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liderança cristã P.2
liderança cristã P.2

                                         

                        O que Spurgeon pregaria hoje?

 

E como o público evangélico reagiria às suas contundentes pregações?O PREGADOR INGLÊS CHARLES HADDON SPURGEON NASCEU EM 19 DE JUNHO DE 1834 E COMEÇOU A PREGAR EM 1850. ELE, QUE TEM SIDO CONSIDERADO O PRÍNCIPE DOS PREGADORES E UM APOLOGISTA EXEMPLAR, PREGOU O EVANGELHO E COMBATEU HERESIAS E MODISMOS DE SEU TEMPO ATÉ 1892, QUANDO PARTIU PARA A ETERNIDADE. AS CITAÇÕES ABAIXO DEIXAM-NOS COM A IMPRESSÃO DE QUE ELE SE REFERIA AOS TRABALHOSOS DIAS EM QUE VIVEMOS...

"A APATIA ESTÁ EM TODA PARTE. NINGUÉM SE PREOCUPA EM VERIFICAR SE O QUE ESTÁ SENDO PREGADO É VERDADEIRO OU FALSO. UM SERMÃO É UM SERMÃO, NÃO IMPORTA O ASSUNTO; SÓ QUE, QUANTO MAIS CURTO, MELHOR" ("PREFACE", THE SWORD AND THE TROWEL [1888, VOLUME COMPLETO], P.III).

MEU DEUS, SE NAQUELA ÉPOCA AS COISAS JÁ ESTAVAM ASSIM, O QUE SPURGEON DIRIA HOJE?!

"HAVERIA JESUS DE ASCENDER AO TRONO POR MEIO DA CRUZ, ENQUANTO NÓS ESPERAMOS SER CONDUZIDOS PARA LÁ NOS OMBROS DAS MULTIDÕES, EM MEIO A APLAUSOS? (...) SE VOCÊ NÃO ESTIVER DISPOSTO A CARREGAR A CRUZ DE CRISTO, VOLTE À SUA FAZENDA OU AO SEU NEGÓCIO E TIRE DELES O MÁXIMO QUE PUDER, MAS PERMITA-ME SUSSURRAR EM SEUS OUVIDOS: 'QUE APROVEITA AO HOMEM GANHAR O MUNDO INTEIRO E PERDER A SUA ALMA?'" ("HOLDING FAST THE
FAITH", THE METROPOLITAN TABERNACLE PULPIT, VOL.34 [LONDES, PASSMORE AND ALABASTER, 1888], P.78).

O SERMÃO ACIMA FOI PREGADO EM 5 DE FEVEREIRO DE 1888, QUANDO SPURGEON ESTAVA SENDO CENSURADO POR DEFENDER O EVANGELHO. O QUE ELE FALARIA HOJE DAS PREGAÇÕES ANTROPOCÊNTRICAS, QUE NADA FALAM ACERCA DO SENHOR JESUS E SUA GLORIOSA OBRA VICÁRIA?

"ESTÃO AS IGREJAS VIVENCIANDO UMA CONDIÇÃO SAUDÁVEL AO TEREM APENAS UMA REUNIÃO DE ORAÇÃO POR SEMANA E SEREM POUCOS QUE A FREQUENTAM?" 
("ANOTHER WORD CONCERNING THE DOWN-GRADE", THE SWORD AND THE TROWEL [AGOSTO, 1887], PP.397,398).

INFELIZMENTE, O CHAMADO "LOUVORZÃO" TEM SUBSTITUÍDO O PERÍODO DE ORAÇÃO, EM NOSSOS CULTOS. SPURGEON AINDA FALA!

"O FATO É QUE MUITOS GOSTARIAM DE UNIR IGREJA E PALCO, BARALHO E ORAÇÃO, DANÇAS E ORDENANÇAS. SE NOS ENCONTRAMOS INCAPAZES DE FREAR ESSA ENXURRADA, PODEMOS, AO MENOS, PREVENIR OS HOMENS QUANTO À SUA EXISTÊNCIA E SUPLICAR QUE FUJAM DELA. QUANDO A ANTIGA FÉ DESAPARECE E O ENTUSIASMO PELO EVANGELHO É EXTINTO, NÃO É SURPRESA QUE AS PESSOAS BUSQUEM OUTRAS COISAS QUE LHE TRAGAM SATISFAÇÃO. NA FALTA DE PÃO, SE ALIMENTAM DE CINZAS; REJEITANDO O CAMINHO DO SENHOR, SEGUEM AVIDAMENTE PELO CAMINHO DA TOLICE" ("ANOTHER WORD CONCERNING THE DOWN-GRADE", THE SWORD AND THE TROWEL [AGOSTO, 1887], P.398).

