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hermeneutica n.6 (interpretação do apocalipse)
hermeneutica n.6 (interpretação do apocalipse)

 

METODOS DE INTERPRETAÇÃO

INTRODUÇÃO AO APOCALIPSE

 

Autoria

 

O autor do livro dá seu nome simplesmente como “João” (1:1, 1:4, 21:2, 22:8). As igrejas da Ásia o conheciam muito bem, e ele se chama de seu irmão, que participa com elas da tribulação, do reino e da per­severança (1:9). A pergunta é: Quem era este João? Do estilo do livro podemos deduzir que ele era um cristão de origem hebraica, conhecendo de ponta a ponta o Antigo Testamento. A igreja dos primeiros tempos em geral o aceitou como sendo o apóstolo de Jesus Cristo, o autor do quarto evangelho. Já no ano 150 d.C. Justino Mártir afirmou isto, como também Irineu por volta de 200 d.C., ambos residentes na Ásia por algum tempo. A autoria apostólica era amplamente aceita pelos pais da igreja. E é completamente possível, porque a tradição histórica de que João viveu até idade avançada em Éfeso é sólida.

 

Temos de observar, no entanto, que João não se chama de após­tolo, e que em 21:14 ele menciona o grupo dos apóstolos sem dar qual­quer indicação de que ele é um deles. Ele afirmou, isto sim, ser um profeta (22:9), e disse que seu livro era uma profecia (1:3, 22:7,10,18,19). Se o autor não era o apóstolo, então ele era pelo menos um profeta bem conhecido em todas as igrejas da Ásia, mas desconhecido para nós por outras fontes.

 

Há, realmente, sérias dificuldades para reconhecer o Apocalipse e o quarto evangelho como sendo do mesmo autor. Apesar de haver muitas semelhanças entre os dois livros (por exemplo: só no quarto evangelho e no Apocalipse Jesus é chamado de Logos) o estilo do grego é notavelmente diferente. A linguagem do evangelho é suave, fluente e em grego simples e direto. A linguagem do Apocalipse é rude e impolida, com muitas irregularidades gramaticais e sintáticas. Nós sabemos de muitas referências que era comum o uso de amanuenses ou secretários no mun­do antigo (veja Rm. 16:22); as diferenças de estilo entre o evangelho e o Apocalipse podem ser creditadas à diferença de assunto e ao uso de secretários. Possivelmente João ditou o evangelho a um discípulo, en­quanto o Apocalipse está no seu próprio grego rude de hebreu.

 

Data

 

A tradição credita o Apocalipse à última década do primeiro sé­culo, quando Domiciano era imperador de Roma (81-96 d.C.) { Irineu, bispo de Lion na Gália no segundo século, escreveu: “Ele (o Apocalipse) sur­giu faz não muito tempo, perto do fim do reinado de Domiciano, quase na nossa geração" (Contra Heresias, V.xxx.iii). Vitorino (terceiro século d.C.) escreveu: “Quando João es­creveu estas coisas ele estava na ilha de Patmos, condenado por César Domiciano a tra­balhar nas minas" (Comentário ao Apocalipse 10:11).}. Alguns estudiosos sugeriram datas mais antigas o que é improvável.

 

Situação Histórica

 

Para alguns estudiosos, literatura apocalíptica é quase por defi­nição “panfletos para tempos difíceis”, resultado de perseguição. Isto pode ser verdade para a literatura apocalíptica dos judeus. Estes enfren­tavam o problema: Por que o povo de Deus era tão perseguido? Onde estava a salvação de Deus? Os profetas do Antigo Testamento viam Deus ativo tanto na história como no fim escatológico, mas os autores apocalípticos não tinham esperança na história, somente na intervenção escatológica de Deus. O mundo e o tempo eram irremediavelmente maus, estavam sob o domínio de poderes angelicais demoníacos. Deus estava longe, no céu, mas em breve ele se ergueria do seu trono, des­truiria os poderes demoníacos e libertaria seu povo.

 

Seguindo esta teoria, muitos estudiosos reconstruíram a situação histórica do Apocalipse em termos de uma perseguição mundial iminente da igreja por parte de Roma. A igreja praticamente enfrentaria seu aniquilamento; João escreveu ao povo de Deus para fortalecê-lo nas tribulações que enfrentaria: apesar do sofrimento que viria, a vinda do Senhor estava próxima, para derrubar Roma e libertar sua igreja.

 

O problema com esta teoria é que não há evidência de que houve uma perseguição aberta e sistemática da igreja durante a última década do primeiro século. Entre o povo cristão prevaleceu a ideia de que houve dez grandes perseguições da igreja quase universais em seu alcance {Quem popularizou esta ideia foi um certo Paulo Orósio, historiador do quinto sé­culo.}: por Nero (64 d.C.), Domiciano (95 d.C.), Trajano (112 d.C.), Marco Aurélio (117 d.C.), Sétimo Severo (fim do segundo século), Maximino (235 d.C.), Décio (250 d.C.), Valeriano (257 d.C.), Aureliano e Diocleciano (303 d.C.). É verdade que Décio, Valeriano e Diocleciano promoveram perseguições extensas, mas as perseguições anteriores eram de caráter local e relativamente suaves. Nero, sim, instigou uma forte e breve perseguição aos cristãos, mas somente em Roma e uma só vez {Veja Tácito, Anais XV.xliv.}.A perseguição creditada a Domiciano de modo algum alcançou todo o im­pério, mas somente algumas famílias em Roma {Veja Ethelbert Staufeer, Christ and the Caesars (Philadélfia: Westminster, 1955), Row, 1966), pp. 65ss.}.

