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comentario e estudo de 1 Timótio (parte n.1)
comentario e estudo de 1 Timótio (parte n.1)

                                                    ESTUDO PRIMEIRO TIMÓTIO                                     

     Necessidade de Refutar os Falsos Ensinamentos (1.3-7) 

 

Os comentadores têm procurado em vão encaixar a viagem de Paulo à Macedônia, aqui mencionada, nas narrativas do livro de Atos. Primeiramente, Paulo chegou à Macedônia em resultado de sua visão em Trôade (ver o décimo sexto capitulo do livro de Atos). Não demorou que Timóteo se tornasse companheiro de viagens do apóstolo dos gentios, tendo-o acompanhado a Beréia. Entretanto, ameaças de violência forçaram o apóstolo a apressar-se para ir a Atenas, sendo provável que ali é que Timóteo se tenha reunido a ele (ver I Ts 3:1 e ss., embora o trecho de Atos 18:5 pareça dizer algo em contrário). Paulo passou cerca de um ano e meio em Corinto tendo feito uma viagem a Jerusalém, a Antioquia e às regiões da Galácia e da Frigia; e então passou cerca de dois anos em Éfeso, e finalmente voltou à Macedônia. Dessa vez Timóteo foi enviado à frente (ver At 19:22). Não sabemos dizer onde exatamente, na Macedônia, Paulo se encontrou com Timóteo; mas, a caminho de volta, Timóteo, juntamente com outros, seguiu à sua frente para Trôade, onde Paulo veio reunir-se a eles. Isso não deixa espaço para a viagem mencionada no presente versículo, a menos que tenha tido lugar enquanto Paulo estava em Éfeso, não sendo episódio registrado no livro de Atos sob hipótese alguma. Isso é possível, pois, com base no estudo daquele livro, pode-se afirmar que sua história é fragmentar, precisando ser preenchida, em muitos pontos, com informes dados nas epístolas de Paulo. E mesmo assim é perfeitamente possível que Paulo tenha estado em muitos lugares sobre os quais nada nos é informado. Seja como for, seria difícil explicar se a viagem ocorreu quando Paulo escreveu a Timóteo (estando o apóstolo em Éfeso), e quando planejava retornar em breve, podendo entrar em contacto direto com Timóteo. Essas dificuldades, que impedem que se encaixem as «epístolas pastorais» dentro do esquema histórico do livro de Atos, têm feito muitos intérpretes suporem que elas estão completamente fora da narrativa do livro de Atos. Antes, parece que pertencem a um intervalo entre dois aprisionamentos (no caso da primeira epístola a Timóteo e da epístola a Tito), e em seguida durante um segundo período de aprisionamento, depois que Paulo estivera no ocidente, na Espanha, e entre esse lugar e Roma, na viagem de volta (no caso da segunda epístola a Timóteo). Essa idéia tem algum apoio nos escritos dos primeiros pais da igreja.

Não obstante, há estudiosos que pensam que a tradição inteira de uma suposta quarta viagem missionária depende totalmente do desejo expresso de Paulo por fazer tal viagem (ver Rm 15:24), e que essa «tradição», como era costumeiro, foi esticada a ponto de ser criada uma narrativa inteira para adorná-la. É verdade que as «tradições» sempre procuram fazer o que é vago tornar-se «específico», deleitando-se em adornar seus informes; pelo que também, apesar de conter alguns pontos valiosos, seu testemunho sempre é suspeito. A referência do terceiro versículo, portanto, permanece vaga, não podendo nós termos certeza que possuímos a verdade sobre essa questão. Talvez não haja maneira de recuperarmos a verdade acerca desse particular.

O trecho de 1Tm l:3b-7 apresenta um dos principais temas deste livro. A heresia penetrara na igreja, provavelmente da variedadegnóstica, com certas nódoas judaicas. Estas três epístolas «pastorais» foram essencialmente escritas para dar combate à heresia, conferindo aos ministros instruções para esse combate.

«Apelo a Timóteo. Que fossem advertidos os falsos mestres de Éfeso que não perdessem seu tempo com mitos, genealogias e ensinos sobre a lei, com negligência do verdadeiro alvo espiritual do evangelho. Aqueles indivíduos compreendiam de forma totalmente errada os autênticos propósitos da lei, conforme vistos à luz do evangelho. Seu propósito era controlar o pecado, mas o evangelho salva o pecador; sim, salva até mesmo o principal dos pecadores, e eu (Paulo), recebi o direito de ser pregador dos evangelho. Portanto, na qualidade de meu verdadeiro filho, faz teu papel, deixando-te advertir pela sorte que coube a Himeneu e Alexandre» (Lock, in loc).

 

1:3: Como te roguei, quando partia para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinassem doutrina diversa.

As palavras «...de viagem, rumo da Macedônia...», mui provavelmente falam de uma viagem de Paulo, após ter sido liberto de seu primeiro período de aprisionamento, não coincidindo com o tempo coberto pela narrativa do livro de Atos.

«...te roguei...» No grego temos o termo familiar, «parakaleo», que significa «exortar», mas que freqüentemente também significa «consolar». Neste ponto, a idéia de exortar sem dúvida é o sentido tencionado. A forma nominal, «paracleto», é um dos títulos dados ao Espírito Santo, que o destaca como o «Consolador», como o «Ajudador», sentido lato que esse vocábulo pode ter. O uso desse verbo, neste ponto, provavelmente indica certa relutância, da parte de Timóteo, por permanecer em Éfeso, porquanto mui provavelmente ele queria viajar em companhia do apóstolo dos gentios. Mas Timóteo tinha em Éfeso certa missão a cumprir. Todas as pessoas têm uma missão, cada indivíduo é sem-igual, tanto agora como por toda a eternidade, pois a cada um é dado algo especial para fazer, algo especial para ser.

