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doutrina da graça N.1
doutrina da graça N.1

                                                COMPREENDENDO A GRAÇA

DOUTRINA DA GRAÇA 

Ef 2:8: Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus;

 

Observações Preliminares 

A palavra portuguesa graça vem do latim gratus, «agradável», «amável». As três graças clássicas da sorte, da fortuna e da providência expressavam o conceito dos antigos sobre as graciosas operações do poder divino. Dentro da teologia cristã, a «graça» veio a indicar o favor divino, gratuitamente oferecido, com base na missão de Cristo, recebida através da confiança humana na Palavra de Cristo.

 

Os termos hebraicos e gregos traduzidos por «graça» envolvem um certo número de significações na Bíblia, a saber:

 

1. Beleza física, com formas graciosas (Pv 1:9; 3:22).

2. O favor e a bondade divinos, para com os homens, ou então de um ser humano para com outro (Gn 6:8; II Sm 10:2; II Tm 1:9).

3. A glória futura, a vida eterna em todo o seu potencial (I Pe 1.13).

4. O evangelho, que anuncia a graça divina, em contraste com a lei mosaica (Jo 1:17; Rm 6:14; I Ped. 5:12).

5. Os dons espirituais (no grego, charísmata) (Rm 15:15; I Co 15:10; Ef 3:8).

6. As virtudes cristãs, como o amor, a liberalidade e a santidade, que também podem ser chamadas de «graças» (II Co 8:7; II Pe 4:12).

7. A edificação espiritual, conferida pelo Espírito Santo, é uma graça (Ef 4:29).

8. A nossa linguagem torna-se temperada com sal, quando serve para comunicar idéias que servem para edificar e para fomentar a santidade (Cl 4:6).

9. Ser alguém chamado para a graça é ouvir o anúncio do evangelho, possibilitando-o de receber os seus benefícios (Gl 1:15).

10. O principio da graça divina, em contraste com a lei e os méritos humanos, através de cujo princípio a salvação é oferecida aos homens. A misericórdia e a graça divinas são dadas aos homens sobre o fundamento da missão de Cristo, recebidas pela fé (Ef 2:5,8; Cl 1:6). Esse aspecto da graça é que é discutido no artigo que se segue.

 

Esboço

 

a.         O Vocábulo. No Grego, Charis

b.         Palavras que Indicam Graça

c.         Graça como Meio de Salvação

d.         A Graça no Antigo Testamento

e.         A Graça no Novo Testamento

f.         Graça como Atitude Divina para com o Homem

g.         A Graça, Conforme é Vista na Igreja

h.         Sumário do Uso do Termo Graça no Novo Testamento

i.          Descrições Teológicas das Operações da Graça

j.          Interpretações Históricas e Teológicas Sobre as Funções da Graça de Deus

 

a. O vocábulo: No grego é charis. A palavra traduzida por «graça» envolve muitos sentidos. Significa graciosidade, atrativos (ver Josefo, Antiq. 2,231), favor, cuidados ou ajuda graciosa, boa vontade (ver At 11:2; Rm 3:24 e Gl 1:15), saudação nas cartas, bênção expressa no fim das mesmas ou o desejo de bem-estar acerca dos leitores dessas cartas. Isso ocorre em todas as epístolas de Paulo, aparecendo ali os significados de aplicação prática da boa vontade, favor, dom gracioso, bênção graciosa (ver II Co 8:4,6 e ss, 19); favor divino e gratuito. Deus é o Deus de toda a graça (ver I Pe 5:10; I Co 1:4 e II Co 4:15); pelo que esse vocábulo também indica os efeitos produzidos pelo modo gracioso como Deus trata com os homens (ver II Co 8:1; Rm 1:5; 12:3; 15:15; I Co 3:10; Gl 2:9 e Ef 3:2) e também o sentimento de gratidão (ver Hb 12:28 e Rm 7:25). 

b. Palavras que indicam graça: além do próprio termo grego, «charis», diversas outras palavras são aliadas ao mesmo, quanto ao seu sentido, e, com freqüência, essas palavras são usadas em conexão com as ações graciosas de Deus para com os homens. A graça envolve temas como o «perdão», a «salvação», em seus aspectos inicial, progressivo e final, a «regeneração», o «arrependimento», o «amor», a «longanimidade» e a «misericórdia» de Deus.

 

c. A graça como meio de salvação. O sistema soteriológico de graça-fé

1. Esse é o conceito teológico da graça, mostrando como o mesmo opera na redenção do homem, usualmente em contraste com o sistema da «lei». 

2. Isso incorpora as idéias dos vocábulos alistados nos pontos a e b, acima, a saber, o livre-favor de Deus, os seus «dons» aos homens, a sua bondade incomensurável,etc, e tudo com base no próprio desígnio divino, e não no valor do próprio indivíduo. 

3. Esse «livre-favor divino» é recebido (mas nunca merecido) mediante a fé, conforme nos ensina o presente versículo; e essa é a teologia padrão de Paulo. 

4. A graça opera por causa do «amor» de Deus e através do mesmo, mas sempre com o tempero de sua «misericórdia». A graça é divina, e não tem sua origem no homem, ainda que a perversidade humana possa rejeitá-la ou anulá-la. 

5. A graça é «mediada» pela eleição divina, isto é, o decreto de Deus, embora isso não elimine o livre-arbítrio humano. Porém, de que modo a eleição e o livre-arbítrio podem ser verdadeiros ao mesmo tempo, não sabemos dizê-lo. (Ver Rm 8:29 e 9:15,16 quanto a uma discussão acerca do problema das relações entre o livre-arbítrio e o determinismo). 

6. A graça, embora mediada pela eleição, opera universalmente, visando à salvação de todos os homens (ver Rm 11:32; I Pe 3:18-20 e 4:6); e isso também mediante decreto e favor divinos. Também não sabemos como ambas as coisas podem ser uma verdade, mas aceitamos tal fato. Há um certo modo pelo qual Deus usa o livre-arbítrio humano sem destruí-lo, ainda que não saibamos explicar como isso sucede. As limitações do conhecimento humano, entretanto, não eliminam o valor da veracidade de certas proposições bíblicas. A fé pode ver e aceitar verdades mais elevadas do que pode fazê-lo a razão. 

7. Dentro do sistema da graça-fé, Deus redime o homem de modo totalmente à parte de seus méritos pessoais, e não em cooperação com os mesmos, porquanto a salvação vem exclusivamente pela fé, independentemente de obras. (Ver Rm 3:24,28). 

8. Contudo, segundo certo ângulo, a graça e as obras são sinônimas. A salvação deve incluir, necessariamente, a «santificação»; e esta última, como é claro, tem de incluir obras santas. Outrossim, os galardões determinam a extensão da glorificação, e os mesmos estarão alicerçados sobre as nossas obras. Mas essas obras não são as obras da lei e nem têm qualquer alicerce sobre os méritos humanos. Antes, são aspectos do fruto do Espírito (ver Gl 5:22,23), sendo produzidos no homem pelo Espírito, à medida que este se transforma segundo a imagem de Cristo. Sem isso, ninguém jamais verá a Deus (ver Hb 12:14). Todavia, visto que essas «obras» resultam das operações do Espírito, nada tendo a ver com o poder e o mérito humanos, na realidade são exteriorizações da graça divina. Portanto, essas duas realidades espiri­tuais são sinônimas, meras perspectivas diversas pelas quais contemplamos o mesmo processo. A «graça» assinala o fato de que o dom da salvação é algo totalmente «divino». As «obras», de acordo com a exposição acima, indicam aquilo que realmente é feito no homem e através do homem, pelo Espírito Santo. Não há qualquer contradição, pois, entre a graça e as obras, se ambas forem entendidas «espiritualmente». Essas «obras» não redundam em mérito humano, não se baseando na obediência à lei, considerada esta como um sistema. Pelo contrário, resultam da lei divina, escrita nas tábuas do coração. Operam segundo a «lei do Espírito», a força santificadora que atua sobre o crente (ver Rm 8:2).

