassem outra doutrina aparentemente cunhada aqui e encontrada depois apenas em escritos cristãos, ao pé da letra significa "ensinar outras coisas", ou "ensinar novidades". É remanescente dos falsos mestres em Corinto, que pregavam "outro Jesus" e "outro evangelho" (2 Co 11:4; cp. Gl 1:6). Contudo, "outra doutrina" (novidades) não são trivialidades inocentes; são perversões claras do evan­gelho puro. A finalidade de Timóteo em permanecer ali era, pois, para advertires a alguns que não ensinassem outra doutrina.

 

1:4 Timóteo deve também ordenar aos mestres do erro que não se ocupassem com fábulas ou com genealogias intermináveis. Essas duas palavras, dentre as poucas encontradas nas cartas a Timóteo que dão alguma indicação do conteúdo das falsas doutrinas, colocam-se também dentre as mais enigmáticas. Conforme diz Kelly: "Elas chegam tantalizantemente, quase revelando o conteúdo da heresia"! Em 4:7 elas são de novo caracterizadas como "fábulas profanas de velhas". Fenômeno semelhante também surge em Creta, onde a expressão de Paulo é "fábulas judaicas" (Tt 1:14); as "genealogias" reaparecem numa lista que inclui "contendas e debates acerca da lei" (Tt 3:9).

Eruditos têm afirmado muitas vezes que essas palavras refletem o suposto caráter gnóstico da heresia, apoiado também por linguagem como " oposições da falsamente chamada ciência" (6:20) e pelas práticas ascéticas mencionadas em 4:3 (cp. 5:23). Assim, fábulas e genealogias são consideradas como referindo-se às cosmologias especulativas dos últimos gnósticos com seus sistemas de eões(seres espirituais) que emanam de Deus (o Pai de todos), como se encontra em Valentino. (Esta posição parece refletir-se na Bíblia Viva, que diz: "A idéia que eles têm de poder salvar-se por conseguir a proteção de uma cadeia interminável de anjos que leva a Deus".)

Mas os termos traduzidos por fábulas mythoi e genealogias (genealogiai) nunca são usados nas descrições desses sistemas gnósticos. Aparecem, contudo, regularmente no helenismo e no judaísmo helenístico referindo-se a tradições sobre origens dos povos. O termo mythoi nesta literatura quase sempre é usado em sentido pejorativo (como por todas as EP), para contrastar o caráter mítico de muitas dessas fábulas com a verdade histórica.

Portanto, dada a falta de qualquer consideração verdadeira em 1 e 2 Timóteo pelas bases caracteristicamente gnósticas, além do fato de que no v. 7 os erros se relacionavam de modo específico com a lei, é mais plausível que tais fábulas e genealogias intermináveis reflitam algum tipo de influência judaica, sem dúvida com alguns revestimentos helenísticos. Porém, não sabemos com precisão o queeram, embora tenha havido algumas sugestões (como as especulações que encontramos no Book of Jubilees ou em Questions andAnswers on Gênesis, de Fílon, ou no Book of Biblical Antiquities de um pseudo-Fílon, e até mesmo na tradição hagádica judaica [comentário ilustrativo sobre o AT]). Deve-se, por fim, admitir que não sabemos ao certo por que Paulo não nos deixou pistas suficientes.

O que sabemos com certeza é que ele condena ousadamente tais coisas, não tanto em função de seu conteúdo (embora tais fábulas não tenham relação alguma com a verdade [4:6-7; 2 Timóteo 4:4], mas porque esse ensino tem dois efeitos finais: (1) são " discursos vãos" (1:6; cp. 6:20; 2 Timóteo 2:16; 3:7), que (2) resultam em contendas e discór­dias (6:3-5; 2 Timóteo 2:14, 23).

É a absoluta futilidade disso tudo que molesta a Paulo neste ponto. Em verdade, a palavra traduzida por intermináveis talvez se refira à natureza "exaustiva, cansativa" daquele ensino. O que essas "fábulas e genealogias intermináveis" produzem é "especulações" (RSV; lit., "busca"), ou controvérsias (NIV e ECA). Dessa maneira, fábulas e genealogias são tédios intermináveis, que promovem especulações tolas, "cheias de som e fúria", mas "nada significando".

Além do mais, essas especulações nada têm que ver com o serviço de Deus o qual é na fé. A palavra traduzida por serviço, quando empregada em seu sentido literal, não figurado, refere-se à “administração" da casa de outrem (como em Lucas 16:2-4). Como metáfora, significa ou "uma mordomia confiada por Deus" (cp. 1 Coríntios 9:17; Efésios 3:2), ou como na ECA e NIV, serviço de Deus, significando "providências de Deus para a redenção do povo". É mais provável que esta última seja a intenção, visto que a ênfase neste contexto não parece estar sobre a falha dos falsos mestres em exercer mordomia fiel, mas sobre o evangelho como serviço de Deus, baseado na fé, ou conhecido na fé, em contraste com a futilidade das "novidades", ou "outra doutrina".

 

1:5 Havendo dado a ocasião para escrever a carta (v. 3), e mais alguma reação ao que os presbíteros errados estão fazendo (v. 4), Paulo volta agora a ordenar (advertires) que eles parem (v. 3). O intuito deste mandamento, diz ele, é o amor. Talvez não seja esta uma afirmação geral a respeito do evangelho, em contraste com os erros; ao contrário, Paulo está dando o motivo específico para o envolvimento de Timóteo, a saber, suscitar o amor que procede de um coração puro. Os falsos mestres estão envolvidos em controvérsias (v. 4) e discursos vãos (v. 6) cheios de engano (4:1-2) que levam a discórdias e suspeitas (6:4-5). A finalidade de ordenar-lhes que parem é conduzir a igreja de volta ao resultado próprio do " serviço de Deus" baseado "na fé", a saber, o amor de uns para com os outros. (Observe quantas vezes aparecem juntos fé e amor nas EP como virtudes verdadeiramente cristãs: 1 Timóteo 1:14; 2:15; 4:12; 6:11; 2 Timóteo 1:13; 2:22; 3:10; Tito 2:2).

A graça cristã do amor brota de um coração puro, de uma boa consciência, de uma fé não fingida. Essas motivações para amar ficam em agudo contraste com as dos falsos mestres, que estão enganados e cheios de engano (4:1-2; 5:24; 2 Timóteo 2:26; 3:13; cp. 1 Timóteo 2:14; 5:15; 2 Timóteo 3:5-7), têm consciências " cauterizadas" (4:2), "vieram a naufragar na fé" (1:19).

Um coração puro reflete o pano de fundo bíblico de Paulo (Salmos 24:4; 51:10; cp. a bem-aventurança de Jesus, Mateus 5:8). O conceito de boa consciência deriva de seu meio ambiente helenístico. A consciência é a capacidade, ou sede, da consciência moral, comum a todas as pessoas (Romanos 2:15; 2 Coríntios 4:2). Em cartas anteriores de Paulo (somente Romanos, 1 e 2 Coríntios), a consciência arbitra as ações próprias — e as de outros (esp. 1 Coríntios 8-10). Mas também está claro que ela pode ser informada, quer pelo passado pagão da pessoa, quer pela presente existência em Cristo. Nas EP, o termo consciência é muitas vezes, como aqui, acompanhado de um adjetivo descritivo (boa, pura, cauterizada), implicando que a sede da tomada de decisão foi "purificada" por Cristo ou "cauterizada" ou "contaminada" por Satanás (veja disc. sobre 1 Timóteo 4:2 e Tito 1:15 -16). Deste contexto e de 1:19 fica claro que um coração puro e uma boa consciência são idéias sinônimas.

A qualificação da fé como não-fingida (sincera) é comparável à qualificação que Paulo dá ao amor em Romanos 12:9. Num sentido, nem fé nem amor podem ser assim qualificados. Ou você tem fé, ou amor, ou não tem. Mas a palavra fé tem amplo emprego em Paulo, variando desde "confiar em Deus" (o mais comum) passando por uma virtude cristã que se aproxima muito da idéia de "fidelidade" (p.e., 1 Tessalonicenses 3:6; 5:8, muito freqüente nas EP), até o conteúdo da crença cristã (p.e., Gálatas 1:23; também muito freqüente nas EP). Aqui, fé não-fingida refere-se à virtude cristã, significa confiar em que Deus está presente de verdade, em contraste com a natureza enganosa da “fé" dos mestres do erro.

 

1:6-7 Agora está claro que essas fontes do amor cristão estão expres­sas de modo que contrastem com os falsos mestres. Alguns, a saber, os falsos mestres se desviaram destas coisas (isto é, de "um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera"; cp. 1:19). O conceito de desviar-se de fé (ou a fé) repete-se nas EP, às vezes com este verbo (6:21; 2 Timóteo 2:18), mas também com diversos outros (rejeitado, ECA, 1:19; "apostatarão", 4:1; "se desviaram", 1:6; 5:15; 6:10; "recusar", 2 Timóteo 4:4). Esta apostasia por parte tanto dos presbíteros errados como de seus seguidores é a grande ênfase de 1 Timóteo.

Não somente se desviaram da verdadeira fé e integridade, mas em seu lugar se entregaram a discursos vãos. Isto repete os temas do tédio, e das controvérsias do v. 4. A palavra que representa discursos vãos é um composto de mataios ("vazio, vão") e logos("discurso"). Este "discurso" é alhures caracterizado como "conversas vãs" e "falatórios inúteis" (6:20; 2 Timóteo 2:16).

Paulo tem uma designação final para os mestres do erro nesta arremetida inicial: Querem ser mestres da lei. Não é fácil determinar com precisão o que Paulo quer dizer por mestres da lei (no grego uma palavra composta: nomos, "lei"; didaskalos, "professor"). A palavra é estrita­mente cristã, usada por Lucas (5:17) para referir-se aos rabis, e a Gamaliel, em Atos 5:34. Aqui talvez seja um epíteto pejorativo (estão meramente assumindo o papel de rabinos judeus); porém, é mais prová­vel que seja uma descrição do que os falsos mestres desejavam, na realidade, ser mestres da lei (no sentido provável de intérpretes das leis, 4:3, e intérpretes especulativos das histórias e genealogias do AT a respeito dos começos, 1:4).

Em qualquer dos casos, eles não entendem nem o que dizem, como o próximo parágrafo elucidará (porque estão cheios de controvérsias e, de discursos vãos) nem o que com tanta confiança afirmam (o signi­ficado das Escrituras). Estão simplesmente "pontificando sobre o incognoscível". O tema da "ignorância" ou "tolice" dos heréticos se repetirá, nestas cartas (6:4,20; 2 Timóteo 2:23; Tito 1:15; 3:9; cp. 2 Timóteo 3:7).

 

 

 Pare de Debater Acerca da Lei e Bus­que o Amor (1.3-7)

 

A primeira preocupação de Paulo era substituir altercações pelo amor. Evidentemente, Timóteo havia-lhe escrito a res­peito da situação perturbadora e talvez dera a entender que desejava ir embora. Esta não era a primeira vez que ele demonstrara alguma fraqueza, pois Paulo tivera que mandar Tito a Corinto, para livrá-lo de problemas (II Co 8:6; 12:18). Desta vez, Paulo não iria permi­tir que ele se retirasse.

Como te roguei, quando partia para a Macedônia, que ficasses em Éfeso parece referir-se à visita de Paulo a Éfeso depois da sua libertação da prisão, pois isto não se enquadra no esquema de Atos, a respeito da viagem de Paulo (20:1). Contudo, esta passagem é um pouco difícil. Temos, aqui, um dos familiares anacolutos de Paulo (cf. Rm 2:17 e ss.; 5:12 e ss.; 9:22 e s.; Ef 3:1-14), dei­xando um pensamento inacabado. Apa­rentemente, o que Paulo pretendia dizer era: "Como recomendei a você, quando eu estava indo para a Macedônia, que ficasse em Éfeso, agora lhe recomendo outra vez que fique, a fim de..." O verbo recomendar é um verbo forte, quase uma ordem.

A primeira tarefa de Timóteo era advertires a alguns que não ensinassem doutrina diversa. Paulo não revela o nome deles, embora pudesse conhecê-los, devido à sua longa associação com Éfeso. Ele freqüentemente usa uma refe­rência indefinida para mencionar os oponentes. A palavra heterodidaskalein, traduzida como ensinassem doutrina diversa, aparece apenas aqui e em 6:3, mas a formação de componentes com heteros ("qualquer diferente") é carac­terística de Paulo (cf. heterozugein, en­trar em jugo com outrem, em II Co 6:14).

Este estranho ensinamento inclui fá­bulas genealogias intermináveis. Algumas pessoas têm explicado estas coisas como a especulação gnóstica a respeito das esferas (aeons) que rodeiam a terra e são guardadas por poderes demonía­cos. Contudo, a referência explícita a "fábulas judaicas", em Tito 1:14, a referência ao seu desejo de serem douto­res da lei, no verso 7, e a discussão de Paulo a respeito da lei, nos versos 8 a 11, provam o caráter essencialmente judaístico do debate. Jeremias tem insistido que fábulas genealogiasse referem a especulações a respeito da narrativa da criação em Gênesis, semelhantes às encontradas em Jubileus e Filo, de Ale­xandria.Spicq conjetura de acordo com linhas de pensamento semelhantes, que o interesse deles, provavelmente, se foca­lizava em "lendas apócrifas judaicas". No que concerne à igreja, conclui Paulo, eles produzem... discussões (cf. 6:4; II Tm 2:23; Tt 3:9) Antes... queedificação para com Deus, que se funda na fé. A palavra grega (oikonomia) tra­duzida como edificação, nas obras de Paulo, significa mais exatamente mor­domia (I Co 9:17; Cl 1:25; Ef 3:2) ou o desígnio de Deus para o homem (Ef 1:10; 3:9). Pode ser que esta última acepção seja a pretendida aqui.

Ao invés de tais especulações perni­ciosas, Paulo deseja ver o amor-agapé; este é o fim (alvo) deste conjunto de ordens. No pensamento de Paulo, agapé, aquele amor que coloca o interesse da outra pessoa antes do interesse próprio, propicia o ponto de referência ao redor do qual todas as relações humanas pre­cisam encontrar o seu lugar adequado (I Co 13).

De onde vem o agapé? De um coração puro, de uma boa consciência, de uma fé não fingida. (1) A pureza de coração reflete a maneira hebraica de se encarar a vida. O coração significa o cerne vital do homem, o seu eu. O santo busca em Deus um coração puro, sem dolo nem engano. "Bem-aventurados os limpos de coração", disse o próprio Jesus, "porque eles verão a Deus" (Mt 5:8). (2) Uma boa consciência (I Tm 1:19) ou pura (3:9; II Tm 1:3; Tt 1:15) reflete o modo grego de pensar. Consciência apa­rece apenas duas ou três vezes no Velho Testamento grego. A não ser nas cartas de Paulo e nos seus discursos em Atos (23:1; 24:16), esta palavra aparece ape­nas em Hebreus e I Pedro. Na fraseologia estóica, consciência se refere ao centro do comportamento racional e moral. Uma boa consciênciaseria uma consciência livre de sentimentos de culpa (Kelly), no pensamento de Paulo, sem dúvida, como conseqüência da graça de Deus. (3) A expressão fé não fingida, literalmente, fé não hipócrita, aparece apenas aqui e em II Timóteo 1:5. Certamente, como têm dito alguns críticos, Paulo não pre­cisava acrescentar esta qualificação. É interessante que ele qualificou o amor da mesma maneira.

Aqueles que se desviaram deste cami­nho, Paulo continua dizendo, se entregaram a discursos vãos. Esses oponentes fazem-no lembrar-se dos debates rabínicos acerca de coisas triviais, devido ao fato de quererem ser doutores da lei. Todavia, os judaístas efésios não eram como os judaizantes gálatas, porque não queriam impor toda a lei cerimonial aos cristãos (Kelly). Eles não apenas não compreendiam os assuntos que discutiam, acusa Paulo, mas também nem entendiam o que estavam dizendo.

Bibliografia G. Hinson

 

1:8 O próximo parágrafo (vv. 8-11) parece digressão que leva a uma Segunda digressão (vv. 12-17; observe como os vv. 18-20 retomam o argumento dos vv. 3-7). Porém, no sentido típico paulino é uma digressão que confirma de modo significativo o ponto sob discussão. Em resposta ao uso impróprio que os falsos mestres fazem da "lei", Paulo lhes expõe o verdadeiro intento da lei, o qual, conforme expresso aqui, é que ela se destina aos ímpios.

Muito interessante é o fato de Paulo não lhes dizer como ou por que, a lei é para eles; mas, em Galatas 3:23-4:7 e em Romanos 7:7-25, ele já havia tratado desta questão e mencionado dois motivos: pôr um freio no pecado (Gálatas) e expressar a desesperadapecaminosidade dos pecado­res, levando-os a clamar pela misericórdia de Deus (Romanos). É pro­vável que o primeiro motivo é que estava na mente de Paulo, ao iniciar este parágrafo.

A sentença inicial evolui do v. 7. Os falsos mestres desejam ser mestres da lei, mas não sabem o que fazem. É claro que a intenção de Paulo aqui não é argumentar a favor de um uso correto, cristão, da lei. Em vez disso, ele está ressaltando a insensatez dos falsos mestres incluindo o fato de que eles nem sequer usam a lei. Que a lei é boa é repetição de uma assertiva feita em Romanos 7:12-13 e l6 (embora em contexto diferente). Fica implícito em ambos os casos que ela é boa, porque reflete verdadeiramente a vontade de Deus. Não obstante, con­forme ressalta Kelly, a lei não é o evangelho, mas permanece uma espécie de lei. Aqui, a "bondade" da lei relaciona-se com ser ela usada legiti­mamente, isto é, tratada como lei (tendo em mira os sem lei, v. 9) e não usada "ilegitimamente" como fonte de fábulas e genealogias interminá­veis, ou para práticas ascéticas.

 

1:9-10 Paulo continua descrevendo o que faz aquele que trata a lei como lei. O que é verdadeiro em se tratando da lei de Deus, tida como lei, é naturalmente verdadeiro em se tratando de todas as leis. Ela foi outorgada, não para o justo, mas para os transgressores e rebeldes os irreverentes e pecadores, os ímpios e profanos. Ao dizer que a lei não se destinava "ao justo", Paulo repisa um ponto já apresentado em Gálatas, ou seja, que os que têm o Espírito e produzem o fruto do Espírito entraram numa esfera de existência na qual a lei já não desempenha suas funções legais (Gálatas 5:22-23).

A menção de transgressores da lei, Paulo se lança a uma lista completa de tais pecadores. Listas de vícios como esta são típicas do apóstolo (veja, p.e., Romanos 1:29-31; 1 Coríntios 5:11; 6:9-10; Gálatas 5:19-21; e 2 Timóteo 3:2-4). O que nos espanta é que nenhum pecado singular é especificamente repetido nelas (nem nas três cartas anteriores). Em cada caso elas parecem catálogos ad hoc, embora também pareçam um tanto adaptadas aos contextos. Dos pecados relacionados nesta lista, os devassos e os sodomitas (v. 10) encontram-se nas listas anteriores (1 Coríntios 6:9). O mais chocante, porém, é a natureza bipartida do catálogo. Primeiro, há três pares de classificações gerais: transgressores e rebeldes, os irreverentes (sem respeito no íntimo) e os pecadores (exteriormente sem obediência), e os ímpios e profanos. Daí para a frente o catálogo tem uma coincidência notável com os Dez Mandamen­tos (do quinto ao nono), muitas vezes dando expressões mais grotescas desses pecados.

Assim, esses sem-lei são os parricidas, matricidas (quinto manda­mento; e homicidas (sexto mandamento); os devassos (lit., "fornicadores") e sodomitas, uma palavra que indica homossexualidade entre homens (sétimo mandamento); roubadores de homens (oitavo manda­mento). Tais coincidências dificilmente podem ser acidentais. Porém, qual é o motivo para essa lista figurar aqui? Certamente não é uma referência aos pecados dos falsos mestres, culpados de seus próprios pecados, mas de outros tipos. É muito provável que essa lista seja um reflexo consciente da lei mosaica, como lei, e expressa os tipos de pecados, para proibir os quais foi outorgada a lei. Este, diz Paulo, é o motivo por que Deus deu a sua lei, não para controvérsias ociosas e discursos vãos.

Paulo encerra esta lista de maneira semelhante a Romanos 13:9 é Gálatas 5:21, de modo que inclui os demais pecados também: para o que for contrário à sã doutrina. Mas neste caso as palavras de "encerramento" trazem Paulo de volta uma vez mais às advertências contra os falsos ensinos. A expressão sã doutrina aparecerá regularmente nessas cartas (6:3; 2 Timóteo 1:13; 4:3; Tito 1:9, 13; 2:2, 8). Trata-se de metáfora médica referente à saúde do ensino "conforme o evangelho" (v. 11) e se opõe a "ruins suspeitas" (6:4; NIV, "interesse doentio") dos praticantes do erro, cujo ensino "corrói como câncer" (2 Timóteo 2:17). Tal metáfora não se encontra anteriormente nos escritos de Paulo. Sua fonte, como dispositivo polêmico, com toda a probabilidade é contem­porânea dos filósofos itinerantes, que teriam sido conhecidos dos efésios. Que Paulo tenha emprestado tal metáfora não é mais surpreendente do que o uso que ele faz da metáfora do corpo, metáfora política contemporânea bem conhecida, em 1 Coríntios 12, ou o uso que ele faz de imagens do atletismo em 1 Coríntios 9:24-27 e nestas cartas (1 Timóteo 6:12; 2 Timóteo 2:5; 4:7-8). Nestas epístolas, a imagem do ensino sadio torna-se uma polêmica eficaz contra os enfermados falsos mestres. Porém, o cerne da metáfora não visa o conteúdo da doutrina; visa, antes, o comporta­mento. O ensino sadio leva ao comportamento cristão apropriado, ao amor e às boas obras; o ensino doentio dos heréticos leva a controvérsias, arrogância, abuso e discórdia (6:4).

 

1:11 Havendo mencionado o comportamento " contrário à sã doutri­na" , Paulo conclui descrevendo a verdadeira fonte e medida do ensino sadio. É aquela que está conforme o evangelho... de Deus. O evangelho, como boas novas de Deus, em contraposição às más novas da pecaminosidade grotesca da humanidade, é expressão favorita de Paulo para referir-se à atividade de Deus em Cristo Jesus a favor dos pecadores. A “sã doutrina" está de acordo com a mensagem do evangelho, tanto no conteúdo como no comportamento resultante; o ensino "doente" dos presbíteros transviados não está.

Ao mencionar o evangelho, Paulo faz duas explicações: ele é descrito como

1. o evangelho da glória do Deus bendito,

2. o qual me foi confiado.

O evangelho é, antes de tudo, o evangelho da glória do Deus bendito (lit. ) Este tipo de construção genitiva (frase com "de") é particularmente difícil de fazer sentido na língua portuguesa (e há mais ou menos quatorze possibilidades para o seu significado em grego). Embora a frase "da glória" muitas vezes seja usada de modo descritivo no NT (p.e., Efésios 1:17, "o Pai glorioso"; Colossenses 1:11, "seu glorioso poder"; ou veja GNB aqui," Deus glorioso e bendito"), é muito provável, neste caso, que a frase descreva, não o caráter do evangelho ("glorioso evangelho"), mas o seu conteúdo ("evangelho que manifesta a plena glória de Deus"). O evangelho que Paulo anuncia desvenda a "glória", ou majestade, do próprio Deus, aqui descrito como o Deus bendito. Esta última frase, encontrada também em 6:15, não significa tanto que atribuímos bem-aventurança a Deus, mas que toda a bem-aventurança reside nele e dele procede.

Este evangelho, que revela a verdadeira glória de Deus, conclui Paulo me foi confiado. Isto é tipicamente paulino. Mencionar o evangelho, a atividade graciosa de Deus a favor dos pecadores, muitas vezes significa mencionar seu próprio papel como beneficiário e servo, ou mordomo (cp. 1 Coríntios 9:17; Gálatas 2:7; Efésios 3:2; 1 Tessalonicenses 2:4). Porém, neste caso, talvez Paulo também queira fazer-nos voltar ao tema; central, a autoridade. Este tema é tão importante que será mais plenamente desenvolvido no próximo parágrafo.

Assim, o parágrafo conclui aparentemente a alguma distância do ponto onde começou, como ligeira digressão sobre o propósito da lei, o qual passou despercebido pelos mestres da lei. Contudo, esta breve excursão para mencionar o evangelho como a revelação da majestade de Deus e do relacionamento de Paulo com o evangelho não está muito longe de seu principal interesse — obstar a divulgação do falso ensino. E tendo chegado até aqui, Paulo agora se esmerará ainda mais, nova­mente não sem propósito contextual.

 

Bibliografia D. Fee

 

 

 

Testemunho Acerca do Evangelho (1.12-17)

 

Este parágrafo é, claramente, uma digressão na discussão que a carta, apresenta, de modo que é fácil lê-lo ou comentá-lo separado de seu contexto imediato. Todavia, proceder assim é perder grande parte de seu significado. O parágrafo todo flui diretamente do precedente. Antes de tudo, é uma apresentação do "evangelho" (v. 11) como expressão ousada da graça de Deus para com os pecadores. Muito embora ele assuma a forma de testemunho pessoal (observe as onze ocorrências de eu (oculto ou não), me, e mim, a ênfase do princípio ao fim recai sobre a graça de Deus manifestada em Cristo, que por sua vez inspira a doxologia no v. 17. Como tal, o parágrafo está em contraste com os vv. 8-10 onde, embora não o diga expressamente, Paulo mostra de novo a precariedade da lei, que dizia existir para os pecadores. Todavia, a lei apenas pode "mantê-los em xeque", por assim dizer; a graça de Deus traz consigo fé e amor, e oferece vida eterna.

Contudo, esta afirmação do evangelho é feita na forma de testemunho pessoal, emanando diretamente das palavras "me foi confiado". Mara­vilhado diante da graça que lhe foi prodigalizada, Paulo se coloca à frente como exemplo número um de tal graça para todos os pecadores. O testemunho serve, também, de contraste aos falsos mestres. A autoridade de Paulo finalmente reside na naturezaautêntica do seu evangelho, segundo ele o tem pregado e experimentado.

 

1:12-13 Havendo mencionado o "evangelho" que "foi confiado" a ele, Paulo faz uma coisa que lhe é natural — explode em ações de graças (cp. Romanos 6:17; 7:25; 1 Coríntios 15:57; 2 Coríntios 2:14; 8:16; 9:15). Conquanto em sua maioria essas ações de graças sejam breves, esta aqui, muito semelhante a 2 Coríntios 2:14, expande-se numa expres­são pessoal para trazer à lembrança dos seus ouvintes o relacionamento de Paulo com o evangelho (cp. 1 Coríntios 15:9-10; 2 Coríntios 2:14-7:4; Efésios 3:1-13).

Não é comum que Paulo dirija seus agradecimentos a Cristo, em vez de a Deus, mas isto foi determinado aqui pelo qualificadorque me fortaleceu (que precede Cristo Jesus no texto grego). Para Paulo, este verbo comumente se refere à obra de Cristo e não à do Pai (veja Filipenses 4.l3; Efésios 6:10; 2 Timóteo 2:1; 4:17). Em dizendo que Cristo me fortaleceu, Paulo não se refere a ter recebido força interior de algum tipo (como em Filipenses 4:13). Antes, o verbo refere-se ao "me foi confia­do" do v. 11; portanto, uma tradução melhor seria "que me capacitou, ou me dotou de poder" (cp. NEB: "colocou-me à altura da tarefa"). A gratidão de Paulo abrange também duas outras realidades: Cristo me considerou fiel e, por isso mesmo, acabou pondo-me no seu ministério. Por me considerou fiel (melhor," digno de confiança"), Paulo não quer dizer que recebeu designação porque Deus o teria tido em alta conta — tal idéia contradiria a passagem toda — mas afirma que lhe é sumamente espantoso que Deus viesse um dia a confiar-lhe o evangelho, conforme deixam claro os vv. 13 e 14. Expondo de novo este ponto: "Pensar que ele me consideraria, dentre todas as pessoas, digno desta confiança". Sua designação aqui, convém notar, não se refere ao apostolado, mas à obra de um servo, no seu ministério (diakonia,serviço, "ministério", palavra favorita de Paulo).

Como em 1 Coríntios 15:9-10 e em Gálatas 1:13-16, passagens muito semelhantes a esta, o modo de Paulo entender sua conversão e seu ministério como expressões da graça encontra seu foco na memória vivida de seu passado. A maravilha, para ele — que assim dá magnitude à graça de Deus — é Cristo tê-lo levado em consideração (v. 12), uma vez que por ocasião do seu chamado ele era ativamente blasfemo e perseguidor e injuriador. Isto, é claro, se refere à perseguição que Paulo movera contra a igreja (Atos 8:3; 9:1-2; 22:4-5; 26:9-11). Ele não somente negara a Cristo ("blasfemo"), mas, mediante perseguição e violência (cp. Gálatas 1:13," e a assolava"), tentara obrigar outros a fazer o mesmo, até que, finalmente, ele mesmo foi preso — pela graça.

Mas, continua ele, alcancei misericórdia, porque o fiz ignorante­mente, na incredulidade. À primeira vista, isto parece contraditório, como se ele houvesse recebido misericórdia porque a merecia. Mas o parágrafo inteiro indica que não é assim. Paulo está aqui refletindo sobre a distinção que o AT faz entre pecado "involuntário" e pecado "volun­tário", intencional (p.e., Números 15:22-31). Sua conduta anterior não é, por isso, menos culpável ou grotesca, mas para Paulo esta distinção explica porque ele se tornou objeto da compaixão, e não da ira de Deus.