 

Não resta dúvida de que os cristãos tiveram problemas em Éfeso, muito embora não possamos reconstruir de fontes independentes até onde foi esta oposição. O exílio de João comprova que houve perse­guições em Éfeso, talvez mais devido a um decreto consular de Éfeso do que a um decreto imperial de Roma. Em Pérgamo tinha sido morto um cristão com o nome de Antipas, presume-se que pouco antes de ser es­crita a carta àquela igreja (2:13). Mas não há nenhuma indicação de uma perseguição geral. A igreja de Esmirna foi advertida de que haveria algumas prisões em breve (2:10) que inclusive poderiam levar à morte de alguns, pois os cristãos são exortados a serem fiéis até à morte. Outros cristãos já tinham sido martirizados, porque João viu as almas dos mor­tos sob o altar clamando por vingança (6:9). Mas esta referência é de caráter geral e pode incluir tanto mártires do Antigo como do Novo Tes­tamento.

 

Temos de concluir que é impossível estabelecer uma situação de perseguição mundial da igreja como descrita no Apocalipse a partir de fontes extra bíblicas. A profecia contida no Apocalipse vai muito além de qualquer situação histórica do primeiro século. Apesar de a Roma dos tempos de João ter tendências anticristãs, o quadro feito do Anticristo em Apocalipse 13 representa muito mais que a Roma histórica. Referências concretas à perseguições são todas ilustrações da hostilidade do mundo frente à igreja.

 

Não podemos dizer por que João foi exilado para Patmos (1:9). De qualquer modo ele diz que Deus usou seu exílio como ocasião para lhe proporcionar uma série de visões que retratariam o conflito entre o Reino de Deus e o poder de Satanás, a vitória final do Reino de Deus e a consumação do seu propósito redentor.

 

 

 

 

A NATUREZA DA LITERATURA APOCALÍPTICA

 

 

 

DEFINIÇÃO e (interpretação)

 

 

 

Uma classe inteira de literatura deve seu nome à primeira palavra do texto grego do último livro de nossa Bíblia. A palavra é(apokálupsis). Este substantivo provém do verbo (apokalúptein), que significa "desvendar", daí "revelar". O adjetivo "apo­calíptico" é usado para qualificar escritos que têm certas afinidades com o Apocalipse do Novo Testamento. Foram feitas associações entre o Apoca­lipse e outras porções e livros da Bíblia, tais como Daniel e Ezequiel e estes são ditos conterem material apocalíptico em sua natureza. Depois foram feitas associações com escritos não-canônicos, tais como os Segredos de Enoque, e estes são também chamados "escritos apocalípti­cos". Desta forma, como o termo foi considerado como descritivo de muitos escritos que não poderiam ser classificados de outra maneira, o gênero literário recebeu seu nome. Basicamente, "apocalíptica" é a literatura não diferente do Apocalipse.

 

 

 

Mas, o que caracteriza esta literatura? Muitos estudiosos a incluem nos "tratados para tempos difíceis" (G.E. Ladd, A Commentary onthe Revelation of John — Um Comentário Sobre o Apocalipse de João — p.8). Esta literatura surgiu no período da história de Israel depois que a voz profética fora silenciada. Durante tempos de severa perseguição, livros apocalípticos surgiram na ausência de um profeta para responder à pergunta: "Porque o justo sofre?" Os livros apocalípticos pretendem ser uma revelação divina, geralmente através de um intermediário celestial, a alguma pessoa proeminente na história passada da nação, na qual Deus promete vingar seu povo sofredor, destruir toda a impiedade e trazer paz duradoura. A diferença básica entre a profecia e o texto apocalíptico é que a profecia lidava com as obrigações éticas do período em que o profeta escreveu, ao passo que o texto apocalíptico centralizava-se num tempo no futuro, quando Deus iria intervir catastroficamente, para julgar o mundo e estabelecer a justiça (Rist, Introduction andExegesis of the Revelation of St. John the Divine — Introdução e Exegese do Apocalipse de S. João, o Divino — p. 347).

 

 

 

Há cerca de tantas definições da natureza desta literatura quanto há escritores sobre os livros deste gênero. Um método é definir o texto apocalíptico por três aspectos óbvios: forma, função e conteúdo. A virtude deste método é que estes aspectos são bem evidentes. Cada um destes tem cercas características, que precisam ser observadas. Estas são: 1) A forma, como tendo pseudonímia (ouanonímia), simbolismo, mitologia, orientação cosmológica, numerologia (gematria), experiências extáticas, alegações de inspiração, visões (esotéricas), drama, empréstimos de outros apocalipses, alegoria e prosa. 2) A função (ou propósito), como respon­dendo às necessidades que surgem das perseguições, resolvendo o proble­ma colocado pela justiça de Deus e o sofrimento do homem (teodicéia),e expondo os objetivos do nacionalismo. 3) O conteúdo inclui determi­nismo, escatologia, transcendentalismo, uma filosofia pessimista da histó­ria, dualismo, divisão eônica do tempo e um mínimo de ensinos éticos e morais.

