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IRMÃOS não conformistas da Inglaterra (historia)
IRMÃOS não conformistas da Inglaterra (historia)

Irmãos Não Conformistas na Inglaterra  (1ª Parte)

 

Fragmentos de luz entre nuvens escuras

Durante a Reforma, os anabatistas tinham ensinado e sacrificado as suas vidas pela completa separação entre a igreja e o mundo, incluindo o poder político e civil do Estado. Uma total independência de qualquer poder deste mundo para depender somente de Cristo, a sua cabeça, tinha sido a sua meta. Em seguida, a Inglaterra se converteu no território onde estas verdades se encarnariam em numerosos grupos de irmãos que corajosamente enfrentaram o Estado e a sua determinação de estabelecer uma igreja que estivesse sob o seu controle. 

Nesta história temos que encontrar com tristeza, várias vezes, a mesma confusão de luzes e sombras que caracterizou o período da Reforma. Porque de ambos os lados da disputa houve irmãos sinceros e convencidos dos seus pontos de vista. No entanto, também a intolerância por aqueles que pensavam distintamente, assim como a lealdade para os seus reis e governantes, pesou em muitos deles mais que o seu vínculo espiritual com outros irmãos que desejavam uma igreja mais pura, simples e concorde com os ensinos do Novo Testamento. Desta maneira, também na Inglaterra o Estado perseguiu a aqueles crentes que discordavam da igreja oficial e suas práticas. Estes irmãos perseguidos foram conhecidos em geral com o nome de Não Conformistas.

 

A Reforma na Inglaterra

 Seria um engano pensar que todos aqueles dissidentes da igreja oficial constituíam um grupo organizado e homogêneo. Pelo contrário, havia entre eles vários grupos, cuja diferença radicava no grau de compromisso que concediam à igreja em sua relação com o Estado. Para entendê-los melhor, é necessário considerar primeiro as peculiares características que teve a Reforma na Inglaterra. 

Diferentemente do resto da Europa, a separação da igreja católica romana não foi produzida por motivos religiosos, mas sim pela decisão política do rei Enrique VIII, que desejava divorciar-se de sua primeira esposa, Catalina de Aragón. O Papa negou-lhe o divórcio, porque a Espanha, cuja casa real Catalina pertencia, era o grande baluarte político e militar do catolicismo. Apoiado pelo arcebispo Cranmer, primado da igreja da Inglaterra, quem sustentava que a Reforma devia ser produzida fazendo do poder civil um poder superior ao eclesiástico, Enrique VIII separou a igreja inglesa de Roma, para convertê-la em uma igreja nacional, cuja cabeça suprema seria o próprio rei (ano 1531).

 Como conseqüência, surgiu a Igreja da Inglaterra, que no princípio não se diferenciava em nada da sua fonte católica, exceto em sua rejeição à autoridade de Roma. No entanto, já a alguns anos, o fermento espiritual da Reforma já tinha estado atuando no país, inclusive entre muitos bispos da igreja oficial. William Tyndale tinha publicado em 1525 a sua edição do Novo Testamento em inglês, apesar da oposição do clero, e, desta maneira, abriu a porta do conhecimento das Escrituras ao povo inglês. Ainda que Tyndale tenha sido queimado na estaca na Bélgica (1536), depois de ter fugido da Inglaterra, a sua tradução provou ser uma inestimável aliada das idéias reformistas que por toda parte começavam a invadir a ilha.

 Depois da morte de Enrique VIII, o seu filho Eduardo VI o sucedeu, e debaixo do seu reinado a igreja da Inglaterra se tornou definitivamente protestante quanto as suas doutrinas fundamentais, mesmo que não quanto as suas práticas, devido à influência de alguns destacados bispos, como Latimer, Ridley, Coverdale e Cranmer. No entanto, depois do seu breve reinado veio o fanático governo da católica rainha Maria, quem, por causa dos seus excessos e crueldades, foi chamada por seus compatriotas de Bloody Mary (Maria a Sanguinária).