«...permanecesses ainda em Éfeso...» Com base nessas poucas palavras surgiu a tradição que Timóteo agia como «bispo de Éfeso» e das áreas circunvizinhas. Aquela área se tornara sua responsabilidade, pelo que também Paulo ter-lhe-ia escrito a fim de encorajá-lo a resistir aos falsos ensinamentos, a consagrar pastores devidamente qualificados, e esses são os dois temas dominantes das «epístolas pastorais». Éfeso se tornara um centro cristão de primeira grandeza. Antes, fora centro do paganismo religioso. Era a sede principal da adoração aos imperadores romanos deificados. Ali estava o famoso templo de Artemisa ou Diana (ver At 19:23 e ss.), sendo também centro de vários cultos pagãos, de artes mágicas, etc, sendo apenas natural que ao cristianismo se fizesse amarga oposição naquela localidade. Além disso, ali florescia a doutrina gnóstica, havendo forte oposição do gnosticismo, fora e dentro da comunidade cristã, à doutrina cristã. Toda a literatura que chegou até nossas mãos, vinda de Éfeso, que descreve a situação religiosa do lugar, subentende a natureza sincretista da religião do lugar. Para a mente cristã havia ali uma caótica aglomeração de elementos judaicos, pagãos e cristãos, do que emergiu o gnosticismo tingido de judaísmo, que as «epístolas pastorais» atacam.

«... Sempre é bom relembrar que é em seus períodos criativos que a igreja tem conseguido suas mais significativas declarações de fé, nem inconsciente das correntes de pensamento de sua época, e nem em mansa conformidade com essas correntes, mas reagindo e interagindo com elas». (Gealy, in loc).

Éfeso era igualmente a principal cidade política da Ásia Menor, o centro de seu governo, a sede do proconsulado da província. Era uma localização que tendia para a abundância de bens, por ser a extremidade ocidental do grande sistema de estradas romanas. Paulo, Apolo, Áquila e Priscila trabalharam ali, sem falarmos em Timóteo. Há quatro epístolas para Éfeso, a saber, primeira e segunda a Timóteo, Efésios (embora o destino dessa epístola seja duvidoso, e a epístola de Ap 2:1-7. Uma possível quinta epístola é a do décimo sexto capítulo da epístola aos Romanos, o qual, segundo muitos estudiosos, teria sido enviado a Roma, como carta de apresentação deFebe, mas que veio a ser vinculado à epístola aos Romanos, maneira como que chegou às nossas mãos. A literatura joanina, isto é, o evangelho de João e as três epístolas de João, mui provavelmente também emanou daquela cidade. A primeira epístola de Inácio (escrita em cerca de 110 D.C.) também foi enviada aos crentes daquela cidade. A tradição enriquece a história dessa cidade, do ponto de vista cristão, afirmando que Timóteo, João e Maria, mãe de Jesus, foram sepultados ali.

«...admoestarei a certas pessoas...» No grego temos «paraggelo», que significa «dar ordem», «comandar», «instruir», «dirigir», vocábulo usado acerca de todas as classes de pessoas que exercem autoridade, tanto mundana quanto religiosa, incluindo até mesmo o Senhor Jesus e seus apóstolos. Nesta primeira epístola a Timóteo é palavra usada por cinco 5 vezes, a saber, I Tm 4:11; 5:7; 6:13,17 e aqui. A despeito dos comentários em contrário, por parte de certos intérpretes, esse vocábulo pertence ao vocabulário paulino, pois é usado em I Ts 2:11; II Ts 3:4,6,10,12. Também se acha com freqüência no livro de Atos, e por algumas poucas vezes nos evangelhos.

«... certas pessoas...» Essas palavras podem ser confrontadas com os trechos de I Tm 1:6; 4:1; 5:15,24 e 6:21, todos os quais falam de modo indefinido, como aqui. Mui provavelmente Paulo não quis dignificar as heresias ligando-as a nomes específicos. Também é possível que Paulo usasse essa expressão, «certas pessoas», a fim de diminuir-lhes a importância. É interessante que os estudiosos que negam a autoria paulina das «epístolas pastorais» vêem aqui uma outra prova para a sua opinião, explicando que a maneira «indefinida» de falar se deve à natureza «fabricada» dessas declarações, pois se Paulo tivesse escrito a Timóteo sobre essa questão, tê-lo-ia feito com a menção de nomes de pessoas, em uma epístola pessoal. Porém, não nos olvidemos ser provável que Paulo não conhecia por nome a nenhuma dessas pessoas, pois o problema inteiro poderia ter surgido após ter-se ele ido embora de Éfeso, durante a sua longa ausência dali. Seja como for, Timóteo haveria de compreender a quem Paulo se referia.

«...afim de que não ensinem outra doutrina...» O restante desta epístola fornece detalhes acerca do que seria essa «...outra...» doutrina. Tratava-se de um «outro evangelho», sem qualquer base na autoridade apostólica. Essa afirmativa pode ser confrontada com o trecho de Gl 1:8,9. O original grego aqui é verbal, «eterodidaskalein», que literalmente traduzido seria «não ensinar diferente». Utilizando-se da mesma palavra inicial, «etero», temos nosso termo moderno «heterodoxo», que significa ensinamento contrário à «doutrina ortodoxa». Já o termo grego «ortho» vem de «orthos» que significa «direito», «reto». O termo grego «heteros» significa «outro de outra espécie»; isso quer dizer que Paulo se referia a algo que não "ê* «direito», «reto», mas é justamente o oposto. Tal doutrina era contrária à «sã doutrina» (ver o décimo versículo deste capítulo). O versículo seguinte, mas também o restante das «epístolas pastorais», fornecem vários detalhes sobre essa «outra doutrina», considerada contrária ao evangelho anunciado pelos apóstolos.