 9. Cada passo progressivo da vida cristã se deve à graça. (Ver II Co 3:18, acerca do poder transforma­dor do Espírito). A «chamada» vem pela graça (ver Gl 1:5); o «arrependimento» também se deve à graça (ver II Tm 3:5); e a própria «fé» tem origem na graça, pois também vem do Espírito (ver Ef 2:8 e Gl 5:22). 

10. A graça não elimina a obediência, mas antes, torna-a imperiosa (ver Rm 1:5 e 6:17). A graça requer a «santificação», sendo a produtora desta última, porque é mediadora do poder do Espírito Santo, o qual é o agente dessas operações. A obediência e a santidade são meramente termos que apontam para a mesma realidade, a «santificação», mediante o que a imagem de Cristo vai sendo formada em nós. 

11. Portanto, aquilo que realmente torna santos os homens não é a lei, e sim a graçae a santidade de que o homem necessita é a própria santidade divina, a única que Deus pode aceitar nos seus remidos. (Ver Rm 3:21 acerca da «santidade» ou «justiça» de Deus, dada aos homens dentro do sistema da graça-fé). 

12. Portanto, ninguém pode começar pela graça e então passar a seguir a lei, como guia da conduta diária. A lei não pode guiar o crente, da mesma maneira como não poderia tê-lo salvo, a principio. A graça transcende ao poder da lei, e somente esse poder transcendental pode redimir, realmente, uma alma eterna. Dentro do sistema da graça-fé, o indivíduo se reveste de «Cristo», mediante a comunhão mística; e isso exige a sua santidade, e então a assegura, pois, do contrário, não terá ele sido salvo pela graça, sob hipótese alguma (ver Gl 3:27). Mas o Espírito que nos apresenta a Deus Pai, e nos torna filhos de Deus, garante a santidade e a salvação plena. 

13. A salvação, portanto, é um processo místico, produzido pelo Espírito que vem habitar nos homens e ter comunhão com eles. Esse é um produto da graça, já que a lei jamais poderia proporcionar tal coisa. 

14. O Espírito Santo leva os homens a viverem segundo a lei do amor, espiritualizando-os e levando-os a cumprirem a lei inteira (ver Gl 5:13,14). A fé opera mediante o princípio do amor (ver Gl 5:6). 

15. A graça não elimina a lei da colheita segundo a semeadura, porquanto reforça a responsabilidade humana, em vez de eliminá-la. Na graça o indivíduo pode e deve ser santificado, pois, de outra maneira, nunca poderá ver a Deus (ver Hb 12:14 e Gl 6:7,8). A graça torna tudo isso possível, pois serve de mediadora do Espírito divino para com os homens. A lei nunca poderia mediar o contacto místico, porque somente mostrava o pecado, exigindo uma retidão que os homens não podem mesmo produzir. 

16. A graça assegura que a salvação será finalmente completada nos remidos, no caso daqueles que tiverem confiado em Cristo, levando-os da conversão à glorificação final (ver Rm 8:14-39). Se alguém desviar-se (o que as Escrituras ensinam ser possível), será trazido de volta, ou nesta vida física, ou além do sepulcro, em alguma dimensão espiritual, de tal modo que a promessa de Cristo se cumpra, tendo ele garantido que «nenhuma ovelha» se perderá. A graça é aquela medida constante e poderosa que jamais permitirá que se perca aquele que confiou em Cristo. A queda é algo relativo à vida anterior às fronteiras eternas. Mas á «segurança» deve, finalmente, caracterizar o crente, porquanto «pertence» ele a Cristo, mesmo que do Senhor se tenha desviado e perdido contacto com o Espírito. Na graça, a «segurança» é absoluta, pois essa. é a promessa de Deus. Nada poderá separar-nos, finalmente, do amor de Deus, que há em Jesus Cristo, ainda que, temporariamente, nossa própria perversi­dade possa fazer tal coisa. Deus tem suas maneiras graciosas e convincentes de eliminar, por fim, essa perversidade humana. 

17. Apesar de que a graça, naturalmente, como uma proposição teológica, se alinhe juntamente com a predestinação e a eleição, pois nelas todo o crédito da salvação humana é atribuído a Deus, o que a graça também declara, não é ela contraditória ao livre-arbítrio e à responsabilidade humana. Isso é confirmado tanto pela doutrinaneotestamentária como pela experiência diária. A própria graça possibilita uma salvação universal (ver Rm 11:32); e o seu produto, a cruz de Cristo, atrai todos os homens a Cristo (ver Jo 12:32). Os decretos divinos são estabelecidos na graça; e de alguma maneira eles cooperam com o livre-arbítrio humano e se utilizam deste, sem destruí-lo. Porém, como isso ocorre, não sabemos dizê-lo. Existe uma graça «geral» e também uma graça da «eleição». Mas como reconciliar esses dois aspectos entre si, não sabemos. Sem dúvida serão dois lados de uma verdade maior, que algum dia haveremos de compreender. 

d. A graça no A.T. Paulo dá a entender que o caminho de salvação é o mesmo, tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos. Os capítulos quatro e nono a décimo primeiro da epístola aos Romanos, com suas muitas citações do A.T., comprovam o ponto. Os oponentes do apóstolo dos gentios, porém, nunca aceitaram essa tese, porque, na realidade, a idéia mais difundida no A.T. é a da «lei» e da salvação mediante a obediência a essa lei. Nada existe de mais susceptível à prova do que assim é que toda a cultura judaica, antiga e moderna, tem compreendido a questão. A idéia paulina era revolucionária, produto de uma revelação superior, não tendo sido aceita pela maioria dos religiosos antigos, principalmente pela igreja cristã judaica, conforme vemos no décimo quinto capítulo do livro de Atos. Ver sobreLegalismo. No entanto, muitos dos «irmãos legalis­tas», continuando a confiar na circuncisão e nas obras da lei, eram crentes autênticos, pois haviam recebido o toque do Espírito Santo e se tinham convertido ao Senhor, tendo a Cristo como seu «Cabeça» (ver Cl 2:19). Deus tem tempo para corrigir as nossas «crenças». O essencial não é a fé em algum credo, e, sim, se um homem foi ou não tocado pelo Espírito transformador. E condições idênticas prevalecem na igreja cristã de nossos dias. Muitos crêem que, de algum modo, estão fazendo acréscimos à sua salvação mediante atos de devoção, ritos, sacramentos, etc. Porém, estão equivocados. Todavia, muitos deles aparentemente conhecem experimentalmente a Cristo e o têm como seu Cabeça. E isso faz com que pertençam ao Senhor. 

Apesar de que não se pode demonstrar claramente no A.T. o sistema da graça-fé, em contraste com o sistema da «lei», aqui e acolá aparecem pontos de«discernimento» quanto ao princípio mais elevado da graça, antecipando os ensinamentos neotestamentários. A ilustração de Paulo acerca de Abraão, no quarto capítulo da epístola aos Romanos, com base na narrativa do A.T., é exemplo disso—Abraão foi justificado pela fé.  Com isso, como é claro, os legalistas nãoconcordavam. (Ver Dt 7:7,8, onde se aprende que a eleição do povo de Israel se baseou exclusivamente sobre a vontade de Deus;  e  isso antecipa o ensino da«graça», ainda que talvez não declare diretamente tal princípio).