 Esta tentou afogar a Reforma em um banho de sangue, no qual milhares de crentes sofreram o martírio, inclusive os grandes bispos reformadores. Não obstante, e paradoxalmente, nada fez mais pela causa da Reforma na Inglaterra como as crueldades de Maria e o valente martírio daqueles nobres bispos. Como tinta inapagável foi gravada no coração do povo inglês as proféticas palavras que Latimer dirigiu a Ridley quando ambos enfrentaram juntos as chamas da fogueira: "Tenha ânimo, Mestre Ridley, e sejas um homem; este dia nós, pela graça de Deus, acenderemos na Inglaterra uma chama que jamais poderá ser apagada".

 Depois da morte de Maria, subiu ao trono Isabel I, quem, forçada pelas circunstâncias, obrigou-se a favorecer a causa protestante da Igreja da Inglaterra, já que, sendo filha ilegítima do segundo matrimônio de Enrique VIII (rejeitado pelo Papa), nunca contou com a aprovação de Roma para reinar. Da mesma maneira, viu-se obrigada a procurar apoio nas nações protestantes contra a ameaça católica de Felipe II da Espanha. Este fato, unido aos já mencionados anteriormente, inclinou a balança de maneira decisiva para o protestantismo na Inglaterra. No entanto, também ocasionou o nascimento e a perseguição dos irmãos dissidentes, pois a Igreja da Inglaterra tinha por cabeça a Rainha, e todos os súditos do reino foram forçados por lei a permanecer nela.

 

Os Não Conformistas

 Diante disso, muitos crentes se opuseram que a igreja tivesse por cabeça um rei humano, e não ao Senhor Jesus Cristo. Por outro lado, muitos rejeitaram a falta de conformidade com os ensinos bíblicos nas práticas da igreja oficial, que retiveram muito do ritual, a pompa e o cerimonial do catolicismo. Outros foram mais longe, e seguindo as idéias dos anabatistas, rejeitaram por completo a idéia de uma igreja submetida ao Estado, que não distinguia entre crentes e não crentes. Por último, estavam aqueles que, iguais aos anabatistas, rejeitaram o batismo de crianças, e reclamava um batismo livre e responsável como sinal característico da separação entre a igreja e o mundo.

 Este estado de coisas cristalizou-se em diferentes grupos e movimentos não conformistas, que as vezes atuaram de comum acordo e em outras, em lados opostos da disputa, dependendo dos vaivens políticos da nação. Todos eles foram conhecidos como os Não Conformistas, devido a sua rejeição da igreja estabelecida pelo Estado.

 Entre eles, que aprovava a existência de uma igreja estatal, mas que, não obstante, desejavam que conformasse as suas práticas à Escritura segundo os esboços formulados por Calvino, e mais ainda pelo reformador escocês John Knox, foram conhecidos como Presbiterianos. Estes, além disso, eram contra o governo episcopal, e propunham um do tipo precisamente 'presbiteriano', ainda que igualmente centralizado. Eles rejeitavam a união da igreja e o Estado, ainda que outorgassem às vezes certa relação do Estado como protetor e defensor da "fé verdadeira", foram conhecidos como "Independentes". E finalmente, aqueles que seguiam a visão mais radical dos anabatistas, e rejeitavam qualquer tipo de união ou proteção do Estado, e também rejeitavam o batismo de crianças, e foram conhecidos como Separatistas e, também, "Batistas". É obvio, as linhas de separação entre todos estes nem sempre foram nítidas, pois se tratava de uma época em que muitos procuravam a verdade nas diversas facções cristãs.

 Tanto independentes como os batistas rejeitaram qualquer governo eclesiástico em cima de cada congregação particular de crentes, fora episcopal ou presbiteriano, e por isso foram conhecidos também como "congregacionalistas". Foi através deles que veio a idéia de que cada congregação deve ser considerada como uma igreja autônoma e independente de qualquer governo superior, seja este eclesiástico ou político.