As pessoas apontadas por Paulo se ufanavam em serem mestres da lei e da verdade; mas, na realidade, eram ensinadores de novidades; destruidores, que não tinham lugar dentro do sistema cristão doutrinário. O termo «eterodidaskaleo» é novamente usado em I Tm 6:3, mas essas duas ocorrências esgotam seu uso nas páginas do N.T. Eusébio (História Eclesiástica iii.32) utiliza-se desse termo para indicar os «mestres hereges». É possível que o autor das «epístolas pastorais» tenha cunhado tal palavra. O trecho de Tito 2:3 contém um uso similar, «kalodidaskalos», que significa «mestres de coisas boas», palavra essa que também é uma das «hapax legomena» do N.T. Estas «epístolas pastorais», a bem da verdade, contêm um grande número de vocábulos que não são usados no restante do N.T., ainda que encontrem paralelo em outra literatura grega, mormente do século II D.C. Dentre os novecentos e dois, vocábulos usados nas «epístolas pastorais», nada menos de trezentos e seis isto é, mais de um terço, não se encontram nas outras reputadas dez epístolas paulinas, e cento e setenta e cinco deles não aparecem em qualquer outra porção do N.T. Com base em fatos assim é que algus duvidam da autoria paulina das «epístolas pastorais».

Não há que duvidar que, neste versículo, se faz alusão a alguma forma de gnosticismo.

 

1:4: nem se preocupassem com fabulas e genealogias intermináveis, que antes promovem discussões do que o serviço de Doas, na fé.

«...nem se ocupem...» traduzem o verbo grego «prosecho», que quer dizer «voltar a atenção para», «seguir», «preocupar-se com», «apegar-se-a». (Ver a mesma palavra em I Tm 3:8; 4:1,13 e 6:3, e comparar com Tt 1:14). Essa palavra também não se encontra nas «outras» epístolas paulinas. A ordem aqui baixada dá a entender a grande importância das questões que passam a ser numeradas, bem como o tempo e a energia dispendidos nas mesmas, mas que era um desperdício, segundo o parecer de Paulo, visto que não eram atividades edificantes, mas destrutivas.

«...fábulas...» No grego temos «muthos», que significa «mito», «fábula». Essa palavra ocorre nas «epístolas pastorais», aqui e em I Tm 4:7; II Tm 4:4 e Tt 1:14. No resto do N.T., aparece apenas em II Pe 1:16. Na Septuaginta (tradução do original hebraico do A.T. para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã) aparece em Sabedoria de Salomão 17:4 e Eclesiástico 20:19, sempre nos livros apócrifos. Deve-se observar que, no trecho de Tito 1:14, a alusão é às «fábulas judaicas». Mas essa referência, sem qualquer qualificativo, é incerta. Provavelmente Paulo se referia a histórias fabricadas, suposta­mente dotadas de valor religioso e espiritual, baseadas em heróis judeus da fé, como Abraão e os outros patriarcas da narrativa do A.T. Esse tipo de atividade era bastante evidente nas várias tradições, proeminente nos «apocalipses judaicos». O «haggada» (parábolas e anedotas) do Talmude também ilustram as histórias «inventadas», cujo desígnio era servir de instrução religiosa. O livro dos Jubileus, que procura reescrever a história primitiva do ponto de vista da lei, fazendo com que já fosse conhecida e praticada até mesmo entre os anjos, e então desde o começo mesmo do livro de Gênesis, fornece várias narrativas míticas. O livro das Antiguidades Bíblicas (atribuído a Filo), uma crônica lendária da história do A.T., desde Adão até Saul, datado do primeiro século da era cristã, também encerra tais fábulas. A alusão a janes e Jambres, em II Tm4,3:8, mui provavelmente é derivada dessas «haggada» lendárias.

Outros eruditos têm pensado que os mitos «gnósticos», concernentes à natureza e à atividade dos «aeons» angelicais é que são aqui aludidos, ou ainda outras narrativas lendárias de origem pagã. É perfeitamente possível que tanto os mitos «pagãos» como os mitos «judaicos» sejam aludidos neste versículo, sem que um exclua ao outro. É provável que Filo tenha descrito corretamente essa espécie de atividade, de que tanto os mestres gnósticos gostavam, no tocante a essas fábulas, embora não tenha ele escrito diretamente a respeito deles.

 

A Incumbência: Deter os Falsos Mestres (1.3-11)

 

Paulo começa a carta propriamente dita de um modo que não lhe é característico — sem as costumeiras ações de graças. De suas cartas anteriores, somente em Gálatas (fato bastante significativo) faltam as ações de graças. A ausência dessa expressão gratulatória aqui sustenta a observação já feita de que 1 Timóteo visa, realmente, o benefício da igreja tanto quanto do próprio Timóteo, ou ainda mais; o que está ocorrendo na igreja não é motivo para dar graças (dar graças em tudo?).

Ao invés, Paulo entra de imediato na ocasião e no propósito da carta. Em verdade, todas as questões cruciais que compõem a estrutura e conteúdo de 1 Timóteo estão exibidas no parágrafo inicial (vv. 3-7). A igreja corre grande perigo em virtude de alguns presbíteros que talvez se julguem mestres da lei (v. 7), mas, com efeito, ensinam outra doutrina (v. 3). Timóteo foi deixado em Éfeso para conter a maré. Ele não é o "pastor"; antes, foi deixado para atuar em nome de Paulo enquanto Paulo estiver ausente. Esta carta autorizará a Timóteo — perante a igreja — a opor-se àqueles enganadores e seus adeptos. Portanto, o palco está montado: A carta no seu todo é uma reação à presença dos falsos mestres.