 

 

 

Naturalmente, é observável imediatamente que cada escrito apocalíp­tico não teria todas estas características; alguns têm mais, outros menos. Mas os três aspectos são de importância na definição deste gênero. É também evidente, ao ler-se o texto apocalíptico, que um aspecto pode ser dominante sobre os outros dois. Geralmente, contudo, é o aspecto da forma que chama a atenção para este tipo de literatura. As características destes aspectos foram desenvolvidas durante um período de séculos, resultantes de crenças religiosas básicas (cf. P. Hanson, The Dawn of Apocalyptic — A Alvorada do Apocalíptico). Foi sugerido, por Stanley B. Frost (Old TestamentApocalyptic — O Apocalíptico do Velho Testa­mento — 1952, p. 6), que o apocalíptico surgiu quando a escatologia judaica (conteúdo),mesclou-se com o mito semítico (forma), durante a perseguição da nação judaica (função). Isto é verdadeiro quanto ao apocalíptico judaico. Muito do chamado "apocalíptico neotestamentário" parece ser uma fusão do mito judaico e gentio, para propósitos gnósticos:forma (mito judaico e gentio), conteúdo (escatologia), função (gnóstica ou do conhecimento). Esta, em termos mínimos e elementares, é a definição do apocalíptico.

 

 

 

Algumas das literaturas não-canônicas que foram classificadas como "apocalípticas" são as seguintes: Entre os textos apocalípticos do Velho Testamento, deve ser observado que nenhum tem o título "Apocalipse", ao passo que os apocalípticos do Novo Testamento têm.

 

 

 

Os judaicos são:

 

 

 

1) O Livro de Enoque, também conhecido como Primeiro Enoque ou Enoque Etiópico; escrito por volta de 164-64 a.C.

 

 

 

2) A Assunção de Moisés, escrita por volta de 50 a.C. — 25 d.C.

 

 

 

3) Os Segredos de Enoque, também chamado Segundo Enoque, escrito no início do primeiro século.

 

 

 

4) O Livro de Baruque, ou Segundo Baruque, escrito no primeiro século.

 

 

 

5) IV Esdras foi escrito depois de 90 d.C.

 

 

 

Os "Apocalipses do Novo Testamento" são:

 

 

 

1) O Pastor de Hermas (apenas uma das visões, a quinta, é considerada apocalíptica), escrito por volta do início do segundo século.

 

 

 

2) O Apócrifo de João, escrito por volta da metade do segundo século.

 

 

 

3) O Apocalipse de Pedro, escrito por volta da metade do segundo século.

 

 

 

4) O Apocalipse de Paulo, escrito no final do quarto século.

 

 

 

5) O Apocalipse de Tomé, do quinto século. O Apocalipse de Maria, depois que os acima foram escritos.

 

 

 

6) O Apocalipse de Estevão, que é muito tardio.

 

 

 

CARACTERÍSTICAS DA LITERATURA APOCALÍPTICA

 

 

 

A definição acima, de apocalíptico, precisa ser desmembrada em uma definição mais conveniente, para caracterizar este tipo de literatura. Embora nem todos os estudiosos concordem quanto às características elementares básicas, as seguintes são pelo menos mais evidentes:

 

 

 

1) Escatológica — Toda literatura apocalíptica é escatológica, mas as duas coisas não são idênticas. São feitas, acertadamente, distinções entre as duas. A escatologia pode existir e frequentemente existe nos escritos básicos, separada das seções apocalípticas. A própria natureza contingen­te do pensamento escatológico faz com que a escatologia se preste à expressão apocalíptica (mitológica). Por outro lado, o apocalíptico é sempre escatológico, seja explícita ou implicitamente. A escatologia olha para um tempo futuro, quando Deus irromperá catastroficamente no mundo do tempo e do espaço, para julgar sua criação. Há uma distinção a ser feita entre profecia escatológica e o apocalíptico. Aquela predisse o futuro que deverá surgir do presente, ao passo que os apocaliptistas predisseram o futuro que deverá irromper no presente (H.H. Rowley, The Relevance of Apocalyptic — A Relevância do Apocalíptico — 1947, p. 38).

 

 

 

2) Significação Histórica — O apocalíptico mantém a tensão entre a história e o éschaton. O apocaliptista escreve dentro de uma estrutura histórica para assegurar o leitor acerca da intervenção divina. Isto é caracteristicamente feito retraçando-se a história na forma de profecia, para falar às condições da época da escrita. Os elementos da situação histórica real são representados pelas imagens do livro. O conhecimento da situação histórica auxilia a interpretação da mensagem (Summers, op. cit.p. 30).

 

 

 

3) Uma Defesa Radical dos Justos — Uma das características mais óbvias do apocalíptico é vista na defesa radical do grupo perseguido, sempre identificado com os escolhidos de Deus, e com os quais sempre o escritor se identifica, como uma parte integrante. Surge a pergunta sobre por que o povo de Deus sofre, e a resposta é encontrada no dualismo, que é temporal e histórico. Há duas superpotências que se opõem, e ambas são sobrenaturais: Deus e Satanás. Com duas eras distintas, a presente está sob o controle das forças da impiedade, e, consequentemente, há um pessimismo acerca da presente situação histórica. É por esta razão que os justos sofrem. Existe pouco ou nenhum ensino moral e ético; estar no grupo escolhido é o bastante, pois o pior membro do grupo é muito melhor que a melhor pessoa que não é do grupo.