 Na verdade eles viram na Escritura um princípio até então esquecido: que no Novo Testamento cada congregação ou igreja era independente das demais em governo e administração, tendo a Cristo como cabeça, ainda que mantivessem entre elas laços de irmandade e comunhão. Assim, um importante passo na restauração da igreja foi dado naqueles anos pelos assim chamados irmãos Não Conformistas. Não obstante, como veremos em seguida, aqui também estava à origem do moderno denominacionalismo evangélico, com todas as suas inumeráveis e dolorosas divisões.

 Todos estes grupos compartilhavam um ideal de pureza, santidade e espiritualidade, tão individual como congregacional, por cuja causa foram também conhecidos genericamente como "Puritanos". Seu interesse principal foi a existência de uma igreja pura, espiritual, livre de tradições humanas, e originada em congregações livres para seguir ao Senhor conforme à direção de sua Palavra e do seu Espírito. Davam, da mesma maneira, uma ênfase central à pregação da Palavra, mas não realizada de uma maneira formal e convencional, mas inspirada e profética. De fato, muitos deles empregavam a expressão "profetizar", tirada de 1ª Coríntios 14, em lugar de "pregar". E todos eles aderiam fervorosamente às doutrinas reformadas, e, além disso, davam uma grande ênfase na vida e na experiência, ao invés do conhecimento meramente acadêmico e intelectual das mesmas.

 

Igrejas independentes e perseguições

 Existem registros de que existiam em Londres igrejas não conformistas no ano 1555, durante o reinado de Isabel I. Também havia em outras partes da Inglaterra, muitas das quais chegaram a estar mais tarde associadas com os ensinos de Robert Browne.

 Este tinha estudado em Cambridge e se convertido em um puritano favorável à idéia de uma igreja estatal. Mas, por razões desconhecidas, quando tinha ao redor de 30 anos, a sua perspectiva experimentou uma mudança radical. Em 1581, ele e outros amigos estabeleceram uma igreja independente em Norwich. Logo o seu ensino atraiu sobre ele e aquela congregação a perseguição do Estado, pois a dissensão da igreja oficial era proibida e castigada com a prisão ou a morte. Portanto, ele e uma grande parte da congregação fugiram da Inglaterra e se refugiaram na Holanda, que na ocasião tinha se convertido em refúgio de muitos cristãos dissidentes da igreja estatal, chegados de diversas partes da Europa.

 Da Holanda, Browne continuou escrevendo textos que mostrava como a igreja consiste em companhias de crentes unidas através de sua comunhão com Cristo. Cada congregação deve estabelecer os seus próprios ofícios pelos quais deve ser governada (pastores e diáconos), de uma maneira totalmente independente, ainda que estreitamente vinculada com outras congregações por laços espirituais de amor.

 Em 1583, dois homens foram enforcados na Inglaterra por distribuir a sua literatura, enquanto que os seus livros foram queimados. Apesar de tudo Robert Browne retornou para a Inglaterra, onde, depois de ser perseguido e caçado, foi preso. Ali a sua mente e o seu corpo paralisaram afinal por causa do intenso sofrimento que teve que suportar. Aceitou retornar por força à igreja oficial, onde permaneceu até a sua morte no ano 1633.

 Todo tipo de dissensão da igreja oficial foi proibida e perseguida: presbiterianos, e em especial independentes e batistas. Centenas e possivelmente milhares morreram no cárcere devido aos maus tratos, as más condições de vida e as enfermidades que sofreram ali dentro.