 

1:3 A sentença inicial proporciona a ocasião da carta, acrescida de todos os "atores" significativos — Paulo, Timóteo, a igreja (implícita no em Éfeso), e os falsos mestres.

Embora não haja certeza quanto a se Paulo havia estado recentemente em Éfeso, isso parece estar implícito ao rogar a Timóteo que fique em Éfeso enquanto ele, Paulo, partia para a Macedônia. Mais adiante (3:14), ficamos sabendo que Paulo esperara ir para Éfeso em breve; contudo, no caso de demora (o que de fato aconteceu, dada a evidência de 2 Timóteo), Paulo queria que seu companheiro mais jovem tivesse "por escrito" o motivo para ele estar ali.

Os começos da igreja em Éfeso estão muito envoltos em mistério (At 18:19-21; 18:24 - 20:1), embora fique claro do relato de Atos, corroborado por referências passageiras em 1 Coríntios 16:8-9, 19, e 2 Coríntios 1:8-9, que se tratava de uma igreja paulina (talvez composta por muitas igrejas-lares; veja 1 Coríntios 16:19). Éfeso era ao mesmo tempo a capital da província e centro religioso da província da Ásia. Devido ao lodo que o entupia, no tempo de Paulo, o porto sofria declínio comercial; mas isto ainda era compensado, contudo, por sua importância passada e pela presença do seu templo de Artemis (Diana), uma das Sete Maravilhas do Mundo antigo e atração turística que obviamente rendia não pequenos lucros líquidos aos audazes vendilhões de lembranças religiosas (At 19:23-41). O culto de Artemis refletia mistura (sincretismo) religiosa, mas basicamente era um rito de fertilidade oriental, com práticas sensuais eorgásmicas. A igreja efésia era muito importante na estratégia missionária de Paulo; daí sua preocupação em desarraigar o erro neste centro-chave.

Não há indício algum de que em qualquer das cartas a Timóteo alguns homens que ensinavam outra doutrina fossem elementos de fora, como no caso ocorrido na Galácia (Gl 2:4) e em Corinto (p.e., 2 Co 11:4, 12-15). De mais a mais, o discurso de despedida de Paulo aos presbíteros efésios, conforme registrado em Atos 20:17-35, prediz com clareza que os "lobos cruéis" que "não pouparão o rebanho" serão alguns homens "dentre vós mesmos" (vv. 29-30). Portanto, que os falsos mestres talvez fossem presbíteros encontra apoio em diversos trechos de 1 Timóteo: o presumirem ser "mestres da lei" (v. 7), responsabilidade essa dos presbíteros (5:17; cp. 3:2); o fato de que foi Paulo quem citou e excomungou dois deles (1:19-20), e não a igreja, como em 2 Tessalonicenses 3:14 e 1 Coríntios 5:1-5; e o repetido interesse pelos presbíteros nesta carta, quer quanto à qualificação deles — sem mencionar deveres — em 3:1-7, quer quanto à disciplina a eles aplicada e evidente substi­tuição em 5:19-25.

A expressão traduzida por ensinassem outra doutrina aparentemente cunhada aqui e encontrada depois apenas em escritos cristãos, ao pé da letra significa "ensinar outras coisas", ou "ensinar novidades". É remanescente dos falsos mestres em Corinto, que pregavam "outro Jesus" e "outro evangelho" (2 Co 11:4; cp. Gl 1:6). Contudo, "outra doutrina" (novidades) não são trivialidades inocentes; são perversões claras do evan­gelho puro. A finalidade de Timóteo em permanecer ali era, pois, para advertires a alguns que não ensinassem outra doutrina.

 

1:4 Timóteo deve também ordenar aos mestres do erro que não se ocupassem com fábulas ou com genealogias intermináveis. Essas duas palavras, dentre as poucas encontradas nas cartas a Timóteo que dão alguma indicação do conteúdo das falsas doutrinas, colocam-se também dentre as mais enigmáticas. Conforme diz Kelly: "Elas chegam tantalizantemente, quase revelando o conteúdo da heresia"! Em 4:7 elas são de novo caracterizadas como "fábulas profanas de velhas". Fenômeno semelhante também surge em Creta, onde a expressão de Paulo é "fábulas judaicas" (Tt 1:14); as "genealogias" reaparecem numa lista que inclui "contendas e debates acerca da lei" (Tt 3:9).

Eruditos têm afirmado muitas vezes que essas palavras refletem o suposto caráter gnóstico da heresia, apoiado também por linguagem como " oposições da falsamente chamada ciência" (6:20) e pelas práticas ascéticas mencionadas em 4:3 (cp. 5:23). Assim, fábulas e genealogias são consideradas como referindo-se às cosmologias especulativas dos últimos gnósticos com seus sistemas de eões(seres espirituais) que emanam de Deus (o Pai de todos), como se encontra em Valentino. (Esta posição parece refletir-se na Bíblia Viva, que diz: "A idéia que eles têm de poder salvar-se por conseguir a proteção de uma cadeia interminável de anjos que leva a Deus".)

Mas os termos traduzidos por fábulas mythoi e genealogias (genealogiai) nunca são usados nas descrições desses sistemas gnósticos. Aparecem, contudo, regularmente no helenismo e no judaísmo helenístico referindo-se a tradições sobre origens dos povos. O termo mythoi nesta literatura quase sempre é usado em sentido pejorativo (como por todas as EP), para contrastar o caráter mítico de muitas dessas fábulas com a verdade histórica.