 Por igual modo, várias indicações atinentes ao «arrependimento», que reconhecem ser este o recebimento de um novo coração, algo que depende de uma operação no íntimo, e não de mera obediência externa ao princípio legalista, comprovam o que acabamos de declarar. (Ver Jl 2:13; Ez 18:31). O novo coração é dom da graça divina (ver Jr 31:31-34); pelo que a graça é antecipada em certos trechos do A.T., quando estes falam sobre o arrependimento. 

e. A graça, nos escritos neotestamentários, não-paulinos. O termo «charis» nunca aparece nos lábios de Jesus, nos evangelhos Sinópticos. Porém, diversas das suas parábolas ensinam o «princípio da graça», como um ato divino. (Ver Lc 14:16-24 e 15:20-24. Ver também Mc 1:15; 6:12 e Lc 24:27). O livro de Atos, igualmente escrito por Lucas, indica, com grande freqüência, que a salvação vem pela fé, a parte das obras (ver o décimo quinto capítulo de Atos, na decisão do concilio de Jerusalém, que se manifestou sobre a questão). Por semelhante modo, nos capítulos um e dois da primeira epístola de Pedro e também em I Pe 3:7 e 5:10, aprende-se estar em operação o princípio da graça, com prístina clareza, embora o assunto não seja ali tão bem desenvolvido como nos escritos de Paulo. A epístola aos Hebreus emprega muitas palavras que indicam a «graça». (Ver Hb 2:9; 12:14,15,28. Ver também acerca da expressão «trono da graça», em Hb 4:16; e da expressão «Espírito da graça», em Hb 10:29). O evangelho de João não desenvolve o conceito da graça, mas apenas salienta a necessidade de «fé» para haver a salvação, o que é um elemento básico do sistema da graça. (Ver Jo 3:3—5,16). A «graça e a verdade» vieram por meio de Jesus Cristo, em contraste com a «lei», que viera por intermédio de Moisés (ver Jo 1:17). Dessa forma, apesar de que somente o apóstolo Paulo desenvolve as descrições teológicas do sistema da «graça-fé», o N.T. inteiro é um documento que ilustra essa verdade. Moffatt, por conseguinte, estava com razão, quando escreveu: «A religião do N.T. é a religião da graça; em caso contrário, nada é, nem é graça e nem é evangelho». (Grace in the New Testament, pág. xv). 

f.  A graça como atitude divina para com os homens. «A essência da doutrina da graça é que Deus é por nós. E, o que é mais, ele é por nós, embora nós mesmos sejamos contra ele. Mais ainda, ele não é por nós meramente como uma atitude geral, mas tem agido eficazmente em nosso favor. A graça é sumariada no nome Jesus Cristo... Jesus Cristo é Deus por nós... tudo isso é verdade porque Cristo veio, morreu, ressuscitou e 'a graça veio por meio de Cristo Jesus' (Jo 1:17). A encarnação do Filho de Deus, o seu sofrimento obediente, a sua morte como sacrifício e a sua ressurreição triunfal, não nos mostram apenas que Deus é gracioso, mas o próprio ato gracioso de Deus, porquanto ele se volta para nós e efetua esse relacionamento... outrossim, é da essência da graça que ela é livre... E visto que a graça é a decisão livre de Deus a nosso respeito, em Cristo, que procede de sua graciosidade, segue-se que não temos habilidade de conquistar sua graça ou favor. É por essa razão que a graça se opõe às obras da lei, tacitamente por todo o N.T., e, de modo expresso, em passagens como Rm 3:19 e ss ; Jo 1:16; Gl 2:11-21 e Ef 2:8. (T.H.L. Parker, pág. 258 do Baker's Theological Dictionary). 

g.  A graçasegundo é vista na igreja cristã. Era popular, entre os escolásticos (Tomás de Aquino e outros), salientar a idéia da salvação cooperativa, em que o puro favor de Deus cooperaria com as obras humanas, juntamente com as observância dos ritos e demais provisões da igreja. Já que essas «obras» eram interpretadas de modo «legalista», e não de modo «espiritual», a idéia do «mérito humano», mui necessariamente, participava da soteriologia da cristandade. Isso significava que «a graça de Deus» não poderia mais ser logicamente considerada o único meio de salvação do homem. Sem perceber, a igreja retornara à sinagoga judaica. A continua e exagerada ênfase sobre os méritos humanos transformou a «graça», virtualmente, em algo que qualquer um poderia escolher ou não, à sua vontade; e mesmo nos casos em que ela fosse plenamente escolhida, não era reputada força suficientemente poderosa para realizar tudo aquilo que é requerido para a salvação. Martinho Lutero pôs em dúvida toda essa maneira de pensar, devolvendo a graça a seu trono teológico. Todavia, alguns elementos protestantes continuaram pensando que os sacramentos são os «meios» de transmissão da graça de Deus, embora interpretassem os mesmos como instrumentos do Espírito de Deus, insistindo que nenhum «mérito humano» está envolvido no seu uso e eficácia. Outrossim, os sacramentos não teriam o mínimo valor a menos que os beneficiários usassem da «fé»; ou então, como alguns supõem até hoje, o pacto da graça continua operante até que os beneficiários (como se dá no caso dos infantes batizados) sejam pessoalmente capazes de exercer fé. Outros protestantes, entretanto, vieram a rejeitar os sacramentos como «meios» da graça, aceitando os mesmos como meros símbolos da graça e das provisões de Deus, ao passo que os benefícios derivados dela operam mediante o — contato místico - com o Espírito Santo, inteiramente à parte de elementos físicos. Dentro da «graça», até a própria fé do indivíduo é considerada «inspirada» por Deus; contudo, a maior parte dos cristãos crê que a cruz prove uma graça geral, propiciando a todos os homens a possibilidade de exercer fé, se assim quiserem fazê-lo. Outrossim, a perversidade da vontade humana pode resistir à graça divina.

 

h. Sumário do uso do vocábulo «graça», nas paginas do N.T.: 

1. Em termos gerais, significa favor, benevolência, da parte de Deus ou dos homens. (Ver Lc 1:30, onde Maria recebe o favor divino; Lc 2:40, onde se lê que Jesus crescia na graça de Deus, sujeito a sua benevolência e favor). Os apóstolos, a princípio, obtiveram o «favor» ou «aprovação» do povo (ver At 4:33). 

2. É palavra usada para indicar as «bênçãos» dispensadas por Deus, os atos de bondade «beneficen­te». Jesus era «cheio de graça» e dispensa a mesma (ver Jo 1:14). Isso porque ele estava «favoravelmente disposto» para com outros; e a graça divina opera por igual modo. (Ver I Co 1:4 e II Co 9:8, onde se aprende que Deus é favoravelmente disposto para com a igreja, acompanhando tal favor com atos de bondade). 

3. O vocábulo também indica a fé cristã, em sua inteireza. Nessa categoria, talvez caiba o trecho de Jo 1:17 que diz que a lei veio por meio de Moisés, mas «graça e verdade» vieram por meio de Jesus Cristo. Nesse sentido, a «graça» é posta em contradistinção à lei; e de fato, os pontos essenciais da fé religiosa, dentro do sistema da «graça», estão contidos na revelação cristã. Em At 13:43, a exortação é que os novos convertidos continuassem na fé cristã. Em Rm 6:14 é afirmado que não estamos debaixo da lei, e, sim, da graça. Ver também II Co 1:12; Gl 1:6; Cl 1:6; II Tm 2:1; Tt 2:11; Hb 12:15; I Pe 5:12. Apesar da própria fé cristã nem sempre estar em foco nessas referências, essa fé é que contém e dispensa a graça de Deus, a qual opera mediante a fé e seu sistema religioso. 