 Outras figuras proeminentes entre os independentes foram Barrowe, Greenwood e Penry. Os dois primeiros foram enforcados por sustentar que o único caminho correto para aqueles que não criam que a igreja estatal fosse bíblica, era separar-se dela. E que também se tornava desonroso para um homem aprovar aquilo que não cria, e aceitar inclusive uma posição dentro daquilo e receber, além disso, um pagamento (em referência à igreja estatal). Por outro lado, Penry foi comovido pela condição miserável das pessoas em Gales, e trabalhou infatigavelmente entre eles pregando, e estimulando a outros a fazer o mesmo. Era um homem de caráter santo, amável e compassivo, por isso foi muito estimado entre as pessoas comuns a quem servia. Teve muito êxito na conversão e edificação de numerosos crentes em Gales, Escócia e Inglaterra, dentro de congregações 'independentes'. Mas isto atraiu para si a inveja e a inimizade do clero galês. Capturado finalmente em Londres, foi enforcado pouco depois dos seus companheiros de trabalho. 

A igreja que estes irmãos ajudaram a estabelecer em Londres foi conhecida como "Privye Church". Reuniam-se sobre o princípio de "dois ou três reunidos no nome do Senhor", em diferentes casas, ou ao ar livre. Em 1567 foram surpreendidos enquanto celebravam uma das suas reuniões e quatorze dos seus membros foram encarcerados.

 Em 1592, cinqüenta e seis foram capturados em outra reunião de adoração. Muitos deles passaram longos anos na prisão, encerrados em escuros calabouços, aprisionados com grilhões e cadeias, no mais completo abandono e miséria. Um total de 41 irmãos dentre eles morreram na prisão no transcurso de vários anos de perseguições.

 

A posição da Igreja Oficial

 A defesa oficial da Igreja da Inglaterra foi levada a cabo pelo bispo Richard Hooker, em oposição às colocações não conformistas, em seu livro "Política Eclesiástica". Torna-se ilustrativo conhecer as suas idéias, pois nelas se resumem claramente os principais argumentos daqueles que rejeitam qualquer mudança da ordem neotestamentaria da igreja, e que advogam pela flexibilidade e a acomodação às "circunstâncias históricas" do mesmo.

 Descrevendo as colocações não conformistas diz: "Sem dúvida o primeiro estado das coisas foi o melhor, que no princípio da religião cristã a fé foi mais pura, as Escrituras de Deus melhor entendidas por todos os homens... como conseqüência segui-se por necessidade que os costumes, leis e regulamentos fabricados depois não são boas para a Igreja de Cristo; mas, que o melhor caminho é cortar por completo as invenções posteriores e reduzir as coisas ao antigo estado em que estiveram no princípio".

 E sua resposta a esta posição foi à seguinte: "Assim que ao vincular a Igreja às ordens do tempo dos apóstolos, atam-na a uma regra incrivelmente incerta; eles ordenam que não se observe nenhuma ordem, salvo aquelas que possam ser reconhecidas como apostólicas por meio dos próprios escritos apostólicos... Estou seguro de que o significado destas não é que deveríamos congregar o nosso povo em reuniões secretas e fechadas para servir a Deus; ou que os rios e arroios deveriam ser usados para batizar; ou que a eucaristia (Ceia do Senhor) deveria ser ministrada depois de uma refeição; ou que o costume de que a igreja festeje junta deveria ser renovada; ou que toda classe de provisão econômica estatal para o ministério deveria ser completamente abolida, e a sua situação deveria depender outra vez da devoção voluntária dos homens. Nestas coisas percebemos quão inadequado é no presente o que foi conveniente no início. A fé, o zelo e a piedade dos primeiros tempos são dignas de ser honradas. Mas, isto prova que as ordens da Igreja de Cristo devem ser ainda adaptadas a elas; que então nada pode ser a menos que tenha sido; ou que, desde que estes costumes cessaram, nada posterior é aceitável?".

 Nesse caso, o assunto só podia ser respondido à partir de outra pergunta: As formas do Novo Testamento eram circunstanciais, temporais e produto da contingência, ou expressavam de um modo único e verdadeiro a natureza da Igreja? Uma cuidadosa e independente revisão do Novo Testamento, feita em um espírito de obediência, levou a muitos irmãos a compreender que não se tratava de princípios circunstanciais, mas sim da própria essência da igreja. Por isso, o retornar não só à doutrina do Novo Testamento, mas também aos seus princípios e formas de organização e funcionamento, era vital. A vida tem a sua maneira própria e única de crescer e desenvolver-se, e nenhuma circunstância histórica pode justificar o desenvolvimento de estruturas e instituições extra-bíblicas para contê-la, pois isso significaria, em longo prazo, suprimi-la, tal como a história da Igreja se encarregou de demonstrar várias vezes.