 

1:14 Ainda envolto na maravilha a que se referira, Paulo repete o que afirmara, mas desta vez a ênfase se transfere de seu ministério (vv. 11- 12) para sua real conversão. Embora escreva com algumas variações inusitadas (p.e., nosso Senhor [Cristo Jesus] como o doador da graça), a teologia desta passagem é totalmente paulina. A graça que havia sido derramada sobre ele superabundou, graça que lhe motivava ao mesmo tempo  e amor. Para Paulo, a ação de Deus é sempre ação motivadora.  é resposta à graça(Romanos 3:23-25; Efésios 2:8), e a  age em amor (Gálatas 5:6; cp. 1:5). De mais a mais, que a fé e o amor estão em Cristo Jesusmostra claramente que não são qualidades humanas, mas indicações de que a graça operou. São "expressões visíveis de um relacionamento vivo com o Salvador" (Kelly).

Tudo isto certamente contrasta com os presbíteros heréticos, que sé desviaram da fé e do amor (1:6), que blasfemam (1:20) e estão engajados em contendas (6:4), e desse modo abandonaram o evangelho da graça exemplificado aqui.

 

1:15-16 Havendo proferido esta palavra pessoal sobre como a graça de Cristo transbordou para um ex-perseguidor, Paulo se lembra de que aquilo que lhe aconteceu está de pleno acordo com um enunciado bem conhecido, que talvez tivesse raízes no próprio Jesus (Lucas 19:10; cp. João 12:46; 18:37). Ele começa com a fórmula: Fiel é esta palavra (lit.), que se repetirá mais quatro vezes nessas cartas (3:1; 4:9; 2 Timóteo 2:11; Tito 3:8) e que foi assunto de considerável discussão. Neste caso, a fórmula precede o enunciado, e a expressão do próprio enunciado é clara. Nem sempre é esse o caso (p.e., 3:1 e 4:9). Além do mais, nada exatamente igual ocorre algures no NT. Contudo, a fórmula semelhante, "fiel é Deus", é comum em Paulo (p.e., 1 Coríntios 1:9; 10:13; 2 Coríntios 1:18), e talvez seja a fonte desta presente formulação.

A ênfase no grego, como na ECA, reside na fidelidade da palavra. Aumenta-se a ênfase ainda mais pelo acréscimo: digna de toda a aceitação. Existe alguma ambigüidade aqui quanto a saber se há um sentido intensivo (NIV, total; ECA, toda; cp. RSV, GNB), ou um sentido extensivo (" aceita por todos", Weymouth, Livro de Oração Comum no adjetivo pases. A fórmula semelhante em 6:1, em que o sentido só pode "ser intensivo ("dignos de toda a honra") empresta apoio à tradução de ECA; não obstante, pode-se argumentar, partindo do contexto, que há ênfase naquela palavra como digna de aceitação universal.

No próprio ditado, Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dois pontos são apresentados: Encarnação e Redenção, com a ênfase na Redenção. Dizer que ele veio ao mundo em si mesmo não implica necessariamente, é claro, em preexistência, mas que se enten­desse assim, quase com certeza é o que Paulo tinha em mira. Aqui se acentua o motivo da sua vinda, e o motivo para que Paulo o incluísse ― salvar os pecadores. Pecadores! Esse era um termo bastante comum no judaísmo dos fariseus (tradição do próprio Paulo). Referia-se a todo! quantos não guardassem estritamente a lei, de modo especial os gentios (até Paulo pode usá-lo assim em Gálatas 2:15). Aqui, porém, e algures em Paulo, pecadores é termo universalizante. Toda a humanidade, quer judeus quer gentios, todos se igualam neste ponto (Romanos 3:19-20, 23). Mas Cristo veio para salvar os pecadores.

Para Paulo, salvação é, antes de tudo, um termo escatológico; isto é, tem que ver com o destino humano, o que acontece às pessoas no fim (grego, eschaton). Mas essa salvação escatológica já começou na pre­sente obra de Cristo, donde “salvar pecadores" também significa salvá-los de sua presente pecaminosidade. Tanto o aspecto presente como o futuro parecem estar em mira aqui (cp. v. 16, "crer nele e receber a vida eterna").

A fim de personalizar o ditado, Paulo acrescenta dos quais eu sou o principal, não como forma de hipérbole, como alguns diriam, nem porque Paulo fosse mórbido com relação ao seu passado pecaminoso, mas precisamente em virtude de sua própria experiência da misericórdia e graça de Deus. Essas declarações devem ser entendidas à luz da intersecção na vida de Paulo do sentido esmagador, simultâneo de sua própria pecaminosidade e total desamparo diante de Deus e do fato da graça de Deus ser-lhe prodigalizada, sem méritos, e de Deus aceitá-lo incondicionalmente a despeito do seu pecado. Conviria notar também que ele diz eu sou, e não "eu fui". Até mesmo Hanson, que acredita ser a carta uma falsificação, admite que este é um "toque verdadeiramente paulino". Mas assim é, não por causa do senso permanente de pecami­nosidade da parte de Paulo (conforme Bernard e outros), mas porque ele se reconhecia como tendo sempre o status de "pecador redimido".

Com a adição desta última sentença, dos quais eu sou o principal, Paulo encontra-se agora em posição de atingir seu último objetivo neste testemunho a favor da graça de Deus. O motivo para que Cristo salve Paulo, o principal dos pecadores, era que por esse meio ele poderia apresentar Paulo como exemplo básico para todos os demais pecadores, que haviam de crer nele para a salvação. O ponto de Paulo é simples “Se Deus quis — e pôde — fazê-lo a mim, considerando-se quem eu soa e o que fiz, então há esperança para todos" (cp. 2:3-7). E por isso ele repete: alcancei misericórdia, mas agora acrescenta este novo motivo.

Salvando a Paulo, Cristo Jesus demonstrou toda a sua longanimidade (ou, "a extensão total de sua paciência") no trato com os pecadores. "Tolerância" ou "paciência" como característica da divindade no trato da rebelião humana é idéia totalmente paulina (Romanos 2:4; 3:25-26; 9:22-23; cp. 2 Pedro 3:9, 15). Vê-se tal longanimidade (paciência) no seu trato comigo, para que em mim, o principal dos pecadores... precisamente para que Cristo pudesse ter um exemplo, um protótipo para os que haviam de crer nele e, desse modo, também receber a vida eterna. O termo grego para vida eterna significa não tanto vida de longevidade sem fim, mas principalmente “vida na era vindoura", vida que agora é nossa em Cristo para ser plenamente usufruída por ocasião de sua "volta" (veja6:12-15; 2 Timóteo 4:6-8; Tito 2:11-14).

 

1:17 O que começou como ações de graças e depois mudou para testemunho da abundante graça de Deus, agora conclui comodoxologia. Como poderia ser diferente? A reflexão na graça de Deus muitas vezes leva Paulo ao louvor (p.e., Gálatas 1:5; Efésios 3:21; Filipenses 4:20). Em 6:15-16 aparece uma doxologia semelhante. O que separa estas duas doxologias das anteriores é sua ênfase na "diversidade" e eternidade de Deus. Ambas trazem consigo um toque litúrgico, bem arraigado na piedade judaico-helenística. Talvez reflitam doxologias oriundas da sinagoga da Diáspora, onde Paulo tinha suas próprias raízes, e onde ele começou seus esforços missionários.

Rei eterno (lit., "o rei dos séculos") retoma o tema da vida eterna no v. 16. Deus é eterno no sentido de que ele governa em todos e por todos os séculos. Deus é, de igual maneira, o imortal (lit., "incorruptí­vel”, termo tirado do judaísmo helenístico), invisível (expressão recor­rente do AT; cp. Romanos 1:20; Colossenses 1:15), e único Deus (tema primordial do AT). Portanto, toda honra e glória (cp. Apocalipse 4:9, 11, 5:12, 13; 7:12), são devidas a ele para todo o sempre. O amém pronunciado nas sinagogas em assentimento àsdoxologias e bênçãos já havia passado à adoração cristã (veja esp. 1 Coríntios 14:16) e muitas vezes também conclui as doxologias do NT (p.e., Gálatas 1:5; Romanos 16:27).

Com esta doxologia Paulo dá conclusão repentina à digressão. Ele sé afastou, deveras, ficando à considerável distância da incumbência inicial dada a Timóteo: permanecer em Éfeso a fim de opor-se aos falsos mestres (vv. 3-4). Mas, conforme vimos, nada disto deixa de ter propósito. Por trás de cada

ORDEM NO CULTO A DEUS (2.1-7)

 

A Importância da Ordem na Igreja (2.1)

 

Com o começo do segundo capítulo, o apóstolo chega à questão que o levou a escrever a Timóteo — a preocupação pela devida ordem na igreja efésia. A prioridade que Paulo deu a este tema mostra-se na frase de abertura: Admoesto-te, pois, antes de tudo. Há certa adequação que deve caracterizar o culto público a Deus. Lógico que não é formalismo censurável preocupar-se pelos segmentos seqüenciais adequados e próprios a serem observados quando os cristãos se reúnem para cultuar. O apóstolo exorta o tipo de oração que deve fazer parte de todo culto dessa categoria: Admoesto-te... que se façam deprecações ("súplicas", AEC, BAB, CH, NVI, RA),orações, intercessões e ações de graças por todos os homens (1). Não há dever cristão para com nossos semelhan­tes que se compare em importância com o dever de orar por eles. S. D. Gordon ressaltou que o crente não pode fazer algo para ajudar as pessoas se, em primeiro lugar, não orar por elas. Depois de orar, há muitas coisas que ele pode fazer; mas até que ore, não há nada a fazer, exceto orar.

Não há, ao que parece, significação particular ligada à ordem na qual se apresentam os termos deprecações, orações, intercessões ações de graças. Destes quatro, o segundo termo é o mais amplo e, de certo modo, inclui os outros três. O que Paulo quer dizer é que todas as formas de oração devem ocupar o lugar central no culto de adoração na igreja. Também não deve ser discriminado em seu campo de ação, pois inclui todos os homens. A oferta que Deus faz da misericórdia em Cristo estende-se a todos igualmente. Não há uns poucos favorecidos que fazem parte exclusiva dos eleitos de Deus. Ele deseja e fez provisão para a salvação de todo aquele que se render à misericórdia salvadora revelada em Cristo. Temos de orar em espírito de intercessão, para que a extensão da operação redentora do evangelho seja tão ampla quanto possível.

 

Aqueles por quem Devemos Orar (2.2-4)

 

Agora o apóstolo fica mais explícito, declarando expressamente que a oração deve feita pelos reis e por todos os que estão em eminência (2). Temos de entender que a alusão é aos governantes civis do mundo antigo em todos os níveis de autoridade. Quando lembramos que, na ocasião em que Paulo escreveu, os governantes, em sua maioria, eram inimigos da fé cristã, e que em uma década o apóstolo perderia a vida sob as ordens deles, esta exortação à oração torna-se exemplo esplêndido de magnanimidade cristã. A primeira razão para tal oração é que os reis todos que estão em eminência ("posição de autoridade", BAB; cf. ACF, BJ, BV, CH, NTLH, NVI, RA) também são ho­mens — homens por quem Cristo morreu — e que estão dentro do campo de ação do evangelho. Mas a segunda razão para tal oração é indicada vagamente pelas palavras: Para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honesti­dade (2). Orar fervorosamente por quem estava em posição de autoridade colocava nas mãos de Deus o meio para afastar o mal e propósitos mal orientados dessas pessoas que tinham autoridade posicionai para prejudicar a igreja de Cristo.

É realmente difícil sobreestimar o poder da oração conjunta da igreja. E. K. Simpson está correto quando, fazendo um comentário sobre este versículo, escreveu: "Não há cris­tão ensinado pela Bíblia que conteste a eficácia na oração crédula pertinente aos eventos públicos e seus supervisores. Mais coisas são realizadas por esse meio do que este mundo supõe. A súplica de intercessores fiéis pelo bem-estar público põe restrições invisíveis nos poderes das trevas e em suas ferramentas e dá reforço a governantes honestos pro­veniente do Governador entre as nações (SI 22.28)".

Os versículos 3 e 4 deixam claro que a primeira destas duas razões para semelhante oração é de importância capital: Porque isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. O texto declara francamente o desejo universal de Deus para o gênero huma­no — desejo que só pode ser frustrado pela resistência livre do homem ao propósito salva­dor de Deus. O apóstolo ousou crer que o Espírito fiel de Deus estava em ação no coração e vida de todos os homens e que poderia salvar as pessoas que estivessem em alta posição de maneira tão plena e imediata quanto aspessoas de posição social mais baixa. Para sua total satisfação, este fato já se comprovara durante o primeiro aprisionamento em Roma. Em Filipenses 1.13, escrevendo da prisão romana, ele fala: "As minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana e por todos os demais lugares". Pelo que parece, seu testemunho não fora em vão, pois em Filipenses 4.22, nas saudações finais, ele afirma: "Todos os santos vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César". De forma nenhuma era inútil, então, orar pelos reis e outras pessoas em posição de autoridade.

 

Dando Prioridade às Coisas Prioritárias (2.4)

 

Notemos no versículo 4 a ordem em que aparecem as duas caracterizações da graça salvadora de Deus. A primeira é se salvem, e a segunda venham ao conhecimento da verdade. Há intérpretes que entendem que estas duas expressões têm o lugar correto na ordem inversa. Mas a apresentação de Paulo do assunto se ajusta perfeitamente ao ensino do Senhor Jesus, quando, em João 7.17, ele disse: "Quem quiser fazer a vontade de Deus conhecerá se o meu ensino vem de Deus ou se falo com a minha própria autori­dade" (RSV; cf. NTLH). Quando se trata de conhecer as coisas de Deus, a obediência sempre precede mais conhecimento.

 

Divagação Magnífica (2.5,6)

 

E comum os comentaristas ressaltarem que os versículos 3 a 7 formam uma divaga­ção do tema central deste segundo capítulo. O assunto principal é o lugar da oração no culto cristão; depois de interromper este assunto com a divagação mencionada, Paulo volta, no versículo 8, ao tema central. Mas se esta é uma divagação, que magnífica é! Esta exploração de panoramas convidativos é uma das características mais interessan­tes do estilo literário do apóstolo. Outros exemplos de divagação são a esplêndida revela­ção sobre a igreja registrada em Efésios 5.25-27, e a famosa passagem do "kenose" em Filipenses 2.6-11.

A divagação sob análise é uma perfeita pedra preciosa de discernimento cristológico: Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem (5). Nunca conseguiremos exaurir a riqueza de significação que percorre estas palavras. A forma literária nos diz que o trecho faz parte de uma declaração de credo, ou de uma fórmula batismal ou de um hino da igreja primitiva. A ênfase em um só Deus é parte da herança que o cristianismo recebeu do judaísmo, ênfase que nosso Senhor rea­firma muitas vezes. A revelação neotestamentária de pluralidade no ser de Deus de modo algum degrada o entendimento fundamental da unidade divina.

A posição de Cristo como um só mediador entre Deus e os homens não é decla­rada desta forma em nenhuma outra passagem dos escritos paulinos. O texto de Gálatas 3.19,20 dá indícios desta idéia, embora ali não esteja desenvolvido como ofício de Cristo. E lógico que a Epístola aos Hebreus trata freqüentemente deste conceito. Identificamos idéia paralela em 1 João 2.1, que associa Cristo como nosso "Advogado para com o Pai". Aqui, na passagem sob estudo, este ministério exclusivo de nosso Senhor é enunciado sem rodeios e de forma clara. Em um sermonário de G. Campbell Morgan, há um ser­mão sobre o tema: "O Clamor por um Árbitro". O primeiro dos dois textos que ele empre­ga é Jó 9.33: "Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós ambos". O segundo texto é esta passagem que estudamos: Há... um só mediador entre Deus e os ho­mens, Jesus Cristo, homem. Ser árbitro é ser juiz, alguém que aprecia ou julga algo, intermediário, alguém que faz intercessão a nosso favor; em uma palavra: mediador. Há muitas relações na vida em que os serviços de um mediador tornam-se importantís­simos. Que alegria saber que na relação que nos é mais importante na vida — a relação entre Deus e nós — temos tão sublime Mediador!

 

A Humanidade Essencial de Cristo (2.6)

 

O apóstolo acentua um fator que é supremamente relevante nesta relação mediado­ra que Cristo exerce para o seu povo — o fator da humanidade essencial de Cristo Jesus nosso Senhor. Desde toda a eternidade, ele é um com o Pai, mas quando graciosamente se encarnou ele também se tornou um com nossa raça pecadora. Nunca conseguiremos definir adequadamente o mistério de sua personalidade única. Mas o fato é que a Pala­vra de Deus é clara em ensinar o conceito do Deus-homem. Nossa tendência é lembrar sua deidade e esquecer ou não perceber com clareza sua humanidade essencial. Precisa­mos recuperar urgentemente a compreensão do fato de que Jesus era o Filho do Homem da mesma maneira que ele realmente era o Filho de Deus. Ele é "Jesus Cristo, homem" (5). O versículo 6 acrescenta uma verdade importante: esse ofício de mediador, o qual ele exerce atualmente, origina-se do fato de que ele se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo. Há continuidade óbvia entre sua função como nosso advogado no alto e sua entrega voluntária na cruz; juntas (função e entrega) formam uma empresa unida de redenção dedicada à tarefa de "[trazer] muitos filhos à glória" (Hb 2.10). D. M. Baillie declara com grande poder de convicção a demonstração da misericórdia de Deus revelada neste evento-Cristo, quando escreve: "É tudo de Deus': o desejo de perdoar e reconciliar, a designação do método, a provisão da vítima como se fosse do próprio seio a custo infinito. Tudo acontece dentro da própria vida do próprio Deus: pois, se tomarmos a cristologia do Novo Testamento em seu ponto mais elevado, só nos resta dizer que 'Deus estava em Cristo' naquele grande sacrifício expiatório, e que até o sacerdote e a vítima eram nada mais que Deus". Para servir de testemunho a seu tempo significa "testemunho que se deve prestar em tempos oportunos" (BAB, RA).

 

A Comissão de Paulo (2.7)

 

O apóstolo afirma que ele foi constituído pregador apóstolo para proclamar essa mensagem. A palavra grega traduzida porpregador (keryx) significa, segundo de­fine C. H. Dodd, "pregoeiro público, leiloeiro, arauto, anunciador ou alguém que ergue a voz e chama a atenção pública para algo definido que ele tem a anunciar". Este era o significado original de pregar. O outro termo pelo qual Paulo se designa é apóstolo, que quer dizer "mensageiro", mas com autoridade para agir em determinada questão em nome da pessoa que o envia. Paulo une estes dois termos, como descrição adicional do trabalho ao qual ele se sentia chamado por Deus, qual seja, doutor("mestre", AEC, BAB, NTLH, NVI, RA) dos gentios, na fé e na verdade. É desta forma que Phillips interpreta o significado: "Ensinar [...] o mundo gentio a crer e conhecer a verdade" (CH; cf. BV). A afirmação parentética — digo a verdade em Cristo, não minto — é tipica­mente paulina. Encontramo-la em Romanos 9.1,2 Coríntios 11.31 e novamente em Gálatas 1.20. Ninguém jamais viveu com o mais profundo senso de missão que Paulo.

 

Bibliografia J. Gould

 

DOração em Favor de Todos (2:1-7)

 

Paulo recomenda oração universal com base no fato de que Deus a deseja, pois ele quer a salvação de todos os homens, e não apenas de um grupo selecionado. Ele sustenta sua admoestação, (1) citando um hino que reconhece apenas um só Deus, o Deus detodos, um só Mediador, o mediador de todos; e (2) asseverando a sua própria comissão apostólica. O seu pensamento está logi­camente ligado com o seu argumento de 1:12-17.

Antes de tudo, fórmula clássica da correspondência privada, mostra que Paulo estava pronto para dar início ao corpo principal de sua carta. Ele passa a desenvolver a admoestação a que aludira em 1:3,5,18. Súplicas, orações, intercessões e ações de graças não representam quatro espécies de orações claramente distintas. A palavra traduzida como orações tem o significado mais compreen­sível, e é o termo mais comum usado para designar a oração no pensamento primitivo. As palavras súplicas intercessões significam quase amesma coisa. Contudo, a primeira aparece freqüente­mente nas cartas de Paulo, enquanto a última aparece apenas aqui e em 4:5. Nos papiros legais, intercessões (ou orações) aparece freqüentemente em declarações feitas a um superior, v.g., o rei. Nas obras cristãs, excetuando-se o Novo Testamento, aparece exclusiva­mente em documentos romanos: I Cle­mente, Hermas, II Clemente e a Apolo­gia de Justino. Ações de graças pode referir-se a eucaristias, como em I Coríntios 14:16 (Spicq), mas isso não pode ser determinado com certeza.

O foco da admoestação para orar está na universalidade (Spicq). As intercessões devem ser feitas por todos os ho­mens. Esta admoestação aplica correta­mente as implicações de crença em um só Deus, que o particularismo do judaísmo negava na prática.

A universalidade da oração se aplica aos reis e a todos os que exercem autori­dade. A palavra traduzida como reis era usada, no Oriente, para designar o impe­rador. Pelo fato de ser um plural, F. C. Baur e outros têm asseverado que estas cartas foram compostas depois de 136 d.C, quando havia dois imperadores. Não obstante, neste contexto, a palavra tem uma aplicação mais genérica, inclu­indo o imperador e vários monarcas lo­cais, que serviam como seus suseranos. A oração pelo imperador contrastava com a adoração a ele. Este costume expressa a fidelidade cristã às institui­ções estabelecidas e a crença de que o poder de um governo ordeiro vem de Deus (cf. Rm 13:1 e ss.; Jo 19:11; I Pe 2:13 e ss.; Tertuliano, Apol. 40). Desta forma, a oração incluiria todos os que exercem autoridade: senadores, governadores provinciais e uma multidão de oficiais subalternos.

O objetivo da oração seria não a con­versão do imperador, mas o bem-estar do Estado: para que tenhamos uma vida tranqüila e sossegada, em toda a piedade e honestidade. Paulo tem em mente "não apenas o perigo da perseguição, mas tam­bém o de ataques de poderes demonía­cos", como menciona em II Tessalonicenses 2:3-12 (Barrett). De acordo com a antiga psicologia, os seres demoníacos controlavam as esferas ao redor da terra, descarregavam a sua malignidade, causando caos na vida humana. No entanto, segundo o ponto de vista cristão, o homem não precisa desesperar, por­que, na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus venceu estas forças hostis, e equipou os homens para subjugá-las. A oração pode colocar à disposição do cren­te a ajuda divina.

O desejo de uma vida que seja tran­qüila e sossegada em tudo é o paralelo greco-romano do desejo hebraico de uma vida "em santidade e justiça" (Lc 1:75). A palavra traduzida como piedade (eusebeia) não aparece nas outras cartas de Paulo, e a palavra traduzida como honestidade (semnotes) aparece apenas em formas cognatas. Contudo, a mudan­ça pode ser devida a (1) um secretário, talvez Lucas (cf. At. 3:12; 10:2,7) ou (2) à influência da permanência de Paulo em Roma.

A universalidade em questão de oração é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, isto é, agrada a Deus. O fato é que Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhe­cimento da verdade. Os estudiosos têm tentado, de várias maneiras, obviar o universalismo desta passagem. João Crisóstomo e muitos que vieram depois dele têm feito distinção entre as vonta­desantecedentes e principal de Deus. Por sua vontade antecedente, Deus deseja a salvação de todos, mas por sua vontade principal ou absoluta, ele per­mite que alguns se percam de acordo com o seu livre-arbítrio. Na verdade, Paulo não considera este problema; ele simplesmente se opunha à estreiteza dos judaístas (Kelly). O desejo de Deus, da salvação de todas as pessoas, refuta a intolerância em todas as suas formas. Cheguem ao pleno conhecimento da ver­dade não aparece em nenhuma outra passagem das cartas de Paulo, exceto nas Pastorais (II Tm 2:25; 3:7; Tt 1:1). Significa essencialmente "converter-se ao cristianismo" (Dibelius-Conzelmann) e tem sua origem no judaísmo helênico (cf. Hb 10:26; II Jo 1). Todavia, epignõsis (conhecimento) é palavra favorita de Paulo.

Paulo reforça o seu argumento, citan­do um extrato de um antigo hino cristão ou peça didática. Easton chamou-o de "uma versãocristã do sh'ma hebraico."

O fato de que há um só Deus corres­ponde à recomendação de orar por todas as pessoas. Ao citar este hino, Paulo diz que os judeus não seguiam corretamente a lógica do seu monoteísmo.

O universalismo cristão é mais firme­mente sustentado pelo fato de que há um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem. A idéia de Cristo como mediador não aparece nas outras obras de Paulo, mas o pensamento per­tence ao fragmento do hino, e não ao próprio Paulo. No centro dele está o conceito de aliança. Moisés era o me­diador da antiga aliança. Cristo é o me­diador da nova. Um íntimo paralelo deste conceito aparece no conceito, apre­sentado por Paulo, da reconciliação efe­tuada por Cristo sobre a cruz (Rm 3:24; II Co 5:19; Spicq). O seu desen­volvimento mais completo ocorre na carta anônima aos Hebreus. Pode-se apenas especular a respeito de suas im­plicações neste fragmento de hino.

A ênfase da citação feita por Paulo está em a natureza do papel mediador de Cristo como um homem que se deu a si mesmo em resgate por todos. Este enten­dimento baseia-se nas palavras de Jesus, encontradas também em Marcos 10:45 e Mateus 20:28. O estilo foi adaptado às qualidades poéticas do hino. A pala­vra hebraica "muitos", constante nos Evangelhos, foi mudada, dando lugar ao seu significado apropriado: todos. A idéia-chave é que Cristo, como homem, deu a sua vida em troca da vida de todos os homens. Este foi o preço pago pelo pecado e suas conseqüências. A figura de um resgate é sugerida pela compra da liberdade para escravos ou prisioneiros; não deve ser forçada literalmente. Teo­rias penais substitucionárias posteriores representam um desenvolvimento tosco da imagem simples que o hino dá a entender.

Os eruditos têm discutido se para servir de testemunho a seu tempo per­tence ao fragmento do hino (Easton) ou constitui  uma  adição  paulina  (Kelly, Dibelius-Conzelmann). O estilo é, pos­sivelmente, de Paulo (cf. Rm 12:1 e s.; II Ts 1:5), mas a sua concisão (lit.: "o testemunho em devido tempo") pode ser devida à abreviação poética (Easton). Duas interpretações são possíveis: (1) Se interpretado em contraposição com a proposição imediatamente anterior, o testemunho seria sinônimo de evangelho, kerygma, ou ensino da igreja primitiva. Contudo, (2) se visto em contraposição a todo o pensamento dos versos 4 a 6, pode ter a conotação de "prova" da vontade de Deus de salvar todas as pessoas (Spicq). A seu tempo é uma frase técnica para Paulo (Rm 5:6; Gl 4:4; I Tm 6:15; Tt 1:3), que significa "em uma época fixada por Deus para cumprir suas pro­messas", isto é, na vinda de Jesus.

A alusão ao testemunho ou ao evan­gelho evoca, em Paulo, outra afirmação do seu apostolado, mais forte do que antes. Para o que (esse testemunho)... eu fui constituído pregador e apóstolo, mestre dos gentios na fé e na verdade. Somente aqui e em II Timóteo1:11 Paulo dá, a si mesmo, o nome de prega­dor e mestre. Contudo, ele se refere freqüentemente às suas pregações (v.g.: Rm 10:8; I Co1:23) e ensino (I Co 4:17; Ef 4:21; II Ts 2:15), particular­mente no contexto de defender o seu apostolado. A introdução do termo pre­gador (kérux), neste ponto, pode ser devida ao seu uso comum em Roma durante a sua estada. Seja o que for que isso signifique, a asseveração de que ele era mestre dos gentios não deixa dúvidas quanto à sua nomeação divina. Cristo o nomeara para um ministério universal.

No grego, a expressão na fé e na verda­de tem duas interpretações possíveis. Po­de significar (1) que Paulo ensinava fé e verdade, ou (2) que ele ensinava fiel e verdadeiramente. A maioria dos comen­taristas preferem a primeira acepção.

Dentro desta forte afirmação de apostolado, Paulo inseriu uma vigorosa de­fesa parentética de sua honestidade em fazer esta declaração. Alguns eruditos têm achado que essa inserção é artificial (assim pensam Dibelius-Conzelmann). Conquanto declarações semelhantes tenham sido adequadas em outras cartas (Rm 9:1; II Co 11:31; Gl 1:20), argumentam eles, esta é supérflua em uma carta ao seu companheiro de con­fiança, Timóteo. Contra este ponto de vista precisa-se lembrar que Timóteo iria, certamente, ler a carta em voz alta para a congregação efésia (Jeremias). Se assim é, como Scott observou, "quer emprestada, quer não, a forte afirmação de veracidade está no seu lugar devido". Esta veemente declaração ressalta as reivindicações de Paulo para a missão gentílica, contra o exclusivismo dos judaístas, que "pode ser que tenham sido críticos da evangelização de não-judeus" (Kelly).

 

Bibliografia Hinson

O CARÁTER DOS BISPOS (3.1-7)

 

O Cargo de Bispo (3.1)

 

Esta é uma palavra fiel: Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja (1). À primeira vista, a observação com a qual apóstolo inicia esta seção da carta — esta é uma palavra fiel — é igual à declaração dita anteriormente em 1.15: "Esta é uma palavra fiel". Mas a igualdade é meramente aparente. A primeira observação deu início a um ensino muito importante sobre a obra redentora de Cristo. Mas aqui não há tal declaração solene de fé. Ainda que os estudiosos não tenham chegado a um acordo quanto a este ponto, é provável que esta tradução seja a correta: "Há um dito popular que diz: 'Aspirar à liderança é ambição honrosa'" (NEB; cf. AEC, BJ, BV).

A palavra episcopado é um tanto enganosa para os leitores de hoje, porque para nós o cargo de epíscopo ou bispo tem associações eclesiásticas. Desejar este cargo seria buscar promoção no ministério cristão. Estamos devidamente certos em reputar que tal ambição é indigna da pessoa cuja vida é dedicada ao serviço de Cristo. Ressal­tamos o termo "bispo", tradução da palavra gregaepiskopos, veio origi­nalmente da organização das sociedades seculares e tem o significado básico de "inspetor" ou "líder". O apóstolo está dizendo que é uma ambição digna a pessoa dese­jar um lugar de serviço responsável entre o povo de Deus. A declaração que Paulo cita era um provérbio bem conhecido na época, o qual ele usava como introdução do assun­to que desejava tratar.

