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a escolha dos diaconos Atos 6
a escolha dos diaconos Atos 6

A nomeação dos sete diáconos At 6:1-7.

 

As três divisões principais do livro de Atos são:

 

1.      A Igreja em Jerusalém (At 1:1-6:7).

2.      A Igreja na Palestina, e primórdios do cristianismo helenista (At 6:8 -8:40).

3.      De Antioquia a Roma, as viagens missionárias de Paulo e de outros (At 9:1-28:31). 

A começar pelo sexto capítulo deste livro, encontramos novas informações históricas, que são postas sob a nossa atenção, no que tange à propagação geral e ao desenvolvimento da igreja cristã primitiva; pois neste ponto temos o começo do crescimento de um tipo helenista de cristianismo, que se distinguia bastante da variedade mais puramente hebreia do cristianismo de Jerusalém. É óbvio que estamos aqui manuseando com uma nova fonte informativa, que não é nem a fonte «Jerusalém A» e nem a fonte Jerusalém B, que transparecem nas narrativas anteriores. O primeiro versículo deste sexto capítulo menciona a «...distribuição diária...» como se os leitores já estivessem familiarizados com o fato, o que indica uma interrupção qualquer, no meio dos informes dados por alguma fonte informativa usada pelo autor sagrado. É mesmo provável que Lucas tivesse selecionado determinadas porções de suas fontes informativas, tendo deixado outras de lado, incorporando em seu volume aquilo que achou mais conveniente e próprio.

 Alguns estudiosos se têm referido a essas fontes informativas, chamando-as de fonte antioqueana. Isso significaria que, nessa localidade, como anteriormente ocorrera em Jerusalém, certos documentos escritos haviam sido preservados, atinentes aos eventos da igreja cristã primitiva, sem falarmos de algumas tradições orais, que Lucas, o historiador, foi capaz de usar em seu material, incorporando tudo como parte integrante de sua narrativa. O trecho de At 11:19-30 fornece-nos os informes históricos sobre a propagação do cristianismo naquela parte do mundo. A passagem de At 12:25 - 15:36 conta-nos como o apóstolo Paulo partiu dali, em companhia de Barnabé, quando de sua primeira viagem missionária, para onde também retornou, completada a mesma. É interessante que nesta seção são muito menos aparentes as características aramaicas, como palavras e expressões; e isso, naturalmente, foi consequência do fato do material histórico ter-se baseado em fontes informativas helenistas, e não judaicas, pelo menos em sua maior parte.

 6:1: Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas daqueles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. 

Em algumas traduções lê-se «...helenistas...», como aqui, mas outras preferem a tradução «gregos». Não há meios de sabermos, com base nas próprias palavras, se esses termos indicam judeus que falavam o grego, que viviam em partes helenizadas do mundo primitivo, fora de Jerusalém, e haviam adotado costumes típicos dos gregos, em contraste com os hebreus mais conservadores, ou se se tratava de indivíduos que não pertenciam à raça judaica. Cadbury, em seus volumes intitulados «Beginnings of Christianity», V, pág. 59, argumenta que se tratava de pessoas não-judias, mostrando que tal termo figura somente em duas outras porções do livro de Atos, a saber, em At 9:29, onde nada existe capaz de indicar o que está em foco, e em At 11:20, onde o contexto mostra, sem a menor sombra de dúvida que estão em mira gregos gentílicos puros. Neste livro de Atos, na sua segunda metade aparecem os termos «helenos» ougregos, ao passo que, em sua primeira metade, figura tão-somente o vocábulo «helenistas». Contudo, Lucas apreciava variar em seu vocabulário, pelo que também nada de certo se pode determinar pelas próprias palavras, no tocante à nacionalidade dos indivíduos envolvidos, a não ser questões de costumes e linguagem.

 A grande dificuldade, que tem feito a maioria dos comentadores rejeitar a ideia de que estão aqui em foco gentios «puros», o que vai de encontro à teoria levantada por Cadbury, não é de origem linguística (isto é, o que possa significar a própria palavra «helenista»), mas antes, a ênfase do próprio livro, que evidentemente expõe a história introdutória de Cornélio no décimo capítulo) como o início da entrada do evangelho entre povos gentílicos puros. Por conseguinte, não é muito provável que Lucas houvesse introduzido tão impensadamente um episódio, neste capítulo, em conexão com uma questão que não tinha o menor vínculo com o evangelismo entre os gentios.

 Parece-nos muito mais provável, portanto, que o vocábulo «...helenistas...», neste caso, visa judeus de raça, embora fossem gentios quanto ao seu idioma e aos seus costumes, ou seja, «judeus helenistas». É possível, no entanto, que entre eles houvesse certo número de pessoas que não trazia sangue judeu nas veias; e talvez também houvesse certo número de indivíduos que fossem gentios convertidos ao cristianismo, embora houvessem sido prosélitos do judaísmo. Seja como for, a verdade é que estamos abordando aqui um período em que a igreja cristã se acha fora das fronteiras do solo estritamente judaico, ou seja, está aqui em foco um ramo helenista da igreja, embora isso não visasse especialmente questões de raça. Esses judeus helenistas, em outros passos bíblicos, são chamados de «dispersão entre os gentios» (Jo 7:35), ou então «a dispersão», ou mesmo «forasteiros da Dispersão» (ver Tg 1:1 e I Pe 1:1). No dia de Pentecoste houve muitos indivíduos convertidos ao cristianismo provenientes desse grupo, e não se há de duvidar que o ramo da igreja, formado com essa gente, começou com aquele núcleo inicial de convertidos. Para sermos exatos, muitos deles mostravam-se mais zelosos, nas questões religiosas, do que os próprios judeus de Jerusalém, que haviam conhecido essas instituições religiosas do judaísmo desde a infância. (Quanto a evidências desse zelo dos prosélitos ou dos judeus helenistas, ver o trecho de Atos 21:27).

 «...murmuração...» As viúvas dos helenistas (embora possa também estar em foco uma declaração geral: as viúvas de todas as outras raças) estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimentos e outros bens, no seio da igreja. Lucas já havia falado como a igreja cuidava dos pobres, em que muitos crentes vendiam as suas propriedades, trazendo o dinheiro apurado aos pés dos apóstolos, a fim de que este fosse distribuído segundo as necessidades de cada um (ver At 4:32,34,35). A distribuição diária, para as necessidades das viúvas, provavelmente se fundamentava nesses fundos. A sociedade judaica providenciava para as suas viúvas o que lhes era necessário, mediante um método similar a esse, porquanto, no templo, havia um tesouro especificamente utilizado para cuidar dos idosos e das viúvas. O cristianismo primitivo copiou esse sistema e, um pouco mais tarde, parece haver reconhecido a existência de um grupo separado de mulheres, que faziam parte de uma lista de viúvas, sendo que para uma delas participar dessa lista tinha de ser julgada digna disso, por parte de oficiais responsáveis da igreja. (Ver I Tm 5:9 a esse respeito).

