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hermeneutica n.4 apocalipse
hermeneutica n.4 apocalipse

Ajuda ao Apocalipse

 

Introdução

 

O livro de Apocalipse é verdadeiramente o último livro da Bíblia. É a consumação da revelação de Deus e a conclusão da palavra de Deus. Sem essa parte da palavra de Deus a Bíblia seria um livro sem um fim, e muitos dos problemas que surgem nos outros livros permaneceriam também sem solução. Quão triste é que para muitos filhos de Deus este livro parece não existir na sua Bíblia! Eles nem o leem nem o entendem. Essa é uma das razões porque a fraqueza espiritual prevalece entre o povo de Deus.

 

As páginas de Apocalipse constituem o registro do cumprimento de todas as promessas e profecias. Ele segue-se à Lei, aos Profetas, aos Salmos, aos Evangelhos, e às Epístolas. Implementa os tipos e completa os ensinamentos dos escritos anteriormente mencionados, e é a última mensagem dada pelo Senhor Jesus para Sua Igreja a fim de mostrar quais seriam, futuramente, Seus relacionamentos com Sua Igreja, com Seu Israel e com Seu inimigo. É um livro de guerras: a guerra entre Cristo e o Anticristo; entre Deus e Satanás. Esse livro mostra como os santos se levantarão com o Senhor em um propósito único de resistir a Satanás e suas hostes. Todavia, se esta é uma verdade para o futuro, tanto mais deve ser uma verdade para hoje. Que o Senhor nos dê graça para que, no tempo presente, nós possamos assumir a atitude de vencedores contra o diabo; para que pela fé resistamos a ele em nossas vidas e ações; e para que aprofundemos nossa própria inimizade contra ele.

 

É extremamente apropriado que o livro de Apocalipse tenha sido colocado no fim do Novo Testamento. Quando lemos os Evangelhos, nós, sem dúvida, pensamos no futuro reino de Deus e sua glória. Quando lemos as Epístolas, nossa expectativa para o futuro é, sem dúvida, intensificada. Parece que a Bíblia inteira está apontando para aquele futuro ao qual nossos corações cristãos são atraídos. Mas então, o livro de Apocalipse conclui todas as profecias que foram anteriormente pronunciadas e coloca os futuros acontecimentos diante de nós, levando-nos a saber com mais segurança que um dia a criação não mais gemerá e que os crentes não mais sofrerão!

 

Quão apropriado é tudo isso. O que os santos têm experimentado no mundo aumenta o seu anseio pela vinda daquele dia. Quão numerosos são os pecados do mundo, como prevalecem as suas violências! No entanto, como os santos anseiam pelo triunfo da justiça e da verdade! O livro de Apocalipse fala do iminente julgamento do mal por Deus assim como declara a vitória final dos que amam a Deus. Veja quão misericordioso é o Senhor: Ele nos dá esse livro para nosso conforto e satisfação. Como Ele sempre cuida de nós!

 

O Senhor Jesus Cristo é o centro da Palavra de Deus (cf. Lc 24:27; Jo 5:39). Portanto, Ele é a chave para a palavra de Deus. Diretamente ou indiretamente, toda a Bíblia fala dEle. Ela aponta para Jesus e gira ao redordEle. Tire-O, e ninguém entenderá a Bíblia. “No rolo do livro está escrito sobre mim” (Hb 10:7). Martinho Lutero disse certa vez que no mundo “há somente um livro - a Bíblia, e uma só pessoa - Jesus Cristo”. O Senhor Jesus Cristo é tanto o detalhe quanto o esboço da Bíblia. Se nós lermos o livro de Apocalipse com um coração que busca por Cristo, nós veremos seu rosto em cada página, e de cada página ouviremos sua voz. Esse livro, assim como todos os outros livros da Bíblia, toma a pessoa de Cristo como o sujeito e a glória de Cristo como o objeto. Se nós não vemos a pessoa de Cristo nas páginas de Apocalipse, então tudo o que vemos será vaidade. Aproximando-nos desse livro, nos aproximamos de Cristo. Como isso é bonito!

 

Possamos nós receber graça para ver mais de Cristo em todas as páginas desse livro. É deplorável que comentaristas e também ouvintes se importam muito com os julgamentos, símbolos, mistérios e consequências desse livro, mas esquecem que Cristo é nosso amado Senhor! Que Ele nos habilite a segui-lO com uma mente simples e a exaltá-lO sobre tudo mais. Que possamos aprender a amá-lO e a obedecê-lO mais e mais.

 

Desde o princípio, o livro de Apocalipse registra a pessoa a obra de Jesus Cristo. Muitos nomes são dados no primeiro capítulo; e todos revelam a Sua pessoa - Sua deidade. Ele fala da Sua vida na terra como “a testemunha fiel” (1:5); ele fala da Sua morte substitutiva na cruz da seguinte maneira: “com Seu sangue nos libertou dos nossos pecados” (1:5), “Eu estava morto” (1:18), “um Cordeiro...como que tendo sido morto” (5:12). Esse livro O menciona como o Cordeiro 28 vezes, e em cada uma delas isso nos lembra como ele morreu por nossos pecados. Como Ele nos ama verdadeiramente (1:5)! Mas a sua ressurreição também é registrada nesse livro como “o Primogênito dos mortos” (1:5), “aquele que vivo e fui morto, mas eis que vivo para sempre” (1:18), e “o primeiro e o último, que foi morto e reviveu” (2:8).

 

Por causa da morte e ressurreição de Cristo, Deus o Pai deu a Ele incomparavelmente a maior glória, como o apóstolo Paulo tão eloquentemente nos diz: “Ele se humilhou, sendo obediente até a morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.8-11). Nós podemos notar como as palavras desses versos das epístolas são cumpridas nesse último livro da Bíblia. O livro de Apocalipse conta-nos como ele receberá os louvores dos redimidos, as aclamações das hostes angelicais, e o louvor de toda criação. Que os corações de todos os que amam o Senhor sejam elevados, pois nós nos alegramos em vê-lO glorificado.