 

Qualificações do Bispo (3.2)

 

Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigi­lante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar. No total, há 15 qualifica­ções estipuladas pelo apóstolo, sete das quais ocorrem no versículo 2. É importante que a primeiríssima destas seja a irrepreensibilidade. O significado da palavra é "acima de repreensão", "de reputação irrepreensível" (cf. CH), "de caráter impecável", "que nin­guém possa culpar de nada" (NTLH). Por qualquer método que avaliemos, esta é a virtu­de mais inclusiva que aparece na lista. Significa que o líder na igreja de Cristo não pode ter defeito óbvio de caráter e deve ser pessoa de reputação imaculada. Dificilmente se esperaria que não tivesse defeito, mas que fosse sem culpa. É apropriado que o ministro seja julgado por um padrão mais rígido que os membros leigos da igreja. Os leigos podem ser perdoados por defeitos e falhas que seriam totalmente fatais a um ministro. Há cer­tas coisas que um Deus misericordioso perdoa em um homem, mas que a igreja não perdoa no ministério deste. A irrepreensibilidade do candidato é requisito no qual deve­mos ser insistentes hoje em dia, como o foi Paulo no século I.

O líder da igreja deve ser exemplar especialmente em assuntos relativos a sexo. Este é o destaque da segunda estipulação do apóstolo: Marido de uma mulher (2). Trata-se de precaução contra a poligamia, que gerava um problema sério para a igreja cujos membros eram ganhos para Cristo vindos de um paganismo que tolerava aberta­mente casamentos plurais. Em todo quesito que a igreja com seus altos padrões éticos relativos a casamento confrontar o paganismo de nossos dias, em regiões incivilizadas ou não, a insistência cristã na pureza deve ser enunciada de forma clara e seguida com todo o rigor.

Mas temos de perguntar: A intenção de Paulo era desaprovar o segundo casamento? Alguns dos manuscritos antigos requerem a tradução "casado apenas uma vez" (confor­me nota de rodapé na NEB). "Sobre este assunto, como em muitos outros", comenta Kelly, "a atitude que vigorava na antigüidade difere notadamente da que prevalece em grande parte dos círculos de hoje. Existem evidências abundantes provenientes da lite­ratura e inscrições funerárias, tanto gentias quanto judaicas, que permanecer solteiro depois da morte do cônjuge ou depois do divórcio era considerado meritório, ao passo que casar-se outra vez era visto como sinal de satisfação excessiva dos próprios desejos". É óbvio que em alguns segmentos da igreja primitiva esta era a opinião prevalente, che­gando ao extremo último da ordem de um ministério celibatário.

Mas esta não é a interpretação do ensino de Paulo que prevalece hoje. É bem conhecida sua própria preferência da vida solteira em comparação ao estado casado; e há passagens nos seus escritos em que ele recomenda este estado aos outros (e.g., 1 Co 7.39,40). Talvez o melhor resumo da intenção do apóstolo para os nossos dias seja a declaração de E. F. Scott: "O bispo tem de dar exemplo de moralidade rígida".

As próximas três especificações — vigilante, sóbrio, honesto (2) — têm relação próxima entre si e descrevem a vida cristã ordeira. Moffatt traduz estas qualidades pe­las palavras: "temperado [NVI; cf. RA], mestre de si, calmo". A temperança neste contex­to transmite a idéia de autocontrole (cf. CH) ou autodisciplina.

O próximo quesito qualificador é apresentado pelo apóstolo na palavra descritiva hospitaleiro (2). Esta mesma característica é mais detalhada em Tito 1.8: "Dado à hospitalidade, amigo do bem". Nesses primeiros dias da igreja, esta era uma virtude muitoimportante. Havia poucos albergues no mundo do século I, e os apóstolos e evangelistas cristãos que eram enviados de lugar em lugar ficavam dependentes da hospitalidade de cristãos que tivessem um "quarto de profeta", mantido com a finalidade de atender essas necessidades. Em nossos dias de hotéis, expressamos nossa hospitalidade cristã de modo diferente. Mas quando a igreja era jovem, essa hospitalidade era extremamente primor­dial. O dever e privilégio de ministrá-la recaíam naturalmente sobre o bispo ou pastor. O espírito essencial do ato é tão importante hoje como era outrora.

Igualmente essencial e até mais importante é a sétima qualidade que Paulo menci­ona: Apto para ensinar (2). Pelo visto, nem todos os pastores eram empregados no ministério de ensino. É o que mostra 5.17: "Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina". Mas a aptidão para ensinar era rendimento certo para o ministro cristão. Era importante então como é hoje. Sempre haverá indivíduos que possuem maior capa­cidade nesta ou naquela área que outros, mas certa habilidade para ensinar é de extre­ma necessidade ao ministério completo e frutífero.

 

Homens de Sobriedade (3.3)

 

Este versículo contém mais seis especificações que devem caracterizar o líder cristão: Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento (3). Todos os quesitos, exceto um, são negativos, mas todos são importantes. O primeiro nos soa um tanto quanto estranho, sobretudo quando seu significado preciso é entendido com clareza. Temos estas opções de tradução: "Não deve ser indivíduo dado a beber" (NEB); "não pode ser chegado ao vinho", (NTLH); "não deve ser apegado ao vinho" (NVI; cf. BAB); "não deve ter o vício da bebida" (BV); ou pelas palavras diretas: "Não bêbedo" (RSV). O ponto que confunde o leitor da atualidade é que tal estipulação fosse necessária. No pensamento da maioria dos evan­gélicos hoje em dia, a abstinência total de bebidas alcoólicas é elementar na vida cristã. E não é difícil perceber que o julgamento moral que determina a abstinência total para o cristão — leigo ou ministro — é a compreensão básica da ética cristã. Mas esta idéia, como o julgamento moral das trevas, não fora discernida claramente no século I. Temos de manter isso em mente para entendermos as alusões do apóstolo ao uso do vinho neste e em outros textos. Kelly observa que "hoje em dia, as pessoas por vezes se surpre­endem que Paulo achasse necessário fazer tal determinação, mas o perigo era real na sociedade desinibida em que se situavam as congregações efésia e cretense".

Não espancador (3) é expressão que exige interpretação neste contexto. Signifi­ca, literalmente, "não doador de socos". Kelly traduziu por "não dado à violência" (cf. BAB, BV, CH, NVI, RA). O homem de Deus deve ser caracterizado por amor e comedimento cristão.

Não há ambigüidade ligada à próxima estipulação de Paulo: Não cobiçoso de tor­pe ganância (3). Esta é advertência contra o amor do dinheiro que o apóstolo, mais adiante nesta mesma epístola (6.10), declara ser "a raiz de toda espécie de males". Tal proibição tinha relevância imediata, pois fazia parte da responsabilidade do pastor cui­dar dos bens e capitais da igreja. Esta seria fonte constante de tentação para o avarento. Somente aquele que desse toda prova de não ter espírito de cobiça pode ser separado com segurança para a obra do ministério.

Claro que é perfeitamente possível que ministros e leigos sejam enganados pelo que nosso Senhor chamou de "a sedução das riquezas" (Mt 13.22). A sutileza desta sedução é que a pessoa não precisa possuir riquezas para ser enganada por elas. Desejá-las arden­temente, permitir-se adotar atitudes calculistas na esperança de obter riquezas, ficar indevidamente interessado por salários e lucros deste mundo não podem deixar de em­pobrecer e, no final das contas, destruir o valor do próprio ministério. Tudo isso está implícito no avisopaulino do desejo controlador por dinheiro.

A única virtude positiva no versículo 3 é moderado, ("tranqüilo", CH; "cordato", RA). Isto significa não tanto a capacidade de manter a calma sob controle quanto a capa­cidade de resistir sob pressão, com infalível espírito de bondade e paciência. Paulo exalta esta virtude em 1 Coríntios 13.4, quando nos assegura que o amor é sofredor e benigno — benigno mesmo no fim do sofrimento. As especificações adicionais — não contencioso, não avarento (5) — são repetições para enfatizar os quesitos já estipulados.

 

Bom Pai (3.4,5)

 

Este é ponto da mais grave importância: Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (4). Como ressalta E. K. Simpson: "O ideal do celibato sacerdotal é tão totalmente estranho ao modelo primiti­vo, que se toma por certo que o candidato ao ministério já seja casado de idade madura. A disciplina paterna relaxada o desqualifica imediatamente para a posição de lideran­ça na igreja". Esta é a versão que Phillips fez do versículo 4: "Deve ter a devida au­toridade em sua própria casa e ser capaz de controlar e exigir o respeito de seus filhos" (CH). Temos de admitir que, entre todos os padrões, este é um dos mais difíceis que Paulo estabeleceu. Mas como é importante! Muitos ministros têm tido sua utilidade limitada ou mesmo destruída por não exercerem a disciplina parental. É fácil ficarmos tão envolvidos em salvar os filhos dos outros que acabamos deixando os nossos própri­os filhos escapulir de nosso controle. Chega o momento em que os filhos crescem e têm de assumir a direção da própria vida. Nessa hora, ninguém estará com eles ao toma­rem decisões que julgarem acertadas. Mas a disciplina firme, cheia de amor e regada com oração durante os anos formativos da vida de nossas crianças é seguramente o poderoso fator determinante que possuirão quando tiverem de decidir sozinho o curso que seguirão na vida. Há, portanto, força convincente no fato de Paulo insistir no dever que o ministro tem de controlar a própria casa. E ninguém pode contradizer a verdade básica que está entre parênteses no versículo 5: Porque, se alguém não sabe gover­nar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?

 

Homem de Maturidade (3.6,7)

 

O versículo 6 oferece perspicácia muito interessante sobre a situação em Éfeso: Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo (6). Esta é advertência contra a promoção muito rápida à liderança de "recém-convertidos" ou pessoas "recentemente batizadas". Embora a igreja efésia já tivesse muitos anos de existência e, provavelmente, não devesse ter carência de líderes maduros, ha­via indícios de que candidatos imaturos ao ministério estavam sendo postos em servi­ço. Paulo acreditava em maturidade e preparação de candidatos para este cargo santo, e por uma boa e suficiente razão. Existia o perigo de que, para alguém inadequadamente preparado, a tentação ao orgulho espiritual se tornasse grande demais para ser resistida. Isso é tragédia na certa, tragédia descrita pelo apóstolo nos seguintes ter­mos: Cair na condenação do diabo. C. K. Barrett destaca que "o julgamento não é tramado pelo diabo, mas feito por Deus em rígido acordo com a verdade". A tradução de Phillips expressa o que o apóstolo quis dizer: "Para que não se torne orgulhoso e participe da queda do diabo" (CH).

Esta determinação lembra uma situação nos procedimentos de nosso Senhor com seus seguidores, relatada em Lucas 10.17-20. Os setenta haviam acabado de voltar de sua missão designada e estavam exultantes com o fato de que "até os demônios se nos sujeitam". Jesus não reprovou imediatamente o orgulho espiritual principiante, mas observou um tanto enigmaticamente: "Eu via Satanás, como raio, cair do céu". E comple­tou: "Eis que vos dou poder [...] [sobre] toda a força do Inimigo. [...] Mas não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos". Foi o orgulho que custou a Lúcifer o seu lugar nas hostes celestes, e esta foi a condenação do diabo. O ministro cristão tem de estar atento para que o orgulho não o compila a participar desta condenação

Resta ainda uma especificação final para aquele que deseja servir na posição de bispo ou líder: Convém, também, que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta e no laço ("armadilha", NTLH) do diabo (7). O ministro cristão tem de inspirar o respeito e a confiança da comunidade fora da igreja, caso deseje ganhar as pessoas dessa comunidade para a igreja. E fácil dizer: "Não me importo com o que as pessoas pensem de mim"; e contanto que essa atitude seja devida­mente planejada e corretamente compreendida, justifica-se. Mas ninguém deve ser indi­ferente à sua reputação na comunidade em que vive. Ele deve desejar veementemente que as pessoas o considerem inteiramente acima de repreensão. Ver a questão de outro modo, diz Paulo, é expor-se à mesma armadilha que aguarda o indivíduo cujo espírito está arruinado pelo orgulho espiritual.

 

Bibliografia J. Gould

 

VQualificações dos Presbíteros (3.1-7)

 

Até este ponto Paulo falou de algumas preocupações concernentes à comunidade, no culto, e corrigiu alguns abusos gerados pelas atividades dos presbíteros heréticos. Agora, ele se volta para os próprios presbíteros e estabelece algumas qualificações para o "ofício".

Ele começa, nos VV. 1-7, com um grupo chamado episkopoi ("super­visores" ); a seguir, nos vv. 8-13, passa para um grupo chamado diakonoi (" servos"," diáconos"), com uma nota também sobre algumas mulheres no v. 11. É de todo provável que ambos os ofícios, o de presbítero (supervisor) e o de "diácono" estejam sob a categoria mais ampla presbyteroi ("anciãos", ou "presbíteros"). Em qualquer caso, a evidên­cia que temos de Atos 20:17 e 28, e de Tito 1:5 e 7 indica que os termos episkopoi, "supervisores" (At 20:28; Tt 1:7), e presbyteroi, "pres­bíteros", "anciãos" (At 20:17; Tt 1:5), são parcialmente intercambiáveis. Assim, pelo menos os supervisores(episkopoi) deste primeiro parágrafo são presbíteros da igreja.

Convém notar que em contraste com Tito (1:5), Timóteo não foi deixado em Éfeso para designar presbíteros. Em verdade, tudo em Timóteo, bem como a evidência de Atos 20, indica que já havia presbí­teros nessa igreja. Por que, pois, esta instrução? Novamente, a evidência aponta para o caráter e para as atividades dos falsos mestres. Quanto a isto, duas coisas devem ser notadas: Primeira, muitos dos itens constantes da lista estão em nítido contraste com o que está escrito algures na carta acerca dos falsos mestres. Segunda, a lista em si tem três aspectos notáveis:

(1) Ela dá as qualificações, e não os deveres;

(2) a maioria dos itens reflete o comportamento exterior, observável; e

(3) nenhum dos itens é distintamente cristão (p.e., amor, fé, pureza, perseverança; cp. 4:12; 6:12); antes, refletem os mais elevados ideais da filosofia moral helenística. Uma vez que a passagem toda aponta para o v. 7, com o qual conclui, isto é, concerne à reputação da igreja entre os estranhos, isto sugere que os falsos mestres traziam, por seu comportamento, infâmia ao evangelho. Portanto, Paulo está preocupado não somente em que os presbíteros tenham virtudes cristãs (estas são presumidas), mas que também reflitam os mais elevados ideais da cultura.

Se estivermos corretos em identificar os falsos mestres como sendo presbíteros, o motivo por que Paulo estabelece este conjunto de instru­ções é que Timóteo deve cuidar de que os presbíteros vivam à altura de sua designação, isto é, por esses padrões. Ao mesmo tempo, é claro, a igreja toda estará ouvindo e, desse modo, recebendo as bases para disciplina dos presbíteros transviados, bem como para a substituição deles (cp. 5:22, 24-25).

 

3:1 A seção começa com nossa segunda palavra fiel (ditado, 1:15). Visto que a palavra em si pareceria um tanto pedante e porque o verbo "salvar" (cp. 1:15) surge em 2:15, alguns têm alegado que o versículo precedente é a palavra fiel digna de toda a aceitação. Porém, 2:15 não tem as características de "ditado", enquanto 3:1 tem, a despeito de seu conteúdo nada ter que ver com o credo. Talvez se tenha exagerado o conceito de "ditado", como se todos os "ditados" ou palavras dignas "de toda aceitação" estivessem circulando abertamente na igreja (como 1:15 talvez circulasse). Mais provável é que tais palavras se tenham tornado para Paulo uma espécie de fórmula de reforço: "O que vou dizer tem importância especial", ou, "pode ser aceito em geral como verda­deiro".

A palavra fiel em si é: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja. Parece emprestar algum crédito ao ponto de vista comumente aceito de que as pessoas estavam "candidatando-se ao cargo". Mas não existe nenhuma outra evidência no NT de que as pessoas "aspirassem a" posições de liderança na igreja. A pouca evidência que temos implica que os chefes de famílias dentre os mais antigos conver­tidos eram normalmente designados para tais posições (At 14:23; cp. 1 Co 1:16 e 16:15-16).

A palavra fiel, com efeito, concentra-se menos na pessoa e mais no cargo. Portanto, Paulo não está elogiando as pessoas que têm grande desejo de tornar-se líderes; ao contrário, ele está dizendo que o cargo de presbítero (episcopado) é questão sobremodo significativa, uma exce­lente obra, que deveria ser, na verdade, o tipo de tarefa à qual uma pessoa podia aspirar. Assim, a despeito das atividades de alguns, não é por essa razão que ele vai negar o cargo em si.

 

3:2-3 Considerando-se que aspirar ao episcopado é aspirar excelente obra, Paulo está interessado em que os presbíteros em Éfeso manifestem vidas verdadeiramente exemplares. O bispo, portanto, deve ser irre­preensível. Isso pareceria excluir qualquer aspirante ao cargo! A expres­são irrepreensível, porém, que se repete com referência às viúvas em 5:7 e ao próprio Timóteo em 6:14(num contexto escatológico), relacio­na-se com a conduta observável irrepreensível. Parece que o termo foi criado de modo que cobrisse a seguinte lista de onze virtudes ou quali­dades (na maioria, palavras no singular, no grego), que deveriam caracterizar um bispo.

O primeiro item da lista, marido de uma só mulher, é uma das frases verdadeiramente difíceis das EP (cp. 3:12; 5:9, sobre as "verdadeiras" viúvas, e Tt 1:6). Há, pelo menos, quatro opções:

Primeira, poderia exigir que o supervisor fosse casado. O apoio encontra-se no fato de que os falsos mestres proíbem o casamento, e Paulo insiste no casamento para as viúvas desviadas (5:14; cp. 2:15). Mas contra esta interpretação verifica-se que ela enfatiza o termo é necessário e a palavra mulher, enquanto o texto enfatiza a palavra uma. Talvez Paulo e Timóteo não fossem casados, e tal interpretação estaria em contradição com 1 Coríntios 7:25-38. Ademais, havia um pressuposto cultural segundo o qual as pessoas, em sua maioria, deveriam ser casadas.

Segunda, talvez o texto esteja proibindo a poligamia. Isto se acentua de modo correto pela expressão uma só mulher; contudo, a poligamia era característica tão rara na sociedade pagã que tal proibição seria insignificância inaplicável. De mais a mais, não pareceria ajustar-se à frase idêntica usada com referência às viúvas em 5:9.

Terceira, poderia estar proibindo um segundo casamento. Tal inter­pretação conta com o apoio de muitos dados: Ajustar-se-ia às viúvas de modo especial. Todos os tipos de evidência louvam as mulheres (a elas de modo especial e às vezes também os homens) que "se casaram uma única vez" e permaneceram "fiéis" a esse casamento, depois que seus parceiros morreram. Esta perspectiva proibiria, pois, o segundo casa­mento após a morte do cônjuge, mas também proibiria, é óbvio — talvez de modo especial — o divórcio e o novo casamento. Alguns eruditos (p.e., Hanson) tratam do texto como referindo-se somente a esta última interpretação.

Quarta, talvez o texto esteja exigindo fidelidade marital a uma só mulher (cp. GNB:" fiel à sua única esposa"). Neste caso, exige-se do bispo que viva uma vida matrimonial exemplar (o casamento fica implícito), fiel a uma só mulher numa cultura em que a infidelidade marital era comum e, às vezes, implícita. Seria, é natural, um meio de se eliminar a poligamia e o divórcio e novo casamento, mas não eliminaria, necessariamente, o novo casamento de um viúvo (embora esse ainda não fosse o ideal paulino; cp. 1 Co 7:8-9, 39-40). Embora ainda haja muito que ser dito a favor de uma ou de outro entendimento da terceira opção, a preocupação de que os líderes da igreja vivam vida matrimonial exemplar parece ajustar-se melhor ao contexto — dada a aparente desvalorização do casamento e da família apregoada pelos falsos mestres (4:3; cp. 3:4-5).

A próxima palavra, vigilante, muitas vezes se relaciona, no grego, ao uso de bebidas alcoólicas. Contudo, uma vez que está dito de modo específico no v. 3, não dado ao vinho, o termo vigilante talvez esteja sendo usado de maneira figurada, significando: "livre de todas as formas de excesso, paixão ou temeridade" (cp. 2 Tm 4:5). O bispo deve também ser sóbrio honesto, palavras que muitas vezes ocorrem juntas nos escritos pagãos como elevados ideais de comportamento. Portanto, um líder cristão deve estar acima, e não abaixo, desses ideais.

É necessário que ... o líder da igreja seja ... também hospitaleiro. Esta era, de igual modo, uma virtude grega, mas constituía a expectação extrema de todos os cristãos da igreja primitiva (cp. 5:10; Rm 12:13; 1 Pe 4:9; Aristides, Apology 15). De igual modo... énecessá­rio... que ele também seja apto para ensinar. Este é o único item da lista que também implica deveres, assunto que se tornará claro em 5:17. Este adjetivo se repete em 2 Timóteo 2:24 e Tito 1:9, cujos contextos sugerem que apto para ensinar significa capacidade tanto para ensinar a verdade como para refutar o erro.

Ao acrescentar:... é necessário, pois, que o bispo seja não dado ao vinho, está Paulo também estabelecendo um contraste com os falsos mestres? Talvez não, em face do ascetismo observado em 4:3. Todavia, pode ser que tenham sido ascetas acerca de determinados alimentos, mas beberrões de vinho bastante indulgentes. Em qualquer caso, a embria­guez era um dos vícios comuns da Antigüidade, e poucos autores pagãos a verberam de modo aberto — somente contra outros "pecados" que pudessem acompanhá-la (violência, repreensão e xingação pública dos escravos, etc. ). O bispo não tem de ser, necessariamente, abstêmio (5:23), mas tampouco deve ser dado ao vinho (cp. 3:8; Tt 1:7); o alcoolismo é condenado nas Escrituras de modo insistente.

As próximas três qualidades talvez andem juntas e, deveras, parecem refletir o comportamento dos falsos mestres.... Énecessário, pois, que o bispo seja... não espancador, mas moderado, inimigo de contendas. A descrição dos falsos mestres em 6:3-5, bem como em 2 Timóteo 2:22-26 (cp. Tt 3:9), dá a entender que esses homens são dados a dissensões e a brigas. O verdadeiro presbítero deve ser moderado, mesmo quando corrige os oponentes (2 Tm 2:23-25).

A lista conclui com não ganancioso. De acordo com 6:5-10, a ganância se revela um dos "pecados mortais" dos falsos mestres, dire­tamente responsável pela ruína deles. Assim, uma advertência contra a avareza aparece em todas as listas de qualificações para liderança (3:8; Tt 1:7; cp. At 20:33).

 

3:4-5 Paulo agora passa, nos vv. 4-7, a falar sobre três outras preocupações. O líder da igreja deve ter família exemplar (vv. 4-5), não deve ser recém-convertido (v. 6), mas deve ser pessoa de boa reputação entre os de fora (v. 7). Estes qualificativos talvez também reflitam a situação em Éfeso.

Esta passagem apenas supõe, também, que o episkopos será casado (mas não o exige; cp. v. 2). Não somente isso, mas a sociologia do primeiro século também torna muitíssimo provável que os que eram designados "supervisores" nas igrejas primitivas, levando-se em conta, de modo especial, que estamos tratando com igrejas em lares, eram, com efeito, os chefes das "casas" onde as igrejas se reuniam. Desse modo, como está implícito no v. 5, prevalece o mais estreito relacionamento entre família e igreja. O homem que fracassa no primeiro caso (família) é, por isso mesmo, desqualificado para o outro (igreja). Em verdade, conforme 3:15 e 5:1-2 indicam, a palavra oikos "lar"; NIV, família; ECA, casa) para Paulo é metáfora rica que subentende "igreja".

Portanto, o bispo que governe bem sua própria casa, porque ele também cuidará da igreja de Deus. O verbo governar é usado de novo com referência aos presbíteros em 5:17 (NIV, "dirigir" [como foi usado anteriormente em 1 Ts 5:12, onde é traduzido "presidir";NIV," estão sobre" ]), verbo que tem o sentido de " comandar, governar", ou "estar preocupado com, cuidar de" (cp. "devotar-se a" em Tt 3:8). A pista para seu significado aqui está em entender o verbo acompanhante com referência à igreja, no v. 5, "cuidar de", que carrega a força total da expressão idiomática em inglês. Em outras palavras, "cuidar de" implica. tanto a liderança (orientação) como o interesse atencioso. No lar e na igreja, a orientação e o interesse atencioso não têm validade se um não estiver ligado ao outro.

O bom presbítero será conhecido por exercer uma liderança tal, no lar, que tem seus filhos sob disciplina, com todo o respeito(lit., "tem filhos em submissão", como 2:11). A força da frase com todo o respeito talvez signifique não tanto que eles obedecerão comrespeito, mas que eles serão conhecidos tanto por sua obediência como por seu bom comportamento. Em Tito 1:6 a idéia é mais esmerada ainda, de modo que sugere serem esses filhos bons crentes, ao lado da preocupação pela reputação entre os de fora. Há tênue linha entre exigir obediência e obtê-la. O líder de igreja, que na verdade deve exortar as pessoas à obediência, não "governa" a família de Deus por essa razão. Ele "cuida dela" de tal modo que seus "filhos", isto é, os filhos da igreja, serão conhecidos por sua obediência e bom comportamento.

 

3:6 / Portanto, o líder da igreja, também não deve ser neófito, metáfora que no grego significa literalmente "uma pessoa plantada há pouco tempo". Conforme se repetirá de modo diferente em 5:22, o episkopos deve ser maduro na fé. O motivo para que assim seja é o grande perigo de envaidecimento: para que não se ensoberbeça. Uma vez que é precisamente isto que se diz dos falsos mestres em 6:4 (cp. 2 Tm 3:4), perguntamo-nos se alguns deles eram neófitos (convertidos recen­tes), cujos "pecados... são manifestos antes... os de outros, manifestam-se depois" (5:24).

Em qualquer caso, para que não se ensoberbeça significa também não cair na condenação do diabo. Embora o grego de Paulo seja um tanto ambíguo (lit., "cair no julgamento do diabo"), talvez a linguagem esteja refletindo o tema comum de que no ministério de Cristo, de modo especial na sua morte e ressurreição, Satanás sofreu sua derrota decisiva, que será finalizada plenamente no fim (cp. Ap12:7-17 e 20:7-10).

 

3:7 Finalmente, Paulo chega à questão de que o líder da igreja deve ser pessoa que tenha bom testemunho dos que estão de fora. Conforme foi notado na discussão de 2:2, esta é uma preocupação genuinamente paulina no NT. Em verdade, esta preocupação é que coloca em perspec­tiva essa lista de atributos. Tal lista tem que ver com o comportamento observável, constituindo testemunho paraos de fora. Como no v. 6, O grego de Paulo não é bem claro, mas parece que a ênfase está em que uma reputação má junto ao mundo pagão fará que o episkopos caia em opróbrio, isto é, será difamado e, com ele, a igreja; e isso seria equiva­lente a cair no laço do diabo.É laço armado pelo diabo o mau comportamento dos líderes da igreja, de tal modo que os de fora não se motivarão a ouvir o evangelho. Perguntamo-nos de novo se a ganância e a conduta abusiva dos falsos mestres não estão trazendo opróbrio à casa de Deus em Éfeso, especialmente quando se considera que Paulo havia sido acusado assim em Tessalônica (1 Ts 2:1-10) e que os moralistas pagãos em particular condenavam tais atividades entre os "falsos" filósofos.

 

Bibliografia D. Fee

 

QUALIFICAÇÕES MORAIS DO PASTOR

 

 

 

1Tm 3.1,2 “Esta é uma palavra fiel: Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar.”

 

Se algum homem deseja ser “bispo” (gr. episkopos, i.e., aquele que tem sobre si a responsabilidade pastoral, o pastor), deseja um encargo nobre e importante (3.1). É necessário, porém, que essa aspiração seja confirmada pela Palavra de Deus (3.1-10; 4.12) e pela igreja (3.10), porque Deus estabeleceu para a igreja certos requisitos específicos. Quem se disser chamado por Deus para o trabalho pastoral deve ser aprovado pela igreja segundo os padrões bíblicos de 3.1-13; 4.12; Tt 1.5-9. Isso significa que a igreja não deve aceitar pessoa alguma para a obra ministerial tendo por base apenas seu desejo, sua escolaridade, sua espiritualidade, ou porque essa pessoa acha que tem visão ou chamada. A igreja da atualidade não tem o direito de reduzir esses preceitos que Deus estabeleceu mediante o Espírito Santo. Eles estão plenamente em vigor e devem ser observados por amor ao nome de Deus, ao seu reino e da honra e credibilidade da elevada posição de ministro.

 

(1) Os padrões bíblicos do pastor, como vemos aqui, são principalmente morais e espirituais. O caráter íntegro de quem aspira ser pastor de uma igreja é mais importante do que personalidade influente, dotes de pregação, capacidade administrativa ou graus acadêmicos. O enfoque das qualificações ministeriais concentra-se no comportamento daquele que persevera na sabedoria divina, nas decisões acertadas e na santidade devida. Os que aspiram ao pastorado sejam primeiro provados quanto à sua trajetória espiritual (cf. 3.10). Partindo daí, o Espírito Santo estabelece o elevado padrão para o candidato, i.e., que ele precisa ser um crente que se tenha mantido firme e fiel a Jesus Cristo e aos seus princípios de retidão, e que por isso pode servir como exemplo de fidelidade, veracidade, honestidade e pureza. Noutras palavras, seu caráter deve demonstrar o ensino de Cristo em Mt 25.21 de que ser “fiel sobre o pouco” conduz à posição de governar “sobre o muito”.