 

 

 

4) Pseudônimo — Com poucas exceções, os apocalipses são pseudônimos. Eles são escritos no nome de algum predecessor ilustre que profetiza acerca dos eventos da época do escritor real. A história passada torna-se reescrita, como profecia. Os eventos são bem facilmente determinados, até a época do escritor real, e então a profecia perde sua clareza, pois o escritor real considera-se como estando vivendo próximo ao fim do tempo. Várias razões são dadas para este uso de um nome de um ancião digno. É sugerido que o escritor, escrevendo em tempos difíceis, desejou esconder sua própria identidade e a do grupo perseguido (Kümmel, Introduction tothe New Testament — Introdução ao Novo Testamento — p. 317). Outros propõem que um escritor tinha que escrever no nome de um homem preeminente do passado, a fim de obter audiência. Como a voz profética havia sido silenciada em Israel, a mensagem tinha que vir dos lábios de uma pessoa conhecida por uma leitura do Velho Testamen­to, pois o povo não iria aceitar um profeta novo de seu próprio tempo (R. H. Charles, Religious Development Bettween the Old and New Testament — Desenvolvimento Religioso Entre o Velho e o Novo Testamentos — p. 38-46). Seja qual for a razão, o escritor realmente não pretendia enganar; seus leitores sabiam que a escrita era recente.

 

 

 

5) Visões — O uso de visões como um meio de revelação é outra característica clara dos apocalipses. A visão altamente elaborada (esotérica) é o método principal usado para se receber a mensagem (I.T. Beckwith, The Apocalypse of John — O Apocalipse de João, p. 169). Embora os profetas do Velho Testamento tivessem visões, estas não passaram muito além de simples sonhos quanto à forma. Osapocaliptis­tas se moveram além de simples visão para experiências esotéricas altamente estruturadas e detalhadas. Geralmente um guia celestial está presente, para auxiliar no discernimento da mensagem das figuras totalmente fantásticas, vistas nessas visões. Frequentemente a interpreta­ção do livro inteiro depende da clarificação da visão por parte do guia (L. Morris, The Revelation of St. John — A Revelação de S. João — p. 24 e 25). A experiência esotérica é uma forma de simbolismo, figuras grotescas e imagens fantásticas (Summers, op. cit, p. 32 e 33).

 

 

 

6) Simbolismo — Provavelmente, a característica principal da litera­tura apocalíptica é o uso de símbolos para apresentar a mensagem escatológica. Através de séculos de desenvolvimento, um estoque comum de símbolos e figuras de discurso remarcáveis emergiram. Como pode alguém colocar em termos inteligíveis uma experiência espiritual? A in­terpretação de ideias, princípios e realidades espirituais é tornada fácil para aquele que sabe usar os símbolos. Para os não-iniciados, a mensa­gem permanece sendo um mistério. Desta forma, o escritor faz uso de símbolos para "revelar" a mensagem àqueles que estão familiarizados com o processo, e a mensagem é ocultada àqueles que não estão (G.B. Caird, The Revelation of St. John the Divine — O Apocalipse de S. João, o Divino — p. 6 e 7). Na linguagem do apocaliptista, os símbolos são muito significativos, pretendidos a serem um instrumento de uma carreira definida e importante de pensamento. Estes livros não foram escritos para amedrontar ou confundir o leitor; eles foram escritos para ajudá-lo a entender a obra de Deus em levar esta era a um fim.

 

 

 

Entre as numerosas figuras simbólicas, aparece o uso de números. Desde os tempos mais remotos, os homens associaram ideias com números, e vagarosamente desenvolveu-se a ciência de numerologia, denominada gematria. Os números eram usados para expressar conceitos, ideias e princípios (CF. Wishart, The Book of the Day — O Livro do Dia — p. 19-30). Os seguintes são de importância para nós, porque ocorrem no Apocalipse ou são básicos para a compreensão daqueles que ocorrem.

 

 

 

O número "1" veio a ser associado com o princípio de unidade ou de existência independente. Ele forma a raiz para a palavra "unidade". Desta forma, Israel foi exortado a dizer: "O Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6:4).

 

 

 

O número "2" é a duplicação de "1" e representa força. No Velho Testamento, duas testemunhas eram necessárias para confirmar qualquer fato. Jesus enviava seus discípulos de "dois em dois", por razões óbvias. O número aparece no Apocalipse em referência às "duas testemunhas" (11:3-12) e às duas "bestas" (13:1-18).

 

 

 

Sugestivo do círculo familiar completo é o número "3". A família representava a unidade social ideal sobre a terra: amor de pai, amor de mãe e amor filial. Isto assumiu o conceito do amor divino e finalmente de Deus mesmo, e isto se transportou à ideia da Trindade. Portanto, em gematria o número "3" simboliza o divino.

 

 

 

O universo físico era simbolizado pelo número "4". Havia quatro ventos, quatro direções, quatro cantos ou lados do mundo. "4" era o número cósmico. No Apocalipse, há as "quatro criaturas viventes, os "quatro cavalos e cavaleiros", e "quatro anjos junto ao rio Eufrates". Os homens viviam, trabalhavam e morriam num mundo simbolizado pelo número "4".