4. A graça pode indicar as bênçãos e os benefícios especificamente adquiridos por Jesus Cristo. O trecho de Rm 5:15,17, tem a «graça» em oposição à «morte». Ela éa medida que transmite vida, resultado da missão, da expiação e da ressurreição de Cristo. (Ver também as bênçãos das epístolas paulinas em geral. «A graça do Senhor Jesus Cristo seja convosco»). 

5. A graça faz parte das saudações e bênçãos, pelo que, na fórmula epistolar, é expressão de «um desejo de bem-estar espiritual», em favor dos leitores. Isso ocorre em todas as epístolas paulinas, no começo e no fim das mesmas.

 6. A graça indica também o ofício ou autoridade dos apóstolos (ver Rm 13:3). 

7. Pode significar um «dom», «salário» ou «dinheiro recolhido» para os pobres, ou seja, esmolas (ver Lc 7:32-34; I Co 16:3; II Co 13:4; Eclesiástico 17:22). 

8. Pode significar «agradecimento» ou «ação de graças» (ver Lc 17:9; Rm 6:17; I Co 10:30). 

9. Pode indicar galardão ou «recompensa» (ver Mc 6:32-34 e Mt 5:46). Esse é um sentido comum no grego antigo. 

10. Indica também o «meio de buscar o favor ou a bondade de outrem» (ver I Pe 2:19,20). 

11. Indica ainda «alegria», «prazer», «gratificação», pois o termo grego «charis» é usado em lugar de «chara», e isso com freqüência, no N.T. (ver Fp 7:11; II Co 1:5). 

12. Aponta para um ato «agradável» a outrem (ver At 24:27). 

13. Mostra aquilo que tem o poder de buscar e obter favor, uma conduta gentil (ver Lc 4:22; Ef 4:29 e Cl 4:6). Normalmente, o vocábulo charis tem a idéia de «benção» ou «beneficio», que promove o bem-estar dos homens; e, em sua definição neotestamentária, no que diz respeito ao sistema da «graça-fé» (em contraste com a lei), isso indica, ordinariamente, que tal benefício espiritual é dado como um dom da parte de Deus, embora não merecido pelos homens. Portanto, o termo grego «charlo», isto é, «regozijo-me», parece ter a mesma raiz; pois, de fato, a «graça», em suas muitas formas de manifestação, é motivo de grande regozijo.

 

Graça Considerada Como Oportunidade

 

1. É verdade que a «oportunidade» de obter a salvação, através de meios determinados por Deus (mesmo que incluíssem obras humanas), seria uma forma de graça. Mas, não é a graça aludida no presente texto.

 

2. As próprias obras são predeterminadas por Deus e ordenadas aos homens para as praticarem (conforme nos mostra o décimo versículo). De certa maneira, pois, as próprias obras são produtos da graça divina. Naturalmente, devemos pensar em obras espirituais, inspiradas pelo Espírito, e não em obras humanas meritórias. 

3. Deus nos proporciona a oportunidade de cumprir a sua vontade. Nesse sentido, tal oportunidade é graça.

 

i. Descrições Teológicas das Operações da Graça

 

1. Graça Atual. De acordo com a teologia católica romana, esse tipo ou função da graça é uma ajuda sobrenatural dada por Deus, capacitando a pessoa a evitar o pecado ou a realizar algum ato (ou atos), que tende à sua salvação. — Esse dom é interno, embora também tenha natureza transitória. 

2. Graça Habitual. Essa graça opera a fim de santificar a pessoa, visto que, sem esse tipo de ato e intervenção divinos, ninguém poderia tornar-se santo. Naturalmente, essa graça requer a cooperação da vontade humana, embora transcenda ao poder da vontade do homem. 

3. Graça Irresistível. Essa idéia está ligada a Agostinho e a Calvino, como um dos temas favoritos da teologia da predestinação. De acordo com ela, a graça de Deus atua incondicional e irresistivelmente nos eleitos, garantindo a salvação deles, produzindo a reação favorável dos homens para com o evangelho, e garantindo que essa reação seja absolutamente completa e eficaz. A graça irresistível, em conseqüên­cia, garante a eterna segurança dos eleitos. Sem dúvida, os eleitos desviar-se-iam de sua vereda espiritual, não fosse esse poderosíssimo fator da graça divina. 

4. Graça Geral. No outro lado da moeda, há aquela doutrina que diz que a graça de Deus é tão poderosa que capacita todos os homens, de todos os lugares, em todos os tempos, a reagirem favoravelmente ao evangelho, contanto que a vontade deles concorde com isso. Assim, um homem alienado de Deus, não poderia voltar-se sozinho para Deus; mas, a graça geral de Deus garante a real possibilidade do retorno de todos os homens a Deus, e não somente de algum grupo eleito. O apelo universal do evangelho repousaria sobre a realidade dessa graça geral, porque, do contrário, o convite do evangelho a todos os homens seria uma impostura. Ademais, sem essa graça geral divina e sem a liberdade humana de escolha, não poderia haver responsabilidade moral nos homens. 

5. Graça Preveniente. Esse seria o ato divino que influencia os homens a buscarem a bondade e a espiritualidade, antes de qualquer reação por parte deles. Aqueles que acreditam em batismo de infantes aplicam esse princípio ao caso. Deus faria pelos infantes algo que eles não podem fazer por si mesmos. Esse tipo de graça não é algo que opere de uma vez por todas. Antes, seria uma operação continua, no caso de crentes, tanto quanto no caso de incrédulos. Trata-se da influência do Espírito de Deus, neste mundo, a fim de realizar os seus desígnios benévolos, incluindo o propósito de salvar, mas também a graça necessária para o crescimento espiritual e para o bem-estar geral. A maior parte dos teólogos opina que essa forma de graça não opera de forma irresistível. Certos teólogos limitam a graça preveniente de Deus, supondo  que  ela  só  opera  no  caso  dos  eleitos, levando-os à fé, ao passo que todos os outros são fixados em sua incredulidade. 

6. Graça Santificadora. A graça de Deus atua sobre a alma de um homem a fim de transformá-lo. Essa graça permite a presença permanente de Deus na vida de uma pessoa, operando em harmonia com os desígnios do evangelho. Ela produz a união mística com Cristo e cria no homem novas atitudes e novos hábitos. A santificação faz parte da nossa transformação segundo a imagem de Cristo (Rm 8:29; II Co 3:18), que é o propósito e o alvo da nossa Salvação. É dessa maneira que chegaremos a compartilhar da própria natureza divina(Cl 2:10; II Pe 1:4), e, por conseqüência, da plenitude de Deus (Ef 3:19). Tal resultado jamais poderia ser alcançado sem o concurso da graça de Deus. 

A posição do catolicismo é que os vários Sacramentos são agentes da graça de Deus. A maioria dos protestantes prefere o conceito da comunhão mística com o Senhor, sem meios intermediários sacramentais, que são apenas símbolos das operações da graça, e não canais ou instrumentos da mesma. 