 

(2) O líder cristão deve ser, antes de mais nada, “exemplo dos fiéis” (4.12; cf. 1Pe 5.3). Isto é: sua vida cristã e sua perseverança na fé podem ser mencionadas perante a congregação como dignas de imitação.

(a) Os dirigentes devem manifestar o mais digno exemplo de perseverança na piedade, fidelidade, pureza em face à tentação, lealdade e amor a Cristo e ao evangelho (4.12,15).

(b) O povo de Deus deve aprender a ética cristã e a verdadeira piedade, não somente pela Palavra de Deus, mas também pelo exemplo dos pastores que vivem conforme os padrões bíblicos. O pastor deve ser alguém cuja fidelidade a Cristo pode ser tomada como padrão ou exemplo (cf. 1Co 11.1; Fp 3.17; 1Ts 1.6; 2Ts 3.7,9; 2Tm 1.13).

 

(3) O Espírito Santo acentua grandemente a liderança do crente no lar, no casamento e na família (3.2,4,5; Tt 1.6). Isto é: o obreiro deve ser um exemplo para a família de Deus, especialmente na sua fidelidade à esposa e aos filhos. Se aqui ele falhar, como “terá cuidado da igreja de Deus?” (3.5). Ele deve ser “marido de uma [só] mulher” (3.2). Esta expressão denota que o candidato ao ministério pastoral deve ser um crente que foi sempre fiel à sua esposa. A tradução literal do grego em 3.2 (mias gunaikos, um genitivo atributivo) é “homem de uma única mulher”, i.e., um marido sempre fiel à sua esposa.

 

(4) Conseqüentemente, quem na igreja comete graves pecados morais, desqualifica-se para o exercício pastoral e para qualquer posição de liderança na igreja local (cf. 3.8-12). Tais pessoas podem ser plenamente perdoadas pela graça de Deus, mas perderam a condição de servir como exemplo de perseverança inabalável na fé, no amor e na pureza (4.11-16; Tt 1.9). Já no AT, Deus expressamente requereu que os dirigentes do seu povo fossem homens de elevados padrões morais e espirituais. Se falhassem, seriam substituídos (ver Gn 49.4; Lv 10.2; 21.7,17; Nm 20.12; 1Sm 2.23; Jr 23.14; 29.23).

 

(5) A Palavra de Deus declara a respeito do crente que venha a adulterar que “o seu opróbrio nunca se apagará” (Pv 6.32,33). Isto é, sua vergonha não desaparecerá. Isso não significa que nem Deus nem a igreja perdoará tal pessoa. Deus realmente perdoa qualquer pecado enumerado em 3.1-13, se houver tristeza segundo Deus e arrependimento por parte da pessoa que cometeu tal pecado. O que o Espírito Santo está declarando, porém, é que há certos pecados que são tão graves que a vergonha e a ignomínia (i.e., o opróbrio) daquele pecado permanecerão com o indivíduo mesmo depois do perdão (cf. 2Sm 12.9-14).

 

(6) Mas o que dizer do rei Davi? Sua continuação como rei de Israel, a despeito do seu pecado de adultério e de homicídio (2Sm 11.1-21; 12.9-15) é vista por alguns como uma justificativa bíblica para a pessoa continuar à frente da igreja de Deus, mesmo tendo violado os padrões já mencionados. Essa comparação, no entanto, é falha por vários motivos.

(a) O cargo de rei de Israel do AT, e o cargo de ministro espiritual da igreja de Jesus Cristo, segundo o NT, são duas coisas inteiramente diferentes. Deus não somente permitiu a Davi, mas, também a muitos outros reis que foram extremamente ímpios e perversos, permanecerem como reis da nação de Israel. A liderança espiritual da igreja do NT, sendo esta comprada com o sangue de Jesus Cristo, requer padrões espirituais muito mais altos.

(b) Segundo a revelação divina no NT e os padrões do ministério ali exigidos, Davi não teria as qualificações para o cargo de pastor de uma igreja do NT. Ele teve diversas esposas, praticou infidelidade conjugal, falhou grandemente no governo do seu próprio lar, tornou-se homicida e derramou muito sangue (1Cr 22.8; 28.3). Observe-se também que por ter Davi, devido ao seu pecado, dado lugar a que os inimigos de Deus blasfemassem, ele sofreu castigo divino pelo resto da sua vida (2Sm 12.9-14).

 

(7) As igrejas atuais não devem, pois, desprezar as qualificações justas exigidas por Deus para seus pastores e demais obreiros, conforme está escrito na revelação divina. É dever de toda igreja orar por seus pastores, assisti-los e sustentá-los na sua missão de servirem como “exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, na caridade, no espírito, na fé, na pureza” (4.12).

 

            Bibliografia Bíblia Pentecostal

 

O PERIGO DO ASCETICISMO DESCOMEDIDO, 4.1-5

 

Surgirão Falsos Ensinos (4.1,2)

O apóstolo passa a tratar dos falsos ensinos que vinham infestando a igreja em Éfeso, cuja dificuldade ele alude no capítulo 1. O erro sempre se opõe à verdade do evangelho, conflito ao qual Deus prepara a sua igreja: Mas o Espírito expressamen­te diz que, nos últimos tempos, apostatarão alguns da fé (1). Paulo está se refe­rindo ao Espírito Santo, que é o espírito de profecia. E impossível determinar que profecia em particular o escritor tinha em mente. Às vezes, o apóstolo era movido pelo Espírito para profetizar. Um dos numerosos exemplos dessa inspiração envolvia esta igreja efésia, onde Timóteo servia: "Porque eu sei isto: que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não perdoarão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípu­los após si" (At 20.29,30). Este desdobramento, tão claramente previsto poucos anos antes, está próximo; na verdade, já começou. Guthrie entende que 'nos últimos tem­pos' é expressão que indica um futuro mais iminente que 'nos últimos dias' (usado em 2 Tm 3.1). [...] Como é comum ocorrer em declarações proféticas, o que é predito acerca do futuro concebe-se que já está em operação no presente, assim as palavras têm signi­ficação contemporânea específica".

Não só amanhã, mas esta levedura de erro está em ação hoje. Alguns já se desvia­ram da fé, seduzidos pelos "estratagemas de Satanás e seus aliados" (Kelly). Paulo denomina essas forças sobrenaturais de "principados, [...] potestades, [...] príncipes das trevas deste século, [...] hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6.12). A palavra grega traduzida por espíritos enganadores (1) significa, de fato, "curandeiros ambulantes" ou "vagabundos, errantes" (Simpson), indicando o poder de iludir e enga­nar. Esses espíritos malignos empregam suas vítimas sucessivamente como agentes dos seus propósitos abomináveis. Prosseguindo na descrição destes agentes do erro, diz o apóstolo: Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência (2). O termo hipocrisia fala do esforço consciente e delibera­do em enganar, o conhecimento moral de que os ensinos que eles propagam sãomenti­ras. Esses indivíduos estão tão cegos pela incredulidade e são tão endurecidos de coração que a consciência não é mais capaz de exercer suas funções designadas. Ela está cauterizada. Em Efésios 4.19, o apóstolo descreve a pessoa nesta condição moral: "havendo perdido todo o sentimento".

 

Asceticismo Sem Sentido (4.3-5)

Paulo define dois detalhes do ensino que ele está denunciando: Proibindo o casamento e ordenando a abstinência dos manjares que Deus criou para os fiéis e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças (3). Esta proibição de casar-se e comer certos alimentos mostra que o erro que ganhara posição segura na igreja em Éfeso era um tipo inicial de gnosticismo. O principal ata­que do gnosticismo em busca de um lugar de influência na igreja primitiva ocorreu somente no século II. Mas uma forma incipiente desta heresia, forma de caráter am­plamente judaico, já havia assumido proporções ameaçadoras no século I. Todas as formas de gnosticismo defendiam em comum a idéia de um dualismo fundamental entre matéria e espírito. Isto significava que tudo que pertencesse ao corpo era intrinsecamente mau. Estes mestres mal orientados promoviam um asceticismo rígido e es­sencialmente falso. Seus adeptos tinham de evitar o casamento e praticar a absti­nência de certos alimentos.

O primeiro destes dois ensinos Paulo condena, mas, como ressalta Kelly, "não refuta por argumentação. A explicação provável é que ele já deixara perfeitamente clara sua posição acerca da naturalidade e decoro do casamento, quando falou das qualidades exigidas para os detentores de cargos". E verdade que o apóstolo preferia para si o estado de solteiro ao de casado, e que ao escrever aos crentes coríntios (1 Co 7) ele sugere que seria melhor que outros cristãos seguissem seu exemplo. Contudo, a razão para este julgamento estava muito longe das opiniões errôneas às quais ele se opunha em Éfeso. No texto Coríntio, ele destaca a "instante necessidade" (1 Co 7.26) e lembra os leitores que "o tempo se abrevia" (1 Co 7.29). Ambas as passagens são, ao que parece, insinuações veladas à expectativa paulina da vinda próxima de Cristo. Em vista do fato de que "a aparência deste mundo passa" (1 Co 7.31), muitas coisas que em si são certas e adequa­das assumem importância secundária, entre elas a questão do celibato e casamento. Mas ele não pôde ser tolerante com a proibição do casamento pela razão errada, como ocorria em Éfeso.

Contra o segundo falso ensino — a abstinência de certos alimentos —, o apóstolo apresenta razões cuidadosamente argumentadas: Porque toda criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças (4). Paulomantém sua posição de liberdade das proibições impostas pelos rituais dos judeus. Estas proibições tinham sido ab-rogadas claramente pela visão de Pedro no terraço da casa em Jope (At 10.9-16). A única estipulação que Paulo estabeleceu concernente ao dom divino de alimentos nutritivos era que fosse recebido com ações de graças. E a maneira em que tais ações de graças devem ser expressas é, pelo menos, sugerida: Porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificada (5; "consagrado", CH; "sagrado", NEB). É evidente que dar graças antes das refeições era um dos costumes mais antigos da igreja. Pelo visto, além da oração de ações de graças, era costume de os crentes primi­tivos empregarem trechos das Escrituras em suas expressões de gratidão a Deus. A ora­ção de ações de graças antes de participar dos alimentos, por mais escassa que seja a comida, é a obrigação mínima do cristão. E não há oração de ações de graçasmais adequada que a que João Wesley e seus pregadores empregavam:

Invocamos tua presença a esta mesa, Senhor; Aqui e em todos os lugares te adoramos; Abençoa-nos, e concede que participemos contigo do banquete no Paraíso.

 

               Bibliografia C. B. Beacon

 

Refutado o Falso Asceticismo (4:1-5)

 

Pela primeira vez Paulo torna-se espe­cífico a respeito do problema dos efésios. Ele lança sua refutação em forma de profecia, uma forma "profundamente arraigada no pensamento cristão primi­tivo (Kelly; cf. Mc 13:22; At 20:29,30; II Ts 2:3, 11 e s.; II Tm 3:1 e ss.; Ap 13). Os essênios, que podem ter sido o canal para o erro efésio, regular­mente usavam este estilo para comentar os eventos contemporâneos; e Paulo, aqui, provavelmente não tinha em mente um problema futuro, mas imediato, como o demonstra a sua refutação nos versos 3 a 5.

A palavra traduzida como expressa­mente, em todo o Novo Testamento usa­da apenas aqui, aparece várias vezes na Primeira Apologia de Justino Mártir (35:10; 63:11), para introduzir uma profecia do Velho Testamento. Sem dúvida, Paulo está aludindo a um profeta vivo, inspirado pelo Espírito, como em At 11:27 e s., 13:1 e s. e I Co 14. Em tempos posteriores significa "nos últimos tempos", isto é, entre a primeira e a segunda vindas de Cristo, como em II Tm 3:1.

Paulo atribui a apostasia deliberada de "alguns" ao fato de darem ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios. Isto pode significar (1) que os mestres errôneos gastavam muito tempo falando acerca de espíritos malignos e demônios. Colossenses 2:8 e ss., atesta o fato de que houve debates semelhantes em Colossos. O Rolo de Guerra de Qumran propicia amplos subsídios no judaísmo para essas discussões. No entanto, muitos eruditos (2) interpretam essa referência a demô­nios no sentido subjetivo. Isso daria a entender que, como em II Coríntios 2:11 e 4:4, Paulo crê que Satanás e suas hostes demoníacas haviam assumido o controle deles, resultando daí que o ensino deles era demoníaco (cf. Jeremias).

Seja como for, como homens, eles agiam pela hipocrisia de homens que falam mentiras e têm a sua própria cons­ciência cauterizada. O seu problema relaciona-se com uma consciência fraca ou contaminada. Há outra forma de inter­pretar o verbo traduzido como cauteri­zada. O Diabo os levou cativos (3:6,7) e colocou a sua marca neles, em lugar da marca de Cristo.

A má consciência leva a dois erros: (1) proibição do casamento e (2) abstinência de certos alimentos. O celibato era prati­cado pelos essênios. As leis dietéticas consistiam parte importante do pensa­mento judaico primitivo, e figuravam decisivamente nas tensões entre os cris­tãos judeus e gentios (cf. Gl 2; At 15). Paulo não se dá ao trabalho de refutar a primeira opinião, pois já tornara a sua posição clara em 2:15. Ele a reafirmará em 5:14 e em Tito 2:4. O problema dietético, talvez, o mesmo que em Roma­nos 14:1 e s. e Colossenses 2:20-23, é atacado citando a maneira como o Anti­go Testamento entende a criação e o conceito cristão de ação de graças. (1) Os alimentos são bons visto que foram cria­dos por Deus, pois todas as coisas cria­das por Deus são boas (Gn 1:31). (2) Eles são bons também quando recebidos com ações de graças pelos que são fiéis e que conhecem bem a verdade, isto é, os crentes, e nada deve ser rejeitado se é recebido com ações de graças; porque pela palavra de Deus e pela oração são santificadas. Assim Paulo insiste também em Roma­nos 14:6, I Coríntios 10:30 e Filipenses 4:6. A palavra de Deus pode significar: (1) a palavra falada por ocasião da criação em Gênesis 1, (2) certas palavras das Escrituras usadas em orações ou ações de graças (v.g., Sl 145:15,16),. ou (3) sim­plesmente a oração propriamente dita. O que Paulo quer dizer é: quando se dá ação de graças à hora das refeições, o próprio Deus santifica novamente a comida, como por um novo ato de criação. O fato é que ele continua sempre a sua atividade criadora; na oração, partici­pamos com ele dessa atividade, e goza­mos dos seus benefícios.

 

Bibliografia G. Hinson

 

A ADMINISTRAÇÃO DA IGREJA (5.1-25)

 

A MOCIDADE DEVE RESPEITAR A VELHICE (5.1,2)

 

Com o início do capítulo 5, Paulo lança instruções de natureza mais específica dirigidas a Timóteo como pastor e líder da igreja em Efeso. O apóstolo interessa-se, sobretudo, que Timóteo prossiga alegremente e de modo acima de repreensão com todos os grupos ido­sos sob sua responsabilidade. Não repreendas asperamente os anciãos, mas admo­esta-os como a pais (1). A igreja de então como a de hoje era composta de homens e mulheres de todas as faixas etárias. O sucesso ministerial de Timóteo e a felicidade da igreja dependiam, em grande parte, de sua habilidade manifesta em lidar com cada um destes grupos. Este fato era particularmente importante para um jovem pastor como Timóteo, quando surgissem problemas envolvendo os membros mais velhos da congre­gação. A advertêncianão repreendas asperamente não se relaciona com os ministros ordenados na igreja, "não com os 'anciãos' no sentido eclesiástico, mas com os homens mais velhos na comunidade cristã".

Nenhum ministro ordenado tem o direito de invocar esta palavra de Paulo para escapar de ser repreendido por alguma loucura cometida. A diretiva do apóstolo visa somente orientar um jovem em seus procedimentos com pessoas mais velhas. O verbo grego traduzido por repreendas asperamente é bem forte ("nunca sejas severo com um ancião", NEB; "não repreendas duramente o ancião", BJ). Isto não quer dizer que a correção e disciplina não tenham lugar nas atividades do pastor. Antes, enfatiza a impor­tância de tato ao lidar com casos que exijam correção e melhoria. Ninguém exibiu esta qualidade essencial mais magnificamente que o próprio Paulo. Por exemplo, ao escrever a Epístola a Filemom (obra excelentemente perfeita), rogando misericórdia e perdão por Onésimo, ele diz: "Ainda que eu sinta plena liberdade em Cristo para te ordenar o que convém, prefiro, todavia, solicitar em nome do amor" (Fm 8,9, RA). O conselho de Paulo a Timóteo está de acordo com sua prática. Em vez de repreender o mais velho, solicite-lhe; "apela a ele como se ele fosse teu pai" (NEB; cf. CH).

O mesmo verbo grego, traduzido por admoesta (ou "apele", CH), rege as três frases restantes nos versículos 1 e 2: Aos jovens, como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães, às moças, como a irmãs, em toda a pureza. E inequívoco que a analogia da família está na mente do apóstolo quando ele define estas relações sociais delicadas. A igreja é a família ou casa de Deus, e o amor que une cada um ao outro nessa comunidade é como o amor de pais e filhos, de irmãos irmãs. Se não nos esquecêssemos disso e fosse exemplificado por todos os interessados na igreja de Cristo, veríamos o fim de erros e discussões que tão freqüentemente dividem a igreja.

Falando da relação de Timóteo com as mulheres mais jovens, o apóstolo adiciona a frase significativa em toda a pureza (2). Scott é exato ao observar que "a mais delicada de todas as relações nas quais [...] [Timóteo] foi colocado, como conselheiro espiritual, seja mencionada primorosamente em palavras simples que dizem tudo". Quantos ho­mens ao longo dos séculos acabaram com seu ministério de modo vergonhoso e cheios de remorso por não atenderem esta palavra!

 

 

 Três grupos específicos no capitulo 5

 

Função do Ministro quanto a Grupos Específicos (5:1,2)

 

Tendo esboçado, em termos gerais, o que se deve esperar dos pastores, no tocante ao seu trabalho e no tocante à sua lealdade e dedicação a Cristo, o escritor sagrado passa a considerar as relações que os pastores devem manter para com diversos grupos na igreja. Antes de tudo, o pastor deve lembrar-se que todos esses grupos de pessoas fazem parte da família de Deus, pelo que também merecem uma atenção bondosa e grande consideração, tudo alicerçado sobre o amor, que deveria ser a força motivadora de tudo quanto é feito na igreja. Essa qualidade do amor cristão deveria ser possuída pelos pastores mais do que por quaisquer outros, visto serem os pastores os principais representantes de Cristo na comunidade cristã. Os vários grupos especificados, nos versículos, que se seguem, parecem ser agrupamentos «informais», e não formais, como se «patentes» diversas estivessem sendo abordadas. Isso explica a paráfrase de Lock (inloc): «Se tiveres de corrigir a alguém, adapta a correção à idade desse alguém. Nunca repreendas severamente a um homem idoso, mas apela para ele como se fosse teu próprio pai; a jovens como se fossem teus irmãos; a mulheres idosas, trata como a mães; a donzelas, como irmãs, com pureza de pensamento, nas palavras e nas ações».

O décimo versículo deste capítulo usa definidamente o termo grego «presbuteroi», isto é, «anciãos», no sentido formal de anciãos da igreja, ou seja, pastores e outros líderes principais. Seja como for, o que é determinado aqui é a forma como os pastores devem tratar dos homens idosos, o que, naturalmente, se aplica a homens idosos que também sejam líderes da igreja.

 

A Ordem das Viúvas em Relação à Igreja (5:3-16).

 

O grande espaço conferido a esta questão, mostra-nos a sua grande importância. O judaísmo sempre teve o cuidado de cuidar dos órfãos e das viúvas, enfatizando a necessidade da doação de esmolas aos pobres, e isso tanto dentro da comunidade religiosa como fora dela.

Naquela época, tal como agora, as mulheres geralmente tinham vidas terrenas mais longas que os homens, e isso produzia certo número de mulheres idosas e dependentes, sem recursos financeiros, sem meios de se sustentarem, ainda que fossem saudáveis bastante para trabalhar. Naquele tempo não havia programas de previsão social, conforme se vê hoje em dia em muitas sociedades modernas. Portanto, cabia aos familiares das viúvas, ou aos membros da igreja, cuidarem de tais mulheres, quando fossem elas cristãs. Mas houve muitos abusos, porquanto viúvas mais jovens, que poderiam trabalhar ou casar-se novamente, se aproveitavam da possibilidade de viver «às custas» da igreja. Além disso, havia aquelas famílias egoístas que lançavam a carga do sustento de suas viúvas sobre a comunidade cristã, quando elas mesmas facilmente poderiam ter cuidado de suas viúvas necessitadas. Por causa de tais abusos é que surgiu a presente passagem.

O cuidado pelas viúvas e pelos órfãos é um aspecto natural da simpatia que os piedosos sentem pelos que sofrem e pelos desamparados. Essa foi sempre uma característica da sociedade judaica (ver Sl 68:6; Dt 10:18; 24:17; Is 1:17 e Lc 2:37); e essa atitude foi transferida para a igreja cristã (ver At 6:1 e Tg 1:27). Isso também é mencionado como parte das normas eclesiásticas, por parte de diversos dos pais da igreja, como Inácio (Esmirna 6), Justino Mártir (Apologia 67). Com freqüência, as viúvas formavam uma espécie de grupo distinto dentro da igreja, exercendo as funções de oração e de serviço prestado aos pobres; e assim se tornavam elementos úteis. (Ver At 9:39,41). Tertuliano (de Virg., v. 9) mostra-nos que havia listas oficiais de viúvas. Duas classes eram distinguidas entre elas: (1) Havia as que eram objeto de honra e caridade; e (2) havia aquelas que ocupavam posições de ofício ativo na igreja, juntamente com a ordem das diaconisas. Hipólito (Cân. 59 e 157) fala sobre muitos detalhes sobre esse particular, e como a questão era manuseada pelos primeiros crentes.

O texto presente parece dar a entender a existência de alguma espécie de lista oficial (ver o nono versículo). Esse texto adverte-nos contra aquelas que recebiam, indevidamente, a ajuda da irmandade, tanto do ponto de vista que eram jovens demais para serem classificadas como viúvas autênticas, visto que poderiam casar-se novamente (ver o décimo primeiro versículo deste capítulo), como do ponto de vista que seus familiares poderiam cuidar delas (ver o décimo sexto versículo). Outrossim, algumas não podiam fazer parte da lista de autênticas viúvas devido a defeitos morais, que serviam de opróbrio à igreja (ver os versículos décimo primeiro a décimo terceiro). O décimo versículo deste capítulo deixa entendido que as viúvas que gozassem de boa saúde, deveriam mostrar-se ativas em atos de caridade e não meras recebedoras da ajuda da congregação, não devendo elas ficarem ociosas, sem quaisquer deveres a cumprir. Poderíamos até mesmo supor que das fileiras das viúvas, nessa época e posteriormente, é que eram tiradas as «diaconisas», embora isso não seja diretamente declarado em parte alguma da Bíblia.

 

O Sustento e a Disciplina dos Ministros (5:17-25).

 

No primeiro versículo deste capítulo é usado o termo «ancião», referindo-se a algum «homem idoso»; e ali são dadas regras sobre como um «jovem pastor» deve tratar com o mesmo; havendo em seguida instruções acerca de outros grupos de idade. Mas, neste ponto, o «ancião» é um título eclesiástico, indicando um pastor, um dirigente da congregação local, juntamente com outros «anciãos», embora em posição inferior ao «bispo» ou «supervisor». É correto dizer-se que, no restante, do N.T., os «anciãos» e os «bispos» ou supervisores, são as mesmas pessoas, porquanto «ancião» e «supervisor» são termos sinônimos. Mas, nestas «epístolas pastorais», não se dá exatamente o mesmo.

Neste ponto, damos o comentário extraído do Word Studies, de autoria de Vincent, acerca desse assunto: «A opinião dos críticos modernos tem abandonado quase inteiramente o ponto de vista que o governo cristão original imitava o governo da sinagoga. As autoridades seculares e religiosas das comunidades judaicas, pelo menos em localidades puramente judaicas, eram as mesmas; e bastaria esse fato contra a probabilidade de tal norma ter sido diretamente transferida para a igreja cristã. As prerrogativas dos anciãos do judaísmo nada têm que correspondam ao que sucedia nas comunidades cristãs. Funções que emergem posteriormente, nas comunidades judaico-cristãs da Palestina, não existem na sociedade palestino-cristã inicial. Quando muito, segundo observa Wiezsacker, tudo se resumiu no empréstimo de um título corrente.

Penso que a crítica moderna compele-nos a abandonar a idéia que os títulos de bispo e ancião são idênticos, idéia essa que tem obtido larga aceitação, especialmente entre os eruditos ingleses, mediante as discussões de Lightfoot e Hatch. O testemunho de Clemente de Roma (Epístola aos Corintios) mostra que os bispos (egoúmenoi ou proegoúmenoi) eram distinguidos dos anciãos, e que se os bispos eram aparentemente designados como anciãos, isso se devia ao fato de terem aqueles sido escolhidos dentre os anciãos, tendo retido o mesmo nome, mesmo depois de terem deixado de manter o ofício. Por essa razão, os bispos falecidos eram chamados anciãos. Nos escritos de Clemente, os anciãos indicam uma classe ou estado—membros de longa data e de caráter aprovado, e não titulares de ofício, regularmente nomeados. Entre esses é que os bispos devem ser procurados. Os bispos são reputados anciãos, não porque um ancião, como tal, seja um bispo, mas porque um bispo, como tal, seja um ancião. Nas epístolas pastorais, os bispos e diáconos são associados uns aos outros, sem haver menção aos anciãos (ver I Tm 3:1-13). Os anciãos são referidos em I Tm 5:17-19, mas em uma conexão inteiramente diferente. As qualificações dos bispos e diáconos são detalhadas na primeira dessas passagens, e a lista de qualificações termina com a declaração de que assim estava organizada a igreja, como casa de Deus (ver os versículos catorze e quinze). Os ofícios são exauridos na descrição dos bispos e diáconos. Nada é dito acerca dos anciãos até o quinto capítulo desta primeira epístola a Timóteo, onde as relações de Timóteo, com membros individuais da igreja são prescritas; e em Tito 2:2 e ss., onde esses membros são descritos como 'homens idosos' (presbútas).Fica implícita certa distinção entre duas classes de bispos—aqueles que governam bem, e aqueles que não o fazem; mas a distinção é obviamente feita entre os membros de igreja antigos e honrados, coletivamente considerados, formando o corpo do presbitério, e certos dentre seu número, que mostram suas qualificações por terem sido nomeados como supervisores. Os anciãos, como tais, não estavam investidos de qualquer ofício. Não havia ato formal constitutivo dos anciãos. Os bispos eram contados entre os anciãos, mas estes últimos não formavam um ofício.

Dessa maneira, precisamos explicar as alusões aos anciãos 'nomeados' (em Tt 1:5 e At 14:23). Os anciãos devem ser nomeados como supervisores ou bispos, pois os supervisores devem ter as qualificações de anciãos aprovados. A consagração de anciãos consiste da dedicação de anciãos para a posição de supervisores. O presbitério denota um estado honroso e influente, na igreja, com base na idade, na duração como membro de igreja e no caráter aprovado. Somente os bispos eram 'nomeados'. Não havia nomeação para o presbitério. Ao término da epístola de Clemente aos Coríntios, as qualificações de um ancião são indicadas na descrição dos três comissários, enviados pela igreja romana, que eram os portadores da epístola, e aos quais nenhum título oficial foi conferido. Eram antigos membros da igreja romana, onde estavam desde a juventude, sem mácula na vida, crentes e sóbrios.

O falecido dr. Hort, em sua 'Ecclesia', afirmava que 'bispo' não era a designação de um ofício, e, sim, de uma função. Era uma descrição da função dos anciãos. Diz ele: 'Atualmente se reconhece bem geralmente... que não temos aqui (na palavra epískopos) um ofício diferente, mantido por alguma pessoa, em contraste com o plural «anciãos». E acrescenta ele: 'É dificilmente menos errôneo compreender (epískopos) como mero segundo título, capaz de ser usado intercambiavelmente com «presbúteros». (pág. 190)».

Além dessas distinções, feitas por Vincent, deveríamos salientar que os «bispos» ou «supervisores», nas «epistolas pastorais», estão investidos de maior esfera de governo que os «anciãos», pois Timóteo é apresentado como «bispo consagrado», o qual, portanto, tinha autoridade sobre um território ou distrito, e não meramente sobre alguma igreja local, que era o caso relacionado aos «anciãos». E embora talvez não houvesse supervisores com toda a autoridade e com todos os deveres atribuídos aos «bispos» posteriores, contudo, pelo tempo em que estas epístolas foram escritas, grandes passadas tinham sido dadas na formação de um autêntico bispado. E isso significa que o «bispo» era mais que uma palavra para indicar as funções de um ancião. Antes, trata-se de um vocábulo que indica autoridade superior à dos anciãos, ainda que não tivesse o total sentido que veio a adquirir nos meados do segundo século de nossa era, conforme se vê nas epístolas de Inácio.

A secção que se segue mostra-nos que apesar de todos os «anciãos» terem autoridade na igreja, fazendo parte do governo eclesiástico, alguns deles se ocupavam da pregação e do ensino. Os anciãos eram, essencialmente, oficiais administrativos, embora alguns tivessem também outras funções. Alguns dos anciãos, ou mesmo todos eles, recebiam algum pagamento da congregação local, por seus serviços mas os pregadores e mestres deveriam receber um mais amplo salário. (Ver os versículos dezessete e dezoito deste capítulo). É bem possível que muitos deles trabalhassem gratuitamente, conforme faziam os rabinos judeus mais espirituais, ou como faziam Paulo e Barnabé (ver I Co 9:6). Contudo, o ofício de ancião era visto como algo que merecia remuneração de alguma sorte. Com base nisso devemos supor que foi imposto um limite ao número dos homens que seriam reputados anciãos, em uma igreja local; e que ainda que houvesse um número excessivo deles, alguns tinham tal ofício como «honra», apenas, sem receber qualquer recompensa financeira por seus labores, embora pudessem compartilhar também do governo. Todavia, o trecho que temos à frente não entra em detalhes sobre essa questão, pelo que também não sabemos como essas questões eram regulamentadas.