 

Uma grande parte desse livro é dedicada ao julgamento de Cristo, de acordo com João 5: ”E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o  juízo” (v.22). Quem pode se levantar contra a ira do cordeiro? Nada do que o nosso Senhor faça é inapropriado. A Sua beleza é manifesta tanto no Seu favor quanto na sua ira; e isso nos leva a admirá-lO mais e mais. Antes, ele se mostrou de forma tão humilde! Quão desprezado e maltratado pelos homens ele foi! Mas agora, Ele é cheio de glória e majestade! Que o Senhor nos habilite a vermos a sua honra nesses terríveis julgamentos. Após Apocalipse 19, nós podemos ver como ele é unido em um com a Sua noiva, como Ele destrói todos os Seus oponentes, como os seus crentes vitoriosos reinam com ele por mil anos, e como Ele busca pelos seus no novo céu e nova terra. Verdadeiramente, o Senhor Jesus é o tema do livro de Apocalipse. Se a palavra de Deus de fato toma Cristo como o seu centro, então nós devemos fazer dEle o centro do nosso falar e do nosso andar. Desde que Deus deu a Ele todas as coisas, então nós devemos dar a ele tudo de nós em nossas palavras e obras.

 

Agora, além da pessoa e glória de Cristo, esse livro também toma - como seu assunto secundário - a Igreja e o reino, embora não separados, mas juntos a Cristo. Neste livro, como temos dito, o mundo está sob julgamento; de forma que, de tudo o que é dito deste mundo, Apocalipse não registra nada a não ser o seu julgamento. E a respeito da Igreja neste mundo, o livro não diz nada a respeito dos seus privilégios especiais, mas diz algo sobre a sua responsabilidade. No entanto, as coisas que o Velho Testamento não menciona sobre o aspecto celestial da Igreja e da glória do reino são claramente descobertas na última porção do Novo Testamento.

 

No Apocalipse, Deus é apresentado como o Juiz dessa era, e Cristo é retratado como o Executor. O julgamento começa com a casa de Deus e finalmente alcança todo o mundo. Nesse livro o Espírito Santo é revelado como “os sete Espíritos” ao invés de “O Espírito” que é apresentado nos outros livros da Bíblia, simplesmente porque se fala dEle de acordo com a obra do governo de Deus.

 

Que possamos entender que o livro de Apocalipse não é um livro de segredos, mas de revelações. Se fosse um livro selado, nós não teríamos nenhuma esperança em entendê-lo. Mas, desde que é um livro de revelações,nós precisamos pedir ao Espírito de Deus que nos ensine, para que possamos saber. O significado básico de “revelação” é “tirar o véu”. E por isso, nesse livro o Espírito Santo tira para nós o véu da glória e da pessoa do Senhor Jesus. Que Ele abra nossos olhos para contemplarmos o precioso ensinamento que há nessas páginas!

 

Porque o Livro de Apocalipse é Negligenciado

 

Gênesis é o primeiro livro da Bíblia, e fala da maldição de Deus sobre Satanás. Apocalipse é o último livro da Bíblia, e revela como Satanás será derrotado no futuro e como Deus executa julgamento contra ele. A face original de Satanás e seu fim eterno são registrados nesses dois livros. Por essa razão, Satanás abriga um ódio especial contra eles. Ele ataca Gênesis sugerindo que os seus registros não estão de acordo com as descobertas científicas, e que por isso a história da criação encontrada nesse livro não passa de um mito. Externamente, ele parece atacar o registro da história da criação, mas na verdade ele tenta encobrir a história da sua própria maldição. Contra o livro de Apocalipse - que prediz o seu fim - ele adota outra maneira de ataque. Em vez de atacá-lo abertamente, ele tenta torná-lo em um livro selado. Ele insinua que as suas páginas são tão profundas e que os eventos futuros nele registrados são tão difíceis de entender que seria uma perda de tempo estudá-lo. Consequentemente, muitos crentes nunca sequer chegaram a tocar nesse livro. E assim ele facilmente acoberta a sua futura desgraça.

 

O livro de Apocalipse não foi somente desprezado, mas também rejeitado pelos cristãos em tempos passados. Isso nós podemos saber por meio de um estudo da história da Igreja. No atual século vinte e um, embora alguns cristãos – muito poucos – desejem lê-lo, crentes comuns – a vasta maioria – são geralmente mornos em relação a ele. Muitos põem o livro, onde estava, na estante. Alguns não o leem porque eles também nem leem os outros livros da Bíblia; outros, porque não confiam no Espírito Santo e não têm paciência para lê-lo. Quão frequentemente nós ouvimos as pessoas dizer: “esse livro é muito profundo, muito misterioso para eu ler”.

 

O fato é que há muitas razões significativas por que o livro de Apocalipse não é bem vindo, mas, pelo contrário, é muitas vezes pedra de tropeço para muitos. Como já mencionamos além da obstrução satânica já mencionada, podemos dizer que os conteúdos desse livro dificilmente trazem quaisquer bons sentimentos aos crentes do mundo. Ele, de fato, fala da glória do futuro reino milenar e da alegria do reino eterno, as quais são coisas verdadeiras e certas (cap. 20.1-9, caps. 21 e 22-5). Mas aqueles que desfrutarão de tal glória e alegria precisam ser “fiéis até a morte” (2.10), e “reter até que eu venha” (2:25). Eles devem “vigiar”, “se arrepender” e “serem zelosos”. A fim de ganhar o mundo futuro, eles devem abandonar esse mundo presente(G.T.). Agora há o sofrimento, mas então haverá a glória. Por outro lado, todo aquele que tiver a glória do mundo hoje sofrerá vergonha no mundo futuro. Muitos crentes carnais acham difícil cortar as suas amarras com o mundo que por tanto tempo eles têm amado. Desde que a leitura de Apocalipse vai, dessa maneira, produzir ansiedade e aflição, eles decidem não lê-lo.

 

Outra explicação para o fato de Apocalipse ser uma parte não bem-vinda da Bíblia está no fato de que grande parte desse livro trata da ira e do julgamento de Deus (ver caps. 4 e 19). As pessoas gostam de ouvir sobre o amor de Deus. O Deus ideal para o homem é aquele que nunca fica irado e nem nunca julga. No entanto, esse livro fala da justiça de Deus resultando na Sua ira e no seu julgamento - atividades divinas nunca são bem-vindas para qualquer homem. Quem, então, quereria ler sobre tais assuntos?