Portanto, dada a falta de qualquer consideração verdadeira em 1 e 2 Timóteo pelas bases caracteristicamente gnósticas, além do fato de que no v. 7 os erros se relacionavam de modo específico com a lei, é mais plausível que tais fábulas e genealogias intermináveis reflitam algum tipo de influência judaica, sem dúvida com alguns revestimentos helenísticos. Porém, não sabemos com precisão o queeram, embora tenha havido algumas sugestões (como as especulações que encontramos no Book of Jubilees ou em Questions andAnswers on Gênesis, de Fílon, ou no Book of Biblical Antiquities de um pseudo-Fílon, e até mesmo na tradição hagádica judaica [comentário ilustrativo sobre o AT]). Deve-se, por fim, admitir que não sabemos ao certo por que Paulo não nos deixou pistas suficientes.

O que sabemos com certeza é que ele condena ousadamente tais coisas, não tanto em função de seu conteúdo (embora tais fábulas não tenham relação alguma com a verdade [4:6-7; 2 Timóteo 4:4], mas porque esse ensino tem dois efeitos finais: (1) são " discursos vãos" (1:6; cp. 6:20; 2 Timóteo 2:16; 3:7), que (2) resultam em contendas e discór­dias (6:3-5; 2 Timóteo 2:14, 23).

É a absoluta futilidade disso tudo que molesta a Paulo neste ponto. Em verdade, a palavra traduzida por intermináveis talvez se refira à natureza "exaustiva, cansativa" daquele ensino. O que essas "fábulas e genealogias intermináveis" produzem é "especulações" (RSV; lit., "busca"), ou controvérsias (NIV e ECA). Dessa maneira, fábulas e genealogias são tédios intermináveis, que promovem especulações tolas, "cheias de som e fúria", mas "nada significando".

Além do mais, essas especulações nada têm que ver com o serviço de Deus o qual é na fé. A palavra traduzida por serviço, quando empregada em seu sentido literal, não figurado, refere-se à “administração" da casa de outrem (como em Lucas 16:2-4). Como metáfora, significa ou "uma mordomia confiada por Deus" (cp. 1 Coríntios 9:17; Efésios 3:2), ou como na ECA e NIV, serviço de Deus, significando "providências de Deus para a redenção do povo". É mais provável que esta última seja a intenção, visto que a ênfase neste contexto não parece estar sobre a falha dos falsos mestres em exercer mordomia fiel, mas sobre o evangelho como serviço de Deus, baseado na fé, ou conhecido na fé, em contraste com a futilidade das "novidades", ou "outra doutrina".

 

1:5 Havendo dado a ocasião para escrever a carta (v. 3), e mais alguma reação ao que os presbíteros errados estão fazendo (v. 4), Paulo volta agora a ordenar (advertires) que eles parem (v. 3). O intuito deste mandamento, diz ele, é o amor. Talvez não seja esta uma afirmação geral a respeito do evangelho, em contraste com os erros; ao contrário, Paulo está dando o motivo específico para o envolvimento de Timóteo, a saber, suscitar o amor que procede de um coração puro. Os falsos mestres estão envolvidos em controvérsias (v. 4) e discursos vãos (v. 6) cheios de engano (4:1-2) que levam a discórdias e suspeitas (6:4-5). A finalidade de ordenar-lhes que parem é conduzir a igreja de volta ao resultado próprio do " serviço de Deus" baseado "na fé", a saber, o amor de uns para com os outros. (Observe quantas vezes aparecem juntos fé e amor nas EP como virtudes verdadeiramente cristãs: 1 Timóteo 1:14; 2:15; 4:12; 6:11; 2 Timóteo 1:13; 2:22; 3:10; Tito 2:2).

A graça cristã do amor brota de um coração puro, de uma boa consciência, de uma fé não fingida. Essas motivações para amar ficam em agudo contraste com as dos falsos mestres, que estão enganados e cheios de engano (4:1-2; 5:24; 2 Timóteo 2:26; 3:13; cp. 1 Timóteo 2:14; 5:15; 2 Timóteo 3:5-7), têm consciências " cauterizadas" (4:2), "vieram a naufragar na fé" (1:19).

Um coração puro reflete o pano de fundo bíblico de Paulo (Salmos 24:4; 51:10; cp. a bem-aventurança de Jesus, Mateus 5:8). O conceito de boa consciência deriva de seu meio ambiente helenístico. A consciência é a capacidade, ou sede, da consciência moral, comum a todas as pessoas (Romanos 2:15; 2 Coríntios 4:2). Em cartas anteriores de Paulo (somente Romanos, 1 e 2 Coríntios), a consciência arbitra as ações próprias — e as de outros (esp. 1 Coríntios 8-10). Mas também está claro que ela pode ser informada, quer pelo passado pagão da pessoa, quer pela presente existência em Cristo. Nas EP, o termo consciência é muitas vezes, como aqui, acompanhado de um adjetivo descritivo (boa, pura, cauterizada), implicando que a sede da tomada de decisão foi "purificada" por Cristo ou "cauterizada" ou "contaminada" por Satanás (veja disc. sobre 1 Timóteo 4:2 e Tito 1:15 -16). Deste contexto e de 1:19 fica claro que um coração puro e uma boa consciência são idéias sinônimas.

A qualificação da fé como não-fingida (sincera) é comparável à qualificação que Paulo dá ao amor em Romanos 12:9. Num sentido, nem fé nem amor podem ser assim qualificados. Ou você tem fé, ou amor, ou não tem. Mas a palavra fé tem amplo emprego em Paulo, variando desde "confiar em Deus" (o mais comum) passando por uma virtude cristã que se aproxima muito da idéia de "fidelidade" (p.e., 1 Tessalonicenses 3:6; 5:8, muito freqüente nas EP), até o conteúdo da crença cristã (p.e., Gálatas 1:23; também muito freqüente nas EP). Aqui, fé não-fingida refere-se à virtude cristã, significa confiar em que Deus está presente de verdade, em contraste com a natureza enganosa da “fé" dos mestres do erro.