 Com base nessas circunstâncias, pois, surgiu um desacordo qualquer, porque as viúvas de Jerusalém evidentemente estavam sendo favorecidas acima das viúvas dos judeus da dispersão. Alguns intérpretes, entretanto, pensam que a negligência era para com as viúvas em geral, não meramente helenistas, isso foi o que provocou a queixa. Porém, essa opinião é menos provável do que a outra ideia. Devemo-nos lembrar que a primeira dificuldade a surgir no seio da igreja primitiva foi em torno de questões de dinheiro (ver o quinto capítulo), e agora dinheiro e mulheres produziam a segunda dificuldade; porém, não as próprias mulheres, e, sim, uma disposição de preferência, de preconceito, por parte daqueles que estavam sob a responsabilidade de cuidar das mulheres que não podiam sustentar-se, por serem viúvas pobres e idosas. Ou pode tudo ter sido causado pela negligência da parte dos encarregados dessa questão, incluindo os próprios apóstolos, os quais se ocupavam muito mais da pregação e do ensino, não podendo, por isso mesmo, cuidar minuciosa e atenciosamente de questões como essa da distribuição diária de alimentos, ou de outras questões potencialmente explosivas. Tais mulheres, pois, não mais podiam esperar receber provisões adequadas com base nos fundos gerais da congregação, e alguma providência especial tinha de ser tomada, na comunidade cristã, para dar solução a esse grave problema. (Quanto à importância dessa questão, porque o cuidado pelos pobres e pelas viúvas era reputado uma grande demonstração de piedade, ver o trecho de Tg 1:27). Mui provavelmente estava envolvida uma questão tanto de dinheiro como de alimentos, porque essas viúvas tinham mais necessidades do que de meros alimentos.

 6:2: E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas.

 Vemos aqui a democracia operante na igreja cristã primitiva. Esta foi uma ação democrática. Não devemos supor que todas as pessoas convocadas tiveram parte ativa no debate, pois isso seria impossível, devido ao seu grande número; mas, pelo menos, deve ter-se manifestado um bom grupo representativo. No que tange às questões debatíveis na igreja local, a ação democrática sempre será a melhor, especialmente no que diz respeito às questões financeiras e à expulsão de membros. Qualquer outro tipo de ação pode causar dissensões no seio das comunidades cristãs, porque pontos de vista diversos não podem ser adequadamente ventilados, sobre qualquer assunto, quando apenas um pequeno grupo de anciãos ou de diáconos é que tem o direito de resolver todos os problemas, sem jamais consultar o parecer da comunidade em geral. Por isso mesmo é que a escolha de Matias, em substituição a Judas Iscariotes, foi uma ação da comunidade inteira.

 Além disso, as regras estabelecidas no décimo oitavo capítulo do evangelho de Mateus, referentes à disciplina no seio da igreja e também atinentes às dissensões entre os irmãos (ver Mt 18:15-17), mostram-nos, de forma bem definida, que tais questões devem ser levadas à apreciação da congregação inteira, o que subentende alguma forma de ação democrática. É verdade que existiam muitas formas de governo na igreja primitiva e na igreja dos primeiros séculos de nossa era, sendo que, em muitos casos, é-nos impossível averiguar que tipo de governo foi usado em uma ou outra época da história passada. Além disso, as Escrituras não determinam quaisquer regras fixas no que diz respeito ao tipo de governo que deve prevalecer na igreja cristã. Não obstante, mostramo-nos sábios ao verificar como funcionava a igreja primitiva, beneficiando-nos com o seu exemplo. No entanto, seria cair em exagero declararmos que a democracia é aqui ensinada dogmaticamente como forma necessária de governo no seio da igreja cristã. Pelo contrário, parece que a junta dos apóstolos exercia uma autoridade muito mais vasta do que se verifica hoje em dia, por parte de qualquer junta ou corpo governante das modernas denominações evangélicas. Não obstante, bem podemos aproveitar do exemplo aqui registrado de ação democrática. (Ver outras notas expositivas sobre esse mesmo tema, no sexto versículo deste mesmo capítulo).

 A Importância Do Ensino 

1. Os apóstolos eram evangelizadores, mas coisa alguma—nem o seu trabalho nem qualquer outra coisa—era capaz de entrava-lhes o seu ministério de ensino. O texto presente é demonstração desse fato.

 2. Veja-se como o ministério do ensino está contido dentro da própria Grande Comissão (Mt 28:19,20). O evangelismo, por si só, não pode cumprir essa comissão.

 Ocupação dos diáconos: «...servir às mesas...» Neste caso, a palavra «...servir...» se deriva do vocábulo do qual obtivemos nossa palavra«diácono», que significa «servo» ou «mensageiro». Outra forma dessa mesma palavra grega é usada no primeiro versículo deste mesmo capítulo, onde é traduzida por «distribuição». Neste caso, está mais em vista a ideia de «ministração», de «serviço». Não obstante, esse mesmo vocábulo é usado nas Escrituras para designar os ministérios «espirituais». Epicteto, o famoso filósofo estóico romano (contemporâneo da época aqui historiada no livro de Atos) observou que é uma honra autêntica a um homem ser um diakono (servo) de Deus. O Senhor Jesus aplicou tal termo para si mesmo, nos trechos de Mt 20:28; Mc 10:45 e Lc 22:27, o que nos dá uma ideia do sentido exaltado em que esse vocábulo pode ser utilizado nas páginas da Bíblia.

 «Todo o clérigo começa como diácono. Isso é uma verdade. Mas ele jamais cessa de ser um diácono. O ministro continua sendo um diácono. Cristo veio como diácono, viveu como diácono e morreu como diácono». (Lightfoot, Ordination Sermons, pág. 115). (Ver outras notas expositivas sobre os «diáconos» no sexto versículo deste capítulo).

 «...mesas...» Geralmente se acredita que há aqui uma alusão literal às mesas de jantar, sobre as quais o alimento era posto ante as viúvas, ou em sentido figurado, em que estaria em foco a administração financeira em geral. Por conseguinte, no sentido figurado, poderia estar em mira a mesa dos cambistas, como alusão indireta.

 «Novas situações requerem novas soluções, novas providências, novas organizações, novos métodos; e, acima de tudo, novos homens». (Theodore P. Ferris, in loc). Para essa nova necessidade ou situação, pois, foram convocados novos homens, os quais se tornaram os primeiros diáconos da igreja cristã.

 6:3: Escolhei, pois, irmãos, dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espirito Santo e de sabedoria, aos quais encarreguemos deste serviço.

 

Deve-se observar, com base nessas palavras dos apóstolos, que à congregação é que cabia o privilégio de fazer a seleção, embora os escolhidos devessem ser aprovados e consagrados pelos apóstolos. Trata-se de uma ação democrática bem definida e clara. (Sobre essa questão e sua importância para o governo da igreja cristã, ver as notas expositivas referentes ao segundo versículo deste capítulo).