Hoje em dia, um dos grandes problemas da igreja é a determinação de quais líderes da igreja devem ser considerados dignos de salário. Na congregação média, esse problema e solucionado mediante o ministério «profissional», que postula o «governo de um homem», o qual e o único que recebe salário da igreja. Isso, naturalmente, passou a ocorrer quando os dons ministeriais espirituais desapareceram, tornando-se mister o aparecimento de um ministério profissional. Mas isso não representa as verdadeiras condições existentes na igreja cristã primitiva; e se a igreja atual ainda contasse com anciãos, segundo o molde primitivo, ainda assim o problema financeiro permaneceria de pé. O texto sagrado é bastante definido sobre um ponto aqueles que pregam e ensinam deveriam ser os primeiros da lista a receber ajuda financeira, o que lhes permitiria serem melhores mestres, se prepararem melhor, a fim de exercerem suas habilidades sem empecilhos de ordem financeira.

Esta secção também envolve o tópico necessário da disciplina dos lideres da igreja. Infelizmente essa disciplina é necessária, e homens bons, até mesmo homens de Deus, caem em pecados e erros sérios. A igreja deve contar com algum meio de tratar com os tais. A antiga regra judaica, de serem apresentadas duas ou três testemunhas, para que alguma acusação fosse feita contra os anciãos, é aplicada aqui (ver o décimo nono versículo deste capítulo). E o vigésimo versículo parece aplicar a regra democrática da disciplina, embora não haja menção alguma de «voto» que anule o ofício dado a alguém por chamada divina, ou mesmo que o exclua, ainda que tal ação drástica se torne necessária. O trecho de Mt 18:15 e ss., tal como a passagem de 1 Co 5:4 e ss., dá a entender a necessidade de ação democrática em todos os casos de disciplina.

 

A RESPONSABILIDADE PELAS VIÚVAS DEPENDENTES (5.3-16)

 

Estes versículos falam de um problema sério que a igreja em seus primeiros tempos foi compelida a enfrentar, qual seja, a situação difícil das viúvas no mundo antigo. Este problema surgira cedo na história da igreja em Jerusalém. A narrativa de Atos 6.1 diz: "Naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano". O tremendo apuro das viúvas era particularmente doloroso, porque existia pouca oportu­nidade econômica para elas no mundo romano. Como escreve Holmes Rolston: "A mu­lher que enviuvava tinha pouquíssimas oportunidades de entrar no mercado de trabalho para ganhar a vida". É evidente que a igreja efésia fora atormentada por este problema, e Paulo oferece a Timóteo algumas orientações para resolver a situação. Parry destaca que esta porção que fala das viúvas "divide-se naturalmente em duas subdivisões: 1) versículos 3 a 8, e 2) versículos 9 a 16. Na primeira subdivisão, o assunto é o socorro das viúvas em necessidade; o objeto é insistir no dever particular dos parentes e no caráter pessoal das viúvas, dois aspectos a serem analisados antes de a igreja prestar assistên­cia. Na segunda subdivisão, as viúvas são consideradas como empregadas da igreja para certos fins. A igreja tem de fazer uma lista dessas viúvas conforme regras estabelecidas. Estas viúvas têm de ser sustentadas pela igreja, a menos que possuam um parente que possa sustentá-las e, assim, isentar a igreja da responsabilidade".

 

1. Deveres da Igreja para com as Viúvas (5.3-8)

 

Honra as viúvas que verdadeiramente são viúvas (3). Por viúvas que verdadeiramente o apóstolo quer dizer "viúvas que estão realmente sozinhas no mundo" (CH). Estas seriam mulheres não só desoladas pela perda do marido, mas que não tives­sem filhos, netos ou outros parentes que pudessem contribuir para o seu sustento. As viúvas desta categoria deviam ser tratadas "com grande consideração" (CH). É provável que Wesley esteja correto quando interpreta imparcialmente que o verbo honra signifi­ca "mantém fora do fundo público". Paulo estava muito preocupado que as viúvas que estivessem verdadeiramente necessitadas, com direito à assistência da igreja, recebes­sem o devido sustento. É interessante fazer uma análise rápida da situação em que a igreja faz suas obras de caridade. No princípio, tais distribuições eram amplamente de­legadas ao estado ou às agências de assistência social, como hoje.

O apóstolo também está preocupado com parentes gananciosos que, em vez de assumirem o sustento da viúva necessitada, deixavam alegremente que a igreja a sustentas­se. Para evitar tal eventualidade, diz Paulo: Mas, se alguma viúva tiver filhos ou netos, aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria família e a recompensar seus pais; porque isto é bom e agradável diante de Deus (4). Eis um padrão de responsabilidade familiar que em nossos dias é honrado mais na contra­venção do que na observância. Como é freqüente vermos o triste espetáculo de pais e avós idosos compelidos a viver parcamente à custa do estado, enquanto os filhos e netos gastam egoisticamente os bens e capitais desses mesmos pais e avós idosos! Os pais que dão de tudo para os filhos deviam sentir a discrepância de suas ações, quando dão pouca importância às privações suportadas por seus pais velhinhos. A primeira responsabilida­de por tal cuidado deve ser arcada, como insiste Paulo, pela família da qual a viúva faz parte. Só quando este recurso for exaurido é que o sustento dessas viúvas se torna a responsabilidade da igreja.

O apóstolo reconhece que há diferenças qualitativas entre as pessoas na categoria das viúvas, diferenças que afetam a obrigação da igreja. Ora, a que é verdadeiramen­te viúva e desamparada (i.e., aquela completamente só no mundo; cf. NTLH), espera em Deus e persevera de noite e de dia em rogos e orações (5). O texto está descre­vendo alguém que, não só por causa de sua viuvez desamparada, mas por causa de sua devoção consistente e genuína a Cristo e sua igreja, tem direito a toda consideração que a igreja puder lhe dar. Mas o apóstolo admite que nem todas as viúvas têm esse direito. Ele reconhece que, entre as viúvas da igreja, pode haver algumas que, longe de colocar a esperança em Cristo, são comodistas e pessoas de atitudes e conduta sensuais. Sobre tais pessoas o apóstolo observa: Mas a que vive em deleites ("prazeres libertinos", NASB; cf. CH), vivendo, está morta (6). A implicação disso é que a igreja não tem obrigação de assumir o sustento da viúva que é apegada às coisas do mundo.

Estas são as diretrizes que Timóteo tem de seguir na determinação do programa de ação da igreja pertinente às obras assistenciais.Manda ("prescreve", BJ, RA), pois, estas coisas, para que elas sejam irrepreensíveis (7). O pronome elas diz respeito obviamente às viúvas que são sustentadas pela igreja. É importante que o sustento da igreja seja reservado para as viúvas que verdadeiramente têm direito a isso.

Antes de encerrar o assunto da responsabilidade familiar, Paulo é forçado a adicio­nar uma observação calculada a estigmatizar todo aquele que negligenciar este dever fundamental. Mas, se alguém não tem cuidado dos seus e principalmente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel (8). Não devemos deduzir que o apóstolo esteja equiparando essa conduta com a infidelidade, embora seja igualmente repreensível. Ele está falando presumivelmente, "porque até os não-crentes, que não conhecem os mandamentos ou a lei de Cristo, reconhecem e dão grande importância às obrigações dos filhos para com os pais".

 

2. Deveres das Viúvas para com a Igreja (5.9-16)

 

Agora o apóstolo trata de outro aspecto da relação das viúvas com a igreja. Sobre esse assunto temos informação extremamente escassa: Nunca seja inscrita viúva com menos de sessenta anos, e só a que tenha sido mulher de um só marido; tendo testemunho de boas obras, se criou os filhos, se exercitou hospitalidade, se lavou os pés aos santos, se socorreu os aflitos, se praticou toda boa obra (9,10). A expressão seja inscrita pode ser traduzida por "coloque na lista" (NTLH). É algo mais que um cadastro de viúvas, embora os estudiosos não estejam de acordo quanto a isso. Rolston está provavelmente certo quando diz: "Pelo visto, na ocasião em que Paulo escre­veu, havia na igreja uma ordem mais ou menos organizada de viúvas mais velhas que serviam as pessoas em nome de Cristo e sua igreja, e que eram sustentadas, pelo menos em parte, pela igreja".

Examinando superficialmente, temos a impressão de que a ordem das viúvas que Paulo descreve era formada por diaconisas, ou no mínimo eram mulheres que faziam o trabalho de diaconisa. Segundo identificação de Wesley, estas viúvas eram "diaconisas que ajudavam as mulheres doentes ou os pregadores itinerantes". Mas os intérpretes, em sua maioria, hesitam em ir tão longe assim. O ponto claro é que estas viúvas faziam parte de um grupo altamente seleto. A idade mínima de sessenta anos garantiria a maturidade. A fim de ser qualificada para esta lista, a viúva deveria ter sido mulher de um só marido. Pode significar, como Wesley interpreta, "depois de ter vivido em casamento legal com uma ou mais pessoas sucessivamente". No mínimo, significa que tal viúva tem de possuir um bom caráter moral. Em vista das exigências impostas nos bispos e diáconos, temos justificativa em identificar aqui um reflexo do preconceito do século I contra casar-se de novo, ainda que legitimamente, segundo nosso ponto de vista. Scott ressalta que "o sentimento antigo dava um crédito especial à viúva que não se casasse de novo".

Outra qualificação para a inclusão na lista das viúvas que serviam a igreja era a reputação de boas obras (10) de qualquer tipo. Entre estas boas obras incluíam-se a habilidade de cuidar e criar filhos; a disposição à hospitalidade, que era questão vital na vida da igreja primitiva, quando evangelistas, apóstolos, mensageiros e cristãos comuns estavam constantemente indo e vindo; a boa vontade de fazer qualquer tarefa, ainda que servil, como, por exemplo, lavar os pés aos santos; e o zelo de socorrer os aflitos de qualquer necessidade. Não há dúvida de que estas eram obras que faziam parte do cargo de diaconisa, e as viúvas que faziam parte da lista tinham de praticá-las diligentemente.

A seguir, o apóstolo justifica sua exigência de as viúvas da lista terem pelo menos 60 anos de idade: Mas não admitas as viúvas mais novas, porque, quando se tornam levianas contra Cristo, querem casar-se; tendo já a sua condenação ("tornando-se condenáveis", BAB, RA) por haverem aniquilado a primeira fé (11,12). Para se­rem inclusas na ordem das viúvas, a candidata tinha de se comprometer a não se casar outra vez, e o apóstolo percebia que as viúvas mais novas teriam muita dificuldade em manterem-se fiéis a tal compromisso. O descumprimento deste quesito as colocaria sob condenação. Nesta tradução os versículos ficam bastante claros: "As viúvas mais jo­vens não podem ser aceitas na lista. Pois quando suas paixões as afastam de Cristo, elas desejam ardentemente casar-se e tornam-se condenáveis por quebrar a promessa de fidelidade feita a ele" (NEB).

Paulo dá mais uma razão para que somente as viúvas mais velhas sirvam a igreja neste ministério: E, além disto, aprendem também a andar ociosas de casa em casa; e não só ociosas, mas também paroleiras e curiosas, falando o que não convém (13). Este é o padrão usual de conduta. A maioria dos pastores experientes já teve de lidar, em um momento ou outro do ministério, com os resultados trágicos da fofoca e calúnia. Sejamos francos e admitamos que, às vezes, as viúvas mais velhas são tão culpadas deste tipo de conduta quanto as mais novas, e que tanto os homens como as mulheres podem se ocupar deste passatempo maldoso. Pelo visto, o apóstolo contava que as viúvas mais velhas tivessem aprendido por experiência e maturidade a loucura desse comportamento.

É nítido que Paulo está convencido de que o campo de serviço apropriado para as viúvas mais jovens não está nesta área sensível dos contatos sociais. Ele é muito franco ao dizer: Quero, pois, que as que são moças se casem, gerem filhos, governem a casa e não dêem ocasião ao adversário de maldizer. Porque já algumas se des­viaram, indo após Satanás (14,15). Seja qual for o ideal que Paulo manteve com rela­ção às viúvas se casarem de novo, o seu melhor parecer reconhece que o novo casamento, a manutenção de uma casa e a criação de filhos têm maior probabilidade de lhes satisfa­zer os desejos instintivos. A advertência concernente a já algumas se desviaram, indo após Satanás pode ter sido baseada em exemplos de viúvas menos etariamente madu­ras que assumiram compromissos que depois lastimaram e violaram. Talvez tenham sido experiências como estas que o propeliram a fixar a idade mínima de 60 anos paraas viúvas empregadas pela igreja.

Esta passagem se encerra com o versículo 16: Se algum crente ou alguma crente tem viúvas (entre seus parentes), socorra-as, e não se sobrecarregue a igreja, para que se possam sustentar as que deveras são viúvas. Esta é recapitulação do argumento de Paulo exposto nos versículos 4 a 8, e enfatiza o fato adicional de que os recursos que a igreja tinha para as assistências sociais devem ser gastos somente em casos mais dignos e merecidos.

 

A HONRA DEVIDA AO PASTOR (5.17-25)

 

1. Recompensa Adequada pelo Serviço Fiel (5.17,18)

 

As palavras "anciãos" (1) e presbíteros (17; aqui quer dizer "pastores", cf. BV) são tradução da mesma palavra grega; os significados, embora distintos, estão correlacionados. No versículo 1, significa os membros mais idosos da congregação; mas aqui diz respeito aos indivíduos separados para a obra do ministério: Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina (17). Há comentaristas que entendem que este versículo antecipa a distinção entre "pastores" que governam e "pastores que ensinam", que é a prática em certas igrejas reformadas. Mas isso é improvável, quando lem­bramos que Paulo já havia declarado especificamente que todo bispo (ou pastor) tem de ser "apto para ensinar"(3.2).

O apóstolo está estipulando a Timóteo que o pastor que combina a capacidade de líder da igreja com o serviço fiel e talentoso como pregador e professor deve receber duplicada honra. É difícil acreditar que signifique "pagamento em dobro" (NTLH; cf. BAB, BJ, RA). Lógico que incluiu o aspecto monetário, como as observações adicionais de Paulo deixam claro; mas junto do honorário deve ser incluída a honra. Ainda não havia chegado o dia em que os ministros da igreja seriam totalmente sustentados. O costume que então vigorava era que os líderes da igreja se sustentassem, da mesma maneira que; o apóstolo o fazia. Na opinião de Paulo, o bom serviço merece reconhecimento e recompensa. Aquele cujo tempo era tomado quase todo pelo trabalho da igreja deveria receber maior compensação.

Paulo sustenta seu conselho com um argumento que lembra 1 Coríntios 9.9: Por­que diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário (18). A primeira destas passagens é um preceito do Antigo Testamento encontrado em Deuteronômio 15.4, e em sua situação original é unia ordenação humani­tária. Mas em outro texto Paulo argumenta que tem um significado mais profundo: "Porventura, tem Deus cuidado dos bois? Ou não o diz certamente por nós?" (1 Co 9.9,10). O apóstolo também cita outra passagem para a qual dá importância igual: Digno é o obreiro do seu salário. Esta é declaração de nosso Senhor registrada em Lucas 10.7. O fato surpreendente é que os estudiosos do Novo Testamento não conseguem achar evi­dências para provar que o Evangelho de Lucas tinha acesso geral quando estas palavras foram escritas. Alguns expositores, claro, concluem imediatamente que as Epístolas Pas­torais devem ter sido escritas muito depois que a data que lhes designamos. Mas o mais provável é que o Evangelho de Lucas fosse conhecido por Paulo e também por Timóteo. E. K. Simpson assume a posição, junto com B. B. Warfield, de que "temos aqui uma citação verbalmente exata do Evangelho de Lucas, tratada como porção integrante das Santas Escrituras". Nesta passagem, o apóstolo deixa clara sua opinião de que o serviço fiel e eficaz merece reconhecimento e remuneração adequada. É óbvio que a igreja come­çava a mudar rumando para um ministério assalariado.

 

2. Disciplina Justa e Imparcial (5.19-21)

 

Da remuneração adequada daqueles que servem bem a igreja, Paulo agora se dedica à questão de censurar os remissos. O versículo 19 é muito significativo: Não aceites acusação contra presbítero (aqui quer dizer "pastor", cf. BV), senão com duas ou três testemunhas. Aqui é citado um dos princípios mais básicos da jurisprudência ju­daica: "Uma só testemunha contra ninguém se levantará por qualquer iniqüidade ou por qualquer pecado, seja qual for o pecado que pecasse; pela boca de duas ou três testemu­nhas, se estabelecerá o negócio" (Dt 19.15). Nosso Senhor apela para este princípio legal em Mateus 18.16, e Paulo em 2 Coríntios 13.1. Se a igreja seguisse este princípio rigoro­samente, nenhum membro ou ministro jamais se tornariam vítima, de um indivíduo vin­gativo. Trata-se de um princípio que toda denominação responsável incorpora em seus procedimentos disciplinares.

O apóstolo vai mais a fundo no versículo 20: Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos, para que também os outros tenham temor. Se e quando a falta for comprovada pela boca de duas ou três testemunhas independentes, o culpado tem de sofrer as conseqüências do seu pecado, por mais dolorosas e humilhantes que sejam. O pecado não pode ser abafado, mas deve ser exposto e reprovado "em público" (NVI; cf. CH, NTLH). Na ótica de Paulo, tal procedimento ressaltaria o fato de que ninguém, nem mesmo o ministro da igreja, pode pecar impunemente.

Há uma nota extraordinariamente solene no versículo 21: Conjuro-te, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos ("escolhidos", NASB; "santos", BV, CH, NTLH), que, sem prevenção, guardes estas coisas, nada fazendo por parcialidade. O tom desta passagem dá a entender que no passado houvera escândalos por causa de tratamento preferencial aos infratores, e com esta determinação o apóstolo eliminaria definitivamente tamanha injustiça. Moffatt traduz assim o trecho final do versículo: "Não sejas preconceituoso na execução destas ordens; sê absolutamente im­parcial" (cf. BJ, CH, NTLH, NVI). E. F. Scott comenta: "A exortação é dupla: 'Não pré-julgar um caso, aceitando acusações duvidosas, porque você não gosta do indivíduo; e não ser brando em qualquer base pessoal, quando o caso for comprovado".

 

3. Não Tenha Pressa nas Ordenações (5.22-25)

 

A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos peca­dos alheios (22). É quase certo que esta deliberação do apóstolo se refere à imposição de mãos no ritual da ordenação ao ministério cristão. Há excelentes razões para o candidato ser provado ao longo de um período de anos até que sua aptidão ao cargo de pastor se torne devidamente perceptível. Mesmo quando a igreja toma as mais rigorosas precauções, há na maioria das vezes erros administrativos neste ponto. A demora nesses assuntos pode ser cansativa e frustrante para o candidato, mas é importante. O ministro que trai a con­fiança e cai em pecado traz repreensão sobre si e sobre a igreja, cuja confiança ele traiu. Paulo chega a ponto de dizer que, de certo modo, os que impuseram as mãos no homem que se comprovou indigno do cargo, tornam-se participantes dos pecados de outras pes­soas. Lógico que isto não acarreta culpabilidade, mas pode causar-lhes sofrimento e afli­ção. Paulo deixa a determinação muito clara com a ordem concisa: Conserva-te a ti mes­mo puro (22). A respeito disso, Rolston observa que "o ministro tem de ter muito cuidado para não transigir com a justiça ao aprovar homens que não são dignos de confiança".

O apóstolo interrompe a linha de pensamento injetando conselhos puramente pes­soais: Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago ("da tua digestão", NEB) e das tuas freqüentes enfermidades (23). Este é reconhecidamente um versículo difícil de interpretar por causa de nossa atual ênfase cristã na abstinência total. Não há leitor atencioso da Bíblia que não deixe de notar que a atitude para com o uso do vinho no Novo e no Antigo Testamento difere distintamente da crença cristã hodierna. D. Miall Edwards mostra que "a questão da bebida é mais complexa e crítica atualmente do que nos tempos bíblicos, e que as condições do mundo moderno deram origem a problemas que não estavam no horizonte dos escritores do Novo Testamento". Ainda que a prática da abstinência não seja estipulada formalmen­te no Novo Testamento, há vastos princípios de responsabilidade cristã que, em virtude das condições modernas, exigem a abstenção de todas as bebidas alcoólicas (cf. Rm 14.13-21; 1 Co 8.13). Como comenta Barclay, o conselho de Paulo a Timóteo meramente "apro­va o uso de vinho em situações em que o vinho pode ser medicinalmente útil".

Tendo aconselhado Timóteo, Paulo retorna ao assunto geral sob análise: Os peca­dos de alguns homens são manifestos... e em alguns manifestam-se depois (24). O significado é que os pecados de alguns homens são tão públicos e óbvios que nin­guém sonharia em promovê-los a cargo de pastor na igreja; ao passo que, com outros homens, os pecados são tão secretos e sutis, que só quando os conhecemos de perto e pessoalmente é que descobrimos as desqualificações ocultas ao cargo. Em todo caso, Ti­móteo é aconselhado a agir com muita cautela quando se tratar de aprovar homens para lugares de liderança na igreja.

No versículo 25, o apóstolo trata do oposto do versículo 24: Assim mesmo também as boas obras são manifestas, e as que sãodoutra maneira não podem ocultar-se. Phillips esclarece o texto confuso deste versículo assim: "De maneira semelhante, algumas virtudes são fáceis de ver, ao passo que outras, embora de modo algum visíveis, no fim se tornarão conhecidas" (CH). Os pecados e as virtudes ocultas acabarão apare­cendo visivelmente. Estes fatos dão impressividade ao conselho do apóstolo de Timóteo ser extremamente cauteloso e prudente no importante assunto de selecionar líderes.

 

Bibliografia G. Gould

 

 

O Verdadeiro Ganho da Piedade (6.6-8)

 

Ao expor os falsos mestres, que não só corromperam a fé cristã, mas estipularam um preço para suas deturpações, o apóstolo é inspirado a dar uma palavra de sabedoria infinita: Mas é grande ganho a piedade com contentamento (6). A fé cristã é alta­mente rentável para quem a aceita com humildade e por inteiro e descobre para si a satisfação infinita que é viver para Cristo. Servir a Deus e aceitar alegremente tudo que ele enviar é a vida mais feliz que podemos imaginar. O contentamento não vem quan­do todos os nossos desejos e caprichos são satisfeitos, mas quando restringimos nossos desejos às coisas essenciais. Não há verdade que fale mais diretamente com a condição de nossa geração empanturrada do que esta. Quando perguntaram a Epicuro o segredo do contentamento, ele respondeu: "Não acrescente nada às posses de um homem, mas leve-o para longe do que ele deseja". O próprio Paulo confirmou este segredo quando disse: "Já aprendi a contentar-me com o que tenho" (Fp 4.11). A palavra grega traduzida por contentamento denota esta independência das circunstâncias, que é exatamente o que o apóstolo atesta com sua vida.

O versículo 7 é uma declaração bem conhecida, que ocorre em outras passagens bíblicas (Jó 1.21; Ec 5.15) e na literatura antiga:Porque nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar dele. Barrett comenta com propriedade que "a nudez final da morte mostra e sublinha a nudez inicial do nascimento". Entre estes dois pontos da história, podemos juntar muito ou pouco, mas na hora final teremos de deixar tudo. Podemos levar para a eternidade somente os valores inerentes ao nosso espírito, e só estes constarão na coluna crédito do livro-razão no dia de nossa prestação de contas final.

O apóstolo agora indica a que ponto tem de ir nosso "despojamento" para prestar­mos serviço total a Cristo: Tendo, porém,sustento e com que nos cobrirmos, este­jamos com isso contentes (8). João Wesley, no sermão "O Perigo das Riquezas", faz a pergunta: "O que é ser rico?" e responde: "'Tendo [...] sustento e com que nos cobrirmos' (lit., coberturas; a palavra grega diz respeito a alojamento e roupa) 'estejamos com isso contentes'. 'Mas os que querem ser ricos' [...] [significa aqueles] que terão mais que isso; mais alimentos ecoberturas. A conclusão óbvia é que tudo que for mais que estes, que, no sentido do apóstolo, são riquezas; tudo que estiver acima das coisas necessárias míni­mas, ou no máximo das conveniências, para a subsistência da vida. Quem tem suficiente comida para comer e roupa para vestir, com um lugar onde pôr a cabeça e com algo para pôr acima [teto] é rico". Este é um padrão rigoroso, e por ele muitos de nós seríamos considerados ricos. Claro que a vida é infinitamente mais complexa hoje do que no século XVIII, e a prudência sensata requer que tenhamos uma visão um pouco mais ampla. Mesmo assim, temos de vigiar para não tornar o ganho financeiro a preocupação supre­ma da vida. Nunca devemos perder de perspectiva o aviso de nosso Senhor contra a "sedução das riquezas" (Mt 13.22).

 

 O Perigo da Ganância (6.9,10)

 

Nestes versículos, o apóstolo aprofunda sua exortação: Mas os que querem ser ri­cos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências ("desejos", BAB, BJ, CH, NTLH, NYI) loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína (9). É verdade que nada ataca o homem com maior impetuosidade que o desejo de ganho financeiro, assim que der lugar em sua alma para este demônio da ganância. Os homens são ludibriados para pontos cada vez mais distantes dos princípios da honestidade e honra pelo prospecto de lucros fáceis. Quantos na vida pública se acham impotentes em resistir à tentação de obter vantagens ilícitas em fragorosa violação de escrúpulos outrora honra­dos! Paulo não exagerou os perigos que aguardam os que trilham esse caminho, quando disse que os tais afundarão num pântano de iniqüidade, acabando em ruína total.

O versículo 10 é igualmente mordaz na apresentação desta verdade: Porque o amor do dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desvia­ram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. O apóstolo quer dizer que o amor do dinheiro é a raiz de males de todos os tipos. É lógico que nem toda espé­cie de males tem sua origem no amor do dinheiro. Não obstante, temos razão em afirmar que o amor do dinheiro é uma das fontes mais prolíficas do mal. Paulo não foi o primeiro a sentenciar o amor do dinheiro; este conceito ressoava em grande parte da literatura ética judaica e gentia do século I. Mas a exortação do apóstolo elucida a ame­aça especial à fé cristã. Sua análise relembra a advertência de Jesus: "Não podeis servir a Deus e a Mamom" (Lc 16.13).

 

METAS E RECOMPENSAS DA VIDA PIEDOSA (6.11-16)

 

Fuja e Siga (6.11)

 

Depois de pintar em cores tão sombrias os males do desejo de lucro, o apóstolo volta a lidar com o bem-estar espiritual de Timóteo: Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas e segue a justiça, a piedade, a fé, a caridade ("o amor", ACF, AEC, BJ, CH, NTLH, RA), a paciência, a mansidão. Paulo não poderia ter feito apelo mais eloqüente que este no qual ele distingue Timóteo comohomem de Deus. Esta era a descrição habitual dos servos de Deus no Antigo Testamento. Ao usar esse título, o apóstolo fala da dignidade, da responsabilidade sublime e solene do cargo que Timóteo mantinha e que é mantido igualmente por todo líder cristão. A determinação de Paulo é: Foge destas coisas. O significado não é fugir somente da sedução das riquezas, mas de todas as atitudes más que foram expressas desde o capítulo 4. Há uma antítese interessante na ordem de fugir destas coisas e, de outro lado, seguir as virtudes particularmente designadas. É uma lista notável de virtudes que Paulo quer infundir. A lista começa com justiça, a mais inclusiva das virtudes; significa dar a Deus e aos homens o que lhes é devido. As três virtudes seguintes formam um grupo dirigido a Deus. Piedade é a cons­ciência reverente que tudo na vida é vivido na presença e sob os olhos de Deus. Fé é a fidelidade que nos mantêm firmes, mostrando lealdade a Deus em todas as situações. Amor (agape) é a expressão de gratidão e louvor de nossa alma pela maravilha da graça redentora. Por fim, Paulo infunde paciência mansidão, que podem ser traduzidas por "firmeza" (CH; "constância", BAB, RA; "perseverança", NVI); e "bondade" (RSV). Estas são as características da vida cristã conforme é vivida em contato e companheirismo com as pessoas. O contraste entre estas virtudes e os males que Paulo denuncia não podia ser mais impressionante.

 

Milite a Boa Milícia (6.12)

 

Este versículo nos traz a imagem mental de um treinador instilando coragem e espí­rito de luta em seu time pouco antes do início de um jogo decisivo: Milita a boa milícia da fé, toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado, tendo já feito boa confissão diante de muitas testemunhas (12). A figura de linguagem que o apóstolo usa é derivada mais das competições esportivas do século I do que da vida militar. Devemos entender que o verbo milita é a luta agonizante requerida caso a pes­soa quisesse vencer uma partida de luta romana. Paulo se servia de analogias visuais, tanto da vida do soldado quanto da do atleta. Todo cristão é chamado a batalhar a luta pessoal contra o mal em todas as suas formas. E, como destaca Kelly, "é de propósito que o imperativo está no presente, indicando que a luta é um processo contínuo. Por outro lado", continua Kelly, "o imperativo aoristo 'toma posse' sugere que Timóteo pode tomar posse da vida eterna (aqui concebida como o prêmio para o evento esportivo) imediata­mente e em um único ato". Assim, o atleta cristão desfruta do prêmio ao mesmo tempo em que ainda se engaja na competição.

Paulo diz que Timóteo foi chamado para esta campanha vitalícia. Na verdade, ele possuía um chamado duplo: o chamado para seguir a Cristo, que foi selado na confis­são pública de fé no batismo; e o chamado para pregar o evangelho, a cuja tarefa ele fora ordenado pelo próprio apóstolo e colegas que o ajudavam. Muitos intérpretes acham difícil determinar a qual destes chamados se refere afrase final do versículo. Esta tradu­ção interpreta que o chamado ocorreu "quando você deu o seu belo testemunho de fé na presença de muitas testemunhas" (12, NTLH). Contudo, seria mais adequado conside­rar que essa frase final é outra alusão que o apóstolo faz à ordenação que ele freqüentemente menciona (e.g., 4.14).