 

 

 

O número "5" é o número do próprio homem. Em cada mão estão cinco dedos, e em cada pé, cinco dedos. Quando o número é dobrado para "10", este simboliza a inteireza humana. Um homem perfeito tinha dez dedos nas mãos e dez dedos nos pés; daí, sendo um homem perfeito. Dez manda­mentos foram dados como o dever total do homem para que ele fosse perfeito em sua sociedade. O Apocalipse fala de "dez chifres" (poder humano completo) e "dez dias" (tempo humano completo). Os múltiplos de dez também foram usados para mostrar inteireza: 10x10x10 * 1.000 (inteireza última); 12 x 12 x 10 x 10 x 10 * 144.000 (o número completo do povo de Deus sobre a terra).

 

 

 

Para os povos antigos, "6" era o número do mal, porque estava aquém de "7", o número sagrado da perfeição. Uma das palavras hebraicas básicas para "pecar" significa "errar o alvo". Isto é o que o número "6" significa. Ele simboliza o mal, porque, como o pecado, erra o alvo da perfeição. O próprio número, em sua pronúncia, tem o chiado da serpente.

 

 

 

Na gematria que se desenvolvia, o número divino "3" e o número cósmico "4" eram unidos para dar "7", o número sagrado da perfeição. Isto era a terra coroada com o céu; o universo físico e o espiritual unidos. O número "7" é muito usado no Apocalipse: sete espíritos, sete igrejas, sete candelabros, sete estrelas, sete selos, etc. "7" multiplicado pelo número completo "10" produz "70". Jesus enviou setenta homens preparados para uma obra especial. As Escrituras hebraicas foram traduzidas para o grego e denominadas aSeptuaginta (70).

 

 

 

Outro número usado no apocalíptico é o "12". Isto é, 3 x 4, e tornou-se o símbolo para o povo de Deus: a religião organizada. Será lembrado que havia doze tribos em Israel, e Jesus escolheu doze apóstolos. O número duplicado é "24" e no Apocalipse há "24" anciãos ao redor do trono, representando o povo de Deus dos dias do Velho Testamento e os do movimento cristão. 12 x 12 x 10 x 10 * 144.000, o número completo, simbolizando a segurança perfeita do povo de Deus sobre a terra.

 

 

 

Um outro número aparece no Apocalipse, um meio-número: "3 1/2". Isto é a metade de "7" e significa um período de tempo curto e indefinido. No Apocalipse, este aparece com "3 1/2 anos", "42 meses" e "1.260 dias". Representa instabilidade, confusão, insatisfação por um período de tempo indefinido.

 

 

 

7) Dramático — A literatura apocalíptica possui o sentido de um drama iminente, a atmosfera do dramático. Ela é dirigida à imaginação com sua vividez e, por vezes, figuras grotescas. Frequentemente, os símbolos são empregados para o efeito dramático, para enfatizar a seriedade da mensagem. Quando o leitor entende que o escritor está dirigindo sua mensagem à imitação, encontra o significado de uma figura na perspectiva do livro inteiro. Neste sentido, o detalhe diminuto não é importante; de fato, ele pode ser prejudicial à descoberta da mensagem real que o escritor deseja transmitir ao leitor.

 

 

 

O APOCALIPSE E A LITERATURA APOCALÍPTICA

 

 

 

Após discutir a natureza desta classe de literatura, deve ser determinado se o último livro do Novo Testamento deve ser consideradoapoca­líptico. Ao primeiro pensamento, isto pode parecer ilógico, porque o gênero inteiro da literatura deve seu nome à primeira palavra de nosso Apocalipse canônico. Também, na primeira definição dada acima, foi afirmado que esta classe não é "diferente de nosso Apocalipse". No mínimo, a definição é que a forma (mito judaico ou gentio), o conteúdo (escatologia) e a função (propósito) constituem a literatura apocalíptica. Assim sendo, o último livro de nossa Bíblia é apocalíptico por definição.

 

 

 

Numa leitura do Apocalipse, pode-se encontrar várias características desta literatura mencionadas acima. Há um uso extensivo dos símbolos, e as visões e a gematria desempenham uma parte importante como veículos para a mensagem. A escatologia certamente é preponderante no que diz respeito ao conteúdo, e o propósito básico foi o de encorajar o leitor cristão à fidelidade durante um período difícil na história do cristianismo. João fez grande uso da forma (símbolos) e da função (propósito) para apresentar sua mensagem escatológica (conteúdo). O que não é tão evidente, todavia, são as dessemelhanças entre o Apocalipse e todos os outros livros deste gênero. João se libertou, de muitas maneiras, do esquema normal do apocalíptico, e estas diferenças são importantes o bastante para separar este livro de todos os outros desta classe, tanto que G.E. Ladd levantou uma pergunta como título para um importante artigo:"Por Que Não Profético-apocalíptico? (Journal of Bíblical Literature, LXXVI, 1957, p. 192-200). As seguintes são algumas das principais diferenças entre o Apocalipse e outros escritos deste gênero:

 

 

 