 O códex B diz «escolhamos», neste ponto, o que indicaria que os apóstolos também participariam da escolha; e talvez assim o tivessem feito. Entretanto, o texto original diz «...escolhei...», conforme aparece em quase todos os manuscritos.

 Por que sete diáconos? Por que foi escolhido tal número de diáconos? As seguintes sugestões têm sido apresentadas como explicação desse fato:

1. Por ser esse o número dos dons do Espírito Santo (ver Is 11:2 e Ap 1:4).

2. Porque sete talvez fosse a representação equitativa dos diversos grupos de que se compunha a comunidade cristã, isto é, três representantes do grupo hebraico, três representantes do grupo helenista e um representante dos prosélitos. Contudo, essa explicação não justifica o número «sete», porque a representação poderia ser feita de outro modo, em que se chegasse a um total bem diferente.

3. Alguns têm suposto que tal número foi regulado pela circunstância de que a cidade de Jerusalém, naquela época, estava dividida em sete distritos. Porém, acerca disso não há qualquer evidência comprobatória.

4. Talvez esse número tenha sido escolhido por ser considerado um número sagrado segundo o pensamento dos hebreus.

5. Alguns pensam que se tratou de uma cópia da corporação distinta ou «collegium», também conhecida como «Septemviri Epulones» ou «Sete Despenseiros» (ver Lucan. 1602), cuja responsabilidade era de cuidar dos arranjos dos banquetes efetuados em honra aos deuses, festas essas mais ou menos análogas ao «ágape» cristão ou festas de «amor», isto é, a «Ceia do Senhor» do cristianismo primitivo, que era muito mais elaborada do que modernamente. A origem desse ofício pagão foi similar ao que se verificou no caso dos diáconos cristãos, pois os lideres pagãos não tinham tempo para dirigir tais funções. (Essa é a interpretação dada por E.H. Plumptre, in loc, embora não tenha sido acolhida com muito entusiasmo pelos expositores, porquanto é bastante difícil que os apóstolos se tenham deixado guiar por um exemplo pagão para a escolha dos diáconos).

 Quais eram as qualificações dos diáconos? Segundo as palavras dos apóstolos, destacam-se três qualidades principais, abaixo discriminadas:

 1. Boa reputaçãoIsso tanto no aspecto positivo como no negativo. Não deveriam ter-se envolvido em qualquer escândalo que lançasse qualquer reflexo adverso sobre sua moralidade ou honestidade. Deveriam ser conhecidos como homens de interesses humanitários, que promovessem o seu ofício e apresentassem soluções equitativas aos muitíssimos problemas.

A palavra «...reputação...» dá-nos a entender que teriam de ser indivíduos testados, ou, segundo o que o seu sentido original entende, que lhes «tivesse sido dado testemunho». Outras pessoas precisam conhecê-los, em seus negócios e em seu caráter passado, testificando favoravelmente acerca deles.

 2. Cheios do Espírito SantoAlguns manuscritos unciais, A e E, além de algumas versões e muitos manuscritos minúsculos posteriores, dizem apenas «santo»; porém, os melhores manuscritos, como P(8), Aleph, BD e muitas versões, dizem tão-somente «Espírito», que é o texto correto neste caso. A palavra «santo» representa pequena expansão feita por escribas posteriores, a exemplo de muitíssimas passagens onde «Espírito Santo» é o título dado ao Espírito de Deus. Aqueles «diáconos», pois, deveriam ter sido participantes da experiência pentecostal não menos que os apóstolos. Devem ter experimentado pessoalmente a promessa feita pelo Senhor Jesus de que aos seus seguidores seria dado o divino «paracleto» ou Consolador.

 É muito provável que os dons espirituais também estivessem em foco. Os diáconos precisavam ser homens dotados de habilidade, sendo homens destacados na comunidade cristã, como homens de Deus, ativos e poderosos no ministério. Deve-se notar que um dos indivíduos assim selecionado foi Estêvão, homem «cheio de graça e poder» (At 6:8), o qual «fazia prodígios e grandes sinais entre o povo».Visto que tais dons espirituais eram tão comuns na igreja primitiva, não somente entre os apóstolos, mas também no caso de outros líderes da segunda linha, é bem provável que a igreja primitiva tenha encarado esses sinais visíveis dos dons espirituais como característica necessária para alguém ser nomeado a qualquer ofício mais elevado, como deve ter sido inicialmente considerado o diaconato. Além disso, o Espírito Santo, que neles estava, sem dúvida instilava-lhes graças cristãs especiais de fé, de amor, de bondade, de paciência, de longanimidade, de mansidão, as quais seriam úteis para o correto exercício de suas funções, porquanto essas qualidades não são menos operações do Espírito Santo, no íntimo do crente, do que os sinais dos dons miraculosos.

 3. Cheios de sabedoriaNaturalmente, essa qualidade era resultado direto do poder habitador do Espírito Santo. Trata-se de uma qualidade ao mesmo tempo negativa e positiva, terrena e celestial. Era mister que soubessem como rejeitar as murmurações e como cuidar delas, sabendo também cuidar dos que eram dados à fraude, à calúnia e à traição por palavras; pois, em seu trabalho de administração do dinheiro, naturalmente se encontravam com muitas pessoas dessa natureza, especialmente visto que tinham de tratar com pessoas mais idosas, nas quais, com frequência, talvez por motivos físicos, se encontra um espírito de partidarismo radical, além de ideias fechadas e preconcebidas. A sabedoria dos diáconos precisava ser terrena e prática, dando eles exemplos de discrição e poupança, além da aptidão pelas coisas e soluções práticas. Contudo, essa sabedoria também teria de ter um aspecto espiritual, fazendo com que olhassem para seus semelhantes com espírito de amor, de ternura e de bondade, sempre considerando seu destino espiritual e eterno, visando o avanço e o desenvolvimento espirituais de suas almas.

 Falando de maneira geral, teriam de ser homens que cuidassem tanto das necessidades físicas como das necessidades espirituais de muitíssimas pessoas, motivo pelo qual teriam de ser indivíduos altamente qualificados.

 É perfeitamente possível que o ofício diaconal, especialmente criado neste ponto da narrativa histórica, não seja idêntico ao ofício mencionado no trecho de I Tm 3:1-13, onde aparecem, dadas pelo apóstolo Paulo, as qualificações necessárias dos pastores e diáconos, porquanto diversas modificações podem ter sido efetuadas no decorrer dos anos. Não obstante, o ofício diaconal, aqui no livro de Atos, foi o precursor dos ofícios inferiores ao apostolado, na igreja cristã; e, originalmente, sem dúvida muito se assemelhava aos ofícios pastoral e diaconal dos anos posteriores.

 6:4: Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra.