 Certamente, naquele tempo, como sempre acontece nestes casos, havia diferentes graus de luz e muita confusão. Distintos e opostos pontos de vista eram sustentados por irmãos igualmente honestos e sinceros em sua fé. Isto não se pode julgar nem condenar. O que resulta, no entanto, injustificável, é o espírito de ressentimento, intolerância e rancor que acompanhou toda disputa.

 O poder político e a graça divina são basicamente incompatíveis. Quando um e o outro se encontram unidos, a graça, a compaixão e a misericórdia desaparecem, deixando lugar a um espírito implacável e carente de misericórdia. Pois o Estado tem os seus próprios fins, completamente alheios aos fins do evangelho. A igreja sofreu muito ao longo dos séculos devido ao esquecimento, descuido ou rejeição desta verdade.

 Nesta estranha, complexa e, em ocasiões, trágica história da igreja na Inglaterra, encontramos na origem de quase tudo o que hoje conhecemos como cristianismo evangélico, com todas as suas luzes e sombras. Os diferentes graus de associação com o Estado, do compromisso anglicano quase total no que se refere à organização e governo (ainda que não quanto à doutrina); passando pela idéia presbiteriana de um Estado cristão mais flexível, mas possivelmente ainda muito comprometida; até a independência total das igrejas congregacionalistas, com dois possíveis caminhos a seguir: o denominacionalismo evangélico, ou as igrejas neo-testamentarias. O primeiro caminho foi seguido quase invariavelmente pelos crentes independentes que vieram depois daquela época. O segundo deverá esperar por muito tempo mais.

 No entanto, aquele tempo foi testemunha de como muitos irmãos levantaram a chama da restauração no meio de uma grande adversidade e oposição, e se sacrificaram da mesma forma a muitos antes deles, por serem fiéis à igreja delineada nas páginas do Novo Testamento. Neles podemos descobrir o rio secreto do Espírito que fluiu através dos séculos para manter sempre sobre a terra o testemunho de Deus. Mais adiante veremos como esse testemunho irá se tornando cada vez mais explícito. (Continuará).

Irmãos Não Conformistas na Inglaterra

(2ª Parte)

 

As primeiras congregações

 Durante o reinado de Isabel I, toda forma de divergência da Igreja da Inglaterra foi proibida e castigada com o cárcere. Entretanto, no final do seu governo, trocou-se a prisão pelo exílio. Naquele tempo floresceram em Gainsborough e Scrooby duas congregações independentes, sob a condução de John Smyth e John Robinson. Mas foram perseguidos constantemente até que, depois da morte de Isabel e o advento de Tiago I, ambas as congregações se viram obrigadas a fugir massivamente para a Holanda.

 Emigraram juntas em 1607, em uma longa viajem cheia de prisões, e dolorosas separações. E entraram na Holanda separados em pequenos grupos de irmãos, destituídos dos seus bens, casas e direitos civis. Mas ali foram recebidos com compaixão pelas igrejas nativas.

 Na Holanda formaram uma igreja de imigrantes que perseverou unida por um tempo. Não obstante, naquela época as igrejas do país estavam envolvidas em severas disputas doutrinárias. A mais importante dividia amargamente os calvinistas dos arminianos. Logo a congregação se viu afetada pela mesma disputa, ao ponto da separação se fazer inevitável. Smyth foi excluído da comunhão junto com mais quarenta irmãos e formou uma nova congregação. Mais tarde Robinson, que recusava a forma presbiteriana de governo que outros líderes da congregação apoiavam, apartou-se também dela e começou uma nova congregação em Leyden onde continuou com um influente ministério.