 

1:6-7 Agora está claro que essas fontes do amor cristão estão expres­sas de modo que contrastem com os falsos mestres. Alguns, a saber, os falsos mestres se desviaram destas coisas (isto é, de "um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera"; cp. 1:19). O conceito de desviar-se de fé (ou a fé) repete-se nas EP, às vezes com este verbo (6:21; 2 Timóteo 2:18), mas também com diversos outros (rejeitado, ECA, 1:19; "apostatarão", 4:1; "se desviaram", 1:6; 5:15; 6:10; "recusar", 2 Timóteo 4:4). Esta apostasia por parte tanto dos presbíteros errados como de seus seguidores é a grande ênfase de 1 Timóteo.

Não somente se desviaram da verdadeira fé e integridade, mas em seu lugar se entregaram a discursos vãos. Isto repete os temas do tédio, e das controvérsias do v. 4. A palavra que representa discursos vãos é um composto de mataios ("vazio, vão") e logos("discurso"). Este "discurso" é alhures caracterizado como "conversas vãs" e "falatórios inúteis" (6:20; 2 Timóteo 2:16).

Paulo tem uma designação final para os mestres do erro nesta arremetida inicial: Querem ser mestres da lei. Não é fácil determinar com precisão o que Paulo quer dizer por mestres da lei (no grego uma palavra composta: nomos, "lei"; didaskalos, "professor"). A palavra é estrita­mente cristã, usada por Lucas (5:17) para referir-se aos rabis, e a Gamaliel, em Atos 5:34. Aqui talvez seja um epíteto pejorativo (estão meramente assumindo o papel de rabinos judeus); porém, é mais prová­vel que seja uma descrição do que os falsos mestres desejavam, na realidade, ser mestres da lei (no sentido provável de intérpretes das leis, 4:3, e intérpretes especulativos das histórias e genealogias do AT a respeito dos começos, 1:4).

Em qualquer dos casos, eles não entendem nem o que dizem, como o próximo parágrafo elucidará (porque estão cheios de controvérsias e, de discursos vãos) nem o que com tanta confiança afirmam (o signi­ficado das Escrituras). Estão simplesmente "pontificando sobre o incognoscível". O tema da "ignorância" ou "tolice" dos heréticos se repetirá, nestas cartas (6:4,20; 2 Timóteo 2:23; Tito 1:15; 3:9; cp. 2 Timóteo 3:7).

 

 

 Pare de Debater Acerca da Lei e Bus­que o Amor (1.3-7)

 

A primeira preocupação de Paulo era substituir altercações pelo amor. Evidentemente, Timóteo havia-lhe escrito a res­peito da situação perturbadora e talvez dera a entender que desejava ir embora. Esta não era a primeira vez que ele demonstrara alguma fraqueza, pois Paulo tivera que mandar Tito a Corinto, para livrá-lo de problemas (II Co 8:6; 12:18). Desta vez, Paulo não iria permi­tir que ele se retirasse.

Como te roguei, quando partia para a Macedônia, que ficasses em Éfeso parece referir-se à visita de Paulo a Éfeso depois da sua libertação da prisão, pois isto não se enquadra no esquema de Atos, a respeito da viagem de Paulo (20:1). Contudo, esta passagem é um pouco difícil. Temos, aqui, um dos familiares anacolutos de Paulo (cf. Rm 2:17 e ss.; 5:12 e ss.; 9:22 e s.; Ef 3:1-14), dei­xando um pensamento inacabado. Apa­rentemente, o que Paulo pretendia dizer era: "Como recomendei a você, quando eu estava indo para a Macedônia, que ficasse em Éfeso, agora lhe recomendo outra vez que fique, a fim de..." O verbo recomendar é um verbo forte, quase uma ordem.

A primeira tarefa de Timóteo era advertires a alguns que não ensinassem doutrina diversa. Paulo não revela o nome deles, embora pudesse conhecê-los, devido à sua longa associação com Éfeso. Ele freqüentemente usa uma refe­rência indefinida para mencionar os oponentes. A palavra heterodidaskalein, traduzida como ensinassem doutrina diversa, aparece apenas aqui e em 6:3, mas a formação de componentes com heteros ("qualquer diferente") é carac­terística de Paulo (cf. heterozugein, en­trar em jugo com outrem, em II Co 6:14).

Este estranho ensinamento inclui fá­bulas e genealogias intermináveis. Algumas pessoas têm explicado estas coisas como a especulação gnóstica a respeito das esferas (aeons) que rodeiam a terra e são guardadas por poderes demonía­cos. Contudo, a referência explícita a "fábulas judaicas", em Tito 1:14, a referência ao seu desejo de serem douto­res da lei, no verso 7, e a discussão de Paulo a respeito da lei, nos versos 8 a 11, provam o caráter essencialmente judaístico do debate. Jeremias tem insistido que fábulas e genealogiasse referem a especulações a respeito da narrativa da criação em Gênesis, semelhantes às encontradas em Jubileus e Filo, de Ale­xandria.Spicq conjetura de acordo com linhas de pensamento semelhantes, que o interesse deles, provavelmente, se foca­lizava em "lendas apócrifas judaicas". No que concerne à igreja, conclui Paulo, eles produzem... discussões (cf. 6:4; II Tm 2:23; Tt 3:9) Antes... queedificação para com Deus, que se funda na fé. A palavra grega (oikonomia) tra­duzida como edificação, nas obras de Paulo, significa mais exatamente mor­domia (I Co 9:17; Cl 1:25; Ef 3:2) ou o desígnio de Deus para o homem (Ef 1:10; 3:9). Pode ser que esta última acepção seja a pretendida aqui.