 Cada indivíduo tem os seus próprios dons, de conformidade com aquilo que o Espírito Santo prefere e adota, e todos os dons e serviços são igualmente importantes e necessários para o bem-estar da igreja local. (Ver Ef 4:4-16). Todo indivíduo é responsável por fazer o máximo, sob a mão de Deus, no desenvolvimento e uso de seus dons pessoais. Os apóstolos mostraram-se bem sensíveis a esse fato, sendo que também entregaram a outros as funções que podiam ser feitas por outras pessoas, a fim de que tivessem a liberdade de se entregarem aos importantíssimos ofícios e funções da oração, do ensino, da pregação e da evangelização, além do governo geral e da superintendência da igreja cristã, considerada como um todo. O Espírito Santo vinha fluindo através dos apóstolos em grande e poderosa medida e eles não queriam abafar esse fluxo divino, preocupando-se com coisas que lhes cabiam especificamente como deveres. Era mister que os apóstolos não somente orassem, mas também que se dedicassem à oração, para que se aprofundassem nessa prática, a fim de que experimentassem o autêntico e maior poder de Deus, sendo cheios pelo Espírito Santo, a fim de que por ele fossem usados como vasos consagrados. Para tanto, era necessário que se dedicassem à oração e à meditação, quando o crente espera em Deus para que seja cheio pelo Espírito. Também estava nisso em vista as orações públicas, a iniciação e a instrução dos novos convertidos. Somente assim dedicados é que os apóstolos poderiam levantar-se a fim de ensinarem e pregarem movidos pela unção do Espírito, como instrumentos aptos nas mãos do Senhor, a fim de que pecadores se convertessem e fossem transformados segundo a imagem de Cristo Jesus. É segundo se lê nos escritos paulinos: «...com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo». (Ef 4:12,13).

 O mesmo vocábulo do qual obtivemos nosso termo moderno «diácono», é empregado aqui para descrever o ministério deles, conforme se vê no primeiro versículo, onde tal vocábulo é traduzido como distribuição, ou conforme se lê no segundo versículo, onde está em foco a ideia de servir às mesas, demonstrando a lata aplicação dessa palavra a todos os tipos de serviço. Ambos os tipos de serviço, isto é, material e altamente espiritual, eram necessários na igreja primitiva; e ambos visam a glória de Deus, quando são realizados com um coração honesto e sincero.

 No tocante aos deveres aqui expressos, aos quais os apóstolos precisavam dedicar-se, Calvino (in loc.) diz: «Há uma outra maneira de estudo, outra maneira de zelo, outra maneira de constância requerida, a fim de que, na realidade, pudessem ufanar-se de que estavam inteiramente dedicados a esses misteres».

 Devemos observar quais os elementos que este texto sagrado mostra serem necessários ao ministério espiritual, comparando isso com a filosofia e o costume da igreja moderna, cujo lema é atividade apenas, onde a ênfase recai exclusivamente sobre o que fazemos, e não sobre o nosso desenvolvimento espiritual, isto é, naquilo em que devemos ir sendo transformados.

 6:5: O parecer agradou a todos, e elegeram a Estêvão, homem cheio de fé e do Espirito Santo. Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia,

 No que diz respeito às questões de governo eclesiástico é importante notarmos aqui que os oficiais e líderes da igreja primitiva eram nomeados e eleitos pela ação da comunidade inteira dos crentes, e não meramente por ação dos apóstolos. Apesar de que o N.T. não estabelece quaisquer preceitos dogmáticos quanto ao governo da igreja, é óbvio, por esta passagem bíblica, que a democracia era a forma de governo geralmente seguida. Isso também transparece no caso da escolha de Matias, em substituição a Judas Iscariotes, porquanto os «cento e vinte» irmãos agiram juntamente para preencher tal ofício, como ação essencial da igreja cristã, posto que em seu estágio inicial de desenvolvimento. Nesse caso, os líderes (os apóstolos) tomaram a iniciativa e mostraram quais as necessidades da comunidade, porquanto eram os responsáveis pela questão; todavia, a própria seleção foi feita pela comunidade. (Quanto à «democracia» como forma de governo eclesiástico, ver as notas expositivas relativas ao segundo versículo deste mesmo capítulo).

 

O Problema Da Autoridade 

1. Após a destruição de Jerusalém, e a autoridade por ela representada, no sinédrio judaico, foi necessário que a igreja cristã estabelecesse uma nova autoridade. Não houve uma só resposta imediata para essa necessidade, e, sim, uma espécie de crescimento da solução. Pedro exercia grande autoridade em alguns círculos, conforme fica demonstrado pelas notas de Mt 16:16-20.

2. Porém, a autoridade conferida a Pedro mais tarde passou a ser compartilhada pelos demais apóstolos, segundo se vê em Jo 20:19-23.

3. Entretanto, a autoridade entra em vigor com mais poder quando se alicerça sobre uma larga base; portanto, a igreja, por si mesma (mediante o voto democrático), tornou-se uma autoridade, substituindo os sinédrios locais. (Ver Mt 18:15-18 quanto a isso).

4. A democracia é uma base excelente para a autoridade, porquanto promove a vontade da maioria, e assim deve ser aceitável para a maioria. Portanto, há certa sabedoria na democracia.

 Deve-se observar que nessa lista todos os nomes são gregos. Apesar de ser verdade que muitos judeus da Palestina tinham também um nome grego, além do nome hebraico, é bem provável que a maioria desses diáconos se compusesse de judeus helenistas. Parece quase certo, portanto, que a queixa acerca das viúvas se originara entre os judeus helenistas. E isso fez, naturalmente, com que a maioria dos indivíduos escolhidos para cuidar do problema tivesse sido selecionada dentre os helenistas. Todavia, a menção de Nicolau,prosélito de Antioquia, mui provavelmente significa que ele era gentio puro quanto à sua raça, embora se tivesse convertido anteriormente ao judaísmo, e, subsequentemente, ao cristianismo. Os diáconos restantes dessa lista certamente eram judeus de raça, membros da dispersão, que falavam o idioma grego, tendo sido criados em centros culturais predominantemente greco-romanos. (Ver a nota expositiva sobre o primeiro versículo, quanto ao vocábulo «helenistas»).

 As Características De Estêvão

 1. Ele foi um dos personagens secundários mais distintos do N.T. Era homem dotado de dons espirituais e tinha considerável estatura espiritual.

2. Ele serve de clara demonstração do fato de que os primeiros diáconos não atendiam somente às coisas materiais, em seu ministério.

3. Juntamente com Jesus e seus apóstolos, a Estêvão são atribuídas operações de sinais e maravilhas, veremos mais na lição 07.

4. Estêvão mostrou ser homem dotado de graça singular, debaixo da perseguição, pois, tal como seu Senhor, ele orou solicitando o perdão para seus algozes. (Ver At 7:60 e comparar com Lc 23:34).

5. Estêvão obteve a distinção de haver sido o primeiro mártir cristão. Tornou-se assim o cabeça de uma imensa companhia espiritual.