 

Incumbência Sagrada (6.13-16)

 

Estes versículos estão investidos de alto grau de solenidade: Mando-te diante de Deus, que todas as coisas vivifica, e de Cristo Jesus, que diante de Pôncio Pilatos deu o testemunho de boa confissão, que guardes este mandamento ("seu chama­do", CH; "sua missão", NTLH) sem mácula e repreensão, até à aparição de nosso Senhor Jesus Cristo (13,14). Paulo deseja estampar na mente e consciência de Timó­teo a importância de ser fiel à responsabilidade impressionante que está sobre ele na função de homem de Deus e líder de sua santa igreja. Temos de considerar esta obrigação inviolável, na expectativa momentânea da volta de Cristo para julgar e recompensar. O apóstolo sempre se prendia ferrenhamente à esperança de que ele estaria vivo naquele glorioso Dia do Senhor. Mas aqui, diante de Timóteo, sua esperança é que o mais jovem possa estar vivo na ocasião para testemunhar essa consumação maravilhosa. Paulo nun­ca vacilou em sua certeza do retorno de Cristo; só a esperança de estar vivo no momento daquele evento é que lhe parece improvável agora. Mas bem que Timóteo poderia teste­munhar a vinda daquele Dia. A ele, o apóstolo diz: "Eu o encarrego de viver e trabalhar sempre mantendo nitidamente em vista aquele Dia".

Há solenidade na ordem do apóstolo, quando ele ressalta que todos os trabalhos e serviços de Timóteo são feitos sob os olhos deDeus, "que dá vida a todas as coisas" (13, CH; cf. BJ), e de Cristo, que não titubeou em sua confissão quando estava na presença dePilatos. A consciência de que os olhos de Deus estão nele e a inspiração do exemplo corajoso do Senhor na hora da suprema prova dariam força ao coração e mãos do jovem. Há certo tom litúrgico nestes versículos. O apelo de Paulo à boa confissão que Cristo testemunhou diante de Pôncio Pilatos parece muito semelhante a uma frase no Cre­do Apostólico: "Sofreu diante de Pôncio Pilatos". Esta linguagem estabelece o tom apro­priado para a doxologia que se segue imediatamente.

A doxologia abrange os versículos 15 e 16: A qual, a seu tempo, mostrará o bem-aventurado e único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele só, a imortalidade e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver; ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém. A primeira frase do versículo 15, a qual, a seu tempo, refere-se obviamente à aparição de nosso Senhor Jesus Cristo do versículo 14. "Essa aparição Deus mostrará no devi­do tempo, que só Deus, na bem-aventurança eterna, domina" (NEB). Nosso Senhor de­clarou que estes grandiosos acontecimentos que se darão na consumação final são inter­calados pelo próprio poder do Pai (At 1.7). E é onde têm de ficar.

Scott disse que esta doxologia é "mais semelhante aos hinos de louvor do Apocalipse do que às doxologias de Paulo. A sugestão pouco improvável é que se trata de um hino cristão moldado na liturgia da sinagoga". Mas seja qual for a origem, é indiscutivelmente magní­fica. Rei dos reis e Senhor dos senhores (15) pode ser um ataque sutil ao ato de cultuar o imperador, prática que fazia parte do paganismo crescente que a igreja foi forçada a resistir. Aquele que tem, ele só, a imortalidade (16) "não a nega a outrem, mas apre­sentaa singularidade da imortalidade divina no ponto em que só Deus a possui inerente­mente, sendo ele mesmo a fonte de toda vida". Esta é afirmação clara de sua transcendência e invisibilidade eterna — "aquele que vive em luz inatingível" (CH). Quando nos colocamos na presença de Deus, que palavras proferir? Paulo conclui este peã de louvor com a atri­buição de honra e poder, em lugar do mais habitual "honra e glória" (cf. 1.17).

 

A ADMINISTRAÇÃO ADEQUADA DAS RIQUEZAS (6.17-19)

 

O Perigo das Riquezas (6.17)

 O Cristão e a Riqueza

 

É Errado o Cristão Ser Rico? E Viver Atolado em Dívidas?

Eu recomendo muito o uso do dinheiro, pois é um bem sem o qual é muito difícil viver! E, ao contrário do que muitos cristãos acreditam, o dinheiro não é absolutamente a raiz de todos os males. "Mas pastor Ron, a Bíblia diz que o dinheiro é a raiz de todos os males!" Você está enganado. Em 1 Timóteo 6:10, a Bíblia diz:

"Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé, e a si mesmos se atormentaram com muitas dores."

Veja, o dinheiro é uma parte necessária a vida e certamente não é intrinsecamente mau nem bom. Ele é uma das muitas "coisas" na vida de um cristão das quais o Senhor, na verdade, é o dono, mas permite que usemos como seus mordomos. Quando utilizamos corretamente as "coisas" que ele coloca ao nosso dispor, e mantemos uma atitude correta com relação a elas, ele freqüentemente as multiplica. Quando adotamos a atitude errada com relação às "coisas" é que entramos em problemas. Se desenvolvermos um amor, um desejo desordenado por essas "coisas", isso torna-se um pecado em nossas vidas. Novamente, o dinheiro e os outros bens materiais não são pecaminosos em si mesmos. Na verdade, são muito bons e, se nos comportarmos e praticarmos a boa mordomia, Deus pode achar adequado permitir que usemos parte deles! No entanto, deixe-me dizer logo que não existem garantias. O "evangelho da prosperidade" que alguns estão pregando é tão falso e vazio quanto uma nota de três reais. É um fato que Deus prometeu no prosperidade espiritual e financeira aos israelitas no Antigo Testamento, mas ambas eram condicionadas à obediência a ele. Em nenhum lugar você encontrará uma promessa semelhante para os cristãos no Novo Testamento. Na verdade, a Bíblia nos diz que nosso caminhar com Cristo será duro e quanto mais perto procurarmos estar dele, mais difícil ficará essa caminhada. Neste aspecto, o cristianismo é absolutamente diferente em comparação com todas as religiões do mundo.

Em 2 Timóteo 3:12, a Bíblia diz, "Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos."

Embora seja verdade que a riqueza é uma bênção de Deus, a pobreza não deve ser vista como desfavor, pois, em certo sentido, liberta o indivíduo de tremendas responsabilidades e tentações. Lucas 12:48b, diz: "...Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão." O ensino do Novo Testamento tem muito a dizer sobre qual deve ser nossa atitude com relação às coisas que Deus confiou aos nossos cuidados. Vejamos:

Na parábola do Semeador, em Lucas 8:14, o Senhor diz isto sobre a semente que cai entre espinhos:

"A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer."

Nesse verso, o Senhor nos diz que a semente é a Palavra de Deus e quando as pessoas a ouvem e permitem que as ansiedades, cuidados, riquezas e deleites desta vida diluam a mensagem, deixam de amadurecer na fé. Como cristãos, se quisermos fazer progressos no nosso caminhar com Cristo, a Palavra de Deus precisa ser mais preciosa para nós do que qualquer coisa que o mundo tenha para nos oferecer.

Em Mateus 6:19-21, o Senhor disse isto sobre os "tesouros" terreais:

"Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam nem roubam; porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração."

A eternidade é para sempre (!) e é tolice demais sacrificar os tesouros do céu pelas riquezas deste mundo. No entanto, é exatamente isso que muitos cristãos fazem rotineiramente quando ficam enamorados com os bens materiais. Estou convencido que nosso Deus atribui soberamente a cada um de nós uma posição relativa na vida - nosso status financeiro e material, juntamente com as capacidades co-relacionadas (ou a falta de capacidades) pertinentes a essa posição. Sejamos francos, nem todos têm o intelecto ou a capacidade de acumular riqueza e lidar com ela da forma correta. Alguns têm essa capacidade e graças a Deus por eles poderem gozar os frutos de seu trabalho. Outros irmãos fazem o melhor que podem, mas passam a vida inteira lutando apenas para satisfazerem suas necessidades básicas de alimentação e vestuário. Experimentamos a verdadeira felicidade e o contentamento espiritual quando descobrimos qual é nosso nicho respectivo na vida e então fazemos o melhor que pudermos, enquanto pudermos! Entramos em problemas quando não estamos satisfeitos com a provisão de Deus e cobiçamos mais do que ele sabe que é melhor para nós. Ambição e desejo de progresso material somente são naturais e corretos quando não forçamos a coisa. Se Deus quiser que prosperemos em nossos empregos e ganhemos mais dinheiro, ele fará isso acontecer.

Quando ele abrir as portas, poderemos passar por elas. Infelizmente, muitos cristãos não compreendem isso e quebram a cara ao tentarem passar por portas que estão fechadas! Isso é enfatizado pelas palavras de Cristo em Lucas 12:15: "Então lhes recomendou: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui."

O perigo espiritual subjacente que está associado com o dinheiro e com os bens materiais é que eles podem facilmente se transformar em ídolos em nossas vidas. Muitas pessoas acham que um ídolo é somente uma figura feita de madeira ou de pedra que é colocada em um templo e que é adorada. Não, um ídolo é qualquer coisa que fique entre nós e Deus! Deus quer nossa total fidelidade a ele, exatamente como marido e mulher requerem um do outro. Ele fica ofendido quando desviamos nosso amor e atenção dele para qualquer outra coisa.

Esse conceito é delineado em Mateus 6:24: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas."

O apóstolo Paulo também falou sobre o dinheiro e os bens materiais e, em sua primeira carta a Timóteo, adverte os cristãos, particularmente os pregadores, sobre o uso incorreto do dinheiro. Em 1 Timóteo 6, começamos nossa leitura no meio do verso 5 e continuamos até o verso 9, depois no verso 17:

"...homens cuja mente é pervertida, e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro. De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem cousa alguma podemos levar dele; tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé, e a si mesmos se atormentaram com muitas dores."

"Exorta aos ricos do presente século, que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento."

Nossa sociedade valoriza excessivamente a riqueza e os bens materiais. As pessoas são classificadas de acordo com a renda: classe baixa, classe média e classe alta, ou, às vezes, em classes A, B, C, D e E. Somos constantemente bombardeados com propagandas que procuram despertar o desejo da pessoa de "subir na escala social". Isso tornou-se parte da realidade cotidiana. Algumas propagandas recorrem ao tema: "Você merece...." ou "Você deve isso a si mesmo..." As agências de propaganda conhecem bem a natureza humana e a exploram habilmente para promover os produtos e serviços. Nós, criaturas pecadoras, temos uma fraqueza natural com relação aos prazeres e aos bens materiais e eles a exploram para seu ganho financeiro! Como cristãos, precisamos estar vigilantes contra esses estímulos.

É também triste observar cristãos que não têm a força de vontade para praticar a mordomia correta daquilo que Deus lhes deu. O desejo de ter, de obter e de usar cresceu até um ponto em que milhões de pessoas encontram-se endividadas, e alguns cristãos certamente também se enquadram nessa situação. Satanás fez com que o crédito facilitado arruinasse o testemunho de inúmeros cristãos. Ninguém deveria se endividar além da sua capacidade financeira de pagar, especialmente aqueles que professam o nome de Jesus Cristo. Fazer isso é trazer reprovação sobre si mesmo e sobre seu Salvador. Aqueles pequenos cartões de plástico são muito fáceis de se obter, mas certamente atuam como um narcótico para algumas pessoas e, sem que percebam, as dívidas e os juros começam a se acumular. Pessoas que nunca jogariam em um cassino contraem dívidas com seus cartões de crédito e isso nos faz perguntar qual é a diferença essencial? Saber que você não poderá pagar depois e precisará rolar a dívida, pagando juros extorsivos, é pecaminoso se foi por falta de autocontrole que você contraiu aquela dívida. Quando considerarmos o fato que somos mordomos do Senhor e que estamos fazendo mal uso do dinheiro dele, isso deve colocar as coisas sob a perspectiva correta.

Meu conselho a você que está em dívidas é sair dessa situação o mais rápido que puder - mesmo que para isso precise se desfazer de algumas coisas que o levaram a essa situação. (Não estamos falando aqui de financiamentos imobiliários e outras dívidas dessa natureza, pois elas têm a garantia do próprio imóvel). Ao enfrentar uma situação de dívida além da capacidade financeira, o modo mais fácil de sair é declarar falência pessoal e deixar os credores a ver navios. No entanto, Deus não permite que um de seus filhos faça uma coisas dessas! Sim, pode ser legal juridicamente, mas certamente não é ético para o cristão. Se você estiver enfrentando uma situação dessas, faça a coisa certa e procure renegociar a dívida com os credores, alargando os prazos ou reduzindo os juros - mesmo que precise passar o resto da vida trabalhando em dois empregos para corrigir a situação! Eles não torceram seu braço, obrigando-o a contrair as dívidas; a culpa pelos gastos excessivos foi sua. Agora, o mínimo que você precisa fazer é um esforço honesto para pagar o que deve. Agir de forma contrária é arruinar completamente seu testemunho e envergonhar o nome do Senhor Jesus Cristo.

O Espírito Santo, falando por intermédio do apóstolo Paulo, tem este maravilhoso conselho para nós:

"De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem cousa alguma podemos levar dele; tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé, e a si mesmos se atormentaram com muitas dores." [1 Timóteo 6:6-10]

Quando a ênfase em nossa vida for colocada corretamente na piedade, obteremos o contentamento pessoal como resultado. Afinal, o que pode ser melhor que ter nossas necessidades atendidas e dormir com uma consciência tranqüila?

 

Autor: Pr. Ron Riffe

Tradução: Jeremias R D P dos Santos

 

 

 

 

A primeira vista, estes versículos parecem uma queda súbita da sublimidade à trivialidade. Logo após a magnífica doxologia de Paulo, ele imediatamente se volta a problemas práticos e mundanos: Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abun­dantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos(17). Esta descida abrup­ta do tom apostólico, esta intrusão aparente de coisas terrenas, não é absolutamente intrusão. Na verdade, a intrusão são os versículos 11 a 16. No versículo 10, Paulo estava falando das riquezas mundanas e seus perigos potenciais. Mas nos versículos 11 a 16 ele divaga de modo totalmente paulino — e que esplêndida divagação! Agora, no versículo 17, ele retoma o tema que os parênteses inspirados tinham posto de lado.

Quando tratou este assunto pouco antes neste capítulo, o apóstolo tinha em mente as pessoas que almejavam riquezas. Aqui ele se dirige aos que já são ricos. Esta é revelação interessante sobre a situação econômica de pelo menos alguns membros da igreja em Efeso.Nem todos os cristãos primitivos eram escravos e artesãos humildes. Havia homens de posse e boa situação financeira entre eles — e há perigo no aumento das riquezas. A sobriedade, empenho e prudência que o evangelho introduz na vida do crente têm de conduzir inevitavelmente ao aumento da prosperidade; e a prosperidade pode arruinar a fé cristã que é a base dessas novas disciplinas. Assim, asriquezas tornam-se inimiga da alma. E, como Paulo vê claramente, o principal perigo são os homens ficarem altivos ("arrogantes", NVI; "orgulhosos", BAB, BJ, NTLH, RA). Há algo relacionado às riquezas que promove um falso senso de segurança; é difícil ter muitasriquezas sem deixar de confiar nelas em certa medida. Paulo mostra discernimento ao se referir às riquezas, chamando-as incerteza das riquezas (ou "instabilidade da riqueza", BAB, BJ, RA).

Outra razão para evitarmos o orgulho relacionado às riquezas é que Deus... nos dá todas as coisas para delas gozarmos (17). Tudo é de Deus, tanto as riquezas quanto a capacidade de adquiri-las. Na realidade, tudo que o homem desfruta das satisfações da vida, sejam quais forem as formas em que se apresentem, vem da gene­rosidade de Deus.

 

A Verdadeira Mordomia das Riquezas (6.18,19)

 

Que façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente e sejam comunicáveis ("generosos em dar e prontos a repartir", AEC, RA; cf. BAB); que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que pos­sam alcançar a vida eterna (18,19). Esta é a orientação cristã sobre o uso adequado das riquezas. Lembramos o conselho triplo de João Wesley dado aos metodistas que estavam prosperando: "Ganhem tudo que puderem, economizem tudo que puderem e dêem tudo que puderem". O dinheiro nunca compra a salvação; mas o uso adequado e cristão do dinheiro contribui para a formação do caráter cristão e nos capacita a agarrar a vida eterna com mais firmeza. Phillips traduz o versículo 19 claramente: "A segurança deles deve ser investida na vida vindoura, a fim de se certificarem de que terão parte na vida que é real e permanente" (CH).

 

Bbliografia J. Gould

 

 

Sobre o dinheiro (6:6-10).

 

Esta pequena secção é uma homilia sobre o assunto do dinheiro, no que se relaciona a uma vida séria e santa. Recomenda-nos a moderação no desejo pelo dinheiro. É melhor abafar tal desejo do que tentar satisfazê-lo, conforme Epícuro dizia. As riquezas materiais, por si mesmas, não constituem vantagem real; antes, elas constituem um perigo, pois, ao invés de serem um privilégio e oportunidade, podem tornar-se ameaças espirituais. Dão maior conforto ao corpo, mas servem de empecilho para a alma, pois levam os homens a se deixarem arrastar por suas vantagens, olvidando-se do valor e das necessidades da alma eterna. Essa atitude foi denunciada pelo Senhor Jesus (ver Mt 6:19 e ss.), sendo atitude comum no estoicismo e tradicional nas religiões, tendo invadido até mesmo o cristianismo. A denúncia de Cristo, entretanto, não tem impedido que muitas pessoas religiosas, que figuram nas fileiras do cristianismo, tomem essa atitude; mas fazem-no somente para seu próprio detrimento.

O intuito da presente secção é afastar os ministros do evangelho, mas igualmente todos os crentes, da atitude dos falsos ministros, que transformam a fé religiosa em um comércio. Um homem verdadeiramente piedoso não se preocupará demasiadamente com o lucro material; mas haverá de buscar as riquezas materiais somente até ao ponto em que isso é mister para sustentar a si mesmo e aos seus familiares, mas não com um valor primário. Pois sabe que as verdadeiras riquezas se encontram nas realidades espirituais, e que o mundo verdadeiramente rico e aquele do porvir, no qual ele se interessa devido à sua genuína lealdade a Cristo. O interesse da presente secção, pois, ultrapassa o que é meramente polêmico (na argumentação contra os gnósticos), procurando estabelecer um princípio ético relativo às riquezas, em relação à fé religiosa. Esta secção inclui vários epigramas que um provavelmente eram bem conhecidos no mundo grego, em sistemas éticos como o estoicismo, o que, em sua forma tipicamente romana, recomendava a moderação em todas as ações.

 

6:6: e, de fato, é grande fonte de lucro a piedade com o contentamento.

 

A tradução inglesa de Williams diz aqui: «Ora, o fato é que a religião, com o contentamento, é um meio de grande lucro». A tradução inglesa RSV diz: «Há um grande lucro na piedade com contentamento». O original grego não tem nada que equivalha às palavras «...de fato...» Essas palavras foram supridas como uma interpretação.

«...lucro...» No grego é «porismos», «meio de ganho», «capacidade de prover», «abundância de recursos». A raiz é «poros», que significa «meio de atravessar um rio», «travessia», «vereda», ou então algum «recurso», «jeito». Nos escritos clássicos, quando esse vocábulo estava vinculado à idéia do dinheiro, indicava «meio de levantar fundos». A forma verbal, «perao», significa «atravessar». A piedade, que é a fé religiosa sincera, é vista aqui como meio de autêntico benefício e vantagem. Naturalmente, esse «...lucro...» não é nem material e nem financeiro. Não obstante, é real, porquanto beneficia às almas eternas, tanto nesta esfera terrena como no mundo futuro. Isso pode ser confrontado com I Tm 4:8, onde a mesma idéia está contida: «Pois o exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser». A tradução inglesa de Williams diz: «... areligiosidade é de utilidade em tudo, pois contém uma promessa para a vida presente, como também para a futura».

«...piedade...» No grego é «eusebeia», tal como no versículo anterior. Esse termo aponta para a autêntica fé religiosa, com seu acompanhamento de santidade prática. Focaliza a santidade prática da fé cristã, mediante o que o crente é moralmente transformado segundo a imagem de Cristo. Quando alguém realmente está sendo transformado conforme a imagem de Cristo, adquirindo assim a sua natureza moral, desse modo virá a compartilhar de todas as suas perfeições e atributos (ver Gl 5:22,23 e Ef 1:23).

«...contentamento...» No grego temos «autarkeia», que significa «suficiência», «competência», de onde lhe veio a idéia de «contentamento», de «auto-suficiênçia», de «possuir o bastante». Essa era uma das virtudes favoritas dos estóicos. (Ver Epict., Stob. III, pág. 101,16; Diog. L. 10,130; Sextus 98). Envolve o sentimento que tudo está correndo bem no mundo, pelo menos até onde o próprio indivíduo está envolvido, a alma está contente e em descanso, com o que possui; o conflito cessou, reinam a paz e a harmonia no íntimo. «Bem-aventurado é o homem de quem Deus se lembra com uma suficiência que lhe é conveniente» (Salmos de Salomão5:18).                                                                                             

A autêntica fé religiosa ou piedade cria no indivíduo certa riqueza de autodomínio, mediante o que ele vive no contentamento. Esse é um benefício muito maior que aquele conferido pelas riquezas materiais, que servem somente para gerar a contenda, o temor e até mesmo a violência. As riquezas materiais criam apenas uma «carga», imposta aos piedosos. Pois estes já são verdadeiramente ricos. Além disso, o crente piedoso é «independente» do buliço louco do mundo, que corre atrás dos bens materiais, visto que já encontrou o seu grande tesouro, na fé religiosa e na dedicação a princípios espirituais elevados. O apóstolo dos gentios aprendera a achar-se contente em qualquer circunstância em que se achasse. (Ver Fp 4:11, que usa uma palavra correlata à deste texto). Conforme diz Sir H. Wotton: «Senhor de si mesmo, embora não dono de terras».

«Basta bem pouco dos bens deste mundo para satisfazer ao indivíduo que se sente cidadão de outra pátria, e que sabe que nesta não está o seu descanso». (Adam Clarke, in loc). Ora, esse é o maior de todos os «lucros» que se possa imaginar. A verdadeira «piedade» nos confere tal atitude, pois a salvação mesma é medida através da «santificação» (ver II Ts 2:13).

«Os leõezinhos sofrem necessidade e passam fome, porém, aos que buscam o Senhor bem nenhum lhes faltará» (Sl 34:10).

«Quem é rico? Aquele que se contenta com a sua sorte». (Talmude, Pirke Aboth iv.3).

«O treinamento de um rabino judeu pode ser ainda mais exigente. Essa é a vereda da lei. Um pouco de pão comerás com sal, e também beberás água por medida e dormirás no chão, e viverás em tribulação, enquanto labutas na lei. Se assim fizeres, feliz serás, e tudo te será bem no mundo vindouro». (Pirke Aboth, vi.4).

«...Considera como as riquezas acrescentam lenha às concupiscências, fornecendo nutrição ao seu orgulho; como elas removem para longe os meios da esperança de salvação, e quão freqüentemente servem elas de passaporte para os portais da morte. As riquezassão um privilégio quando desfrutadas e usadas como é preciso ser. Mas eu temeria orar, pedindo riquezas, ou para mim mesmo ou para os meus filhos... a observação mostra-nos que grandes possessões materiais servem muito mais para prejudicar-nos e destruir-nos, do que nós mesmos gostamos de devotá-las a Deus». (Gardner Spring).

 

6:7: Porque nada trouxemos para este mundo, e nada podemos daqui levar;

 

É possível que esta declaração esteja alicerçada em Jó 1:21. Mas a verdade é que ela se acha em diferentes culturas, sob formas variegadas. (ver Phil. de Off. Vict., par. 265, que diz: «Nada trouxeste ao mundo, senão a ti próprio; vieste nu, e dele sairás nu». E isso pode ser confrontado com Eclesiástico 5:14, onde há declaração similar). Sêneca dizia: «Ninguém nasce rico. Todo aquele que vem ao mundo recebe ordens de contentar-se com o alimento e com o vestuário». (Epist. xx). E também: «A natureza, ao retornar, sacode todas as excrescências, ficando como começo: não poderás levar mais do que aquilo que trouxeste». (Episto. cap. ii). Insiste o mesmo autor (em Epist. 102): «Não é permitido levar mais do que aquilo que se trouxe». Tal afirmativa sem dúvida era muito comum entre os estóicos romanos, a julgar pela variedade com que a mesma figura nos escritos de Sêneca, que era um filósofo estóico romano.

A vida é uma espécie de peregrinação. As condições que acompanham o nascimento são paralelas às condições da morte física, pois ambas se caracterizam pela total ausência de possessões materiais. Posto que o nascimento e a morte são dessa natureza, mostrando o que um homem «realmente é, então nos deveríamos contentar por permitir que a vida inteira tenha esse caráter. E isso concorda com a «natureza»; e Deus estabeleceu o padrão da natureza.

Policarpo citou essa declaração em sua epístola aos Filipenses, o que, evidentemente, comprova uma data antiga para as «epístolas pastorais», mais do que alguns estudiosos têm pensado.

As riquezas materiais, portanto, são apenas acompanhamentos por um breve período, para esta vida física e inferior, não caracterizando a verdadeira vida. Assim sendo, não deveríamos buscá-las como algo primário; pelo contrário, a nossa inquirição deveria envolver o cultivo da verdadeira vida, a vida eterna, os interesses do reino de Deus. Ovídio (Trist. v.14.12) diz: «Nilferet ad manesdivitis umbra suos», que quer dizer: «Um espírito, partido deste mundo, nada leva de suas riquezas para o outro mundo».

 

6:8: tendo, porém, alimento e vestuário, estaremos com isso contentos.

 

(Ver a citação extraída dos escritos de Sêneca, nas notas expositivas sobre o versículo anterior, que é similar a esta). Paulo nasceu em Tarso, um dos centros do estoicismo romano. Seus escritos se alicerçam bastante nas declarações e ilustrações dos estóicos, sendo perfeitamente possível que as afirmações deste e do versículo anterior tenham sido tomadas por empréstimo dessa fonte, ainda que os sentimentos expressos nestes dois versículos tenham sido encontrados nos escritos de muitos autores, que representam várias escolas religiosas e filosóficas.

«...sustento...» No grego é «diatrophe», que significa «sustento», «alimento», «nutrição». Epicteto, em Ench. 12:1, usa esse termo para indicar o alimento necessário para nosso sustento físico.

«...com que nos vestir...» No grego é «skepasma», que significa «cobertura», «abrigo», dando a idéia de «casa» ou de «vestuário». O mais provável é que esteja aqui em pauta a idéia de «vestuário», pois, conforme observou von Soden, uma «habitação» não era considerada uma das necessidades básicas no oriente. Pelo contrário, encontramos aqui os dois elementos mais básicos e necessários para a vida diária: alimento suficiente e vestuário suficiente, para sustentar-nos e abrigar-nos o corpo.

«... contentes...» No grego é «arkeo», que quer dizer «suficiente», «ser bastante», «ser suficiente», e que na voz passiva significa «estar satisfeito», «estar contente». Notemos aqui o uso do verbo no futuro, que tem certo sentido imperativo, dando em resultado a seguinte tradução possível: «...estejamos contentes...» Mas, tanto « futuro como o imperativo transmitem o mesmo significado. «Mas com boa vontade e bom ânimo, sustenta tu a minha alma; quando fortaleceres a minha alma, ficarei satisfeito com o que me deres». (Salmos de Salomão 16:12, onde é usado o mesmo vocábulo grego aqui empregado, na Septuaginta, que é tradução do original hebraico do A. T., para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã).

Apesar de que este versículo mostra «a essência mesma do estoicismo» (no dizer de Easton, que coloca o versículo entre aspas, como se tivesse sido citado daquela fonte), o sentimento ali expresso é totalmente oriental, concordando com diversas das declarações do Senhor Jesus. (Ver Mc 6:7 e ss.; Mt 10:5 ess.; Lc 19:1-7; Mt 6:25-33 e Lc 12:22-31).

Conta-se a história de um jovem que procurou escapar a nado de um navio que naufragava. Ora, durante a viagem ele trazia consigo grande soma em dinheiro, e não queria perdê-lo. Por isso, amarrou na cintura nada menos de duzentas libras em ouro. Mas, por causa do peso, não pôde atingir a praia, preferindo morrer afogado a abandonar o dinheiro. Depois alguém perguntou: «Quando ele afundava, ele tinha o ouro, ou o ouro o tinha?» (Mornings in the College Chapei, segundo sermão de Ruskin). Por conseguinte, as riquezas de um homem podem tornar-se, realmente, a causa de sua morte, em detrimento dele mesmo. Porém, todo e qualquer pecado tem idêntico efeito. Certamente o pecado nos possui; não somos nós os possuidores do pecado. Isso é para nosso detrimento, e não para nosso bem. Por conseguinte, deveríamos procurar satisfazer-nos com aquilo que derivamos da piedade, a qual é um notável auxílio à vida, e, de fato, sua própria fonte.

«Quiçá não exista mais notável exemplo da incorrigível perversidade da natureza humana do que o fato que, a despeito de toda a experiência em contrário, geração após geração continua a buscar mais e mais riquezas, como o valor mais digno de ser buscado». (Plummer, in loc).

 

6:9: Mas os que querem tornar-se ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição.