 

Outra razão é que do começo ao fim, as páginas do Apocalipse tratam com todos os tipos de fenômenos sobrenaturais. Deus sabe que o homem só se importa com ocorrências naturais, mas Ele quer que fiquemos face a face com Ele. Por isso Ele vai tratar conosco em território sobrenatural. As pessoas podem tolerar lerem sobre eventos sobrenaturais passados porque esses não podem afetá-las, já que esses eventos já passaram e as situações já foram mudadas. Mas se, no futuro, tais fenômenos sobrenaturais ainda estão para passar, esses irão desferir golpes mortais no seu materialismo e no seu desprezo por milagres e maravilhas. E se tais acontecimentos estão realmente para vir no futuro, não deveriam eles viver hoje na terra de maneira piedosa e se gloriarem em Deus? É uma pena que tantos tentem espiritualizar [demais] esse livro porque não podem suportar os ensinamentos simples, mas horrendos encontrados nele. Eles tomam tudo como alegorias sem valor histórico para eles no futuro. Como a carne recua ate a espada de dois gumes de Deus! Quão enganoso sobre todas as coisas é o coração humano!

 

Muitas pessoas pensam que o mundo está melhorando a cada dia. Não está a civilização progredindo diariamente? Eles pensam que o mundo está avançando para cima e avante sem sinal de regressão. E de acordo com tal aceleração no progresso, eles cismam que muito em breve a sociedade cristã ideal aparecerá na terra. Mas, como é diferente é o mundo do Apocalipse dos pensamentos humanos! Esse livro nem por um momento considera o mundo como progressivo! Pelo contrário, seu testemunho é de que os pecados do homem terão aumentado tão rapidamente que o mundo se tornará irredimível por rejeitar Deus e a Sua salvação. E por isso, não há nada a ser feito, a não ser julgamento; pois, mesmo com o mais severo julgamento, os homens não se arrependerão. Isso é verdade não apenas com o mundo, mas também com a Igreja! A Igreja tem deixado seu primeiro amor; por isso ela será vomitada pelo Senhor. A concepção moderna das coisas e a palavra de Deus estão em completa discordância. Desde que as palavras do Apocalipse testemunham a favor de Deus e não do homem, esse livro não é adequado ao pensamento do homem, e consequentemente não é bem vindo para o homem. Quão deplorável é que muitos têm perdido o espírito de testemunhar contra a pecaminosidade desse mundo, assim como as páginas de Apocalipse mostram!

 

A posição que a verdadeira Igreja deveria atingir é ainda outra explicação porque as pessoas não gostam de ler as páginas desse livro. O que Apocalipse capítulos 2 e 3 fala a respeito da verdadeira condição da Igreja aflige esses muitos crentes que ainda amam o mundo. O homem moderno insiste no trabalho. Se há muitas atividades, então esses cristãos serão contados entre os que estão no topo. No entanto, Apocalipse julga inúteis as muitas atividades sem o primeiro amor. Qualquer que seja verdadeiramente para o Senhor deve ser “fiel até a morte” e deve ser “vigilante”. Isso é algo que os crentes do mundo não podem suportar.

 

Uma razão final para a impopularidade do Apocalipse entre tantos é que há uma concepção moderna de que o mundo inteiro será salvo no futuro. No entanto, o livro de Apocalipse fala contra uma concepção errada como essa. Pelo contrário, prediz que no futuro incontáveis números de pessoas serão eternamente perdidos no “lago de fogo”. Esses que se acham mais compassivos que Deus vão certamente resistir a esse ensinamento. Eles gostariam de pensar que a punição de pecadores durará um certo tempo e que então haverá simplesmente a sua aniquilação. Mas mais uma vez o livro de Apocalipse se opõe a tal pensamento ansioso. Ele mostra que os sofrimentos do lago de fogo são eternos – sem fim. Desde que esse livro é cheio de ais, pragas, maldições, agonias e avisos, não é surpreendente que as pessoas não leem, recebem ou aceitam-no.

 

Podemos acrescentar que o livro de Apocalipse, em seus ensinamentos, é tão oposto ao pensamento humano que poucos o estudarão nos dias de hoje. Mas há esses poucos que ainda pagam o preço para ler essas páginas.

 

Os santos que amam ao Senhor tomam uma atitude totalmente diferente a respeito desse livro. Eles encontram em suas palavras um suprimento em tempos de falta, apoio em tempos de desespero, conforto em tempos de tristeza, socorro em tempo de fraqueza. Este volume enxuga as suas lágrimas, aumenta a sua fé, e reaviva a sua vontade. Como esses santos que desejam sofrer pelo Senhor amam ler essas páginas! Por amor a Cristo eles se tornam pobres e solitários. Eles caminham pelo caminho estreito da cruz. Mesmo em suas aflições, eles encontram alívio e descobrem grande esperança no Apocalipse, pois a segunda vinda do senhor não alegraria aqueles que amam a sua revelação? Por maiores que possam ser as aflições na terra, a esperança de ser arrebatado para o paraíso mais do que compensa todas elas. Como podemos deixar de admirar a Nova Jerusalém, a Cidade de Deus? Por mais coisas que tenhamos que abandonar hoje, o ganho naquele dia em que reinaremos com Cristo será muito maior. As aflições desse tempo presente são leves e momentâneas se comparadas com a glória eterna do reino que está vindo (cf. Rm 8.18, 2 Co 4.17). O livro de Apocalipse é verdadeiramente uma benção para os cristãos.