6. Sua vida influenciou a Paulo, podemos estar certos, e essa foi uma de suas mais significativas contribuições para a causa cristã.

7. A execução de Estêvão foi ilegal, mas Josefo mostra-nos que tais execuções, mesmo no recinto do templo, não eram raras. Pilatos, mui provavelmente, fechou os olhos para o caso, ignorando o incidente.

 O sermão de Estêvão bem como o incidente inteiro de sua morte por martírio, forma um marco muito importante na história da igreja cristã; e isso pelas razões que aduzimos abaixo:

1. Por causa da morte de Estêvão rebentou uma perseguição contra os cristãos (ver o oitavo capítulo de Atos), que só serviu para espalhar mais ainda o testemunho e a expressão da igreja primitiva.

2. A morte de Estêvão foi um fator que eventualmente conduziu Saulo de Tarso aos pés de Cristo (ver At 7:58; 8:1,3 e 22:20).

3. Embora não tivesse sido através do sermão de Estêvão que foi pela primeira vez proclamada a missão universal do evangelho, pelo menos o evangelho foi nessa ocasião mais claramente delineado e enfatizado, porque ele mostrou que a presença de Deus não pode ser localizada.

4. O sermão de Estêvão também demonstrou a atitude perpétua de desobediência por parte da nação de Israel. Por isso é que o tratamento que haviam dado ao Senhor Jesus não era nenhuma novidade, e, sim, a mera continuação de uma desobediência secular. Estêvão mostrou que Abraão e José viveram como peregrinos, e que até mesmo Moisés fora repelido por seus irmãos de raça. Por conseguinte, não deveria constituir surpresa que uma geração inteira de peregrinos se tivesse desenvolvido no cristianismo, e nem que o seu Senhor e Messias houvesse sido rejeitado pelos judeus.

 Abaixo oferecemos alguns detalhes mais específicos sobre a pessoa de Estêvão. O seu nome significa «coroa», e é muito significativo que tivesse sido Ele o primeiro a receber a coroa do martírio, ocorrência essa que, naqueles tempos, se foi tornando acontecimento gradualmente mais comum. Assim é que, quando do concílio de Nicéia dificilmente havia qualquer de seus representantes que não trouxesse alguma marca visível de injúria física, recebida por estar vinculado ao Senhor Jesus; e dificilmente havia alguma família na igreja cristã que não houvesse perdido ao menos um de seus membros como mártir pela causa de Cristo. De fato, começaram a formar-se clubes de mártires, cujos membros buscavam ativamente o martírio, a maioria dos quais não se desapontou nessa busca. Isso obrigou eventualmente às autoridade cristãs a se pronunciarem contra tal prática. Tudo isso contribui para mostrar-nos até que ponto as perseguições contra os cristãos, iniciadas sanguinariamente na execução de Estêvão, se desenvolveram e intensificaram.

 Alguns estudiosos veem, no sermão de Estêvão, evidências de que ele não era natural de Jerusalém, e sim «nascido no estrangeiro»; e essa conclusão mui provavelmente é correta. A luz de sua conexão com a sinagoga dos «libertos», tem-se inferido que ele era um daqueles libertos vindos de Roma, isto é, descendente de judeus que haviam sido levados para Roma como escravos, mas que eventualmente, por diversos meios, obtiveram a sua liberdade, e talvez até mesmo a cidadania romana, em vários casos. Quando Tácito(Anais ii.85) descreve a expulsão dos judeus de Roma, por ordem de Cláudio, fala sobre quatro mil libertos, aos quais intitula «da classe dos libertinos», que teriam sido banidos para a ilha de Sardenha, no mar Mediterrâneo. Com base nesse informe histórico é que alguns eruditos têm suposto que Estêvão fosse natural da Sardenha.

 Há também uma tradição que circulou, pelo menos até os começos do século IV de nossa era, que também foi aceita por Epifânio (que viveu nesse século; ver Haer. xx.4), no sentido de que Estêvão e Filipe eram integrantes do grupo especial de setenta discípulos do Senhor Jesus, segundo se lê no décimo capítulo do evangelho de Lucas, cuja missão simbolizava a admissão das nações gentílicas no reino de Deus, conforme transparece nos trechos de Lc 9:52 e 17:11. Entretanto, essa tradição é de data bem posterior, não havendo realmente qualquer alicerce histórico para ela, e nem possuímos quaisquer meios para julgar a sua veracidade.

 Estêvão era homem cheio de fé e do Espírito Santo. A fé é um aspecto do fruto do Espírito Santo, um desenvolvimento espiritual no crente, que resulta do poder transformador do Espírito que habita no crente, uma evidência da graça divina em sua vida. A fé é mãe de todas as demais graças e virtudes cristãs. A atuação do Espírito Santo pode ser imitada fraudulentamente, mas o serviço cristão contínuo e frutífero só pode ser produto da influência verdadeira exercida pelo Espírito de Deus, e um fruto espiritual autêntico é a prova suprema de sua presença.

 «...Filipe...» De conformidade com a tradição registrada por Epifânio (Haer. xx.4), corrente no quarto século da era cristã, juntamente com Estêvão, Filipe teria sido membro do grupo especial de setenta discípulos missionários, descritos no décimo capítulo do evangelho de Lucas. Todavia, essa tradição não conta com bases históricas e no presente não nos resta nenhum meio de averiguarmos a veracidade ou a falsidade dessa questão. Após o martírio de Estêvão, quando começaram as perseguições contra os cristãos, Filipe levou o evangelho à Samaria, onde o seu ministério se mostrou extremamente frutífero (ver At 8:5-13). De Samaria ele foi para o sul, pela estrada de Jerusalém a Gaza, a fim de levar o eunuco etíope aos pés de Jesus Cristo, do que também se originou a igreja cristã no continente africano. (Ver At 8:26-38). Dali Filipe se dirigiu a Azoto, que os filisteus chamavam de Asdode e partindo dali ele dirigiu um ministério itinerante que o levou até Cesaréia (ver At 8:39,40), onde evidentemente se estabeleceu, conforme se pode depreender de At 21:8. Passou a ser então conhecido como evangelista, título esse que era usado para distingui-lo do apóstolo do mesmo nome. Filipe tinha quatro filhas que eram profetisas (ver At 21:9), e isso nos deixa perceber a elevada qualidade de vida em família que prevalecia no lar de Filipe.