 Todas estas dificuldades ilustram o surgimento de uma nova forma de conceber a organização da igreja, cuja influência chega até os nossos dias. Nela foi abandonada a unidade dos crentes em Cristo como terreno comum da igreja (os não conformistas tinham lutado pela unidade visível dos verdadeiros crentes em igrejas independentes do estado) e foi substituída por doutrinas e formas de organizações particulares. De fato, a sua volta a Inglaterra, que sustentava o ponto de vista calvinista formou as assim chamadas igrejas "batistas particulares", enquanto que os de tendência arminiana, estabeleceram as "igrejas batistas gerais". Irmãos que tinham nascido e crescido juntos, agora descobriam que já não podiam continuar juntos devido às suas diferenças doutrinárias. Este foi o embrião do denominacionalismo evangélico com toda a sua série de interminável e dolorosas divisões entre os santos.

 Outro evento de vastas conseqüências surgiu destas igrejas. Muitos irmãos, cansados da perseguição e da falta de liberdade para viver a sua fé, decidiram emigrar para o "Novo Mundo", para formar uma nova nação. A pioneira neste grande movimento puritano foi a congregação de Leyden. Ali se formou o primeiro grupo de exilados que embarcou no Mayflower rumo à América. As iluminadas palavras de despedida que lhes foram dirigidas por John Robinson merecem ser recordadas:

 "Encomendo-lhes diante de Deus e dos seus anjos escolhidos que não me sigam mais do que me viram seguir ao Senhor Jesus Cristo. Se Deus revelar algo por meio de qualquer outro de seus instrumentos, estejam prontos para recebê-lo tal como receberam o que houve de verdade em meu ministério. Porque estou verdadeiramente persuadido de que o Senhor tem ainda mais verdades que extrair de sua Santa Palavra. Da minha parte, não posso lamentar o suficiente a condição daquelas igrejas reformadas que... no presente, não irão além dos instrumentos do seu reformismo. Os luteranos não podem ser convencidos para ir além do que Lutero viu; quaisquer que sejam os aspectos de sua vontade que Deus revelou a Calvino, prefeririam morrer antes do que abraçá-los. E os calvinistas, como podem ver, permanecem firmemente apegados no mesmo lugar onde os deixou aquele grande homem de Deus, e que, entretanto, não viu todas as coisas. Esta é uma lamentável tragédia, porque apesar deles terem brilhantes luz que ardiam em seu tempo, não compreenderam todo o conselho de Deus".

 

Tranqüilidade e perseguições

 Durante longos anos, tanto independentes como batistas foram perseguidos, postos na prisão, mutilados e executados devido a sua rejeição à igreja estatal. Mas, apesar de tudo, o número de suas congregações aumentou. Em 1641, a Câmara dos Lordes da Inglaterra afirmou que existiam perto de oitenta reuniões "sectárias" em Londres e seus arredores.

 A situação melhorou notavelmente para as igrejas não conformistas durante a Guerra Civil, apesar de que o elemento presbiteriano dentre elas conseguiu, com o apoio do Parlamento, traçar as linhas de uma "Nova Igreja", apoiada na organização da igreja presbiteriana escocesa. Esta nova forma, aceita e ratificada pelo Parlamento, quis impor a toda a Inglaterra a suprimir assim toda forma de divergência (tanto de independentes como batistas). Entretanto, o seu empenho não pôde ser realizado, devido, em grande parte, à oposição de Cromwell, o Lorde Protetor. O seu exército era composto por homens de todas as tendências cristãs, que tinham lutado em pés de igualdade, e não estavam dispostos a limitar a liberdade de consciência pelo que tinham lutado. Em uma rápida ação, dissolveram o Parlamento e estabeleceram a República, onde a plena liberdade de consciência foi garantida para todos.