 

Como Podemos Entender o Livro De Apocalipse

 

Para entender o livro de Apocalipse a primeira coisa que se deve fazer é lê-lo. Sem fazer isso, ninguém pode entender esse livro. Não é estranho que quando perguntamos aos cristãos “porque você não lê o Apocalipse?” eles respondem que é porque não o entendem? Por acaso eles querem dizer que é necessário entender primeiro essas páginas para depois lê-las? Que Deus nos conceda paciência para estudarmos a Sua palavra, a fim de que não desistamos de ler logo que encontrarmos alguma dificuldade, pois dessa forma perderíamos muitas bênçãos. Qualquer que ler esse livro do Apocalipse não deve confiar simplesmente no seu próprio poder mental; ele deve, em oração, humildemente e abertamente pedir a iluminação do Espírito Santo. Quando a Sua luz brilha sobre a palavra de Deus, coisas que outrora não foram entendidas durante anos serão imediatamente compreendidas.

 

Além disso, o leitor desse livro deve manter o seu coração puro - ou seja, ele não deve ler por curiosidade a respeito de eventos futuros. Pelo contrário, ele deve ler atentamente as páginas desse livro, com o desejo de conhecer mais da palavra de Deus, para poder guardar a Sua vontade e receber tudo o que Ele quiser dar através da sua palavra. Deus não abençoará uma leitura que sirva apenas para alimentar uma mente curiosa, pois isso não tem proveito para nossa vida espiritual.

 

A meu ver, a primeira coisa a fazer para compreender o livro de Apocalipse é obter um conhecimento meticuloso sobre ele. Para começar, leia-o capítulo por capítulo. Leia até que você possa lembrar do conteúdo de cada capítulo sem olhar. Então leia cuidadosamente, versículo por versículo. Memorize os versículos que você considera importante. Use todos os tipos de métodos para se tornar um meticuloso conhecedor desse livro. Assim que você se tornar familiarizado com os seus conteúdos, o Espírito Santo então poderá ensiná-lo.

 

Agora, estando totalmente inteirado a respeito do livro, você logo descobrirá as suas divisões naturais. Você será capaz de perceber o método do livro e de decidir qual parte é história principal e qual parte é parênteses. Você pode então pôr a história principal em ordem e determinar o relacionamento entre história e parênteses. Com um programa de estudo detalhado como esse, você verá qual parte está claramente explicada e qual parte está apenas implícita. Não há problema nenhum com as partes explícitas, mas as partes implícitas devem ser comparadas com outras porções das Escrituras. Desde que o livro de Apocalipse é a soma total de toda a Bíblia (nele são concluídos todos os problemas que não foram concluídos em partes anteriores da Bíblia), nós devemos pesquisar os outros livros da Bíblia para esquadrinhar todas as conecções pertinentes. Se interpretarmos as escrituras com o auxílio das próprias escrituras, nós chegaremos a uma acurada explicação e conhecimento. No entanto, como nós já temos observado, a leitura da Bíblia não é apenas para conhecer, mas é para cultivar a vida espiritual. E por isso, mesmo com as partes que podemos entender, nós devemos pedir ao Espírito Santo que nos mostre seus significados espirituais e que nos dê ajuda espiritual.

 

A Época em que o Livro de Apocalipse foi Escrito

 

O período em que o Apocalipse foi escrito constitui um sério problema, em parte porque alguns professores Racionalistas têm defendido uma data precoce para essa composição - eles afirmam que provavelmente foi escrito nos tempos do reino do imperador romano Nero. Eles formularam essa peculiar estrutura de tempo com o objetivo de estabelecer a teoria de que as sérias proclamações registradas no livro de Apocalipse foram todas cumpridas após o infame e devastador incêndio que ocorreu nos tempos de Nero. De acordo com essa teoria, as profecias contidas neste livro na verdade apontam apenas para as perseguições dos Cristãos da Antiguidade e para a destruição de Jerusalém, junto com outros eventos que ocorreram naquele período da história romana. A profecia a respeito da Besta ou do Anticristo tem simplesmente referência à tirania e às maldades perpetradas por César Nero. E, por isso, os conteúdos de todo o livro têm sido completamente cumpridos nos eventos do tempo de Nero. Para os defensores dessa teoria, o livro de Apocalipse é agora apenas um livro de profecias já cumpridas e que, portanto, não têm nenhum valor espiritual para nós Cristãos. É meramente uma parte especial da história romana. Mas, se isso é verdade, então o livro da Apocalipse não se tornará um tanto sem sentido para os Cristãos de hoje? Em vista disso, nós devemos investigar e determinar o exato tempo em que esse livro foi escrito a fim de provar o erro dessa teoria Racionalista.

 

Eu pessoalmente creio que livro de Apocalipse foi escrito por volta de 95 a 96 DC durante a última metade do reino do Imperador Domiciano, o último dos doze Césares Romanos.

 

Todos os comentaristas fundamentalistas modernos concordam com essa estrutura de tempo. Deixe-nos citar algumas evidências que dão suporte a esta visão.

 

A respeito da visão de que o livro de Apocalipse foi escrito pelo apóstolo João durante o governo de Domiciano, há duas fortes evidências – ambas de natureza externa e interna. Primeiro a evidência externa.

 

Inicialmente, de maneira geral podemos dizer que todos os escritores dos três primeiros séculos, cujos escritos foram encontrados, são explícitos, e concordam em situar o exílio do João e a sua escrita do Apocalipse (Revelação) na última parte do reinado de Domiciano, o último dos doze Césares; e isso, portanto, nos diz que esse livro foi escrito em 95 ou 96 DC.

 

A primeira e maior das testemunhas é Irineu. Ele era aluno de Policarpo, que por sua vez foi um dos discípulos de João. Portanto, Irineu é muito mais provável de ter recebido um verdadeiro relato dos últimos dias do apóstolo João do que qualquer outro escritor cujas obras tenham chegado a nós. Sendo que, quando Irineu fala da forte probabilidade do nome do Anticristo ser Teutão (Teitan), ele dá este definido testemunho acerca de João e da sua escrita do Apocalipse:

 

Nós não vamos, entretanto, correr o risco de cometer um erro nesse assunto, de confiantemente afirmar que ele terá esse nome; pois nós sabemos que, se estivesse estabelecido que o seu nome deveria ser proclamado no tempo presente, isso teria sido anunciado por aquele que viu a Revelação. Pois foi vista há não muito tempo, mas quase em nossa geração, no final do reino de Domiciano.