 Dentro da história eclesiástica, Eusébio e outros escritores antigos confundiram o apóstolo Filipe com o evangelista Filipe, cuja carreira começou como um dos sete primeiros diáconos da igreja de Jerusalém. Eusébio (História Eclesiástica iii.31,39, v. 24) informa-nos que Filipe e suas filhas viviam em Hierápolis. Nos dias de Eusébio, o túmulo de Filipe e de suas filhas profetisas podia ser visto naquele lugar; e a essa informação Eusébio acrescenta a citação de At 21:8,9. Porém, essa referência visa bem definidamente o diácono-evangelista, e não o apóstolo. Contudo, a maioria dos eruditos acredita que nesse caso está em foco o apóstolo Filipe, a despeito da confusão criada por Eusébio, que talvez tivesse em vista ao evangelista, e não ao apóstolo. Histórias e tradições subsequentes (que surgiram após ter sido escrito o livro de Atos) são confusas e discrepantes, sendo que também nada de certo se pode deduzir por elas. Os martirologistas gregos faziam de Filipe, em data posterior, bispo de Trales, na Lídia. Os escritores latinos, contudo, afirmam que ele permaneceu em Cesaréia, tendo ali terminado os seus dias. A verdade é que em todas as narrações antigas transparece certa confusão entre o apóstolo Filipe e o evangelista Filipe.

 É interessante observarmos que, neste livro de Atos, tanto Estêvão como o evangelista Filipe ocupam uma atenção maior do que aquela dada à maioria dos doze apóstolos, pois pelo menos muitas coisas nos são contadas sobre esses dois personagens, ao passo que o material dedicado aos apóstolos, excetuando os casos de Pedro e Paulo, é extremamente escasso.

 ...Prócoro...» Esse homem é mencionado exclusivamente neste versículo, o que não nos permite fazer qualquer ideia sobre ele, além do que as Escrituras aqui nos informam, de que ele foi um dos sete diáconos originalmente selecionados pela igreja de Jerusalém. Todavia, tradicional­mente, Prócoro é o autor do livro Atos de João. Porém, trata-se de uma obra apócrifa e fabulosa sobre o apóstolo João. É extremamente improvável que tal livro tenha sido escrito por Prócoro, um dos sete diáconos originais da igreja de Jerusalém. Essa tentativa foi feita para que o citado livro se escudasse sobre a autoridade de Prócoro, como suposta testemunha ocular dos labores do apóstolo João. No entanto, pouco ou nada existe capaz de autenticar essa obra. Essa obra apócrifa, «Atos de João», apresenta Prócoro como companheiro desse apóstolo e seu biógrafo. A arte bizantina faz o apóstolo João dedicar o seu evangelho aPrócoro. Há também uma outra tradição que ajunta que Prócoro foi consagrado por Pedro como bispo da Nicomédia. Porém, nenhuma dessas tradições é digna de confiança.

 «...Nicanor...» Não possuímos quaisquer informações certas, bíblicas ou extra bíblicas sobre esse personagem; e a tradição que assevera que ele sofreu martírio na mesma ocasião em que Estêvão foi executado, sem dúvida é totalmente fictícia.

 «...Timão, Pármenas...» Acerca desses homens também nada se sabe, bíblica ou extra biblicamente, além do fato de que foram dois dos primeiros diáconos da igreja de Jerusalém.

 «...Nicolau, prosélito de Antioquia...» É bem possível que se faça menção aqui ao fato de que era «prosélito», a fim de mostrar que era gentio puro. O mais certo é que primeiramente se tenha tornado prosélito do judaísmo, e depois se converteu ao cristianismo. Tradicionalmente, esse homem é o fundador da seita herética dos nicolaitas, que podia ser encontrada em Éfeso e em Pérgamo, além de outras localidades, condenada em Ap 2:6,15. Tem sido dito acerca dele que ensinava os homens a «abusar da carne» (ver Clemente de Alexandria, Strom. iii.4; Eusébio, História Eclesiástica iii.29). No entanto, Clemente de Alexandria descreveu Nicolau como homem bom, embora houvesse nessa época uma seita que praticava a troca de esposas, escudando-se sobre a suposta autoridade de Nicolau. É evidente que os nicolaitas procuravam obter uma posição de transigência com o paganismo, a fim de permitir aos cristãos participarem de vários costumes e tradições locais, sem qualquer embaraço. Alguns estudiosos têm procurado identificar os nicolaitascom os indivíduos atacados nos trechos de II Pe 2:15 e Jd 11, supondo que sua principal heresia consistia na defesa à lassidão sexual. Existem referências, nos escritos de Irineu, Clemente e Tertuliano, que indicam que essa seita gradualmente se foi identificando como uma organização gnóstica, cujas origens remontavam ao ano 200 D.C. Todavia, outros intérpretes têm negado haver qualquer conexão entre a seita dos nicolaitas e Nicolau, afirmando que o termo «nicolaita» se deriva da forma helenizada do apelativo hebraico Balaão. Por conseguinte, essa seita não teria tido existência real, mas apenas alegórica, pelo que também não teria tido relação alguma com o diácono Nicolau. Tal termo—nicolaitas, portanto, podia ser usado de forma lata, por diversos grupos de expressão religiosa duvidosa. Alguns eruditos chegam mesmo a crer que as tradições que identificam o diácono Nicolau com qualquer culto herético primitivo são tão indignas de confiança como aquelas outras que dizem respeito aos Atos apócrifos escritos supostamente por Prócoro, segun­do se vê nas notas expositivas acima sobre «Prócoro».

 «...prosélito de Antioquia...»

 Isso não indica que os outros diáconos não pudessem ter sido prosélitos, primeiramente do judaísmo e então do cristianismo. O mais provável é que tal epíteto significava que Nicolau foi a primeira pessoa a alcançar projeção, na igreja cristã primitiva, a não perten­cer à descendência de Abraão; e através desse fato o rápido avanço da igreja cristã por território não-judaico é aqui introduzido. Toda essa seção quase certamente se deriva de uma fonte informativa antioqueana, questão essa comentada na introdução a este capítulo. Agora a igreja cristã se afastava paulatinamente de sua expressão judaica; e esses homens representam essa expansão.

 6:6: e os apresentaram perante os apóstolos; estes, tendo orado, lhes impuseram as mãos.

 Vemos aqui o rito da imposição de mãos. Tal rito se fundamenta nas páginas do A.T., onde simboliza o recebimento de algum poder vital, como transferência de poder de uma pessoa para outra. Assim é que ao nomear Josué como seu sucessor, Moisés lhe impôs as mãos, acerca do que lemos que assim lhe infundiu, algo de sua «...autoridade...» (ver Nm 27:20,23). A cura de enfermidades era porsemelhante modo efetuada através da imposição de mãos; e neste último caso os estudos da moderna parapsicologia têm mostrado que há transmissão de uma força real qualquer. Alguns têm pensado que assim também acontecia no caso da consagração de ministros, na igreja primitiva, pois, através desse ato, o Espírito Santo descia sobre os candidatos ao ministério de forma toda especial, a fim de que pudessem ter os dons (no grego, charisma) necessários para desempenho de suas funções. Essa parece ser a indicação dada pelo trecho de I Tm 4:14, no caso da consagração de Timóteo. É possível, por conseguinte, que no começo da história da igreja cristã, quando os dons miraculosos eram comuns, poderes reais fossem transmitidos por meio desse rito. Isso faria da imposição de mãos não uma mera cerimônia, em reconhecimento de dons espirituais já possuídos pelo indivíduo em questão, mas antes, uma aprovação e comissão dada a essa pessoa, para o seu labor cristão.