Ao invés de tais especulações perni­ciosas, Paulo deseja ver o amor-agapé; este é o fim (alvo) deste conjunto de ordens. No pensamento de Paulo, agapé, aquele amor que coloca o interesse da outra pessoa antes do interesse próprio, propicia o ponto de referência ao redor do qual todas as relações humanas pre­cisam encontrar o seu lugar adequado (I Co 13).

De onde vem o agapé? De um coração puro, de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. (1) A pureza de coração reflete a maneira hebraica de se encarar a vida. O coração significa o cerne vital do homem, o seu eu. O santo busca em Deus um coração puro, sem dolo nem engano. "Bem-aventurados os limpos de coração", disse o próprio Jesus, "porque eles verão a Deus" (Mt 5:8). (2) Uma boa consciência (I Tm 1:19) ou pura (3:9; II Tm 1:3; Tt 1:15) reflete o modo grego de pensar. Consciência apa­rece apenas duas ou três vezes no Velho Testamento grego. A não ser nas cartas de Paulo e nos seus discursos em Atos (23:1; 24:16), esta palavra aparece ape­nas em Hebreus e I Pedro. Na fraseologia estóica, consciência se refere ao centro do comportamento racional e moral. Uma boa consciênciaseria uma consciência livre de sentimentos de culpa (Kelly), no pensamento de Paulo, sem dúvida, como conseqüência da graça de Deus. (3) A expressão fé não fingida, literalmente, fé não hipócrita, aparece apenas aqui e em II Timóteo 1:5. Certamente, como têm dito alguns críticos, Paulo não pre­cisava acrescentar esta qualificação. É interessante que ele qualificou o amor da mesma maneira.

Aqueles que se desviaram deste cami­nho, Paulo continua dizendo, se entregaram a discursos vãos. Esses oponentes fazem-no lembrar-se dos debates rabínicos acerca de coisas triviais, devido ao fato de quererem ser doutores da lei. Todavia, os judaístas efésios não eram como os judaizantes gálatas, porque não queriam impor toda a lei cerimonial aos cristãos (Kelly). Eles não apenas não compreendiam os assuntos que discutiam, acusa Paulo, mas também nem entendiam o que estavam dizendo.

Bibliografia G. Hinson

 

1:8 O próximo parágrafo (vv. 8-11) parece digressão que leva a uma Segunda digressão (vv. 12-17; observe como os vv. 18-20 retomam o argumento dos vv. 3-7). Porém, no sentido típico paulino é uma digressão que confirma de modo significativo o ponto sob discussão. Em resposta ao uso impróprio que os falsos mestres fazem da "lei", Paulo lhes expõe o verdadeiro intento da lei, o qual, conforme expresso aqui, é que ela se destina aos ímpios.

Muito interessante é o fato de Paulo não lhes dizer como ou por que, a lei é para eles; mas, em Galatas 3:23-4:7 e em Romanos 7:7-25, ele já havia tratado desta questão e mencionado dois motivos: pôr um freio no pecado (Gálatas) e expressar a desesperadapecaminosidade dos pecado­res, levando-os a clamar pela misericórdia de Deus (Romanos). É pro­vável que o primeiro motivo é que estava na mente de Paulo, ao iniciar este parágrafo.

A sentença inicial evolui do v. 7. Os falsos mestres desejam ser mestres da lei, mas não sabem o que fazem. É claro que a intenção de Paulo aqui não é argumentar a favor de um uso correto, cristão, da lei. Em vez disso, ele está ressaltando a insensatez dos falsos mestres incluindo o fato de que eles nem sequer usam a lei. Que a lei é boa é repetição de uma assertiva feita em Romanos 7:12-13 e l6 (embora em contexto diferente). Fica implícito em ambos os casos que ela é boa, porque reflete verdadeiramente a vontade de Deus. Não obstante, con­forme ressalta Kelly, a lei não é o evangelho, mas permanece uma espécie de lei. Aqui, a "bondade" da lei relaciona-se com ser ela usada legiti­mamente, isto é, tratada como lei (tendo em mira os sem lei, v. 9) e não usada "ilegitimamente" como fonte de fábulas e genealogias interminá­veis, ou para práticas ascéticas.

 

1:9-10 Paulo continua descrevendo o que faz aquele que trata a lei como lei. O que é verdadeiro em se tratando da lei de Deus, tida como lei, é naturalmente verdadeiro em se tratando de todas as leis. Ela foi outorgada, não para o justo, mas para os transgressores e rebeldes os irreverentes e pecadores, os ímpios e profanos. Ao dizer que a lei não se destinava "ao justo", Paulo repisa um ponto já apresentado em Gálatas, ou seja, que os que têm o Espírito e produzem o fruto do Espírito entraram numa esfera de existência na qual a lei já não desempenha suas funções legais (Gálatas 5:22-23).

A menção de transgressores da lei, Paulo se lança a uma lista completa de tais pecadores. Listas de vícios como esta são típicas do apóstolo (veja, p.e., Romanos 1:29-31; 1 Coríntios 5:11; 6:9-10; Gálatas 5:19-21; e 2 Timóteo 3:2-4). O que nos espanta é que nenhum pecado singular é especificamente repetido nelas (nem nas três cartas anteriores). Em cada caso elas parecem catálogos ad hoc, embora também pareçam um tanto adaptadas aos contextos. Dos pecados relacionados nesta lista, os devassos e os sodomitas (v. 10) encontram-se nas listas anteriores (1 Coríntios 6:9). O mais chocante, porém, é a natureza bipartida do catálogo. Primeiro, há três pares de classificações gerais: transgressores e rebeldes, os irreverentes (sem respeito no íntimo) e os pecadores (exteriormente sem obediência), e os ímpios e profanos. Daí para a frente o catálogo tem uma coincidência notável com os Dez Mandamen­tos (do quinto ao nono), muitas vezes dando expressões mais grotescas desses pecados.