 

Tertuliano, um contemporâneo de Irineu, observou: “Quão feliz é aquela Igreja cujos apóstolos derramaramtodos as suas doutrinas com seu sangue! Na qual Pedro resiste a sofrimentos semelhantes aos do Senhor; na qual Paulo tem por coroa a mesma morte que João; e o apóstolo João, após ter sido mergulhado em olho fervendo sem sofrer nenhum mal, foi banido para uma ilha.” Aqui Tertuliano nos informa de dois fatos: primeiro, que João foi banido; e segundo, que o lugar do seu exílio foi para uma ilha. Em outra passagem após mencionar a perseguição por Nero, ele continua: “Domiciano também, o qual era como um Nero em crueldade, ensaiou as mesmas coisas; mas ele, como também era um ser humano, prontamente cessou o seu empreendimento, e restaurou aqueles que haviam sido banidos.”

 

Tertuliano, dessa maneira, sugere que o exílio era a pena usualmente infligida aos Cristãos por Domiciano; ao passo que, pelos registros, Nero era acostumado a matá-los.

 

Clemente de Alexandria não menciona Domiciano pelo nome; mas ele provavelmente o insinua quando fala do “tirano” após cuja morte João voltou do exílio.

 

Eusébio, em três passagens, declara que a expulsão de João ocorreu no reinado de Domiciano. Ele também diz que João escreveu o Apocalipse no décimo quarto ano de reinado de Domiciano, que seria 95 DC.

 

Vitorinus de Petau, o autor do mais antigo comentário que existe sobre Apocalipse, explica as palavras: “importa que profetizes outra vez a povos, e nações, e línguas e reis.” (Rev. 10.11 mg.), da seguinte maneira:

 

Ele fala dessa maneira porque, quando João viu esta visão, ele estava na ilha de Patmos, havendo sido condenado pelo César Domiciano a trabalhar na mina. Lá, então, ele viu o Apocalipse; e, agora que, avançado em anos, ele começava a pensar que seria recebido no descanso através de seus sofrimentos. Domiciano morrera, e todas suas sentenças foram canceladas. E assim, João, após ter sido liberto da mina, entregou essa mesma revelação que recebeu do Senhor.

 

Novamente, ao discutir o oitavo rei mencionado no capítulo dezessete do livro de Apocalipse, Vitorinus nos diz em seu comentário que (p ?) sexto era Domiciano, em cujo reinado foi escrito o Apocalipse.

 

No quarto século, Jerome testifica que quando João escreveu o Apocalipse ele estava na ilha de Patmos durante o décimo quarto ano de César Domiciano (95 DC) – sendo ele o segundo dos césares que perseguiram os Cristãos, sendo Nero o primeiro.

 

Durante os primeiros três séculos e meio, no entanto, nenhum escritor parece sugerir outra data.

 

Mas, na última metade do século quatro, essa harmonia foi quebrada por Epifânius de Salamis; cujo testemunho, no entanto, é absolutamente inválido contra os que foram citados, sem contar que é totalmente inverossímil em si mesmo. Ora, Epifânius foi um dos mais descuidados escritores da antiguidade. Sua notável declaração é esta: que João retornou do exílio – aos noventa anos de idade – durante o reinado de Cláudio. Agora, Cláudio foi assassinado em 54 DC; no entanto, se João estivesse com noventa anos naquele tempo, ele deveria ter trinta e três anos a mais que o Senhor, e ele também deveria estar com sessenta e três anos quando foi chamado para ser um dos apóstolos do Senhor! É claro, então que a data de Cláudio pode ser sumariamente dispensada.

 

Então, o balanço das evidências externas está sobremaneira a favor da Data Domiciana. Há muitas outras testemunhas que nós não mencionamos, que poderiam dar suporte ainda maior a essa visão.

 

Assim como as evidências externas são abundantes, também as internas são igualmente fortes na mesma direção. Quando falamos em evidência interna, nos referimos às evidências no texto, que provam que o Apocalipse foi escrito no tempo de Domiciano. Eis as evidências:

 

(1) O estado em que se encontravam as igrejas da Ásia, como descrito nas sete cartas de Apocalipse capítulos 2 e 3, requereria um desenvolvimento de vinte ou trinta anos além da condição que estava nos tempos de Paulo, e não dos meros cinco ou seis que seriam permitidos pela data Nerônica.

 

(2) Pelo menos um mártir já havia sido feito em Pérgamo; e João, escrevendo às sete igrejas da Ásia, fala dele mesmo como tendo se tornado seu companheiro na tribulação pelo seu exílio em Patmos pela palavra de Deus e pelo testemunho de Jesus Cristo. Entretanto, os crentes em Esmirna estavam para experimentar uma provação da sua fé, até mesmo de morte. É evidente que uma perseguição estava acontecendo na Ásia Menor naquele tempo. E essa deve ter sido a perseguição de Domiciano, desde que a de Nero não parece ter se estendido muito além das vizinhanças imediatas de Roma; e nem parece ter a perseguição nerônica resultado em exílio, mas simplesmente em punição capital.

 

(3) Os Balaãmitas (ver Ap 2.14) haviam encontrado tempo de se estabelecer em pérgamo.

 

(4) A Jezabel não havia apenas subido a um lugar de influência em Tiatira, mas também já havia sido dado a ela tempo de se arrepender (de acordo com Ap 2.20, 21).

 

A Data Domiciana de 95 a 96 DC para a escrita do Apocalipse é, portanto, suportada tanto por evidências internas quanto por externas.

 

Devido ao fato que o livro de Apocalipse descreve a si mesmo como sendo definitivamente um livro de profecias (ver 1.3; 22.7, 18, 19), certos mestres Racionalistas têm atentado em determinar a data da escrita aos tempos de Nero, podendo dessa maneira aplicar mais estreitamente todas as profecias do livro ao Império Romano de Nero e aos Cristãos daquele tempo. Mas nós hoje claramente sabemos que essa profecia tem de ter sido escrita muito depois dos tempos de Nero. E para o nosso presente dia essa porção de conclusão da palavra de Deus ainda permanece como um escrito profético a respeito de eventos futuros. Não é nem história alegórica nem profecia já cumprida.