7. Graça Suficiente. Esse é o poder de Deus, conferido aos homens, mediante o Espírito Santo, o que lhes dá a capacidade de fazer alguma coisa, ou de crescerem espiritualmente, mas que os homens, mediante a negligência, podem deixar de usar. Esse termo pode ser entendido como sinônimo de graça geral. Até mesmo o pior dos pecadores tem o potencial para vir a Cristo, pois a graça de Deus é suficiente para trazê-lo, tendo-lhe sido oferecida especificamente com essa finalidade.Outrossim, essa graça suficiente é aplicada de fato, finalmente, de conformidade com o mistério da vontade de Deus, conduzindo todos os homens à unidade em torno de Cristo (Ef 1:9,10). Quanto a esse aspecto da questão (embora nem todos serão, finalmente, conduzidos à salvação), a graça suficiente torna-se na graça eficaz,explicada no ponto abaixo. Isso se relaciona aos planos a longo prazo que Deus traçou para beneficiar aos homens. 

8. Graça Eficaz. Essa é a graça suficiente quando se torna atuante sobre as vidas dos homens, dentro das questões da salvação, da santificação, da transforma­ção segundo a imagem de Cristo, do crescimento espiritual e da restauração. Sobre essa graça repousam todos os benefícios que a humanidade pode esperar, obter. Dentro do mistério da vontade de Deus, essa graça será, finalmente, eficaz em um sentido universal. Não fora esse fator, — a vida humana poderia ser definida de uma forma pessimista. Em outras palavras, teria sido melhor que a humanidade em geral nunca tivesse vindo à existência.

 

j. Interpretações Históricas e Teológicas sobre as Funções da Graça de Deus

 

1. No Antigo Testamento encontramos os princí­pios da graça e da fé. Ver as Observações Preliminares, no começo deste artigo. A grande declaração paulina: «O justo viverá pela fé», é uma citação extraída do Antigo Testamento. Ver Hb 2:4. Paulo também observa que Abraão foi justificado pela fé (Rm 4:3), tendo extraído essa idéia do trecho de Gn 15:6. No entanto, Tiago afirma claramente que Abraão foi justificado pelas obras da fé (Tg 2:21). E, três versículos adiante, faz a justificação depender tanto da fé quanto das obras da fé. Essa posição, sem dúvida, representa a posição do Antigo Testamento. Se não fora assim, a doutrina de Paulo teria sido considerada comum, e não revolucionária. A agitação que a doutrina paulina causou mostra que a mesma contradizia a teologia ortodoxa judaica. E era aquele que praticasse os mandamentos e as ordenanças da lei que obteria a vida (Lv 18:5). Na verdade, é inútil tentar encontrar as idéias de Paulo nos escritos de Moisés. Em caso contrário, a revelação cristã seria uma mera repetição da revelação veterotestamentária, e não um avanço em relação a esta última. Basta falarmos com um rabino sobre a questão. Ele nos dirá o que os judeus realmente criam, antes de certas passagens do Antigo Testamento terem sido cristianizadas. 

2. Paulo ensinava a doutrina da graça, acompa­nhada pela fé salvadora (Ef 2:8 ss). O capítulo quinze de Atos demonstra o conflito que isso provocou no mundo teológico. As epístolas aos Romanos e aos Gálatas são a nossa mais cuidadosa descrição da nova doutrina, a qual, quando proferida no princípio, foi considerada a mais horrenda heresia, pois parecia anular os ensinamentos de Moisés. O segundo capitulo da epístola de Tiago, exibe a reação de alguns cristãos contra a nova doutrina, embora também haja quem interprete que não há qualquer discrepância entre Paulo e Tiago, pois enfocavam diferentes aspectos da doutrina cristã. 

3. Agostinho argumentava contra as idéias de Pelágio, empregando a mais pura doutrina paulina.  Deus proveria tanto a graça quanto a vontade para recebê-la, o que significa que tanto a graça preveniente quanto a graça eficaz dependem da soberana vontade de Deus, e não da vontade do homem. A única maneira de alguém rejeitar a graça divina é não ser uma pessoa em quem a graça de Deus não esteja operando, ou, em outras palavras, não pertencer ao grupo dos eleitos. Os eleitos, por outro lado, são influenciados pela divina graça irresistível. 

4. A Graça Sacramental. Em certos segmentos da Igreja cristã, no Oriente e no Ocidente, os sacramentos foram vinculados indevidamente ao principio da graça divina, e então os teólogos, com base nisso, criaram uma religião sacramentalista. De acordo com a mesma, a graça de Deus é transmitida aos homens através dos sacramentos, não podendo ser transmitida sem os mesmos. Para nós, essa é uma posição distorcida, falsa. Deus nos comunica a sua graça por meios místicos, através da atuação   direta   do   Espírito,   e   não   por   meios sacramentais. Entendemos a palavra «misticismo» como um contato real entre o Espírito de Deus e o espírito do homem. É mediante esse contacto que é outorgada e opera a graça divina. graça sacramental é a concepção que diz que a graça divina não é meramente simbolizada pelos sacramentos, porquanto afirma que os sacramentos são o instrumento da comunicação dessa graça, o sine qua non da distribuição da graça divina entre os homens.

 5. John Tauler promovia o ascetismo como um agente que coopera com a graça divina, garantindo a volta do homem a Deus. 

6.  Lutero assumia uma posição paulina-agostiniana sobre a graça de Deus; e esse foi o maior elemento teológico isolado da Reforma Protestante. Porém, ele foi além do que fora Agostinho, pois negava a eficácia da vontade humana, como também a realidade do livre-arbítrio humano.

 7. Calvino tomava uma extremada posição paulina agostiniana, expondo um sistema de rígida predestinação. De acordo com o seu sistema, a graça geral é negada, ao mesmo tempo em que a graça irresistível (ver sobre esses itens no ponto nono, acima) é enfatizada, mas somente no caso dos eleitos. E na minha opinião, esse evangelho peca por deficiência. 

8. Melanchton procurou suavizar a posição de Lutero, e ensinou uma doutrina do sinergismo. Três fatores, supostamente, estariam envolvidos nas operações da graça divina: o Espírito Santo, a Palavra de Deus e a vontade humana. Em oposição a essa idéia temos o monergismo, o conceito de que somente o Espírito de Deus está envolvido nas operações da graça, inteiramente à parte da vontade e dos esforços humanos. O monergismo era a posição de Lutero e de Calvino, embora eles não tivessem empregado esse vocábulo. O termo sinergismo vem diretamente do grego: syn, «com» e ergeein, «trabalhar», e, portanto, «trabalhar em cooperação com», com o envolvimento de vários elementos. Até onde podemos ver as coisas o trecho de Filipenses 2:12,13 exprime a idéia do sinergismo: «Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação, com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade». Mas outros trechos do Novo Testamento exprimem um puro monergismo, como o nono capítulo da epístola aos Romanos. 

9. Suarez (vide, ponto quarto) criou o termo congruísmo, a fim de descrever o seu conceito de como a livre decisão humana, referente à salvação, cede diante da vontade de Deus, mediante a graça divina. A graça divina, infalivelmente, conduz o pecador a Deus, mas ela não é incongruente com o livre-arbítrio humano. Esse ponto tem sido intensa­mente debatido, mas as discussões não têm produzido uma resposta clara acerca de como isso funciona 

10. Jonathan Edwards limitava a graça preveniente de Deus exclusivamente aos eleitos. Deus faria certos homens (os eleitos) crerem; os demais seriam deixados em sua incredulidade. 

11. A.E. Taylor falava sobre a eterna iniciativa divina, mediante a qual Deus busca os homens, devendo isso corresponder à iniciativa do indivíduo, — a cada pessoa em particular. E essa combinação é que leva uma alma à imortalidade. Isso soa como as idéias do sinergismo.