Assim, esses sem-lei são os parricidas, matricidas (quinto manda­mento; e homicidas (sexto mandamento); os devassos (lit., "fornicadores") e sodomitas, uma palavra que indica homossexualidade entre homens (sétimo mandamento); roubadores de homens (oitavo manda­mento). Tais coincidências dificilmente podem ser acidentais. Porém, qual é o motivo para essa lista figurar aqui? Certamente não é uma referência aos pecados dos falsos mestres, culpados de seus próprios pecados, mas de outros tipos. É muito provável que essa lista seja um reflexo consciente da lei mosaica, como lei, e expressa os tipos de pecados, para proibir os quais foi outorgada a lei. Este, diz Paulo, é o motivo por que Deus deu a sua lei, não para controvérsias ociosas e discursos vãos.

Paulo encerra esta lista de maneira semelhante a Romanos 13:9 é Gálatas 5:21, de modo que inclui os demais pecados também: para o que for contrário à sã doutrina. Mas neste caso as palavras de "encerramento" trazem Paulo de volta uma vez mais às advertências contra os falsos ensinos. A expressão sã doutrina aparecerá regularmente nessas cartas (6:3; 2 Timóteo 1:13; 4:3; Tito 1:9, 13; 2:2, 8). Trata-se de metáfora médica referente à saúde do ensino "conforme o evangelho" (v. 11) e se opõe a "ruins suspeitas" (6:4; NIV, "interesse doentio") dos praticantes do erro, cujo ensino "corrói como câncer" (2 Timóteo 2:17). Tal metáfora não se encontra anteriormente nos escritos de Paulo. Sua fonte, como dispositivo polêmico, com toda a probabilidade é contem­porânea dos filósofos itinerantes, que teriam sido conhecidos dos efésios. Que Paulo tenha emprestado tal metáfora não é mais surpreendente do que o uso que ele faz da metáfora do corpo, metáfora política contemporânea bem conhecida, em 1 Coríntios 12, ou o uso que ele faz de imagens do atletismo em 1 Coríntios 9:24-27 e nestas cartas (1 Timóteo 6:12; 2 Timóteo 2:5; 4:7-8). Nestas epístolas, a imagem do ensino sadio torna-se uma polêmica eficaz contra os enfermados falsos mestres. Porém, o cerne da metáfora não visa o conteúdo da doutrina; visa, antes, o comporta­mento. O ensino sadio leva ao comportamento cristão apropriado, ao amor e às boas obras; o ensino doentio dos heréticos leva a controvérsias, arrogância, abuso e discórdia (6:4).

 

1:11 Havendo mencionado o comportamento " contrário à sã doutri­na" , Paulo conclui descrevendo a verdadeira fonte e medida do ensino sadio. É aquela que está conforme o evangelho... de Deus. O evangelho, como boas novas de Deus, em contraposição às más novas da pecaminosidade grotesca da humanidade, é expressão favorita de Paulo para referir-se à atividade de Deus em Cristo Jesus a favor dos pecadores. A “sã doutrina" está de acordo com a mensagem do evangelho, tanto no conteúdo como no comportamento resultante; o ensino "doente" dos presbíteros transviados não está.

Ao mencionar o evangelho, Paulo faz duas explicações: ele é descrito como

1. o evangelho da glória do Deus bendito,

2. o qual me foi confiado.

O evangelho é, antes de tudo, o evangelho da glória do Deus bendito (lit. ) Este tipo de construção genitiva (frase com "de") é particularmente difícil de fazer sentido na língua portuguesa (e há mais ou menos quatorze possibilidades para o seu significado em grego). Embora a frase "da glória" muitas vezes seja usada de modo descritivo no NT (p.e., Efésios 1:17, "o Pai glorioso"; Colossenses 1:11, "seu glorioso poder"; ou veja GNB aqui," Deus glorioso e bendito"), é muito provável, neste caso, que a frase descreva, não o caráter do evangelho ("glorioso evangelho"), mas o seu conteúdo ("evangelho que manifesta a plena glória de Deus"). O evangelho que Paulo anuncia desvenda a "glória", ou majestade, do próprio Deus, aqui descrito como o Deus bendito. Esta última frase, encontrada também em 6:15, não significa tanto que atribuímos bem-aventurança a Deus, mas que toda a bem-aventurança reside nele e dele procede.

Este evangelho, que revela a verdadeira glória de Deus, conclui Paulo me foi confiado. Isto é tipicamente paulino. Mencionar o evangelho, a atividade graciosa de Deus a favor dos pecadores, muitas vezes significa mencionar seu próprio papel como beneficiário e servo, ou mordomo (cp. 1 Coríntios 9:17; Gálatas 2:7; Efésios 3:2; 1 Tessalonicenses 2:4). Porém, neste caso, talvez Paulo também queira fazer-nos voltar ao tema; central, a autoridade. Este tema é tão importante que será mais plenamente desenvolvido no próximo parágrafo.

Assim, o parágrafo conclui aparentemente a alguma distância do ponto onde começou, como ligeira digressão sobre o propósito da lei, o qual passou despercebido pelos mestres da lei. Contudo, esta breve excursão para mencionar o evangelho como a revelação da majestade de Deus e do relacionamento de Paulo com o evangelho não está muito longe de seu principal interesse — obstar a divulgação do falso ensino. E tendo chegado até aqui, Paulo agora se esmerará ainda mais, nova­mente não sem propósito contextual.

 

Bibliografia D. Fee

FONTE escoladominical-ensinar.blogspot.com.br