 

Tendo demonstrado que esse livro foi escrito nos tempos de Domiciano, o esquema desses professores Racionalistas para excluir esse apavorante livro – o qual serve como uma das mais agudas das espadas do Espírito de Deus – foi derrotado.

 

As Interpretações do Apocalipse

 

A interpretação do livro de Apocalipse é um ponto de contenda entre os comentaristas. De maneira geral, há três diferentes escolas de interpretação; que são:

 

(1) os Preteristas,

(2) os Interpretadores Históricos, e

(3) os Futuristas.

 

Os Preteristas sustentam que toda, ou pelo menos grande parte da profecia já se cumpriu com luta entre a Igreja e Roma, tendo a vitória da Igreja como resultado final. Tal interpretação é muito abstrata e é objetada por comentaristas ortodoxos.

 

Os Interpretadores Históricos defendem que a profecia abrange toda a história da Igreja, mostrando como as malignas forças do mundo lutam contra a Igreja. Essa interpretação foi muito popular durante os tempos da Reforma e ainda era fortemente defendida no século dezenove. Especialmente com o surgimento de Napoleão, essa visão foi reconhecida como a interpretação final. Dentre os Protestantes, pessoas que têm essa visão consideram o Papa e a Igreja Romana como sendo o anticristo e a Besta. O próprio Martinho Lutero tomou essa visão. Mas os comentaristas da Igreja Católica tomaram a visão oposta e reconheceram o Protestantismo como o Anticristo. Eles até mesmo declararam ter encontrado o número 666 no nome de Martinho Lutero. Muitos do povo de Deus no final do século dezoito e no começo do século dezenove criam que Napoleão cumpria o personagem mencionado em Apocalipse 13. E muitos dos números no livro foram tomados arbitrariamente como um período fixo de profecia; por exemplo, o numero de três anos e meio foi considerado uma representação da tribulação na sua própria história corrente.

 

Os Futuristas mantém a ideia de que a maior parte da profecia ainda está para se cumprir no futuro. A partir do capítulo 4, nem mesmo uma letra foi cumprida. Os capítulos 2 e 3 falam da Igreja. Só depois que o período da Igreja for cumprido é que qualquer coisa depois do capítulo 4 pode ser cumprida. Os capítulos 6-19 referem-se a eventos que acontecerão no tempo das últimas sete das setenta semanas de Daniel. E as últimas sete semanas de Daniel não podem começar sem que a história da Igreja esteja completada. Essa interpretação é a mais satisfatória, pois é a que mais coincide com as profecias encontradas em outras passagens da Bíblia. No entanto, nós não temos a intenção de contender por uma opinião! De fato, que possa o Senhor sempre nos afastar disso. O que desejamos é a Sua verdade. Que o seu Espírito nos guie para dentro de todas as verdades e nos habilite a entender a palavra de Deus.

 

É inevitável que haja muita discussão sobre a interpretação do Apocalipse entre essas três escolas. Mas o nosso alvo, como já deixamos claro, é saber o que Deus quer que saibamos, e não contender em defesa de qualquer escola humana ou opinião. Portanto, nós não vamos apresentar todos os argumentos, nem contra nem a favor. Embora eles pudessem ser bem-vindos por algumas pessoas, não seriam edificantes.

 

Umas poucas palavras, entretanto, precisam ser ditas para demonstrar que existe falibilidade tanto na interpretação dos Preteristas quanto na dos Históricos. Os Preteristas mantêm a ideia dos Professores Racionalistas. Ninguém, na Igreja dos primeiros séculos, acreditou nisso. Pois isso limitou os horizontes de João a ver somente a perseguição dos Cristãos por Roma. Isso reduz a profecia a um simples valor alegórico, e meramente prediz a derrota dos romanos. Os Interpretadores Históricos, por outro lado, adormecem o mais solene aviso da Bíblia Sagrada direcionado às pessoas do final dessa era, com a finalidade de que não possamos conhecer o que a ira de Deus será. Sejamos, pois, esclarecidos a respeito do que a Bíblia realmente ensina.

 

Em I Coríntios 10:32 Paulo divide a humanidade em três principais categorias: Judeus, Gentios, e a Igreja de Deus. Durante os tempos do Velho Testamento não havia Igreja, pois ela foi estabelecida pelo Senhor somente no período do Novo Testamento. Uma vez que o livro de Apocalipse é o último livro da Bíblia e que por essa posição ele é a soma de todas as Escrituras, é natural que ele nos mostre como será o fim dessas três categorias de pessoas. Os Preteristas, no entanto, sustentam que o Apocalipse relata apenas a história passada das lutas da Igreja. Os Interpretadores Históricos também, limitam a profecia à experiência da Igreja depois do tempo de João. Ambos abraçam a Igreja e deixam passar os Judeus e os Gentios. Essa visão é muito parcial e faz da revelação de Deus um livro imperfeito. Se concordarmos com as suas interpretações, nós seremos deixados na escuridão quanto ao futuro fim dos Judeus e Gentios. Mas nós devemos esperar ver no último livro da Bíblia (1) o caminho que a Igreja vai trilhar na terra e sua futura glória; (2) a proteção dos remanescentes dos Judeus por Deus ao longo da Grande Tribulação e o seu recebimento das bênçãos de Deus prometidas por meio dos profetas; e (3) o julgamento dos Gentios que pecaram e não creram, assim como a alegria desses Gentios que vierem ao Senhor.

 

Eu não vou argumentar qual é a interpretação certa e qual é a errada. É claro que deve haver uma verdadeira interpretação que esteja de acordo com todas as profecias do Velho e do Novo Testamento e que nos seja de proveito espiritual. Onde podemos encontrar essa verdadeira interpretação? Qualquer resposta está no livro em si. O que esse livro de Apocalipse nos conta é sobremodo confiável. Nós não precisamos gastar muito tempo pesquisando as interpretações e ideias das diferentes escolas. Nós podemos até mesmo deixar de lado tais termos como “os Preteristas” ou “os Futuristas”. A melhor maneira é buscar as escrituras diretamente. Pois eu creio que, nas páginas do livro de Apocalipse, nosso Senhor Jesus Cristo tem nos dado a chave para a sua própria interpretação.