 

Neste versículo pode haver ou não peculiaridades estóicas. Notemos que não estão em foco «os que já são ricos», como se esses é que caíssem na ruína; mas os que correm esse perigo são os que «...querem...» ficar ricos. É posta toda a ênfase na vontade, em contraste com meros atos externos; pois a passagem busca o «motivo», tal como se vê em Mt 5:21 e ss. Os estóicos gregos criam que a atitude ideal deve ser a da «apatia», a total ausência de desejo, porque é do anelo que se originaria toda a insatisfação e todo o mal. Por conseguinte, cada qual deveria combater contra as próprias emoções, especialmente o «desejo», o «prazer», a «tristeza» e o «medo». Essas são as quatro faltas máximas de que um homem deveria corrigir-se. Portanto, é o «desejo de ficar rico» que abre caminho para as «comportas pelas quais se derramam muitos outros desejos insensatos e perniciosos, que submergem o indivíduo na total ruína». «Essa é uma 'armadilha' (do diabo? ver II Tm 2:26), que procura enredar os homens, visando a sua destruição. O leitor crente deveria lembrar-se dos trechos de Lc 12:16 e ss. e 16:19 e ss., onde se vê que os ricos são privados, mediante a morte, não somente de suas riquezas materiais acumuladas, mas também da bem-aventurança eterna». (Gealy, in loc).

Embora a ênfase recaia sobre o desejo e a motivação, não devemos pensar que o autor não considere que o «estado de riqueza» não seja igualmente pernicioso, pelo menos potencialmente. Que ele assim pensasse está de conformidade com o contexto em geral. O autor sagrado temia o que as riquezas podem fazer a um homem, pois podem levá-lo a grandes pecados degradantes. Esse resultado pode ocorrer para os ricos, e não somente para os que «querem ficar ricos». Comparar isso com Tiago 5:1 e ss., que é uma passagem que fala contra os males e abusos praticados pelos ricos. Naturalmente, se poderia observar corretamente que não é a «possessão» das riquezas que prejudicam a um homem, mas, sim, o «amor» às riquezas é que podem produzir a queda, conforme aprendemos no décimo versículo deste capítulo. Contudo, a própria possessão de riquezas já serve de força poderosa para levar um homem a «amar» àquilo que adquiriu.

«...tentação...» No grego temos o vocábulo «peirasmos», que significa «teste», «provação». Nem sempre a idéia é de tentação para o mal, porquanto a idéia pode envolver apertos que criam dificuldades. Porém, no presente contexto, isso deve significar a tentação de fazer o mal, a sugestão para que o indivíduo tenha motivos errados na vida.

«...caem...» Essa palavra mostra o poder que as tentações exercem sobre qualquer indivíduo, levam-no a perder o equilíbrio, caindo em uma condição de alma que é doentia, que presumivelmente pode destruir sua conversão a Cristo e o seu bem-estar espiritual, levando-o a falhar na salvação de Deus, conforme exige o contexto (sobretudo o versículo seguinte).

«...cilada...» No grego é «pagis», que significa «armadilha», como aquelas que são usadas para apanhar animais e pássaros, levando-os a seu cativeiro ou destruição. Essa condição leva o homem a perder o domínio próprio, para seu detrimento pessoal. Ele se torna cativo de forças estranhas e malignas, exteriores, como é o caso do «poder de Satanás». (Comparar com II Tm 2:26, onde se lê sobre os «...laços do diabo...»).

«...concupiscências...» No grego temos o termo «epithumia», que significa «desejo», «anelo», bom ou mau; mas, no presente contexto, certamente tais desejos são malignos, «anelos perversos». Na tentativa de obter riquezas materiais, a personalidade inteira do indivíduo será pervertida. Quando tiver atingido o seu alvo, já será uma pessoa depravada; e então passará a utilizar-se de seu dinheiro para satisfazer paixões ilícitas, dando-se licença de experimentar de frutos proibidos. Essa palavra também é freqüentemen­te usada para indicar os desvios de ordem sexual, embora não se limite a isso. (Comparar com a expressão usada em II Tm 2:22, «paixões da juventude», onde o sentido sexual certamente é o predominante).

«...insensatez...» No grego é «anoetos», que significa «sem inteligência», «tolo». O poder de raciocínio e o bom senso de um homem que procura ficar rico ficam embotados, se não mesmo totalmente eliminados pelas paixões descontroladas, que passarão a dominar-lhe a vida. Ele perderá seu senso de julgamento moral. E fará coisas que não poderão ser explicadas pela razão e pelo bom senso moral.

«...perniciosas...» No original é «Maberos», que significa «prejudicial». Seus desejos, moralmente descontrolados, terminarão por prejudicá-lo moral e espiritualmente, ainda que possa escapar de outros efeitos daninhos. Isso o prejudicará em seus melhores interesses, que consiste do bem-estar espiritual.

«...afogam...» No grego é «buthidzo», que significa «afundar», «mergulhar sob». As coisas anteriormente mencionadas arrastam o indivíduo à ruína, afundando-o na mesma. Esse é o elemento em que os que buscam riquezas são imersos; e ali encontrarão total destruição de sua personalidade, de sua espiritualidade; e assim perdem a redenção que lhes é oferecida em Cristo.

«O apóstolo considera essas pessoas como marinheiros em uma tempestade; devido à força conjunta dos ventos, das ondas e da maré, são elas violentamente projetadas entre as rochas, o barco é despedaçado, e, em um momento, são todos engolfados no grande abismo! Tal é a sorte e a inevitável catástrofe daqueles que querem ser ricos, embora venham a esforçar-se por concretizar os seus desejos pelos meios mais rigidamente honestos». (Adam Clarke, in loc).

«...isto é, em total ruína, na ruína tanto da alma como do corpo; e é uma situação irrecuperável, como a de um homem que se afoga no mar, com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço. Essa é a insensatez e esse é o perigo daqueles que se arriscam a querer ser ricos a qualquer custo». (John Gill, in loc).

«Não te fatigues para seres rico; não apliques nisso a tua inteligência» (Pv 23:4).

«...ruína...» no grego é «olethros», que significa «ruína», «destruição», «morte», e que pode indicar tanto a ruína física como a espiritual, a temporal ou a eterna. Supomos que ambos os aspectos estão subentendidos aqui.

«...perdição...» No grego é «apeleia», «desperdício», «destruição», «aniquilamento». Uma vez mais pode ser temporal ou eterna, física ou espiritual; e provavelmente ambas as possibilidades estão em foco. Esta palavra visa reforçar aquela outra, fortalecendo a idéia da ruína inevitável que terá de sobrevir a tais indivíduos, ainda que, normalmente, sejam palavras sinônimas.

Aquele que tem o desejo de tornar-se rico,

Também deseja adquirir riquezas em pouco tempo. (Juvenal).

 

Por conseguinte, tais homens são mergulhados impensadamente no mal e nos desejos descontrolados, que finalmente os levam à ruína. O contexto desta passagem exige bem mais que meramente a idéia de «ruína moral».

 

6:10: Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.

 

A expressão «...amor ao dinheiro...» é tradução de um único vocábulo grego, isto é, «philaguria», cuja tradução mais literal seria «simpatia pela prata»; porém, «prata», nesse caso, representa «dinheiro», pois, naquele tempo, muitas moedas de valor eram feitas desse metal.

«...raiz de todos os males...» Isso traduz literalmente o grego. Alguns eruditos interpretam essa expressão como «a raiz de todas as espécies de males», como se houvesse alguns males que não se originassem do amor às riquezas. Naturalmente, isso expressa uma verdade; mas esta declaração é mais enfática do que isso. Simplesmente declara que todos os males procedem desse desejo, sem qualquer qualificação suavizadora. Natural­mente isso exagera a realidade, mas fá-lo para efeito de ênfase; contudo, permanece de pé a verdade que o amor ao dinheiro é uma das mais poderosas forças destruidoras, ficando assim justificado o autor sagrado em seu exagero; pois, após mais detido exame, fica evidente que ele não exagerou muito. Também é verdade que não existe mal a que não possamos ser conduzidos pelo dinheiro, ainda que não possamos, em todos os casos, ser levados a todos os males através do dinheiro. Seja como for, o dinheiro abre caminho para bom número de males, mergulhando os homens na ruína.

Notemos a ausência do artigo definido antes da palavra «...raiz...» Assim sendo, a frase poderia ser traduzida por «...o amor ao dinheiro é uma raiz de todos os males...» Portanto, tal cobiça poderia ser reconhecida como uma dentre várias raízes do mal. Mas não deveríamos pressionar demais o ponto, pois isso enfraqueceria a declaração bíblica. A despeito da ausência do artigo definido, no original grego, é melhor traduzirmos por «a raiz», porquanto isso preserva a força tencionada pelo autor sagrado, em nosso idioma português.

Essa declaração é proverbial, embora seja impossível descobrir sua fonte originária. É provável que tenha surgido, simultaneamente, em vários lugares, de uma forma ou de outra, sem ter havido uma única fonte. (Ver Testamento dos Doze Patriarcas, Judá, cap. 19). Há um provérbio grego, que alguns atribuem a Biom e outros a Demócrito, que diz: «O amor ao dinheiro é a cidade-mãe (ou origem) de todos os males», citado em Diog. Laert. vi.50. Sêneca (em «de Ciem.», ii.I) diz: «...desejos estranhos, dos quais procedem todos os males da alma». E Filo, «de Judice», cap. 3, nos adverte: «O amor ao dinheiro é incentivo para grandes transgressões». Policarpo(ad Phil., cap. 4) evidentemente tem uma alusão a este versículo, o que, incidentalmente, mostra a data relativamente antiga das «epístolas pastorais».

«Certamente que, hoje em dia, ninguém precisa de provas para o fato que homens e mulheres cometerão qualquer pecado ou crime por causa do dinheiro». (Robertson, in loc).

«...raiz...» No grego é «riza», palavra usada metaforicamente para indicar «origem», «ponto inicial», a «motivação» do que qualquer ato se origina. (Comparar isso com Rm 11:16-18).

«...cobiça...» No grego é «orego», que significa «aspirar», «esforçar-se por», «estender», que neste texto é usado no particípio presente, no grego original. Aqueles que «vivem se esforçando» atrás das riquezas, «exercitando-se» cobiçosamente atrás delas, desviam-se finalmente da fé e caem em uma armadilha onde muitas projeções pontiagudas os despedaçam.

«...se desviaram da fé...» No grego é usado o termo «apoplanao», que significa «desviar-se de». O anelo desordenado pelas riquezas é um desejo contrário à fé. Tal anelo nos desvia da fé e nos lança em ações anticristãs, que finalmente são prejudiciais à alma.

«......» Primariamente, temos aqui a «fé objetiva». Tais homens «apostatam» da «fé cristã». Mas a fé «subjetiva» também está envolvida. Tais indivíduos perdem sua «outorga de alma» a Cristo. (Quanto à «fé objetiva», ver I Tm 1:2. Quanto à «fé subjetiva», ver Hb 11:1). A palavra «fé» também é usada, nas «epístolas pastorais», para indicar a «virtude» da fé; mas essa virtude é apenas a expressão da fé subjetiva na vida diária. (Ver o trecho de Gl 5:22 quanto à fé como um dos aspectos do «fruto do Espírito Santo»). O viver pela fé é o viver na virtude da confiança em Cristo, em que o crente entrega a alma a ele. Os cobiçosos, entretanto, desviar-se-ão da «fé cristã», perdendo sua dependência a Cristo e a sua lealdade a ele; e, dessa maneira, perderão até mesmo a virtude da fé diária.

«...se atormentaram...» No grego é «peripeiro», que quer dizer «traspassar». Talvez esteja em foco a figura simbólica de uma armadilha, em que um animal cai, estando a mesma equipada de projeções pontiagudas, que o traspassam e matam. Isso está de acordo com a idéia da «cilada», apresentada no nono versículo. As riquezas levam-nos a uma armadilha assim, e é inevitável que sejamos traspassados. A busca pelas riquezas materiais meramente leva os homens a serem traspassados por setas agudas, sofrendo eles a agonia de uma vida arruinada e de uma alma perdida.

«...muitas dores...» No grego é «odune», que significa «ais», «dores», «lamentos». Na ruína e destruição que sofrem, tanto temporal como eterna, há dor e sofrimento, há também lamentação e remorso, tal como um animal traspassado em uma lança sabe o que é agonizar. A advertência dada aqui é ao mesmo tempo pitoresca e patética.

 

Bibliografia Champlin

 

Última Acusação aos Falsos Mestres

 

Paulo está prestes a encerrar a carta. Uma vez mais ele exorta a Timóteo: Ensina e recomenda estas coisas. A exortação ensina e recomenda estas coisas leva Paulo a recapitular uma vez mais, antes de concluir, duas considerações dominantes: Os falsos mestres e o papel de Timóteo.

Nesta seção ele apresenta o último desmascaramento dos falsos mestres e a última acusação contra eles. Grande parte do que está dito no primeiro parágrafo faz lembrar a linguagem do capítulo 1. Todavia, grande parte é material novo. Aqui, o quadro se apresenta em minúcias. Esses mestres, que constituem o motivo de tudo — a presença de Timóteo em Éfeso, esta carta, o "desvio" ou "rejeição" da parte de alguns da igreja — revelam-se presunçosos, nutrindo avidez doentia por controvérsias. E tudo isto revela-se porque a razão fundamental é a ganância. Eles pensam que a "piedade" é meio de obter lucro financeiro — exatamente como os mascates do culto de Diana (At 19:23-41).

O segundo parágrafo (vv. 6-10), portanto, é a reação de Paulo à ganância deles. O apóstolo pronuncia a sentença da ruína que os espera.

 

6:2b Pela última vez nesta carta Paulo ordena a Timóteo: ensina e recomenda (ou "exorta") estas coisas. Como antes (3:14; 4:6,11; 5:7, 21), estas coisas referem-se ao que já foi dito, pelo menos entre 5:3 e 6:2, embora a natureza concludente do que se segue possa percorrer todo o caminho de volta a 2:1.

 

6:3-5 Em contraste com estas coisas que Timóteo deve ensinar, há os que ensinam outra doutrina (a mesma expressão de 1:3). Os vv. 3-5 são um único parágrafo condicional, no grego, do tipo conhecido como presente simples particular, significando que ambas as partes do parágrafo expressam o modo como as coisas realmente são. Tais sentenças condi­cionais são usadas quando o autor tem perfeita certeza de sua premissa. Neste caso, a prótase (a parte que começa com "se", v. 3) descreve o que os falsos mestres não fazem, mas deveriam estar fazendo. A apódose (a parte que começa com "é soberbo... ", vv. 4-5) descreve os resultados.

A maior parte do que está dito no v. 3 já foi dito antes. Que o herético ensina falsa doutrina foi dito em 1:3; sãs palavras é repetição da metáfora médica de "sã doutrina", encontrada pela primeira vez em 1:10; a combinação de sãs palavras e doutrina que é segundo a piedade para descrever a verdade do evangelho ocorreu em 4:6; e que o ensino deve ser segundo a piedade eusebeia reflete o "mistério da piedade" de 3:16 e a verdadeira piedade que se opõe às fábulas profanas de 4:7-10.

O que é novo no parágrafo é a expressão as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo. Pensam alguns que isto se refiriria ao que talvez se encontrasse nalgum evangelho escrito e, desse modo, significaria as palavras proferidas por Cristo. Mas isso deixa de considerar a ênfase dada por Paulo, a saber, que os falsos mestres abandonaram a verdade do evangelho, que procede de nosso Senhor Jesus Cristo, que é a origem suprema da fé, ou "piedade", que Paulo proclamava. O fato de eles abandonarem a Cristo (isto é, o evangelho) é seu grave erro.

Os vv. 4-5 descrevem os resultados de os falsos mestres haverem se desviado do ensino são. Paulo começa caracterizando o falso mestre de duas maneiras: Primeira, é soberbo e nada sabe (cp. o " ignorante cheio de pompa", da NEB). Esta acusação reflete um assunto freqüente de Paulo, a saber, que os que abandonam a verdade do evangelho julgam a si mesmos como sábios, ou "bem informados" e desse modo incham-se de auto-importância quando, na realidade, nada entendem.

Segunda, delira acerca de questões e contendas de palavras. Com um belo trocadilho Paulo descreve o oposto de "sãs palavras" como enfermidade, delírio, "ânsia mórbida" (BAGD) por controvérsias, ou contendas de palavras. Já observamos que seus ensinos levam a "con­versa sem sentido" (controvérsias; discursos vãos — veja disc. sobre 1:4, 6); fomos prevenidos pelo que está registrado em 2:8, de que tais contendas geram discórdias. Agora, tudo isso está explicado com clareza (cp. 2 Tm 2:23-25; Tt 3:9). O que a princípio eram meras "espe­culações ociosas" (1:4) no fim leva a contendas de palavras (no grego, uma palavra composta de logoi," palavras" e mache, "luta", significan­do "batalhas verbais").

O homem é soberbo e delira; a soberba e a ânsia doentia de engajar-se em controvérsias e levar adiante batalhas verbais têm, por sua vez, dois efeitos devastadores. Primeiro, produzem uma comunidade despedaçada e doentia. Quando os mestres abandonam o evangelho e discutem e brigam, isto acarreta invejas ou ciúmes — as pessoas tomam partidos — sendo isso pecado mortal (veja Gl 5:21; Rm 1:29). As invejas em geral explodem em porfías (ou "contendas"). Isto, também, está nas listas de Gl 5:20 e Rm 1:29. As duas palavras aparecem juntas, caracterizando os oponentes de Paulo em Filipenses 1:15 (cp. 1 Co 3:3). Porfías (cp. Tt 3:9) por sua vez ocasionam blasfêmias (cp. Tt 3:2) e ruins suspeitas. Quão egoísta é o ensino do erro — e quão destrutivo! E quantas vezes é feito em nome do "conhe­cimento" e da sabedoria (cp. 1:7; 6:20-21)! Finalmente, resultam em permanentes contendas. Esta palavra ocorre só aqui, no NT, e significa constante atrito (Moffatt) ou "irritação mútua" (Goodspeed) entre pessoas.

O segundo resultado da "enfermidade" (o herege delira), é o que o erro vem fazendo aos próprios falsos mestres. Eles se tornaram homens corruptos de entendimento; a metáfora da enfermidade chega à con­clusão: decadência e corrupção da mente. Que tais mentes corruptas foram despojadas da verdade é repetição de tema comum. Os crentes chegaram a conhecer a verdade (2:4; 4:3; 2 Tm 2:25); esses homens foram despojados dela (cp. 2 Tm 2: 18; 3:7, 8; 4:4).

Tais homens corruptos de entendimento, não mais possuindo a verdade, por fim evidenciam em sua maneira de pensar que a piedade (eusebeia; cp. 3:16; 4:7-8) é fonte de lucro (ou "proveito"). Esta acusação final, insinuada em 3:3, 8, parece desmascarar o que eles têm feito o tempo todo. Esses homens ensinavam, porque isso lhes proporcionava um meio de "ganhar dinheiro". Embora Paulo não nos diga com precisão o que isso significa, quanto a esses mercenários, o ensino da filosofia como "manto para acobertar a ganância"  (1 Ts 2:5, RSV; "intuitos gananciosos", ECA), era uma acusação comum na Antigüidade (veja, p.e., Dio Chrysostom, Oration 32, e da qual Paulo teve de defender-se pelo menos em uma ocasião (1 Ts 2:4-9; cp. Gl 1:10). Talvez esses falsos mes­tres tenham colhido algumas pistas da cultura, passado a bajular as pessoas — e por fim tomado o dinheiro delas. Deve-se notar, em conclusão, quantas coisas negativas sobre os hereges têm equivalências positivas nas qualificações para líderes da igreja em 3:2-12.

Esse problema da ganância dos falsos mestres é tão crucial que Paulo agora vai dispensar-lhe atenção especial (vv. 6-10). Ele reage de duas formas à maneira de eles pensarem em eusebeia como meio de benefi­ciar-se: nos vv. 6-8, Paulo mostra a relação entre a verdadeira piedade e o dinheiro — este nada tem que ver com aquela — e nos vv. 9-10, mostra o verdadeiro fim dos que desejam dinheiro.

 

6:6 Este versículo contrasta de pronto com as últimas palavras do v 5, num chocante trocadilho. É grande fonte de lucro a piedade. Eles pensam que piedade " é meio de tornar-se ricos". Estão certos, em parte. Há grande lucro (ou ganho, agora usado metaforicamente) na eusebeia, desde que esta venha acompanhada por contentamento, isto é, se estivermos satisfeitos com o que temos e fazemos, e não buscarmos lucro material.

A palavra autarkeia (contentamento) expressa a virtude predileta dos filósofos estóicos e cínicos, para os quais ela significa “auto-suficiência" ou a capacidade de o indivíduo confiar em seus próprios recursos. Alguns há (D-C, Hanson, Brox, et ai.) que consideram essa tradição filosófica como jazendo por trás dos vv. 6-8 e, por isso, traduzem: " Se ela estiver ligada à auto-suficiência" (D-C; cp. NEB, "cujos recursos estão dentro dele"). Mas Paulo já empregou esta palavra num contexto análogo em Filipenses 4:11; aqui ele " virou a mesa" em cima dos estóicos ao declarar que a verdadeira autarkeia não é a auto-suficiência, mas o Cristo-suficiência. Para Paulo, portanto, a palavra significa contentamento, a dotação de poder que Cristo nos concede para vivermos tanto acima da escassez quanto da abundância (Fp 4:13). De mais a mais, não há indício em 1 Timóteo de que seu autor considerava virtude qualquer coisa parecida com auto-suficiência. A vida para ele depende da graça e das misericórdias de Deus (1:12-17); o ministério paulino procede de Cristo, que o designou e lhe deu poder para executá-lo (1:12).

O objetivo de Paulo, portanto, é combater a ganância dos falsos mestres e, de modo incidental, a ganância de outros que por elafossem tentados.

 

6:7-8 Paulo dá agora dois motivos pelos quais o contentamento deveria acompanhar a piedade e por que, quando isso ocorre, temos "grande fonte de lucro". O primeiro motivo (v. 7) é, antes de tudo, escatológico. Nada podemos levar conosco por ocasião da morte (ou da parousia), por isso o ganho material é irrelevante, e a ganância, irracional. O texto grego é indicativo — e particularmente esquisito — na forma, mas ECA capta bem o sentido. Porque nada material trou­xemos para este mundo ao nascermos, e nada podemos levar dele ao morrermos. Este sentimento também pode ser encontrado entre os estóicos, mas é com precisão o ponto de vista de Jó 1:21: "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá" (ECA; cp. Ec 5:15; Fílon, On the Special Laws 1. 294-95, onde ele se expressa em termos muito chegados aos de Paulo e então o sustenta aludindo a Jó 1:21). A ênfase de Paulo recai sobre a segunda cláusula, nada podemos levar do mundo; diante desta realidade escatológica, a ganância não faz nenhum sentido.

Todavia, Paulo acrescenta como segundo motivo, tendo, porém, Sustento e com que nos vestir, estejamos contentes (o verbo oriundo do mesmo substantivo do v. 6). De novo se alega que isto "reflete o espírito do estoicismo" (D-C, p. 85), o que é verdade. Mas também reflete com mais precisão o ensino de Jesus (Lc 12:22-32; Mt 6:25-34), que em ambos os evangelhos é colocado de modo independente num contexto que condena a ganância (Lc 12:16-21; Mt 6:24). Desse modo, as coincidências com o estoicismo(Filos.Designação comum às doutrinas dos filósofos gregos Zenão de Cício (340-264) e seus seguidores Cleanto (séc. III a. C.), Crisipo (280-208) e os romanos Epicteto (c. 55-c. 135) e Marco Aurélio (121-180), caracterizadas sobretudo pela consideração do problema moral, constituindo a ataraxia o ideal do sábio.) são incidentais; o que parece acontecer nos vv. 7-8, pelo contrário, é muito semelhante ao que Paulo escreve em 5:18. Faz alusão a um texto do AT (v. 7) seguida por uma alusão ao ensino de Jesus (v. 8).

A questão é bastante clara. A piedade não é algo que proporciona lucro material (v. 5); antes, ela é em si mesma o maior lucro (v. 6). A verdadeira piedade, contudo, é acompanhada por contentamento (v. 6). Uma vez que nada podemos levar conosco por ocasião de nossa morte (v. 7), se temos os essenciais da vida, podemos estar contentes (v. 8); e tal atitude obviamente exclui a ganância.

 

6:9-10 Agora, mediante contraste com os vv. 6-8, Paulo retorna aos falsos mestres e sua avareza. O que ele diz no v. 9, é claro, tem alcance mais amplo, sendo verdadeiro com referência a todos os que querem ficar ricos. A carta é escrita, afinal de contas, para que a família de Deus se comporte de acordo com a verdade e com a piedade real. Assim, ele generaliza de início, descrevendo os resultados da ganância, que se aplicariam a todos. Mas o v. 10 deixa claro que alguns já capitularam, o que vincula todo o parágrafo ao v. 5. Desse modo, os vv. 9-10 são triste comentário final de Paulo — e o julgamento — sobre os falsos mestres. Eles querem ficar ricos.

Os resultados da ganância são uma espiral descendente. Primeiro, os gananciosos caem em tentação. A avareza tem um jeito de fazer as pessoas olharem em direções que de outro modo nunca teriam olhado. Como bem sabe o caçador, a sedução da isca (tentação) é que induz a presa a cair em laço. As duas andam juntas. O laço, neste caso, são as muitas concupiscências loucas e nocivas. A palavra concupiscências muitas vezes tem conotações sexuais, mas não há motivo para que se lhe aplique esse sentido aqui. As muitas concupiscências loucas talvez sejam a própria riqueza, que recebe o nome de loucura porque ela nada tem que ver com a verdadeira piedade, e de nocivas porque, em última análise, submergem os gananciosos na ruína e perdição.

A questão de Paulo é que o próprio desejo de riqueza carrega perigos espirituais inerentes, em parte porque (vv. 6-8) a riqueza em si não tem relação com a piedade, de maneira alguma, e em parte porque (v. 9) as concupiscências são laço colocado pelo próprio Satanás para afundar o indivíduo em ruína espiritual. Em outras palavras: Por que os indivíduos querem ficar ricos? A riqueza não tem relação alguma com nossa existência escatológica em Cristo; pelo contrário, a concupiscência leva a outros desejos que terminam em ruína, e dessa verdade os falsos mestres são o principal exemplo (v. 10).

No v. 10, um texto que tem sofrido muito abuso, Paulo conclui, de dois modos, sua acusação contra os falsos mestres. Primeiro, ele cita, ou faz alusão a um provérbio bem conhecido, que apóia seu argumento no v. 9 acerca dos maus efeitos da concupiscência da riqueza. Segundo, ele focaliza tudo isto nos falsos mestres, que de maneira vivida ilustram a verdade do que foi dito no v. 9.

Porque, diz Paulo, agora como evidência apoiadora, pois, neste caso o provérbio comum está perfeitamente certo: O amor do dinheiro é [melhor: "a"] raiz de todos os tipos de mal. Este texto não diz, como muitas vezes é citado errroneamente, que o dinheiro é a raiz de todo o mal, nem tenciona dizer que todo o mal que se conhece tem como raiz a avareza. Um provérbio muito semelhante a este ("O amor do dinheiro é a cidade-matriz de todo o mal") era largamente usado na Grécia antiga. Por natureza, os provérbios são breves, enfatizam expressões particula­res de certas verdades, muitas vezes de forma imprecisa e, para produzir efeito, exageram. Desse modo, o problema de Paulo não é precisão teológica quanto à relação da ganância com os demais pecados. Tanto judeus como gregos, muito tempo antes já haviam reconhecido os efeitos desastrosos que a avareza produzia na vida das pessoas, os quais eles expressam mediante provérbios. Paulo está apenas citando um provérbio como apoio a seu argumento de que a ganância é laço repleto de muitas concupiscências nocivas conducentes a todos os tipos de pecado.

A prova viva de tudo isto encontra-se nos presbíteros teimosos da igreja de Éfeso. Nessa cobiça alguns se desviaram da fé. Mercadejavam o evangelho trocando-o por doutrinas diferentes e, em assim fazen­do, se trespassaram a si mesmos (lit.," empaladas") com muitas dores.

Dessa maneira, a acusação final contra eles é trágica, e para Paulo muito dolorosa. Aqui estavam homens bons, que haviam surgido como líderes na igreja de Éfeso. Mas haviam-se deixado enredar por Satanás. Ninguém sabe como nem por quê eles se enamoraram de novas idéias, apaixonaram-se por interpretações especulativas, ou arranjaram aparência de bondade, ao apelar para um ideal ascético, um cristianismo elitista. Mas, no íntimo eles amaram o dinheiro, e isto os arruinou. Desviaram-se da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores, como por uma espada.

 

Bibliografia D. Fee

 

                                                     SEGUNDA CARTA A TIMÓTIO

 

                                  PAULO ANIMA TIMÓTEO

 

 

 

A PREOCUPAÇÃO PELO BEM-ESTAR DE TIMÓTEO (1.3,4)

 

 

 

Era habitual nas cartas dos tempos antigos colocar, imediatamente depois da sau­dação, expressões de preocupação pelo bem-estar do destinatário. Em geral, Paulo segue esta convenção, embora por alguma razão, dentre as três Epístolas Pastorais só aqui ele o fez: Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com uma consciência pura, porque sem cessar faço memória de ti nas minhas orações, noite e dia (3). O apóstolo está falando de seu histórico até certo ponto totalmente diferente do que escreveu na primeira carta. Lá (1 Tm 1.13), ele diz que outrora era "blasfemo, e perseguidor, e opressor", ao passo que aqui ele fala em servir ao Deusdos seus antepassados com uma consciência boa. Estas duas atitudes não são mutua­mente excludentes. Na primeira carta, ele estava pensando em sua oposição a Cristo, a quem, até que os seus olhos se abriram, ele considerava impostor. Nesta carta, ele admi­te quehouve em sua vida certa continuidade entre judaísmo e cristianismo. Ainda que reconhecesse as fraquezas inerentes ao judaísmo sem o seu cumprimento em Cristo, ele nunca deixou de apreciar os valores permanentes de sua herança. Esta verdade se mos­tra claramente em Romanos 9.3-5 e novamente em Filipenses 3.4-6.