 

Fonte Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia  

 

 Definição. O termo graça, do original charis, é usado cerca de cem vezes nas epístolas paulinas. Destas, vinte e quatro aparecem apenas em Romanos (1.5,7; 3.24; 4.4; 4.16; 5.2,15,17,18,20,21; 6.1,14,15; 11.5,6; 12.3,6; 15.15; 16.20,24). Na Antiga Aliança, o termo hebraico hesed corresponde ao sentido do Novo Testamento. Em diversas passagens é traduzido por “favor”, “misericórdia”, “bondade amorosa”, ou “graça que procede de Deus” (Êx 34.6; Ne 9.17; Sl 103.8; Jn 4.2).No contexto da doutrina da salvação, charis é o dom ou favor imerecido de Deus, mediante o qual os homens são salvos por meio de Cristo (Ef 1.7; 2.5,8; Rm 3.24; Tt 2.14).

 A extensão da graça. Estudar a respeito da graça de Deus implica descrever os principais ramos da doutrina da salvação: o perdão (At 10.43), a salvação (Tt 2.11; Rm 1.16), a regeneração (Tt 3.5), o arrependimento (At 11.18; Rm 2.4) e o amor divino (Jo 3.16; Rm 5.8). 

A graça de Deus é dinâmica. Não somente salva, mas vivifica aqueles que estão destruídos pelo pecado, capacitando-os a viver em santidade (Ef 2.1-8). O capítulo 6 de Romanos mostra que a vida cristã requer santidade. Na igreja em Roma, muitos acreditavam que, se a salvação é pela fé, então, cada um podia fazer o que bem desejasse. Se a lei não salva, temos algum compromisso com ela? Paulo, portanto, escreve para evitar o mal-entendido. Somos salvos pela graça, por meio da fé (Ef 2.8-10). No entanto, a fé não anula a lei, mas a estabelece (Rm 3.30-31).   

Ef 2:8: Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; 

Observações Preliminares

 

A palavra portuguesa graça vem do latim gratus, «agradável», «amável». As três graças clássicas da sorte, da fortuna e da providência expressavam o conceito dos antigos sobre as graciosas operações do poder divino. Dentro da teologia cristã, a «graça» veio a indicar o favor divino, gratuitamente oferecido, com base na missão de Cristo, recebida através da confiança humana na Palavra de Cristo. 

Os termos hebraicos e gregos traduzidos por «graça» envolvem um certo número de significações na Bíblia, a saber:

 

1. Beleza física, com formas graciosas (Pv 1:9; 3:22).

2. O favor e a bondade divinos, para com os homens, ou então de um ser humano para com outro (Gn 6:8; II Sm 10:2; II Tm 1:9).

3. A glória futura, a vida eterna em todo o seu potencial (I Pe 1.13).

4. O evangelho, que anuncia a graça divina, em contraste com a lei mosaica (Jo 1:17; Rm 6:14; I Ped. 5:12).

5. Os dons espirituais (no grego, charísmata) (Rm 15:15; I Co 15:10; Ef 3:8).

6. As virtudes cristãs, como o amor, a liberalidade e a santidade, que também podem ser chamadas de «graças» (II Co 8:7; II Pe 4:12).

7. A edificação espiritual, conferida pelo Espírito Santo, é uma graça (Ef 4:29).

8. A nossa linguagem torna-se temperada com sal, quando serve para comunicar ideias que servem para edificar e para fomentar a santidade (Cl 4:6).

9. Ser alguém chamado para a graça é ouvir o anúncio do evangelho, possibilitando-o de receber os seus benefícios (Gl 1:15).

10. O principio da graça divina, em contraste com a lei e os méritos humanos, através de cujo princípio a salvação é oferecida aos homens. A misericórdia e a graça divinas são dadas aos homens sobre o fundamento da missão de Cristo, recebidas pela fé (Ef 2:5,8; Cl 1:6). Esse aspecto da graça é que é discutido no artigo que se segue.

 

Esboço

 

a.       O Vocábulo. No Grego, Charis

b.      Palavras que Indicam Graça

c.       Graça como Meio de Salvação

d.      A Graça no Antigo Testamento

e.       A Graça no Novo Testamento

f.       Graça como Atitude Divina para com o Homem

g.       A Graça, Conforme é Vista na Igreja

h.      Sumário do Uso do Termo Graça no Novo Testamento

i.       Descrições Teológicas das Operações da Graça

j.       Interpretações Históricas e Teológicas Sobre as Funções da Graça de Deus

 

a. O vocábulo: No grego é charis. A palavra traduzida por «graça» envolve muitos sentidos. Significa graciosidade, atrativos (ver Josefo,Antiq. 2,231), favor, cuidados ou ajuda graciosa, boa vontade (ver At 11:2; Rm 3:24 e Gl 1:15), saudação nas cartas, bênção expressa no fim das mesmas ou o desejo de bem-estar acerca dos leitores dessas cartas. Isso ocorre em todas as epístolas de Paulo, aparecendo ali os significados de aplicação prática da boa vontade, favor, dom gracioso, bênção graciosa (ver II Co 8:4,6 e ss, 19); favor divino e gratuito. Deus é o Deus de toda a graça (ver I Pe 5:10; I Co 1:4 e II Co 4:15); pelo que esse vocábulo também indica os efeitos produzidos pelo modo gracioso como Deus trata com os homens (ver II Co 8:1; Rm 1:5; 12:3; 15:15; I Co 3:10; Gl 2:9 e Ef 3:2) e também o sentimento de gratidão (ver Hb 12:28 e Rm 7:25). 

b. Palavras que indicam graça: além do próprio termo grego, «charis», diversas outras palavras são aliadas ao mesmo, quanto ao seu sentido, e, com frequência, essas palavras são usadas em conexão com as ações graciosas de Deus para com os homens. A graça envolve temas como o «perdão», a «salvação», em seus aspectos inicial, progressivo e final, a «regeneração», o «arrependimento», o «amor», a «longanimidade» e a «misericórdia» de Deus. 

c. A graça como meio de salvação. O sistema soteriológico de graça-fé

1. Esse é o conceito teológico da graça, mostrando como o mesmo opera na redenção do homem, usualmente em contraste com o sistema da «lei». 

2. Isso incorpora as ideias dos vocábulos alistados nos pontos a e b, acima, a saber, o livre-favor de Deus, os seus «dons» aos homens, a sua bondade incomensurável, etc, e tudo com base no próprio desígnio divino, e não no valor do próprio indivíduo. 

3. Esse «livre-favor divino» é recebido (mas nunca merecido) mediante a fé, conforme nos ensina o presente versículo; e essa é a teologia padrão de Paulo. 

4. A graça opera por causa do «amor» de Deus e através do mesmo, mas sempre com o tempero de sua «misericórdia». A graça é divina, e não tem sua origem no homem, ainda que a perversidade humana possa rejeitá-la ou anulá-la.

 

5. A graça é «mediada» pela eleição divina, isto é, o decreto de Deus, embora isso não elimine o livre-arbítrio humano. Porém, de que modo a eleição e o livre-arbítrio podem ser verdadeiros ao mesmo tempo, não sabemos dizê-lo. (Ver Rm 8:29 e 9:15,16 quanto a uma discussão acerca do problema das relações entre o livre-arbítrio e o determinismo). 

6. A graça, embora mediada pela eleição, opera universalmente, visando à salvação de todos os homens (ver Rm 11:32; I Pe 3:18-20 e 4:6); e isso também mediante decreto e favor divinos. Também não sabemos como ambas as coisas podem ser uma verdade, mas aceitamos tal fato. Há um certo modo pelo qual Deus usa o livre-arbítrio humano sem destruí-lo, ainda que não saibamos explicar como isso sucede. As limitações do conhecimento humano, entretanto, não eliminam o valor da veracidade de certas proposições bíblicas. A fé pode ver e aceitar verdades mais elevadas do que pode fazê-lo a razão. 