 

A Chave Para Interpretar o Apocalipse

 

Em cada livro da Bíblia, há um versículo-chave, pelo qual todo o livro pode ser aberto. E por isso nós esperaríamos encontrar o verso-chave no Apocalipse a fim de termos também o esboço desse livro. Onde está esse versículo? O Senhor Jesus pessoalmente comandou João que escrevesse esse livro; então, vejamos como João recebeu essa comissão: “escreve, pois, as coisas que viste, e as coisas que são, e as coisas que serão depois dessas” (1.19). O Senhor deu a direção para João escrever três elementos: primeiro, as coisas “que [João] viste”; segundo, “as coisas que são”; e terceiro, “as coisas que serão depois destas”. E João escreveu de acordo. No momento em que ele estava para escrever, ele já havia tido uma visão; por isso, a primeira coisa que ele devia escrever era o registro da visão que ele tinha acabado de ver. João continuou então a mencionar “as coisas que são” e concluiu com “as coisas que serão depois dessas”. E, assim, esse único versículo da Escritura faz alusão às coisas do passado, do presente e do futuro.

 

Três Principais Divisões do Livro de Apocalipse

 

Tomando isso como uma chave, então, o livro de Apocalipse deve ser dividido em três partes principais. Com vinte e dois capítulos no livro, como são feitas as três divisões? Antes de tocarmos na primeira e segunda divisões, comecemos olhando para a terceira divisão. Há um versículo no capítulo 4 que evidentemente indica que a terceira divisão começa naquele capítulo: “Depois dessas coisas,” disse João, “eu vi, e eis uma porta aberta no céu, e a primeira voz como de trombeta, que eu ouvi falar comigo, disse: sobe aqui, e te mostrarei as coisas que devem ser depois dessas” (4.1). “As coisas que devem ser depois dessas” devem ser coisas depois desses três capítulos. Apocalipse 1.19 indica que a terceira divisão fala das “coisas que devem ser depois dessas”, e as coisas que João viu do capítulo 4 em diante são de fato “as coisas que devem ser depois dessas”. Dessa forma, é evidente que a sua terceira divisão do Apocalipse começa no capítulo 4 (e desde que o livro tem apenas três divisões, a terceira divisão deve ser do capítulo 4 ao 22). Isso deixa apenas os primeiros três capítulos para a primeira e segunda divisões do livro. Apocalipse capítulo 1 é concernente ao que João viu. O versículo 11 diz “o que vês, escreve-o em um livro”, e no verso 19 João é ordenado que “escreve, pois, as coisas que viste”. Entre esses dois versículos João viu a visão, a qual constitui aquilo que ele viu. A primeira divisão do livro é, por isso, o capítulo 1. Desde que aprendemos que todo o livro pela sua própria indicação deve ser dividido em três divisões principais, e já que também aprendemos que a primeira divisão é o capítulo 1 e que a terceira divisão vai do capítulo 4 até o fim do livro, pode-se racionalmente concluir que a segunda divisão principal do livro deve ser os capítulos 2 e 3. Nesses capítulos nós encontraremos “as coisas que são”, as quais são as coisas concernentes à Igreja.

 

João viveu na era da Igreja, e por isso a Igreja é reconhecida como “as coisas que são”. Os capítulos 2 e 3 dão a história profética da Igreja do seu começo ao seu fim. Começa com os Efésios abandonando o seu primeiro amor (2.4) e termina com os Laodicences sendo vomitados da boca do Senhor. A historia inteira da Igreja está dessa forma sendo delineada por essas sete igrejas locais. Desde que “as coisas que devem ser depois dessas” seguem “as coisas que viste” e “as coisas que são”, os conteúdos registrados do capítulo 4 em diante devem esperar até que a história da Igreja possa ser cumprida para que sejam cumpridos. Embora hoje o fim esteja de fato se aproximando, nós devemos admitir que a Igreja ainda existe na terra; e que, dessa forma, o seu tempo ainda não está totalmente cumprido.

 

Esse é o ensino das Escrituras. Apocalipse 1.19 é de fato a chave que destranca o mistério que rodeia esse livro. E, a partir deste verso, nós temos agora obtido uma verdadeira interpretação.

 

A Mensagem, o Estilo e a Natureza do Livro de Apocalipse

 

Embora Cristo seja o tema desse livro, também são registradas as coisas do fim dessa era. Todas as coisas que estão para acontecer levam ao tratado do reino de Deus. Por isso, esse é um livro de profecia.

 

Essa natureza profética é claramente definida tanto no início como no fim do livro (ver 1.3; 22.7,18,19). Através de muitas visões, a mensagem desse livro prediz os eventos que se aproximam.

 

Os iniciantes podem ficar confusos pelos muitos símbolos nesse livro. Eles podem considerá-los muito alegóricos para serem entendidos. No entanto, realmente não é tão difícil como possamos pensar. Embora haja muitos símbolos, muitos deles já foram explicados no próprio livro. Os leitores deveriam consequentemente confiar no poder de Deus e ler a Sua palavra com diligência e paciência. Se é necessário paciência na busca por conhecimentos mundanos, quanto mais paciência é preciso ter na busca pelas coisas espirituais!(GT) Há pelo menos 14 símbolos que já foram explicados. E os não explicados talvez nem excedam esse número.

 

(1) Candeeiros simbolizam as igrejas (1.20).

 

(2) As estrelas são os mensageiros (ou anjos) das igrejas (1.20).

 

(3) O fogo representa o Espírito Santo (4.5).

 

(4) Chifres e olhos também representam o Espírito Santo (5.6).

 

(5) O incenso simboliza as orações dos santos (8.3, 4).

 

(6) Dragão fala de Satanás (12.9).

 

(7) Os sapos são os espíritos imundos (16.13).

 

(8) A Besta tipifica um rei (17.12).

 

(9) As cabeças da besta correspondem a colinas (17.9).

 

(10) Os chifres da besta correspondem a reis subordinados (17.12).