1) O Apocalipse Não É Pseudônimo — Embora nem todos os estudio­sos concordem quanto à identidade do autor, há quase que acordo universal de que "João", quem quer que ele fosse, foi uma pessoa real, que escreveu sob seu próprio nome (1:4,9; 22:8). Ele não escreve no nome de uma figura proeminente do passado. Ele escreve com a convicção de que Deus lhe deu uma mensagem pastoral às igrejas para as quais ele foi feito supervisor. A estrutura epistolar não é a forma apocalíptica tradicional, e é evidente que este livro foi feito para ser lido em voz alta nas igrejas às quais ele é endereçado (1:3,4; 22:16,18). R.H. Charles concluiu que as razões para a pseudonímia já não mais eram válidas quando o Apocalipse foi escrito (A Critical and Exegetical Commentary on the Revelation of St. John — Um Comentário Crítico e Exegético Sobre o Apocalipse de S. João — I, pp. xxxviii-xxxix). João escreveu a cristãos que o conheciam, e ele usou seu próprio nome, ao escrever.

 

 

 

2) O Apocalipse É Profético — Uma das características do apocalíptico é uma defesa radical das pessoas com que o autor se identifica. Isto não é inteiramente verdadeiro no que diz respeito ao Apocalipse. O autor realmente se identifica com o grupo perseguido, mas não dá somenos importância aos pecados dessas pessoas. Há uma repetida chamada à confissão e ao arrependimento e ao viver moral e ético (2:5,16,21,22; 3:3, 19; 18:4; 20:12,13; etc). Por esta razão, o escritor está mais em linha com os profetas do Velho Testamento do que com os apocaliptistas do judaísmo. Ao passo que os apocalipses judaicos tinham uma visão muito pessimista dessa era, os profetas do Velho Testamento e João interpretam a situação presente como estando sob o controle de Deus, que está continuamente revelando-se, para efetuar a salvação de sua criação. A vantagem que João desfrutou sobre os profetas do Velho Testamento é a Encarnação histórica (Kümmel, op. cit., p. 321-324). A situação da qual João escreve não é como os apocaliptistas proclamam, um prelúdio para uma intervenção escatológica, mas deve ser interpretada à luz dos dois adventos do Cordeiro, pelos quais e nos quais todas as forças da impiedade que se opõem à justiça serão destruídas (Mounce, The Book of Revelation — O Livro de Apocalipse — p. 24). O autor do Apocalipse chama sua obra uma profecia (1:3; 10:11; 19:10; 22:7, 10, 18,19). A his­tória não é retraçada na forma de profecia; antes, João fala de sua própria época, olhando para o futuro, quando a difícil perseguição que a Igreja enfrenta será destruída (cf. Caird, op. cit., p. 9-12).

 

 

 

3) A Interpretação das Visões — Há uma notável diferença no uso de visões pelo escritor de nosso Apocalipse, em comparação com outros apocalípticos. O método usual é o escritor ter um guia celestial para interpretar cada visão e símbolo para o vidente. No Apocalipse isto é raramente feito (uma exceção observável é 17:7-18). Geralmente João apresenta apenas a visão ou símbolos e deixa o leitor fazer a interpretação. Há uma abertura acerca da verdade escatológica, no Apocalipse, que é reanimadora em sua novidade, a qual, no apocalíptico comum, é apenas conhecimento esotérico secretamente preservado desde os tempos antigos. Para o leitor do Apocalipse, a história atual é escatologicamente interpre­tada para encorajar o cristão em sua difícil situação (Ladd, A Commentary onthe Revelation of John — Um Comentário Sobre o Apocalipse de João — p. 13).

 

 

 

Estas são apenas três das diferenças aparentes entre o Apocalipse de nossa Bíblia e outros escritos apocalípticos. Há outras diferenças, que alguns estudiosos proporiam (cf. Morris, op. cit., p. 22-25; McDowell, O Apocalypse, p. 22-26). Alguns diriam que essas diferenças são bastantes para classificar o Apocalipse como um livro de profecia e excluí-lo do gênero do apocalíptico. Sem dúvida, o Apocalipse, por definição, pertence a esta classe. Contudo, igualmente importante são as diferenças entre este livro e todos os outros desta classe. Talvez o termo proposto por Ladd, "profético-apocalíptico", seria mais apropriado para o último livro de nossa Bíblia. João usou muito do aparato tradicional do apocalíptico para apresentar uma mensagem profética. Ele foi criativo o bastante para usar algumas das formas de apocalíptico para transmitir uma mensagem dramática de teologia distintiva. Ele era um verdadeiro profeta cristão, usando termos apocalípticos para oferecer a mensagem da "revelação de Jesus Cristo" (1:1).

 

 

 

Bibliografia Broadus David Hale

 

 

Métodos de Interpretação

 

O Apocalipse é o livro do Novo Testamento mais difícil de ser interpretado, basicamente por causa do uso elaborado e extensivo de sim­bolismo. Como entender estes símbolos estranhos, às vezes bizarros? Surgiram diversos métodos distintos de interpretação. Muitos intér­pretes acham elementos valiosos em mais de um método, de modo que há considerável superposição. Mesmo assim podemos identificar quatro métodos distintos.