SPURGEON DISSE ISSO EM 1887 MESMO?!

"NÃO HÁ DÚVIDAS DE QUE TODO TIPO DE ENTRETENIMENTO, QUE MANIFESTA GRANDE SEMELHANÇA COM PEÇAS TEATRAIS, TEM SIDO PERMITIDO EM LUGARES DE CULTO, E ESTÁ, NO MOMENTO, EM ALTA ESTIMA. PODEM ESSAS COISAS PROMOVER A SANTIDADE OU NOS AJUDAR NA COMUNHÃO COM DEUS? PODERIAM OS HOMENS, AO SE RETIRAREM DE TAIS EVENTOS, IMPLORAR A DEUS EM FAVOR DA SALVAÇÃO DOS PECADORES E DA SANTIFICAÇÃO DOS CRENTES?" ("RESTO
RATION OF TRUTH AND REVIVAL", THE SWORD AND THE TROWEL [DEZEMBRO, 1887], P.606).
HO
JE, OS SEGUIDORES DA "NOVA ONDA" REVOLTAM-SE CONTRA OS QUE DEFENDEM O EVANGELHO. MAS O QUE DIRIAM ELES DE SPURGEON?



O conselheiro cristão

O ministério do aconselhamento

 

Certa feita, um crente fiel e interessado em elucidar as dúvidas de sua fé, abordou Gregório Nazianzeno com uma pergunta, que levou o teólogo a sugerir-lhe: “Seria bem melhor responder-lhe do púlpito”. Se o admirável doutor da igreja capadócia tinha, de fato, um coração de pastor, por que deixaria de ouvir o balido da ovelha?

Em vez de criticá-lo, coloquemo-nos em seu lugar.

Estaríamos nós, realmente, dispostos a dispensar atenção e tempo a uma única pessoa? Ou transformar-lhe-íamos a pergunta numa tese a ser exposta no principal culto da igreja, buscando, assim, fugir ao estresse de uma entrevista no gabinete pastoral?

Via de regra, preferimos tratar as necessidades humanas de forma coletiva a dispensar-lhes um tratamento individual, diferenciado e específico. Nosso Senhor, porém, insta-nos a agir como Ele agiu: aconselhava tanto coletiva quanto individualmente. Assim deve atuar o conselheiro cristão. Se por um lado ministra os conselhos de Deus da tribuna ao rebanho sempre nédio — onde dificilmente é interpelado — por outro, não teme receber a ovelha ferida em seu gabinete — onde é aparteado exaustivamente.

De qualquer forma, não haverá de fugir ele à sua vocação: é um conselheiro pastoral; para esse mister Deus o chamou.

 

I. O QUE É O CONSELHEIRO PASTORAL

Basta uma leitura de Atos para logo concluirmos: não há cristão que não seja conselheiro. É o que afirma o apóstolo Paulo (Cl 3.16). No mesmo livro, porém, constatamos que o Espírito Santo separa determinadas pessoas, para que se consagrem ao ministério do aconselhamento. Nos momentos de crise, requer-se a pronta intervenção de alguém chamado especificamente a essa tarefa.

Todavia, o que é o conselheiro cristão? É um profissional? Um médico de almas? Ou um ministro do evangelho?

1. Definição etimológica. A palavra conselheiro é oriunda do vocábulo latino consiliariu, e significa “aquele que se assenta no concílio ou assembléia”. Semelhante definição remete-nos às praças e aos palácios da antigüidade, nos quais congregavam-se os sábios para orientar os concidadãos a decidirem entre o certo e o errado. Haja vista o episódio narrado no livro de Rute. No portão de Belém, reuniram-se os anciãos, a fim de ajudar Boaz a obter o direito de ser o resgatador da jovem moabita (Rt 4.1-12).

2. Definição genérica. Conselheiro é aquele que ministra conselhos seja na discrição de um gabinete, seja na efervescência da assembléia do povo. Também é conhecido como conselheiro o ministro encarregado de orientar o chefe de Estado. O pensador cristão Charles Colson, por exemplo, atuou durante vários anos como conselheiro especial do presidente norte-americano Richard Nixon. Em sua autobiografia, narra a tensão e as dificuldades por ele enfrentadas no desempenho de sua função. O conhecimento não lhe era suficiente; a sabedoria era-lhe indispensável; a experiência, imprescindível. Ora, se para aconselhar uma autoridade secular requer-se tamanha responsabilidade, como portar-se ante as demandas da Igreja de Cristo?

3. Definição teológica. O conselheiro pastoral é alguém capacitado pelo Espírito Santo para ajudar as ovelhas de Cristo nos momentos de crise, mostrando-lhes, através da Bíblia Sagrada, a vontade de Deus e as soluções apontadas pela Palavra de Deus.