 

(11) As águas representam povos (17.15).

 

(12) A mulher simboliza a grande cidade (17.18).

 

(13) Linho fino representa a justiça (19.8).

 

(14) A esposa do Cordeiro é a cidade de Deus (21.9, 10).

 

Por isso, não tratem esse livro como se fosse de símbolos. Embora haja mais de trinta símbolos, a metade deles já foi explicada. Em média, há menos de um símbolo por capítulo para ser encontrado; e, consequentemente, o livro de Apocalipse verdadeiramente não pode ser rotulado como um livro de símbolos. As profecias em suas páginas são de dois tipos: direta e indireta. As profecias indiretas têm a forma de símbolos; mas, como jámencionamos, esses símbolos não foram colocados em total escuridão, já que metade deles já foi explicada. Dessa forma, os leitores não deveriam ficar intimidados por esses símbolos, mas deveriam distinguir os explicados dos não-explicados, e procurar descobrir os seus significados.

 

A despeito da adoção dos símbolos como um estilo de escrita, nós não devemos espiritualizar o livro em todo. Nós devemos manter em mente uma coisa importante: o Apocalipse é um livro aberto (ver 22.10), não é como Daniel, que é um livro selado (ver 12.4). É chamado “a Revelação de João” e, por essa razão, todas as coisas registradas nele estão abertas para serem entendidas. É escrito de acordo com fatos, e por isso pode ser tomado literalmente. Assim como os conteúdos futuros registrados no fim do livro são milagres atuais, como ressurreição, arrebatamento, aparecimento, e assim por diante, as coisas dadas na parte inicial do volume devem também ser atuais – nesse caso, punições – desde que esse é um livro de unidade. Nós ouvimos que há 119 profecias no Velho Testamento a respeito do Senhor Jesus. Como estão cumpridas essas profecias? Todas elas estão cumpridas literalmente. Por exemplo, uma virgem dando à luz um filho, Belém, a vinda do Egito, as trinta peças de prata, e assim por diante, foram todas literalmente cumpridas.

 

Além desses símbolos, o resto do livro contém os dizeres evidentes de Deus. Nós aprendemos que significados espirituais e ensinamentos estão implícitos. Mas essas partes figurativas devem ser explicadas literalmente. Por exemplo, na abertura do sétimo selo, nós descobrimos que sete anjos estão prontos para soprar as trombetas. No soar das sete trombetas há saraiva e fogo, sangue, montanha, mar, estrelas, lua e sol, e assim por diante. Por um lado, tudo isso deve ser tomado literalmente, embora ainda possamos derivar muitos significados espirituais e ensinamentos disso. Por outro lado, não devemos aceitar meramente os seus significados espirituais e rejeitar o horror das punições literais. Aqui nós vemos a sabedoria de Deus. Ele esconde significados espirituais na carta para que também aqueles que têm aprendido de Deus possam descobrir o mais profundo ensinamento por trás dela. No entanto, esses crentes comuns também podem aprender diretamente a respeito do verdadeiro fenômeno das futuras tribulações. A palavra de Deus é revelada a bebês (Mt 11.25). Como pode um bebê entender o livro de Apocalipse se é tão profundo como algumas pessoas dizem? Nós louvamos ao Senhor, por que a despeito de algumas passagens difíceis no Apocalipse, muitas delas são para aplicação literal, e por isso bebês em Cristo podem entender o livro. Nós também louvamos ao Senhor porque, embora o livro de Apocalipse seja tão singelo que os crentes comuns possam conhecer muito a respeito dele, da mesma forma oferece muitos materiais para pesquisa ao melhor dos cérebros humanos. Nosso Deus é de fato Deus!

 

O caráter do livro de Apocalipse é justo, do início ao fim manifesta a justiça de Deus. Não é fácil encontrar nele a graça de Deus; mesmo com a Igreja, ele revela a estreita disciplina do Senhor. É, de fato, um livro de julgamento. Nele nós vemos como Deus julga a sua Igreja, os Judeus, e as nações. Ele revela o Senhor Jesus e manifesta o seu julgamento.

 

Devido ao seu caráter ser diferente dos outros livros do Novo Testamento, muitas pessoas julgam o Apocalipse muito difícil para entender. No entanto, não é realmente difícil de saber. A Igreja tem falhado, então o Senhor só pode recorrer ao julgamento. O registro dos capítulos 2 e 3 é a sombra do iminente julgamento de Cristo (2 Co 5.10). Com exceção dos capítulos 4 e 5 que narram conteúdos de transição, todo o registro do capítulo 6 através do capítulo 19 pertence ao tempo do último sete dos setenta setes de Daniel. Os setenta setes Daniel caem dentro da dispensação da lei. A dispensação da graça foi inserida entre o sexagésimo nono sete e septuagésimo sete. Assim que a dispensação da graça é concluída, o septuagésimo sete começa, e ainda pertence à dispensação da lei. Por isso todas as coisas mencionadas do capítulo 6 através do capítulo 19 voltam à dispensação da lei. Não é de admirar que o seu caráter seja tão justo.

 

Devido ao seu caráter justo e legal, o livro carrega nele muito do tempero judaico. Nesse livro a Igreja é apresentada em termos um tanto diferentes do que é descrita nos escritos de Paulo. Embora o livro de Apocalipse seja escrito em grego, como nos escritos de Paulo, o livro emprega muitos Hebraísmos – comoAbadom, por exemplo, e assim por diante. Até mesmo os nomes do nosso Senhor têm conotações judaicas, como Jeová Deus. O Evangelho de Mateus cita o Velho Testamento 92 vezes; o livro de Hebreus cita-o por volta de 103 vezes; mas o livro de Apocalipse faz isso cerca de 285 vezes!  Isso prova que o livro de Apocalipse mostra como Deus há de retornar ao território do Velho Testamento, de acordo com o qual tratará com as nações e com os judeus. Não esqueçamos que a salvação vem dos judeus. Por essa razão os santos do Senhor devem aprender a amar os Judeus e a não rejeitá-los. Nós devemos amar os eleitos do Senhor.

 

Bibliografia Watchman Nee E www.ebdareiabranca.com