 

O Método Preterista

 

O ponto de vista predominante nos meios críticos e eruditos é que o Apocalipse faz parte de um gênero distinto de escritos judaico-cristãos chamado “apocalíptico”, que são “panfletos para tempos difíceis”. O judaísmo produziu tais livros, como Enoque, A Assunção de Moisés, O Apocalipse de Esdras e Baruque, que têm diversas características lite­rárias em comum com o Apocalipse, principalmente no uso de símbolos e num tipo semelhante de esperança escatológica. Estes escritores estavam desanimados por causa das más experiências históricas e a per­seguição do povo de Deus por nações pagãs. Apesar de desesperarem da história, eles continuavam esperando em Deus e aguardando sua sal­vação. Acreditam que em breve Deus se ergueria do seu trono para abalar o governo das nações perversas, destruir todo o mal e estabelecer o seu Reino na terra. Isto se daria em uma catastrófica aparição cósmica que substituiria totalmente o sistema mau, caído, pelo glorioso Reino de Deus. Os autores apocalípticos viam seus dias como os piores e os úl­timos, já que o fim dos tempos viria imediatamente. Mas suas predições apocalípticas não foram cumpridas; e como profecias genuínas de even­tos futuros os apocalipses judaicos são sem valor. Sua importância reside somente na compreensão das esperanças religiosas do povo cuja cultura os produziu.

 

Interpretado nesta linha, o Apocalipse expressa as esperanças dos cristãos primitivos da Ásia: que eles em breve seriam libertados dos seus sofrimentos sob o domínio dos romanos. Do ponto de vista preterista a Roma imperial era a besta do capítulo 13 e a classe sacerdotal asiática que incentivava o culto a Roma era o falso profeta. A igreja estaria ameaçada de extinção virtual, em face das perseguições que estavam às portas, e João escreveu para fortalecer a fé dos crentes pois mesmo com a perseguição iminente Deus interviria, Cristo voltaria, Roma seria des­truída e o Reino de Deus seria logo estabelecido. Claro que Cristo não veio, Roma não foi derrubada e o Reino de Deus não foi estabelecido. Mas predições proféticas não fazem parte da literatura apocalíptica. O livro cumpriu seu propósito de fortalecer e encorajar a igreja do pri­meiro século. Para os que querem defender o Apocalipse como um livro profético este ponto de vista é inadequado.

 

O Método Histórico

 

Este método encara o Apocalipse como uma profecia simbólica de toda a história da igreja até a volta de Cristo e o fim dos tempos. Os muitos símbolos do livro identificam diversos acontecimentos e tendên­cias da história do mundo ocidental e da igreja. Obviamente uma inter­pretação como esta pode levar a confusão, porque não há diretrizes claras quanto a quais eventos históricos estariam sendo abordados. Uma das linhas dominantes desta interpretação é que a besta é o papado romano e o falso profeta a Igreja Romana. Este ponto de vista foi tão popular que durante muito tempo foi chamado de o ponto de vista protestante. Pouco há a comentar sobre este ponto de vista, porque no caso o Apocalipse teria pouco a dizer às igrejas da Ásia a que foi en­dereçado.

 

O Método Idealista

 

Este método evita o problema de ter de encontrar cumprimento histórico para os símbolos do Apocalipse, e vê somente um quadro simbólico do conflito cósmico espiritual entre o Reino de Deus e os poderes satânicos maus. A besta é o mal satânico em qualquer forma que ele tome para oprimir a igreja. O capítulo 12 ilustra que há alguma verdade neste método, porque retrata um pesado conflito no céu entre Satanás e os anjos. Mas o Apocalipse não deixa de pertencer ao gênero apocalíp­tico, e o simbolismo apocalíptico se preocupa primeiramente com os acontecimentos da história que levam ao fim dos tempos e à vinda do Reino de Deus. Por isso temos de procurar adiante.

 

O Método Futurista

 

Este método interpreta o Apocalipse em grande parte como uma profecia de acontecimentos futuros, colocada em termos simbólicos, que levam ao fim do mundo e o acompanham. O ponto de vista futuris­ta tomou duas formas principais, que podemos chamar de moderada e extrema ou dispensacionalista. Esta última entende as sete cartas como sete épocas sucessivas da história da igreja, expressas em símbolos. O caráter das sete igrejas ilustra as principais características dos sete períodos de declínio e apostasia (Laodicéia). O arrebatamento de João sim­boliza o arrebatamento da igreja no fim dos tempos. Os capítulos 6-18 retratam o período da grande tribulação — o último período, curto mas terrível, da história da igreja, quando o Anticristo praticamente destruirá o povo de Deus. No ponto de vista dispensacionalista o povo de Deus é Israel, de volta a Jerusalém, protegido por um selo divino (7:1-8), com o templo reconstruído (11:1-3); que sofre a ira do Anticristo. A igreja não es­tá mais na terra, porque foi reunida ao Senhor nos ares.

 

O ponto de vista futurista moderado difere do extremo em diversos pontos. Ele não vê razão, como o ponto de vista extremo, de fazer uma diferença tão definida entre Israel e a igreja. O povo de Deus que sofre a perseguição feroz é a igreja. Também não vê razão para reconhecer nas sete cartas uma predição de sete períodos da história da igreja. Não há qualquer evidência interna para tal interpretação, há apenas sete cartas para sete igrejas históricas. Mas concorda quanto a que o propósito do livro é descrever a consumação do propósito redentor de Deus no fim dos tempos.