Ao romancear a biografia de Lucas, a autora canadense Taylor Caldwell cognominou-o de médico de almas e de homens. Por que médico de almas? Desde a sua chamada ao ministério cristão, tornara-se  um especialista em curar as feridas do espírito. Eis por que todos o chamavam de médico amado (Cl 4.14). Se nos empenharmos por seguir-lhe o exemplo, também seremos tidos na conta de médicos de almas. Não foi justamente para isso que nos convocou o Senhor Jesus? Quando os fariseus o censuraram por dedicar-se aos pecadores, respondeu-lhes: “Os sãos não necessitam de médico, mas sim os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores” (Mc 2.17).

Não são apenas os incrédulos que se acham com a alma enferma. Os crentes também enfrentam graves moléstias espirituais, conforme escreve Paulo aos irmãos de Corinto: “... há entre vós muitos fracos e doentes e muitos que dormem” (1 Co 11.30). Que terapia usaremos para restaurá-los? Existe apenas uma terapia realmente eficaz: a ministração da Palavra de Deus através do aconselhamento pastoral, pois nem sempre as pregações públicas são eficientes àquele que requer um tratamento individual e diferenciado. Algumas doenças da alma não podem ser tratadas numa enfermaria coletiva.

    

II. O CONSELHEIRO NO ANTIGO TESTAMENTO

Em Israel, os conselheiros eram bastante requisitados. Até mesmo Salomão, considerado o mais sábio dos homens, tinha-os em elevada estima (1 Rs 12.6). A palavra destes homens, nem sempre idosos, mas necessariamente idôneos, era consignada como a voz de um anjo de Deus (2 Sm 16.23; Ec 4.13). A fim de aconselhar a sua geração, Salomão escreveu dois livros: Provérbios e Eclesiastes.

Se os conselheiros, porém, viessem a desconsiderar a sabedoria de Deus, levariam todo um império à ruína. Haja vista a divisão das tribos de Israel no tempo de Roboão (1 Rs 12.1-15). E o conselho de  Balaão, filho de Peor? Instruído por sua cobiça, Balaque prontamente colocou tropeços diante dos filhos de Israel, incitando-os a se prostituírem e a comerem dos alimentos oferecidos aos ídolos (Ap 2.14).

A função de conselheiro era de tal forma importante em Israel, que o  Messias foi assim descrito: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). A expressão hebraica peleh yohets é particularmente emblemática. Descreve alguém que, por seus atributos divinos, é a fonte de todos os tesouros do conhecimento, segundo a descrição que faz Paulo do Senhor Jesus Cristo: “Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em caridade e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus — Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.2,3).

É por isso que elegemos o Senhor Jesus como o paradigma do conselheiro pastoral. Aliás, não poderia ser doutra forma; ninguém falava e aconselhava como o nosso Salvador.

 

III. O CONSELHEIRO NO NOVO TESTAMENTO

A Igreja de Cristo é a comunidade conselheira por excelência. Na Grande Comissão, ela recebe tal incumbência do próprio Cristo: “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém!” (Mt 28.19,20).

Enfocando tão importante faceta da Igreja, ponderou Fred Catherwood: “A Igreja deve ser uma comunidade de estímulo”. Nesse sentido, que ela se poste como um hospital de almas, cujos médicos acham-se em permanente plantão para socorrer as ovelhas do Cristo. De João Batista a João, o Teólogo, o conselho marca indelével e inconfundivelmente o Novo Testamento.

1. João Batista. Ao preparar o caminho do Senhor, João Batista santificou-se a aconselhar os filhos de Israel, pois só assim haveriam eles de alcançar o ideal que lhes traçara o Senhor na Lei de Moisés e nos Profetas.

Certa vez, João foi procurado por uns publicanos e soldados que buscavam uns conselhos práticos para o seu dia a dia. Refletindo a justiça profética, assim o Precursor do Messias exortou-os: “Não peçais mais do que aquilo que vos está ordenado. A ninguém trateis mal, nem defraudeis e contentai-vos com o vosso soldo” (Lc 3.13,14). Ao censurar Herodes, veio a perder a vida (Mt 14.1-12). Seus conselhos, todavia, não puderam ser calados; continuam a ecoar, mostrando-nos ser a ética e a justiça o caminho trilhado pelos que temem a Deus.

2. Jesus Cristo. Jesus é o eterno, maravilhoso e infalível conselheiro. Ele aconselha-nos através de seus sermões, por meio de suas parábolas, através de seus pronunciamentos, mediante suas profecias; valendo-se de sua própria vida, serve-nos de perfeitíssimo conselho.