 Na passagem de At 13:3, entretanto, vemos a imposição de mãos usada no caso de Paulo e Barnabé, que os comissionou para a sua primeira viagem missionária; e à luz desse texto citado, poderíamos argumentar que nenhum novo derramamento do poder do Espírito Santo é ali subentendido, porquanto tanto Paulo como Barnabé já haviam recebido a sua unção especial da parte do Senhor. No entanto, uma nova unção lhes poderia ser conferida, para alguma nova tarefa. Qualquer que seja a verdade em torno dessa questão, o texto sagrado mostra-nos que esse rito era usado mais largamente do que apenas para aprovar a consagração de alguém a diversos ofícios, porquanto podia também assinalar outros eventos importantes do ministério da Palavra.

 Esse emprego principal do rito da imposição de mãos era o sinal formal de que alguém fora consagrado a este ou aquele ofício, o que se verifica até mesmo no caso do sinédrio, em que novos membros eram recebidos através dessa cerimônia. Além disso, o rito da imposição de mãos, e não o batismo em água, parece ter estado vinculado, desde o princípio, à doação do Espírito Santo, como doação inicial, e não meramente para a realização de um ofício qualquer. (Ver At 19:5,6 e 8:17).

 A passagem de Hb 6:2 faz alusão ao ensino sobre os batismos e a imposição de mãos, sem dúvida dando a entender que tais ritos eram usados no caso dos convertidos, a fim de que pudessem ser recebidos na comunhão da igreja primitiva, mediante tal cerimônia. Alguns estudiosos também têm conjecturado que o rito de imposição de mãos era igualmente usado no caso do recebimento de desviados de volta ao redil da igreja. Embora se possam descobrir muitos usos para esse rito, o uso dominante, tanto na igreja primitiva como na moderna igreja evangélica, diz respeito à consagração de alguém para um ofício ou missão especial. Crisóstomo declarou acerca dessa questão: «As mãos dos homens são impostas; mas a obra toda é de Deus. E é a sua mão que toca na cabeça do candidato, contanto que esteja sendo corretamente consagrado».

 A forma mais primitiva do rito de imposição de mãos se encontra nas religiões antigas, que se utilizavam de grande variedade de métodos, como parte da invocação das bênçãos divinas (ver Lv 9:22; Eclesiástico 1:20 e Lc 24:50). O ritual sacramental dos judeus, como no caso do bode que simbolicamente levava os pecados do povo para o deserto (ver Lv 16:21), é outro exemplo disso. Ritos similares acompanhavam as ofertas queimadas, pacíficas e a consagração de sacerdotes, conforme se lê nos trechos de Lv 1:43; 24:4 e Nm 7:12. Nessas cerimônias, a ideia dominante é a da transferência do poder, da bênção ou da culpa. A transferência da bênção para outrem necessariamente subentendia a aprovação do indivíduo envolvido, para qualquer ofício ou missão por causa do que fora realizada a cerimônia.

 O ofício dos diáconos. (Quanto a notas expositivas sobre o «ofício dos diáconos», além dos comentários aqui fornecidos, ver o segundo versículo deste mesmo capítulo).

 1. Teve por origem a controvérsia que surgiu em torno do cuidado pelas viúvas da igreja de Jerusalém, tendo surgido para providenciar os problemas materiais mais essenciais da comunidade cristã; porém, o fato de que era exigido daqueles homens que fossem dotados de elevadas qualificações espirituais, mostra-nos que o trabalho material não era única responsabilidade e labor de que estavam investidos.

2. O ofício diaconal desenvolveu-se e expandiu-se, e os indivíduos nomeados para o mesmo tornaram-se líderes da igreja cristã de muitos outros modos, além de cuidarem do recolhimento das esmolas, embora isso fizesse parte mais importante da vida piedosa, na igreja primitiva, do que estamos acostumados a ver nas modernas igrejas evangélicas. (Quanto a essa questão, ver At 3:2). Por isso é que no N.T. aparecem as histórias relativas a Estêvão e Filipe, os quais não ficaram muito atrás dos próprios apóstolos no que tange ao poder espiritual e à eficácia de seu ministério de evangelismo.

3. Com base no trecho de I Tm 3:8, além do Didache, e dos escritos de Clemente, vemos que o ofício diaconal era reputado quase paralelo ao ofício dos «bispos» ou anciãos. Parece mesmo que os diáconos eram os assistentes mais diretos dos anciãos ou pastores, especialmente por ocasião da celebração da Ceia do Senhor e da consagração de discípulos.

4. Porém, aqui, no livro de Atos, não devemos procurar encontrar tais distinções, porquanto, neste livro histórico, os diáconos se assemelhavam mais a «anciãos» espiritualmente poderosos, que ocupavam a primeira posição de autoridade e poder, depois dos apóstolos. As palavras «apóstolos e anciãos», que se referem aos doze apóstolos e aos sete diáconos, além de outros elementos investidos de grande autoridade, não fazem ainda a distinção a uma terceira classe, a dos «diáconos», os quais, mais tarde, vieram a ocupar ainda um terceiro lugar, após os «anciãos» e os apóstolos. Portanto, por esta altura dos acontecimentos, segundo a narrativa do livro de Atos, ainda não havia atingido o ministério o desenvolvimento que atingiu anos mais tarde, segundo se depreende especialmente pelas epístolas pastorais, escritas por Paulo.

5. No livro de Atos, os sete se conduziam muito mais como administradores e anciãos da igreja local; porém, também mostraram ser missionários de elevada categoria. Por essa razão é que Crisóstomo acreditava que os «sete» não eram «nem presbíteros e nem diáconos», mas antes, ocuparam um ofício sem igual, quase paralelo ao do apostolado. Essa observação de Crisóstomo é parcialmente válida, apesar de que não há ainda razão em supormos que, com base nessa ação tomada pela igreja primitiva, no começo quase de sua história, consagrando aos «sete», as sementes dos ofícios de «ancião» e «diácono» tivessem sido semeadas, e que ambos esses ofícios tenham resultado dessa consagração especial dos «sete».