 

O apóstolo nos dá quase que casualmente um vislumbre da intensidade e continui­dade de sua vida de oração. Timóteo é levado ao trono da graça noite e dia (3). Paulo declara o mesmo fato concernente às suas igrejas e companheiros no evangelho. Como é ampla a solidariedade e como é grande a preocupação de alguém que tinha responsabilidade tão constante! Chegamos a pensar que entre as pressões da vida prisional ele tenha querido dar uma pausa nessa tremenda responsabilidade. Contudo, sua responsabilida­de pela obra de Deus é ainda maior que antes, agora que a voz pregadora fora silenciada. Vemos claramente o profundo sentimento do apóstolo por Timóteo e a grande soli­dão de sua situação: Desejando muito ver-te... para me encher de gozo (4). Paulo era uma pessoa que tinha saudades de seus amigos e que se sentia confortado e fortalecido com a solidariedade e entendimento de seus companheiros em Cristo. Encontra­mos essa atitude repetidamente nesta carta; por exemplo, em 4.9: "Procura vir ter comigo depressa"; e em 4.21: "Procura vir antes do inverno". Suas cartas às igrejas também contêm expressões de afeto a indivíduos a quem ele nomeia. Não há palavras que expressem a preciosidade de companheirismo dessa qualidade, o qual só ocorre no contexto da fé cristã.

 

O apóstolo recorda a aflição de Timóteo na despedida da última vez que se viram: Lembrando-me das tuas lágrimas (4). O texto não diz quando isso ocorreu, mas pode­ria ter sido a ocasião em que Paulo foi encarcerado pela segunda vez e levado para Roma para o aprisionamento final. Ver de novo o jovem Timóteo, como diz esta versão, "torna minha felicidade completa" (NEB; cf. BAB, NVI).

 

 

 

A HERANÇA DE TIMÓTEO (1.5)

 

Neste momento, Paulo lembra a herança de fé de Timóteo: Trazendo à memória a fé não fingida que em ti há, a qual habitouprimeiro em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti (5). Ao falar da fé não fingida de Timóteo, o apóstolo não está pensando na fé que "é dom de Deus" (Ef 2.8), mas na reação ao amor de Deus em Cristo que fluía espontaneamente do coração de Timóteo. Esta mesma reação caracterizou a atitude da mãe e da avó do jovem. Talvez isso queira dizer que a avó Lóide foi o primeiro membro da família a aceitar Cristo como Salvador e Senhor, e que ela foi instrumento para levar os demais membros a aceitar a fé cristã. Ou, como é mais provável, Paulo está se referindo à atitude de fideli­dade e devoção religiosa que vinham caracterizando a família de Timóteo por, no míni­mo, três gerações, começando no judaísmo e atingindo sua plenitude e desenvolvimento no reconhecimento de Cristo Jesus como Messias e Senhor. No versículo 3, Paulo falou com apreço de um histórico semelhante a este sobre sua própria vida. Paulo e Timóteo tinham crescido entre os judeus da Dispersão que estavam "esperando a consolação de Israel" (Lc 2.25) e a acharam em Jesus.

 

 

 

DESPERTE O DOM DE DEUS QUE EXISTE EM VOCÊ (1.6,7)

 

Por este motivo, te lembro que despertes o dom de Deus, que existe em ti pela imposição das minhas mãos (6). Phillips traduz as palavras por este motivo assim: "por causa dessa fé" (CH). Isso dá a entender que é a confiança resoluta de Paulo na realidade da devoção de Timóteo a Cristo que ocasiona a exortação: Despertes o dom de Deus, que existe em ti pela imposição das minhas mãos. Em 1 Timóteo 4.14, o apóstolo expressa de forma negativa este mesmo conselho: "Não desprezes o dom que há em ti". Esta é uma necessidade perene no coração de todos os cristãos, sobretudo daqueles que são promovidos à posição de líderes na igreja. Corremos o perigo constante de nosso ardor diminuir e de nossos passos afrouxarem. Precisamos renovar periodica­mente nosso compromisso e reafirmar nossa lealdade; "ponhas em chamas o dom de Deus" (NEB; cf. NVI). Este é o significado básico de despertamento, o qual tem de ocor­rer periodicamente em todos nós.

 

A alusão à imposição das minhas mãos (6) mostra que Paulo tem em mente as qualificações divinamente dadas a Timóteo para a obra do ministério. Se estas qualifica­ções não foram dadas no culto de ordenação, foram certamente afinadas e postas em evidência nessa experiência.

 

No versículo 7, Paulo destaca pelo menos uma parte deste dom espiritual: Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de modera­ção (7). Esta tradução é boa: "Pois o espírito que Deus nos deu não é espírito covarde, mas de inspirar força, amor e autodisciplina" (NEB). Não temos justificativa em presu­mir, como fazem alguns, que Timóteo estivera desempenhando o papel de covarde em seu trabalho em Éfeso, pelo que está sendo categoricamente repreendido. Na verdade, Paulo é gentil em sua repreensão, não usando o pronome "te", mas nos, como se se incluísse com Timóteo. A tarefa que Timóteo foi chamado a fazer pode ter exigido quali­dades que não eram inatas a alguém de índole calma, mas que devem ser desenvolvidas para que a obra de Deus prospere. Um espírito de ousadia santa é a ordem do dia; uma força vigorosa, um amor que é de qualidade e origem divinas e um autodomínio que torna o espírito submisso a Deus, o dominador do corpo.

 

 

 

SEJA DESTEMIDO EM SEU TRABALHO (1.8-10)

 

Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu (8). Este sentimento incipiente de vergonha concernente ao testemunho de Cristo pode não fazer parte da experiência de alguém tipicamente extro­vertido. Mas para pessoas naturalmente tímidas, como Timóteo evidentemente era, pode ser penosa prova de lealdade. Paulo exorta a Timóteo a livrar-se disso resolutamente. A propensão a ter vergonha de Paulo, o prisioneiro de Deus, pode advir do fato de que o apóstolo fora inserido no rol dos criminosos e agora sentia o peso cruel da justiça paga. Além disso, o cristianismo estava vivendo sob condições novas e perigosas. Já não era tolerado como antes, mas era considerado (equivocadamente, claro) como inimigo do estado. Dar testemunho franco e aberto da fé que alguém tivesse em Cristo poderia pôr a vida em risco de quem o desse. Testemunhar destemidamente exigia coragem de deter­minado tipo. Paulo manda Timóteo não recuar: Antes, participa das aflições do evan­gelho, segundo o poder de Deus(8). Esta ordem significa, literalmente, "tomar parte nos maus-tratos de outrem". E Paulo lhe garante que ele suportará "com a força que vem de Deus" (NTLH; cf. CH).

 

Os versículos 9 e 10 fazem um resumo paulino tipicamente do milagre da graça divina que Deus revelou na obra de redenção em Cristo: "Deus" (NTLH) nos salvou e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tem­pos dos séculos (9). Já é um fato realizado que Deus nos salvou.Esta é a posição segura do verdadeiro cristão. A salvação, neste sentido, não é transferida para o futuro distante, mas é a experiência atual do crente. Não obstante, há um propósito crescente na misericórdia de Deus e um crescimento na graça que levam a um enriquecimento contínuo dessa experiência. Deus nos chamou com uma santa vocação. Isto significa mais que uma santidade existente só de nome ou que é meramente imputada ao crente pela santidade suprema de Deus; significa que o crente é liberto dos seus pecados e da culpa e poder que neles há. A vocação de Deus é a uma experiência e vida que acarreta numa consagração completa, da parte do crente, e numa limpeza interior completa, da parte de Deus. Mas Paulo avisa imediatamente que isto não é segundo as nossas obras,pois estas são totalmente indignas. Mas é segundo próprio propósito e gra­ça de Deus. A iniciativa é de Deus neste assunto. É ele que nos desperta de nossa morte no pecado e nos chama à santidade; e é através de suas intercessões pelo seu Espírito que o aceitamos — aceitação que é possibilitada unicamente por sua graça capacitadora. O milagre da transformação humana é totalmente proveniente de Deus, embora nosso consentimento em total liberdade seja essencial para a sua realização. E tudo isto per­tence aos conselhos e propósitos eternos de Deus, uma misericórdia que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos (9; ou "antes do início dos tempos", CH; cf. BV, NTLH).

 

O versículo 10 revela que a resolução de Deus redimir e salvar os homens do pecado é manifesta, agora, pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo. O plano de salvação de Deus não é uma reflexão tardia ou plano emergencial encontrado pelo Cria­dor depois que outros planos fracassaram. A entrada de Deus na história por meio de Cristo é um cumprimento no tempo certo do grande desígnio de Deus Todo-poderoso concebido na eternidade.

 

A vinda de Cristo representa uma invasão no tempo pela eternidade, uma escatologia realizada, como C. H. Dodd a concebeu; um desfrute nesta vida atual das "virtudes do século futuro" (Hb 6.5). Paulo afirma, por conseguinte, que Jesus aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a incorrupção, pelo evangelho (8). Esta é afirma­ção surpreendente, e de certo modo estranha na boca de alguém que está a ponto de morrer! (cf. 4.6-9). Em que sentido ousamos crer que Cristo aboliu a morte? Simpson diz que o verbo grego traduzido poraboliu, conforme Paulo o empregou, "significa fazer nugatório, frustrar, anular, desmantelar". Repare nesta tradução: "Jesus Cristo [...] quebrou o poder da morte" (BV; cf. NTLH, NVI). A própria vitória de nosso Senhor sobre a morte privou-a de qualquer terror que ela tivesse, de cujo fato o testemunho triunfante de Paulo nesta carta é prova clara. Porque Cristo trilhou este caminho an­tes de nós, não precisamos temer em segui-lo. Não só a morte foi abolida, mas a vida e a incorrupção foram trazidas à plena luz e colocadas ao alcance da fé. Temos aqui uma mistura estranha, mas sublime, de dois mundos. A vida diz respeito ao tempo, enquanto que a incorrupçãopertence à eternidade; mas, por Cristo, ambas são pos­tas ao nosso alcance aqui e agora.

 

 

 

Bibliografia J. Gould

 

 

 

 

 

COMO LIDAR COM OS FALSOS MESTRES (2.14-19)

 

 

 

O que Promover (2.14,15)

 

 

 

Traze estas coisas à memória (14). As pessoas precisam ser lembradas constantemente das coisas que já sabem, mas correm o risco de esquecer ou negligenciar. É óbvio que Paulo está pensando na verdade que foi sua missão de vida proclamar; a responsabi­lidade que agora está em grande parte nas mãos de Timóteo. O pastor fiel terá de ser, por necessidade, um tanto quanto repetitivo nos destaques do seu ministério. Há muitas verdades importantes que só podem ser ensinadas pelo método "mandamento sobre mandamento, mandamento e mais mandamento, regra sobre regra, regra e mais regra". Paulo já havia exortado o jovem nesse sentido, e o que ele está dizendo agora é: "Conti­nue a lembrar essas coisas a todos" (NVI; cf. BV, CH); mantenha o bom trabalho.

 

Paulo fica mais explícito, revertendo a um tema que já tratara em 1 Timóteo 1: Ordenando-lhes diante do Senhor que não tenham contendas de palavras, que para nada aproveitam e são para perversão dos ouvintes (14). O apóstolo está expressando novamente sua preocupação sobre a conduta dos autodenominados mestres na igreja efésia, cujas táticas promoviam controvérsia, amargura e divisão. Tal conduta teria o efeito de semear discórdia entre irmãos (cf. Pv 6.19). Isto "somente desmoraliza os ouvintes", como traduz Kelly as palavras: são para perversão dos ouvintes.

 

Paulo então trata Timóteo diretamente acerca do ministério deste: Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade (15). Sobre a frase procura apresentar-te a Deus aprovado,esta tradução mostra o verdadeiro significado: "Esforça-te arduamente em te mostrar digno da aprovação de Deus" (NEB). Isto tem a ver com as horas gastas no tipo de trabalho intelectual que é indispensável ao verdadeiro sucesso ministerial; mas também diz respeito à postura de ardor incansável que deve caracterizar a atitude do ministro para com sua missão. Scott vê nas palavras a Deus aprovadoreferência velada ao julgamento final, quando Timóteo enfim terá de prestar contas. A palavra grega traduzida por obreiro quer dizer, basicamente, trabalhador agrícola; por isso, as palavras que maneja bem são traduzidas pela expressão "que ara um sulco reto" (NEB). Mas seja qual for a imagem exata que a passagem queira mostrar, está claro que o apóstolo se preocupa que a Palavra de Deus seja submetida a exegese sadia e seu significado correto seja apropriadamente averiguado. Nada é mais essencial que isto para o manejo reverente da verdade bíblica.

 

 

 

O que Evitar (2.16-18)

 

 

 

Mas evita os falatórios ("as conversas vazias", BAB) profanos ("mundanos", NASB), porque produzirão maior impiedade(16). Esta é linguagem idêntica a 1 Timóteo 6.20. Paulo está denunciando novamente os falsos mestres que vinham promovendo dissensão na igreja de Éfeso. Eles estavam fazendo a obra de Satanás, e a familiaridade fingida que mostravam ter com a verdade oculta tinha o efei­to de profaná-la. O curso de ação de Timóteo deveria ser evitar tais ensinos. Nenhum acordo pode ser feito com o erro.

 

Esses falatórios "levam cada vez para mais longe do viver cristão" (CH), quer dizer, promovem a vida ímpia. O versículo 17 enfatiza a virulência de tais ensinos: E a palavra desses roerá como gangrena; entre os quais são Himeneu e Fileto. A palavra seria o "ensino" (NVI) desses falsos líderes. O termo gangrena também é traduzido por "cân­cer" (AEC, NVT, RA); ao passo que Phillips emprega a frase: "Pois os ensinos deles são tão perigosos quanto a gangrena para o corpo e espalham-se como pus de uma ferida" (CH). Eis um perigo mortal cuja ameaça não deve ser mal avaliada. Paulo nomeia dois indivídu­os em particular que se ocupavam em propagar esta infecção moral e espiritual: Himeneu, com quem já nos encontramos em 1 Timóteo 1.20 (além destas duas referências nada mais sabemos sobre ele); e Fileto, que encontramos aqui pela primeira e única vez.

 

O versículo 18 nos mostra a única indicação sobre a natureza do erro pertinente a essas pessoas: Os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já feita, e perverteram a fé de alguns. Scott sugere dois possíveis significados para esta referência. "A idéia", diz ele, "pode ter sido que esta mesma vida, na qual a alma renascia de alguma vida e morte anteriores, era a verdadeira ressurreição. Ou, mais pro­vavelmente, eles interpretavam a doutrina cristã num sentido puramente espiritual; con­siderando que pela fé em Cristo os homens entram na vida imortal, a ressurreição não virá depois da morte, mas já aconteceu." A doutrina daressurreição era o ponto mais sensí­vel no ensino cristão. Denotava o triunfo de Cristo sobre a morte e, por analogia, represen­tava a nova vida em Cristo que os crentes batizados desfrutam. Era também símbolo da esperança que o cristão tinha da vida eterna. Não deve haver adulteração com verdade tão vital como esta; daí a denúncia extrema à qual o apóstolo submete o ensino errôneo.

 

 

 

A Fundação Segura da Verdade (2.19)

 

 

 

O apóstolo não se prende a melindres quando se trata da estabilidade e segurança da igreja de Cristo, como demonstra nitidamente o versículo 19: Todavia, o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniqüidade. A analogia de um edifício ou templo fora, por muito tempo, a favorita de Paulo para apresentar a doutrina da igreja. O fundamento pode ser interpretado de maneiras diversas: refere-se à igreja como um todo ou aos membros experimentados e verdadeiros da congregação efésia. Em comparação com este fundamento robusto e resistente, os falsos mestres eram uma minoria instável. De acordo com a analogia de um edifício e sua fundação e base devidamente chum­bados, o apóstolo vê que o fundamento de Deus tem dois selos. Um selo, inspirado em Números 16.5, diz: O Senhor conhece os que são seus. Diante da rebelião de Cora, Moisés proclamou com estas palavras que Deus conhece e identifica os que são seus e, desse modo, defendeu a liderança de Moisés. Talvez Paulo tivesse em mente que Deus semelhantemente defenderia a liderança do apóstolo nesta situação em Éfeso. O segun­do selo — qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniqüidade — não é citação exata de passagem do Antigo Testamento. É, porém, tão semelhante a Números 16.26, que temos justificativa em pensar que Paulo tinha em mente esta situação antiga quando tratou do problema efésio. Rolston resumiu muito bem a significação dos selos quando escreveu: "A primeira marca do obreiro aprovado é a pureza doutrinária, o ma­nejo reto da palavra da verdade; a segunda marca é a pureza de vida". Estes dois testes de autenticidade nunca devem ser separados.

 

 

 

Bibliografia G. Gould

 

 

 

Exortação para Resistir aos Falsos Mestres (2.14-19)

 

 

 

A preocupação pela “salvação" do "povo escolhido de Deus" expressa no v. 10, mais a exortação à perseverança, com sua advertência contra a apostasia nos vv. 11-13, levam Paulo — e Timóteo — de volta às duras realidades de Éfeso, com a presença dos falsos mestres (cp. 1 Timóteo). Parece que continuam a atormentar a igreja, conforme Onesíforo com certeza havia informado, embora, é claro, nem todos houvessem capitu­lado. Esta preocupação domina o apelo que começa aqui e vai até 4:5. Em 2:14-3:9 o foco recai sobre os falsos mestres e o que Timóteo deve fazer, tendo-os em mente. Assim, há muito em comum com 1 Timóteo 1, 4 e 6. Em 3:10 - 4:5 o foco recai sobre a pessoa de Timóteo e seu ministério, com a presença dos falsos mestres servindo de pano de fundo à exortação. Três questões dominam este parágrafo inicial, as quais preparam o caminho para o restante: uma denúncia contra os falsos mestres e seus ensinos, um apelo a Timóteo para resistir-lhes (tanto aos mestres quanto a seus ensinos), e uma preocupação para que o restante da igreja não capitule. Assim, Timóteo e seus sucessores (Tíquico? cp. 4:12) devem conduzir a igreja na resistência a esses erros.

 

Foi esta preocupação dupla por Timóteo e pela igreja, refletida através de 1 Timóteo, que talvez tenha levado Paulo a esta seção tão comprida sobre os falsos mestres, numa carta de caráter pessoal. Por um lado, o evangelho ainda corre risco em Éfeso e Paulo sente-se constrangido a falar da situação uma vez mais. Por outro lado, Timóteo, embora deva em breve deixar Éfeso, precisa também assumir a responsabilidade pela liderança da resistência, ainda que isso lhe custe sofrimento e adversida­de.

 

 

 

2:14 Este imperativo inicial retoma a preocupação de Paulo pela "salvação" do "povo escolhido de Deus" (v. 10) à sombra da ameaça — e terríveis conseqüências — da apostasia. Ele exorta a Timóteo: lembra-lhes (cp. Tt 3:1) (este "lhes" não existe no texto grego, mas está implícito pelo contexto) estas coisas. Este é o único tauta (estas coisas) imperativo em 2 Timóteo (há um tauta em 2:2; contudo, seu antecedente não é o que precedeu na carta, mas " as sós palavras que de mim tens ouvido" no v. 13). Muitos o consideram como referindo-se a tudo quanto precedeu, ou aos ensinos mencionados em 2:2. Não obstante, o que faz o máximo sentido no contexto é considerar estas coisas como referindo-se especificamente a "fiel é esta palavra" (cp. Tt 3:8). Isto é, em face do "câncer" que se espalha (v. 17) dos falsos ensinos, lembra teu povo da necessidade de perseverança e das horríveis conseqüências da rejeição de Cristo.

 

Este lembrete deve vir acompanhado de uma "ordem" diante do Senhor (cp. 1 Tm 5:2; 2 Tm 4:1); isto é, os que forem adver­tidos devem reconhecer-se como sendo chamados por Deus a prestar contas. Ordenando-lhes, diz Paulo, que não tenham contendas de palavras, que são uma das principais características dos falsos mestres em Éfeso. Assim, o povo de Deus é advertido a não engajar-se nas disputas vazias, sem propósito, especulativas (cp. v. 16) acerca de palavras, estimuladas pelos falsos mestres, porque isso não produz nenhum tipo de bem (cp. Tt 3:8); na verdade, bem ao contrário, traz a subversão dos ouvintes.

 

Este primeiro imperativo, portanto, exorta Timóteo a cumprir suas responsabilidades para com os crentes. É preciso lembrar-lhes a neces­sidade de perseverar, adverti-los solenemente a que não se envolvam nas contendas de palavras dos falsos mestres. Esta advertência será deta­lhada nos vv. 16-18. Antes disso, porém, em consonância com 1 Timóteo, Paulo dirige um recado pessoal a Timóteo.

 

 

 

2:15 Como no caso de passagens semelhantes em 1 Timóteo (p.e., 1:18-19; 4:6-8, 13-15; 6:11-14), este imperativo coloca Timóteo e seu ministério em nítido contraste com os falsos mestres. Em última instância eles buscam aprovação humana (por amor ao lucro; 1 Tm 6:6-10); não, porém, Timóteo: Procura apresentar-te a Deus (no grego, spoudason; cp. 4:9, 21; Tt 3:12; a tradução da KJV, "estuda", tem desencaminhado gerações de cristãos de fala inglesa) aprovado (subentendendo-se "testado e aprovado"; cp. 1 Co 11:19; 2 Co 10:18).

 

Os falsos mestres são mercenários que passarão "vergonha" diante de Deus por causa de seus erros e pecados; Timóteo deve fazer o possível para ser um obreiro que não tem de que se envergonhar. Isto poderia significar (menos provável, contudo) "não se envergonhar do evange­lho". É mais provável que signifique "não se envergonhar porque trabalhou bem"; isto é, em contraste com os falsos mestres, ele deveria trabalhar de modo que não houvesse motivo para "vergonha".

 

A base para que Timóteo não tenha de que se envergonhar, de novo em contraste com os falsos mestres, é que ele maneje bem a palavra da verdade.

 

A expressão traduzida por maneja bem, que ocorre somente aqui no NT (mas cp. Pv 6:3 e 11:5, LXX), é metáfora que literalmente significa "cortar reto". Tem havido considerável especulação quanto à própria metáfora, sobre que tipo de "corte" (madeira, pedras, sulcos) Paulo teria em mente. É provável que se tenha perdido o sentido original da metáfora e a ênfase ficou em fazer-se algo de modo correto. Portanto, ECA traduziu adequadamente. Barrett observa de modo correto que uma intenção semelhante, baseada numa metáfora muito diferente, encontra-se em 2 Co 2:17. Assim, Paulo não está instando com Timóteo para que interprete de modo correto a Escritura, mas que pregue e ensine o evangelho, a palavra da verdade, em contraste com as “contendas de palavras" (v. 14) e "falatórios inúteis" (v. 16) dos ímpios.

 

 

 

2:16 Com este imperativo Paulo volta aos que não são "aprovados", porque não "manejam bem a palavra da verdade" (v. 15). Conforme outras passagens (cp. 1 Tm 4:7; 6:20), o imperativo, neste caso evita (cp. Tt 3:9), vai direto a Timóteo, mas também é de se esperar que os crentes prestem atenção. Tanto a impiedade (tudo que se afasta da verdadeira piedade) como a natureza vazia, sem propósito, do ensino herético, recebem críticas agudas.

 

O motivo por que tais falatórios devem ser evitados (a cláusula do "porque") é um tanto ambíguo, visto que o verbo prokopsousin(produ­zirão maior, lit., "avançarão" ou "farão maior progresso"; cp. 3:9,13) não tem sujeito expresso. O contexto e o pronome desses no v. 17, referindo-se aos falsos mestres, implica claramente que tais pessoas são o sujeito do verbo. Conforme observado em 1 Timóteo 4:15, a expressão "produzirão maior" talvez seja gíria relacionada com a natureza elitista do ensino deles. Assim, com fina ironia, Paulo admite que é certo que estejam "produzindo mais" (" avançando"), mas esse progresso é " mais e mais na impiedade" (asebeia; antônimo de eusebeia, "piedade", que se repete nestas cartas).

 

 

 

2:17-18 Não somente essas pessoas "avançam mais e mais em asebeia", mas a palavra desses também se espalha de modo que causa a ruína de outrem. A palavra (grego logos) aqui contrasta com "a palavra logos da verdade" de Deus, do v. 15.

 

Em consonância com a imagem médica dessas epístolas, a palavra desses, metaforicamente descrita, corrói (lit.," tem pastagem") como câncer. Isto pode significar que ela se espalha como ovelhas num pasto, semelhante ao câncer ao espalhar-se, ou, conforme a GNB," é como uma ferida aberta que devora a carne", dando a entender que o ensino deles devora a vida da igreja, ou dela se alimenta. Em qualquer dos casos, o ensino falso "se espalha", ou "devora" como uma enfermidade e, portanto, deve ser evitada a todo custo.

 

Dois desses mestres são agora identificados: Himeneu e Fileto. Visto que Himeneu não é nome comum, este deve ser o mesmo homem de quem Paulo diz: "entreguei a Satanás" em 1 Timóteo 1:20, mas que ainda está agindo com os que perverteram a fé que tinham alguns. Aqui junta-se-lhe Fileto, de quem nada mais se sabe.

 

Desses dois homens, obviamente líderes dentre os falsos mestres, Paulo diz também que se desviaram da verdade (cp. 1 Tm 1:6 e 6:21, quanto a este uso). No texto grego esta cláusula é seguida pela frase: dizendo que a ressurreição é já passada (cp. 2 Ts 2:2," o Dia de Cristo já tivesse chegado"), uma das duas únicas passagens em 1 e 2 Timóteo onde é dado algum conteúdo da heresia (cp. 1 Tm 4:3). Talvez seja esta alguma forma de escatologia super-realizada, isto é, a plenitude do Fim, especialmente a ressurreição que já cumprida em nossa morte espiritual e ressurreição com Cristo (cp. v. 11; Rm 6:1-11; Cl 2:20 - 3:4).

 

Tal idéia circulou por muito tempo (cp. 2 Ts 2:2; 1 Co 15:22; 4:8) e talvez se relacionasse com a concepção grega da alma como sendo imortal e liberta da existência física por ocasião da morte. Tal dualismo, já observamos anteriormente, pode estar também na raiz do ascetismo em 1 Timóteo 4:3.

 

Mas tal ensino, assegura Paulo a Timóteo, ultrapassa as fronteiras das diferenças legitimas. Na verdade eles pervertem (melhor, "subverteram") a fé que tinham alguns (cp. Tt 1:11). Esta é a grande urgência; onde a preocupação nos vv. 10-13 sobre a "salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna" para o povo de Deus, e sobre a perseverança, para que não sejam rejeitados por Cristo. Para Paulo, negar nossa ressurreição (corporal, futura) é negar a própria fé, em que representa a negação de nosso passado (a ressurreição do próprio Cristo, sobre a qual tudo mais está firmado) e de nosso presente também: nossa existência escatológica tanto como já e como não ainda.

 

 

 

2:19 Como sempre nos escritos de Paulo, não é Satanás que tem a última palavra, mas Deus. Exatamente como no verso 4 do hino/poema do v. 13, e também aqui, a última palavra não é a infidelidade de alguns (v. 18), mas a fidelidade permanente de Deus. Com forte adversativa, todavia, Paulo afirma que, a despeito de algumas defecções e abandonos, o firme fundamento de Deus permanece.

 

Não ficou bem certo o que Paulo tinha em mente, se é que tinha algo, com essa metáfora. Em outros lugares Paulo usa a metáfora do edifício com relação à igreja e faz Cristo (1 Co 3:10-12) ou os apóstolos e profetas (Ef 3:20) o funda­mento. Em face da metáfora que vem depois, nos vv. 20-21, talvez fosse isso que ele tivesse em mente. Mas seria provável que Paulo não objetivasse alguns pontos de referência específicos. A ênfase, como mostra o restante do versículo, está na posse do proprietário, Deus, na certeza do triunfo escatológico dos que são seus. Visto que a metáfora contrasta nitidamente com o fato de a fé que tinham alguns está sendo subvertida, Paulo tenciona afirmar o contrário: O que Deus está fazendo em Éfeso, salvando o povo que lhe pertence (cp. Tt 2:14) para a glória eterna, não pode ser frustrado pela atividade dos falsos mestres. Nesse sentido, é claro, o "edifício" subentendido refere-se à igreja em Éfeso, "os que são seus", ou "os eleitos" (v. 10).

 

Os que são de Cristo e não podem ser subvertidos são reconhecíveis por uma dupla marca. O grego diz literalmente: "tendo este selo". O que Paulo tem em mente é o "selo" da posse com que o arquiteto ou o dono da obra marcavam a pedra fundamental (semelhante em alguns modos às nossas modernas pedras angulares).

 

A dupla inscrição diz: O Senhor conhece os que são seus (cp. Nm 16:5, LXX, da rebelião de Coré). O edifício de Deus descansa não sobre o fundamento instável de conhecermos à Deus, mas no de que ele nos conhece (cp. 1 Co 8:1-3). Este é o fundamento básico de toda a confiança cristã. A ação de Deus é anterior: Ele conhece os que são seus.

 

Mas a ação anterior de Deus demanda resposta. Portanto, a inscrição também diz: "Qualquer que profere o nome do Senhor, aparte-se da injustiça" (a linguagem, lit., é: "que nomeia o nome do Senhor", verti da LXX — Lv 24:16; Is 26:13; o sentimento da segunda parte encontra-se no Salmo 34:14; Pv 3:7). A ordem aos que são conhecidos por Deus é, por sua vez, aparte-se da injustiça, isto é, afaste-se de Himeneu, de Fileto e do ensino deles, os quais reconhecida­mente não são homens de Deus, porque persistem em fazer o mal. No caso deles, o falso ensino gerou a corrupção moral (cp. 1 Tm 6:3-10).

 

Assim, a despeito das incursões devastadoras dos falsos mestres, Timóteo e a igreja devem ser incentivados por esta palavra segura (cp. também de que modo Paulo conclui os dois próximos parágrafos: 2:26 e 3:9).

 

 

 

Bibliografia G. Fee