 Naqueles anos de tolerância, um importante esforço por alcançar a unidade entre as diferentes facções não conformistas foi levado a cabo sob os auspícios de Oliver Cromwell, ele próprio um independente. No ano de 1654 reuniu um grupo de teólogos puritanos para delinear o terreno essencial para a unidade evangélica. O que eles procuravam era um "mínimo aceitável" para ter comunhão. Nas inspiradoras palavras de Robert Harris, membro da assembléia de Westminster, pode-se ver muito do espírito que os animava: "Não me aventuro a definir o que é tão simplesmente fundamental e absolutamente necessário, sem o qual não há esperança. Isto é do que estou seguro: Primeiro, os pontos fundamentais são menos numerosos do que muitos, de ambos os lados, pensam que são. Segundo, que nenhum muro de arrimo e nenhuma superestrutura destroem o fundamento". Aqui encontramos um iluminado chamado à comunhão com base no fundamento essencial, que nenhuma divisão posterior deveria destruir. E acrescenta: "Os homens humildes e de coração sincero, apesar de divergir nas opiniões, podem andar juntos, orar juntos e amar-se uns aos outros, e é o que de fato fazem".

 Esta comissão esteve integrada, entre outros, por Richard Baxter e John Owen, ambos notáveis teólogos da história do Puritanismo. As suas conclusões foram redigidas em 16 pontos essenciais e inclusivos, que -pensavam- qualquer crente verdadeiro poderia assinar (não havia alusões a formas de organização, nem tampouco a doutrinas específicas e controversiais). Entretanto, apesar de ter posto um notável esforço na procura de uma unidade real, fracassou, porque para muitos crentes dessa época pesaram mais os interesses particulares e partidaristas. O caminho do denominacionalismo evangélico tinha sido delineado e no futuro os crentes prefeririam reunir-se e caminhar juntos só com aqueles que pensam e compartilham os seus pontos de vistas específicos, em adição ao fundamental.

 Durante toda a regência de Cromwell, as igrejas não conformistas gozaram de uma grande liberdade para reunir-se e pregar o evangelho. Os bispos anglicanos estavam no exílio, e muitos pensaram que o novo estado de coisas era definitivo. Entretanto, não foi assim. A confiança que muitos crentes puseram na ação política para estabelecer as suas idéias religiosas se viu, mais uma vez, defraudada. Após a morte de Cromwell, a velha ordem monárquica foi restaurada, e os bispos exilados retornaram para o seu lugar. Em 1662 foi editada a "Ata de Uniformidade" pela qual todo ministro da Inglaterra devia declarar publicamente diante da sua congregação o seu assentimento ao livro de oração comum da "Igreja da Inglaterra" (que reúne todos os seus ritos e fórmulas), e obter, além disso, a sua ordenação episcopal para seguir exercendo a sua função. Como conseqüência, cerca de 2.000 ministros que recusaram conformar-se à ata foram expulsos das suas congregações.

 A seguir, o governo inglês dispôs severas medidas contra os irmãos dissidentes. Proibiu-lhes exercerem cargos públicos, ocupar posições de autoridade e realizar reuniões com mais de cinco pessoas presentes além de sua família. Aos ministros expulsos foram-lhe proibidos aproximar-se de menos de 10 quilômetros do lugar em que tinham exercido anteriormente o seu ministério. As penas para quem transgredia estas normas eram excepcionalmente severas.

 Estas duras e desiguais condições se mantiveram desde meados do século XVII até parte do século XIX. Entretanto, e apesar de tudo, os irmãos continuaram reunindo-se em secreto, durante aqueles longos anos de perseguição e sofrimentos. Enquanto isso, publicaram uma grande quantidade de literatura e músicas inspiradas. Muitos homens dotados de graça e poder espiritual marcharam entre as suas fileiras: Isaque Watts (1674-1748), um independente, escreveu muitos hinos que são cantados até hoje; John Owen (1616-1683) foi um poderoso expoente dos ensinos dos Irmãos; e, possivelmente o mais conhecido de todos, John Bunyan, quem escreveu um dos livros mais difundidos na história do cristianismo: "O Peregrino".