 No que diz respeito à origem do ofício de diáconos, Adam Clarke (in loc.) apresenta-nos o seguinte comentário: «O ofício de diácono (no grego, 'diakonos') chegou ao meio cristão através da congregação judaica. Toda a sinagoga tinha ao menos três diáconos, os quais eram chamados 'parnasim', palavra essa derivada do vocábulo 'parnes', que significa alimentar, nutrir, sustentar, governar. O 'parnas' ou 'diácono' era uma espécie de juiz na sinagoga; e de cada um deles se requeria doutrina e sabedoria, a fim de que pudessem discernir e passar julgamento justo, tanto nas questões sagradas como nas questões civis. O 'chzan' e o 'chamash' eram também ofícios parecidos com o do diaconato. O primeiro era o delegado do sacerdote, e o outro, pelo menos em alguns casos, era o deputado desse delegado, isto é, uma espécie de 'subdiácono'. No N.T. os apóstolos são intitulados igualmente como 'diáconos' (ver II Co 6:4; Ef 3:7 e Cl 1:23; ver também II Co 9:15). O próprio Cristo, Pastor e Bispo das almas, é chamado diácono da circuncisão (ver Rm 15:8). Visto que essa palavra implica ministrar ou servir, ela é variegadamente aplicada para todos aqueles que eram empregados na tarefa de ajudar os corpos ou as almas dos homens; sem importar se fossem apóstolos, pastores, ou até mesmo aqueles a quem chamamos de diáconos. Assim, pois, havia diáconos que serviam às mesas (esmolas) e que serviam à 'Palavra' (aqueles cuja missão consistia em pregar e instruir o povo de diversas maneiras)».

 6:7: E divulgava-se a palavra de Deus de sorte que se multiplicava muito o número dos discípulos em Jerusalém e muitos sacerdotes obedeciam à fé.

 Temos aqui um outro sumário do progresso da igreja cristã, o que, neste livro de Atos, assinala o fim de alguma seção importante da obra. No entanto, é um sumário de natureza indefinida, porquanto não fornece qualquer estatística sobre o número dos convertidos, embora isso algumas vezes tenha sido feito, como se vê nos trechos de At 2:41 e 4:4, onde são mencionados, respectivamente, três mil ecinco mil membros adicionados à comunidade cristã. Também é possível que em At 4:4 esteja indicado o número total aproximado dos membros da igreja por aquela altura dos acontecimentos.

 Sacerdotes judeus recebem o evangelho. Somente neste versículo, em todo o livro de Atos, é que encontramos qualquer declaração no sentido de que o evangelho cristão fazia qualquer impressão sobre a casta sacerdotal judaica. O trecho de Jo 12:42 encerra uma nota similar a esta, observando que muitas das «próprias autoridades» criam em Cristo, embora nunca tivessem declarado a sua fé, por receio de serem expulsos da sinagoga. Essa referência às «autoridades» não pode ser limitada aos membros do sinédrio em seu alcance, embora pelo menos Nicodemos e José de Arimatéia, que eram membros do sinédrio, houvessem confiado verdadeiramente em Cristo Jesus. Porém, além desses, pouquíssimos outros dos membros do sinédrio depuseram fé em Jesus como o Messias. Contudo, havia muitos rabinos nas sinagogas, além de muitos sacerdotes no templo, estando em foco particularmente os levitas e os vários grupos de sacerdotes que cuidavam do templo e tinham por atribuição os diversos serviços ali prestados. (Quanto aos «sacerdotes», ver Lc 1:5,8,9; sobre os «levitas», ver Lc 10:31,32; sobre os «principais sacerdotes», ver Mt 21:23; sobre os «escribas», ver Mc 3:22; sobre os «fariseus», ver Mc 3:6; sobre os «saduceus», ver Mt 22:23; sobre o «sinédrio», ver Mt 22:23 e Jo 11:47; sobre os «essênios», ver Lc 1:80 e Mt 3:1; sobre os «herodianos», ver Mc 3:6; e sobre os «zelotes», ver Mt 10:4).

 Essa declaração acerca da fé que muitíssimos sacerdotes punham em Cristo, serve para mostrar-nos que embora a nação de Israel, em sua esmagadora maioria, tivesse continuado em sua atitude de rejeição ao seu próprio Messias, contudo, em todos os níveis da sociedade judaica, incluindo as classes dominantes e indivíduos de reconhecida piedade, muitos chegaram a perceber a veracidade da mensagem cristã, tendo-se passado de todo o coração para a nova comunidade dos seguidores de Jesus Cristo. Naturalmente, muitos desses homens continuaram certamente a realizar os seus deveres religiosos no templo de Jerusalém, porquanto o tempo certo para o rompimento formal entre o judaísmo e o cristianismo ainda não havia chegado.

 Provavelmente essa menção da conversão de muitos sacerdotes à fé é feita a fim de deixar entendida uma das razões da grande perseguição que não demorou a rebentar contra os cristãos, a começar pelo martírio de Estêvão; porquanto passou a ser uma situação impossível para o sinédrio contemplar impassivelmente muitos importantes membros de sua comunidade confessarem abertamente a Jesus Cristo.

 «...crescia a palavra de Deus...» Não há aqui qualquer pensamento em torno da Palavra escrita de Deus, envolvendo o Antigo ou o Novo Testamento. (O N.T., por essa época, ainda não estava formado, pois a maioria de seus livros ainda não fora escrita). Pelo contrário, está aqui em foco a mensagem da igreja cristã primitiva acerca da missão messiânica e do Senhor Jesus, isto é, a mensagem toda que a igreja primitiva anunciava concernente a Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, o Salvador, o Juiz e o Rei vindouro. Essa mensagem, pois, é aqui intitulada «palavra de Deus», porque em Cristo Deus apusera o seu selo de aprovação, e através dele é que transmitia a sua mensagem ou palavra de redenção e glória para os homens.

 «...obedeciam à fé...» Essas palavras podem indicar mais de uma coisa, a saber:

 1. Pode tratar-se simplesmente da fé em Cristo, isto é, a confiança pessoal depositada nele, em sua pessoa, em suas obras e em suas reivindicações. Sem dúvida alguma, esse é o uso mais comum dessa expressão. (Ver At 16:31 e Ef 2:8,9).

2. Porém, também pode significar confiança na doutrina cristã, caso em que a palavra fé é utilizada como termo que indica a doutrina em torno da pessoa de Cristo; esse é o uso «eclesiástico» do termo, conforme alguns lhe chamam. Essa «fé», portanto, seria uma referência ao «evangelho», isto é, ao sistema da fé cristã. (Ver Rm 1:5; Gl 1:23 e Jd 3 quanto ao uso dessa palavra).

 Os intérpretes diferem quanto ao sentido da expressão, neste caso; porém, a segunda possibilidade, mui provavelmente, é a correta. A fé no evangelho cristão, como é natural, implica na fé pessoal em Jesus como Salvador, de tal modo que a segunda posição necessariamente subentende a primeira.

 (Quanto à questão da obediência à fé ou evangelho, que nega a teoria do crer somente, tão prevalente hoje em dia nas igrejas evangélicas, ver sobre At 5:32). O assentimento mental e a aprovação verbal a um credo, bem como a aceitação de algumas formas rituais e públicas, como credo, ainda não perfazem a fé, e nem equivalem à obediência da fé.

 

Fonte Bibliografia R. N. Champlin,comentário bíblico do novo testamento, 2003

FONTE www.avivamentonosul.blogspot.com.br