7. Dentro do sistema da graça-fé, Deus redime o homem de modo totalmente à parte de seus méritos pessoais, e não em cooperação com os mesmos, porquanto a salvação vem exclusivamente pela fé, independentemente de obras. (Ver Rm 3:24,28). 

8. Contudo, segundo certo ângulo, a graça e as obras são sinônimas. A salvação deve incluir, necessariamente, a «santificação»; e esta última, como é claro, tem de incluir obras santas. Outrossim, os galardões determinam a extensão da glorificação, e os mesmos estarão alicerçados sobre as nossas obras. Mas essas obras não são as obras da lei e nem têm qualquer alicerce sobre os méritos humanos. Antes, são aspectos do fruto do Espírito (ver Gl 5:22,23), sendo produzidos no homem pelo Espírito, à medida que este se transforma segundo a imagem de Cristo. Sem isso, ninguém jamais verá a Deus (ver Hb 12:14). Todavia, visto que essas «obras» resultam das operações do Espírito, nada tendo a ver com o poder e o mérito humanos, na realidade são exteriorizações da graça divina. Portanto, essas duas realidades espiri­tuais são sinônimas, meras perspectivas diversas pelas quais contemplamos o mesmo processo. A «graça» assinala o fato de que o dom da salvação é algo totalmente «divino». As «obras», de acordo com a exposição acima, indicam aquilo que realmente é feito no homem e através do homem, pelo Espírito Santo. Não há qualquer contradição, pois, entre a graça e as obras, se ambas forem entendidas «espiritualmente». Essas «obras» não redundam em mérito humano, não se baseando na obediência à lei, considerada esta como um sistema. Pelo contrário, resultam da lei divina, escrita nas tábuas do coração. Operam segundo a «lei do Espírito», a força santificadora que atua sobre o crente (ver Rm 8:2). 

9. Cada passo progressivo da vida cristã se deve à graça. (Ver II Co 3:18, acerca do poder transforma­dor do Espírito). A «chamada» vem pela graça (ver Gl 1:5); o «arrependimento» também se deve à graça (ver II Tm 3:5); e a própria «fé» tem origem na graça, pois também vem do Espírito (ver Ef 2:8 e Gl 5:22). 

10. A graça não elimina a obediência, mas antes, torna-a imperiosa (ver Rm 1:5 e 6:17). A graça requer a «santificação», sendo a produtora desta última, porque é mediadora do poder do Espírito Santo, o qual é o agente dessas operações. A obediência e a santidade são meramente termos que apontam para a mesma realidade, a «santificação», mediante o que a imagem de Cristo vai sendo formada em nós. 

11. Portanto, aquilo que realmente torna santos os homens não é a lei, e sim a graçae a santidade de que o homem necessita é a própria santidade divina, a única que Deus pode aceitar nos seus remidos. (Ver Rm 3:21 acerca da «santidade» ou «justiça» de Deus, dada aos homens dentro do sistema da graça-fé). 

12. Portanto, ninguém pode começar pela graça e então passar a seguir a lei, como guia da conduta diária. A lei não pode guiar o crente, da mesma maneira como não poderia tê-lo salvo, a principio. A graça transcende ao poder da lei, e somente esse poder transcendental pode redimir, realmente, uma alma eterna. Dentro do sistema da graça-fé, o indivíduo se reveste de «Cristo», mediante a comunhão mística; e isso exige a sua santidade, e então a assegura, pois, do contrário, não terá ele sido salvo pela graça, sob hipótese alguma (ver Gl 3:27). Mas o Espírito que nos apresenta a Deus Pai, e nos torna filhos de Deus, garante a santidade e a salvação plena. 

13. A salvação, portanto, é um processo místico, produzido pelo Espírito que vem habitar nos homens e ter comunhão com eles. Esse é um produto da graça, já que a lei jamais poderia proporcionar tal coisa. 

14. O Espírito Santo leva os homens a viverem segundo a lei do amor, espiritualizando-os e levando-os a cumprirem a lei inteira (ver Gl5:13,14). A fé opera mediante o princípio do amor (ver Gl 5:6). 

15. A graça não elimina a lei da colheita segundo a semeadura, porquanto reforça a responsabilidade humana, em vez de eliminá-la. Na graça o indivíduo pode e deve ser santificado, pois, de outra maneira, nunca poderá ver a Deus (ver Hb 12:14 e Gl 6:7,8). A graça torna tudo isso possível, pois serve de mediadora do Espírito divino para com os homens. A lei nunca poderia mediar o contacto místico, porque somente mostrava o pecado, exigindo uma retidão que os homens não podem mesmo produzir. 

16. A graça assegura que a salvação será finalmente completada nos remidos, no caso daqueles que tiverem confiado em Cristo, levando-os da conversão à glorificação final (ver Rm 8:14-39). Se alguém desviar-se (o que as Escrituras ensinam ser possível), serátrazido de volta, ou nesta vida física, ou além do sepulcro, em alguma dimensão espiritual, de tal modo que a promessa de Cristo se cumpra, tendo ele garantido que «nenhuma ovelha» se perderá. A graça é aquela medida constante e poderosa que jamais permitirá que se perca aquele que confiou em Cristo. A queda é algo relativo à vida anterior às fronteiras eternas. Mas á «segurança» deve, finalmente, caracterizar o crente, porquanto «pertence» ele a Cristo, mesmo que do Senhor se tenha desviado e perdido contato com o Espírito. Na graça, a «segurança» é absoluta, pois essa. é a promessa de Deus. Nada poderá separar-nos, finalmente, do amor de Deus, que há em Jesus Cristo, ainda que, temporariamente, nossa própria perversi­dade possa fazer tal coisa. Deus tem suas maneiras graciosas e convincentes de eliminar, por fim, essa perversidade humana. 

17. Apesar de que a graça, naturalmente, como uma proposição teológica, se alinhe juntamente com a predestinação e a eleição, pois nelas todo o crédito da salvação humana é atribuído a Deus, o que a graça também declara, não é ela contraditória ao livre-arbítrio e à responsabilidade humana. Isso é confirmado tanto pela doutrina neotestamentária como pela experiência diária. A própria graça possibilita uma salvação universal (ver Rm 11:32); e o seu produto, a cruz de Cristo, atrai todos os homens a Cristo (ver Jo 12:32). Os decretos divinos são estabelecidos na graça; e de alguma maneira eles cooperam com o livre-arbítrio humano e se utilizam deste, sem destruí-lo. Porém, como isso ocorre, não sabemos dizê-lo. Existe uma graça «geral» e também uma graça da «eleição». Mas como reconciliar esses dois aspectos entre si, não sabemos. Sem dúvida serão dois lados de uma verdade maior, que algum dia haveremos de compreender. 

d. A graça no A.T. Paulo dá a entender que o caminho de salvação é o mesmo, tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos. Os capítulos quatro e nono a décimo primeiro da epístola aos Romanos, com suas muitas citações do A.T., comprovam o ponto. Os oponentes do apóstolo dos gentios, porém, nunca aceitaram essa tese, porque, na realidade, a ideia mais difundida no A.T. é a da «lei» e da salvação mediante a obediência a essa lei. Nada existe de mais susceptível à prova do que assim é que toda a cultura judaica, antiga e moderna, tem compreendido a questão. A ideia paulina era revolucionária, produto de uma revelação superior, não tendo sido aceita pela maioria dos religiosos antigos, principalmente pela igreja cristã judaica, conforme vemos no décimo quinto capítulo do livro de Atos. Ver sobre Legalismo. No entanto, muitos dos «irmãos legalis­tas», continuando a confiar na circuncisão e nas obras da lei, eram crentes autênticos, pois haviam recebido o toque do Espírito Santo e se tinham convertido ao Senhor, tendo a Cristo como seu «Cabeça»(ver Cl 2:19). Deus tem tempo para corrigir as nossas «crenças». O essencial não é a fé em algum credo, e, sim, se um homem foi ou não tocado pelo Espírito transformador. E condições idênticas prevalecem na igreja cristã de nossos dias. Muitos creem que, de algum modo, estão fazendo acréscimos à sua salvação mediante atos de devoção, ritos, sacramentos, etc. Porém, estão equivocados. Todavia, muitos deles aparentemente conhecem experimentalmente a Cristo e o têm como seu Cabeça. E isso faz com que pertençam ao Senhor. 