 

Novamente é válida a objeção de que se o livro foi escrito para tratar primeiramente de eventos do futuro distante, então sua mensagem tinha pouca importância para as igrejas do primeiro século a que foi endereçado. Não podemos levar este argumento longe demais, ou ele esvaziará muitas profecias do Antigo Testamento de sua importância. Os profetas não falavam só de acontecimentos contemporâneos; Eles estavam sempre relacionando os eventos contemporâneos com o grande acontecimento do fim da história: o Dia do Senhor, quando Deus iria visitar o seu povo para redimi-lo e estabelecer o seu Reino.

 

Isto nos leva a uma característica da profecia do Antigo Testamen­to que também é característica do Apocalipse, e que soluciona o pro­blema da distância e da importância. Como já disse, os profetas en­focavam duas coisas em sua perspectiva profética: os eventos do presen­te e do futuro imediato, e o evento escatológico final. Estes dois são mantidos em uma tensão dinâmica muitas vezes sem uma distinção cronológica, porque o objetivo principal da profecia não é fazer um programa ou mapa do futuro mas deixar cair a luz da consumação escatológica sobre o presente (II Pe 1:19). Assim, na profecia de Amós, o iminente julgamento de Israel através da Assíria foi chamado de Dia do Senhor (Am 5:18, 27), e a salvação escatológica de Israel também ocorrerá neste dia (9:11). Isaías retratou a queda da Babilônia com cores apocalípticas, como se fosse o fim do mundo (Is 13:1-22). Sofonias des­creveu um acontecimento desconhecido (para nós) como Dia do Senhor, que consumiria toda a terra com seus habitantes (1:2-18), como que pelo fogo (1:18, 3:8). Joel passou imperceptivelmente das pragas de gafanhotos históricas para os julgamentos escatológicos do Dia do Senhor.

 

Em outras palavras, o julgamento histórico iminente é visto como tipo ou prelúdio do julgamento escatológico. Ambos estão às vezes misturados como que sem respeitar a cronologia, porque o mesmo Deus que age no julgamento histórico iminente também estará agindo no julgamento escatológico final para alcançar seu propósito redentor. Assim, Daniel viu o grande inimigo escatológico do povo de Deus no rei his­tórico da Grécia, Antíoco Epifânio ou o Reino Selêucida — 11:3), que ainda tomou a coloração do Anticristo escatológico (Dn 11:36-39). Da mesma maneira o discurso do Monte das Oliveiras do nosso Senhor estava impregnado tanto do julgamento histórico de Jerusalém às mãos dos exércitos romanos (Lc 21:20ss) como com o aparecimento escatológico do Anticristo (Mt 24:15ss). Roma foi um predecessor histórico do Anticristo.

 

De modo que, apesar de o Apocalipse estar primeiramente preo­cupado com assegurar às igrejas da Ásia de que viria a salvação escatológica final no fim dos tempos, com o julgamento dos poderes maus do mundo, isto tinha importância imediata para o primeiro século. Por­que os poderes demoníacos que se manifestarão no fim, na grande tribulação, já podiam ser vistos no ódio histórico de Roma pelo povo de Deus e na perseguição que lhe movia.

 

Por isso concluímos que o método correto de interpretar o Apo­calipse é uma mescla dos métodos preterista e futurista. A besta é Roma e também o Anticristo escatológico — e, poderíamos acrescentar, qualquer poder demoníaco que a igreja tem de enfrentar em toda a sua his­tória. A grande tribulação é primeiramente um evento escatológico, mas inclui todas as tribulações que a igreja possa experimentar no mundo, sejam causadas pela Roma do primeiro século ou por poderes malignos posteriores.

 

Esta interpretação é sustentada por vários fatos objetivos. Pri­meiro; faz parte da natureza apocalíptica de um escrito que ele se ocupe primeiramente com a consumação do propósito redentor de Deus e com o fim escatológico dos tempos. Este é o tema do Apocalipse: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá” (1:7). Segundo: faz parte da natureza apocalíptica com seu simbolismo, seja o escrito canônico ou não, referir-se a eventos históricos que indicam e estão associados à con­sumação escatológica. Terceiro: Como já foi dito, o livro dá a si mesmo o nome de profecia. E também já vimos que a profecia por natureza deixa cair alguma luz do futuro sobre o presente.

 

Estrutura

 

É fácil analisar os principais assuntos do livro. Depois de um ca­pítulo introdutório vêm quatro séries de setes: sete cartas (2-3), sete selos (5:1-8:1), sete trombetas (8:2-11:19) e sete flagelos (15:1-16:21). Estas quatro séries estão intercaladas com diversos interlúdios que interrompem brevemente o fluxo da narrativa e não pertencem a nenhuma série de setes. O livro se encerra com o julgamento de Babilônia, a civilização apóstata, o triunfo e a consumação final do Reino de Deus, e a descida da Jerusalém celestial (capítulos (17-21).

 

Quanto à estrutura literária, o livro é formado de quatro visões, cada uma iniciada com o convite: “Vem e vê” o que Deus quer revelar (1:9, 4:1, 17:1, 21:9). O livro é encerrado com um epílogo.

 

Bibliografia G. Ladd