 

Luzes e sombras

 Torna-se impossível fazer uma avaliação do legado dos Irmãos Não Conformistas da Inglaterra, sem mencionar quanto o moderno movimento evangélico deve a eles em quase todos as suas ramificações e variantes, com todas as suas luzes e sombras.

 Deles, como vimos, veio o conceito de igreja como sinônimo de congregação. Ao revisarem as suas Bíblias compreenderam que a "igreja nacional" (v.gr. igreja da Inglaterra, igreja da Alemanha, etc.) era uma noção sem fundamento escriturístico, pois o uso regular da palavra igreja no Novo Testamento se refere a uma congregação local, composta por crentes regenerados e separados do mundo de maneira visível. Cada congregação ou igreja é, pelo mesmo, independente quanto ao seu funcionamento e administração das demais congregações, com as quais mantém, não obstante, laços de irmandade.

 Este conceito de igreja estava unido a uma forte ênfase na doutrina cristã como base de comunhão. Por doutrina entendiam as verdades escriturísticas que deviam ser expostas à igreja por meio de uma pregação inspirada, direta e profética. Não podia ser simples ortodoxia fria, mas um ensino vivo e experimental. Igualmente, davam uma grande ênfase à função pastoral, cujo centro era a pregação. De fato, foi com eles que surgiu o costume de colocar o púlpito e a Bíblia no lugar central das reuniões, tal como se faz até hoje na maioria das congregações evangélicas.

 Entretanto, com o transcorrer do tempo, esta ênfase na doutrina correta os levou a dividir-se por questões doutrinárias não essenciais em congregações separadas e excludentes, cuja base de comunhão era a ênfase doutrinária específica que precisamente os separavam de outros irmãos (por ex: armianismo vs calvinismo). Com isto foi dado um passo decisivo para a conformação de associações de igrejas em torno de suas doutrinas especiais. Embora como vimos, fossem feitos por parte de seus líderes mais dedicados e espirituais, importantes esforços para manter a unidade dos crentes.

 John Bunyan, ao contemplar entristecido as divisões que em seus dias assolavam os irmãos, escreveu o seguinte: "Posto que vocês quisessem saber por que nome eu gostaria de me distinguir de outros, digo-lhes que eu gostaria de ser, e espero que o seja, um cristão; oxalá Deus me considere digno de ser chamado cristão, um crente, ou qualquer outro aprovado pelo Espírito Santo (Atos. 11:20). Quanto a aqueles títulos facciosos de anabaptistas (batistas), independentes, presbiterianos ou semelhantes, concluo que não vêm de Jerusalém, nem da Antioquia... pois tendem naturalmente às divisões". Recordem que estas palavras pertencem a um escritor amado por todos os santos das épocas posteriores e mesmo sendo um não-conformista, recusava qualquer nome ou título que dividissem os filhos de Deus.

 Diante disso, como resultado desta forte ênfase na doutrina correta, a figura do pastor -como representante e guardião da sã doutrina- se elevou até converter-se no centro das congregações não-conformistas, em detrimento, certamente, dos demais dons e ministérios no corpo de Cristo. De fato, os puritanos desenvolveram a idéia do pastor como o homem especialmente ungido por Deus para conduzir à igreja (entendida como congregação local).

 Entretanto, deve-se reconhecer que, em uma época especialmente dura e complexa, os Irmãos procuraram ajustar-se da melhor forma possível à luz que encontraram na Escritura sobre a igreja, e perseveraram nela até o ponto de sacrificar tudo que possuíam, inclusive as suas vidas. Por isso permanecem na linha de muitos dos quais, antes deles, elevaram a chama do testemunho na busca de ver restaurada a igreja de Cristo sobre a terra, em toda a sua pureza original. Se houve sombras, foi devido às limitações próprias de seu tempo e circunstâncias, e não ao que não procurassem ver e obedecer à Luz com todo o seu coração. Graças a eles e seu valente testemunho a chama brilhou ainda um pouco mais.

fonte revista aguas vivas

fonte  www.avivamentonosul.blogspot.com.br