Apesar de que não se pode demonstrar claramente no A.T. o sistema da graça-fé, em contraste com o sistema da «lei», aqui e acolá aparecem pontos de «discernimento» quanto ao princípio mais elevado da graça, antecipando os ensinamentos neotestamentários. A ilustração de Paulo acerca de Abraão, no quarto capítulo da epístola aos Romanos, com base na narrativa do A.T., é exemplo disso—Abraão foi justificado pela fé. Com isso, como é claro, os legalistas não concordavam. (Ver Dt 7:7,8, onde se aprende que a eleição do povo de Israel se baseou exclusivamente sobre a vontade de Deus; e isso antecipa o ensino da «graça», ainda que talvez não declare diretamente tal princípio). 

Por igual modo, várias indicações atinentes ao «arrependimento», que reconhecem ser este o recebimento de um novo coração, algo que depende de uma operação no íntimo, e não de mera obediência externa ao princípio legalista, comprovam o que acabamos de declarar. (Ver Jl 2:13; Ez 18:31). O novo coração é dom da graça divina (ver Jr 31:31-34); pelo que a graça é antecipada em certos trechos do A.T., quando estes falam sobre o arrependimento. 

e. A graça, nos escritos neotestamentários, não-paulinos. O termo «charis» nunca aparece nos lábios de Jesus, nos evangelhos Sinópticos. Porém, diversas das suas parábolas ensinam o «princípio da graça», como um ato divino. (Ver Lc 14:16-24 e 15:20-24. Ver também Mc 1:15; 6:12 e Lc 24:27). O livro de Atos, igualmente escrito por Lucas, indica, com grande frequência, que a salvação vem pela fé, a parte das obras (ver o décimo quinto capítulo de Atos, na decisão do concilio de Jerusalém, que se manifestou sobre a questão). Por semelhante modo, nos capítulos um e dois da primeira epístola de Pedro e também em I Pe 3:7 e 5:10, aprende-se estar em operação o princípio da graça, com prístina clareza, embora o assunto não seja ali tão bem desenvolvido como nos escritos de Paulo. A epístola aos Hebreus emprega muitas palavras que indicam a «graça». (Ver Hb 2:9; 12:14,15,28. Ver também acerca da expressão «trono da graça», em Hb 4:16; e da expressão «Espírito da graça», em Hb 10:29). O evangelho de João não desenvolve o conceito da graça, mas apenas salienta a necessidade de «fé» para haver a salvação, o que é um elemento básico do sistema da graça. (Ver Jo 3:3—5,16). A «graça e a verdade» vieram por meio de Jesus Cristo, em contraste com a «lei», que viera por intermédio de Moisés (ver Jo 1:17). Dessa forma, apesar de que somente o apóstolo Paulo desenvolve as descrições teológicas do sistema da «graça-fé», o N.T. inteiro é um documento que ilustra essa verdade. Moffatt, por conseguinte, estava com razão, quando escreveu: «A religião do N.T. é a religião da graça; em caso contrário, nada é, nem é graça e nem é evangelho». (Grace in the New Testament, pág. xv). 

f. A graça como atitude divina para com os homens. «A essência da doutrina da graça é que Deus é por nós. E, o que é mais, ele é por nós, embora nós mesmos sejamos contra ele. Mais ainda, ele não é por nós meramente como uma atitude geral, mas tem agido eficazmente em nosso favor. A graça é sumariada no nome Jesus Cristo... Jesus Cristo é Deus por nós... tudo isso é verdade porque Cristo veio, morreu, ressuscitou e 'a graça veio por meio de Cristo Jesus' (Jo 1:17). A encarnação do Filho de Deus, o seu sofrimento obediente, a sua morte como sacrifício e a sua ressurreição triunfal, não nos mostram apenas que Deus é gracioso, mas o próprio atogracioso de Deus, porquanto ele se volta para nós e efetua esse relacionamento... outrossim, é da essência da graça que ela é livre... E visto que a graça é a decisão livre de Deus a nosso respeito, em Cristo, que procede de sua graciosidade, segue-se que não temos habilidade de conquistar sua graça ou favor. É por essa razão que a graça se opõe às obras da lei, tacitamente por todo o N.T., e, de modo expresso, em passagens como Rm 3:19 e ss ; Jo 1:16; Gl 2:11-21 e Ef 2:8. (T.H.L. Parker, pág. 258 do Baker's TheologicalDictionary). 

g. A graçasegundo é vista na igreja cristã. Era popular, entre os escolásticos (Tomás de Aquino e outros), salientar a idéia da salvação cooperativa, em que o puro favor de Deus cooperaria com as obras humanas, juntamente com as observância dos ritos e demais provisões da igreja. Já que essas «obras» eram interpretadas de modo «legalista», e não de modo «espiritual», a ideia do «mérito humano», mui necessariamente, participava da soteriologia da cristandade. Isso significava que «a graça de Deus» não poderia mais ser logicamente considerada o único meio de salvação do homem. Sem perceber, a igreja retornara à sinagoga judaica. A continua e exagerada ênfase sobre os méritos humanos transformou a «graça», virtualmente, em algo que qualquer um poderia escolher ou não, à sua vontade; e mesmo nos casos em que ela fosse plenamente escolhida, não era reputada força suficientemente poderosa para realizar tudo aquilo que é requerido para a salvação. Martinho Lutero pôs em dúvida toda essa maneira de pensar, devolvendo a graça a seu trono teológico. Todavia, alguns elementos protestantes continuaram pensando que os sacramentos são os «meios» de transmissão da graça de Deus, embora interpretassem os mesmos como instrumentos do Espírito de Deus, insistindo que nenhum «mérito humano» está envolvido no seu uso e eficácia. Outrossim, os sacramentos não teriam o mínimo valor a menos que os beneficiários usassem da «fé»; ou então, como alguns supõem até hoje, o pacto da graça continua operante até que os beneficiários (como se dá no caso dos infantes batizados) sejam pessoalmente capazes de exercer fé. Outros protestantes, entretanto, vieram a rejeitar os sacramentos como «meios» da graça, aceitando os mesmos como meros símbolos da graça e das provisões de Deus, ao passo que os benefícios derivados dela operam mediante o — contato místico - com o Espírito Santo, inteiramente à parte de elementos físicos. Dentro da «graça», até a própria fé do indivíduo é considerada «inspirada» por Deus; contudo, a maior parte dos cristãos crê que a cruz prove uma graça geral, propiciando a todos os homens a possibilidade de exercer fé, se assim quiserem fazê-lo. Outrossim, a perversidade da vontade humana pode resistir à graça divina.

FONTE http://pentecostalteologia.blogspot.com.br/