No Sermão da Montanha, admoesta-nos a viver segundo a lei do amor. Nas parábolas, exorta-nos a agir de acordo com o padrão divino, comparando as coisas do céu com as da terra. E, em suas profecias, insta-nos a proceder de conformidade com a vida futura. Ele não se atinha apenas à vida no céu. Sabendo quão estressante é o nosso cotidiano, deixou-nos uma série de princípios, visando aliviar-nos da pressão do cotidiano. Seus conselhos e métodos continuam tão atuais, hoje, quanto há dois mil anos.

3. Apóstolos. Através dos conselhos que diariamente ministravam, os apóstolos fizeram da Igreja Cristã uma comunidade orientadora. A eloqüência de Pedro não era medida somente pelos discursos; mediam-na, também, pelos consolos que o galileu ia dispensando às ovelhas de Cristo.

Tiago, o enérgico pastor de Jerusalém, não era conhecido apenas pelo rigor com que tratava as coisas de Deus; conheciam-no, de igual modo, por sua palavra oportuna e conciliadora. E Paulo? Não era ele o grande doutor dos gentios? Apresentava-se, igualmente, como o orientador da gente simples quer entre os judeus, quer entre os gregos e romanos. Já no Apocalipse, deparamo-nos com João; se por um lado descerra ele os mistérios do futuro, por outro, mostra o amor e o desvelo de Cristo no presente de suas ovelhas.

Sendo a Igreja de Cristo uma comunidade aconselhadora, somos instruídos a buscar conselhos e a ministrá-los sempre que necessário. Assim, todos somos edificados em amor: “Pelo que exortai-vos uns aos outros e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis” (1Ts 5.11). Nessa passagem, o apóstolo destaca que o conselho, verdadeiramente espiritual e amoroso, gera edificação. É o conselheiro, por conseguinte, um edificador de caracteres, de corações e de almas.   

 

IV. O CONSELHEIRO NA HISTÓRIA DA IGREJA

Por que os primeiros teólogos do cristianismo eram conhecidos como pais da igreja? Por haverem sistematizado a doutrina? Por terem construído uma irretorquível dogmática? Ou por se destacarem por uma invulgar eloqüência? Não resta dúvida de que todos eles eram consumados doutores nas Sagradas Escrituras; pontificavam tanto escrevendo quando falando. Todavia, foram assim cognominados por apresentarem, através do amor, todos os conselhos de Deus às ovelhas de Cristo.

Além de seu labor teológico, Orígenes punha-se a instruir o rebanho do Senhor; compreendia que aconselhar era também fazer teologia. Ambrósio, além dos hinos e instruções doutrinárias, entregava-se à edificação dos conversos. E, assim, edificou o caráter de Agostinho. E este não se limitava a escrever obras como a admirável Cidade de Deus; santificava-se a ensinar os que para lá se dirigiam.

E João Crisóstomo? Por que era tido como a boca de ouro do Cristianismo? Se por um lado sobressaía-se, no púlpito, a defender as grandes verdades das Sagradas Escrituras; por outro, no recôndito de seu ministério, onde somente Deus podia contemplá-lo, elaborava solidários conselhos a ouvidos relegados ao abandono.

Martinho Lutero não era um herói apenas diante dos que oprimiam a Igreja de Cristo. No silêncio de seu ofício, era um titã na obra do catecumenato.

O que diremos de Calvino? O autor das Institutas da Religião Cristã mostrou, desde o início de sua obra, um redobrado zelo com o aconselhamento pastoral. E, dispensando um zelo incomum pelas almas que sequer podiam discernir a mão direita da esquerda, ele transformou a cidade suíça de Genebra numa metrópole exemplar;  depois de quinhentos de anos de reforma, esta ainda exubera civilização e cultura.

No século XVIII, quando a Reforma Protestante perdia terreno na Inglaterra, Deus levanta um homem que, além das lides acadêmicas, muito se dedicou ao aconselhamento pastoral. Contam seus biógrafos que John Wesley montava em seu cavalo e, com a determinação de um cruzado, saía a confirmar as ovelhas do Senhor. Era um trabalho difícil, penoso e sacrifical. Seus conselhos, entretanto, frutificaram toda uma geração.

Os grandes teólogos americanos jamais deixaram de lado o ministério do aconselhamento. Jonathan Edwards e Charles Finney, além de erigirem grandes monumentos à doutrina cristã, legaram-nos um exemplo singular de como os pastores devem proceder. Ao contrário dos acadêmicos que, encerrando-se em suas clausuras, se esquecem da teologia prática, eles colocavam na prática o que a verdadeira teologia recomenda: o amor às ovelhas de nosso Senhor Jesus Cristo.

 

V. O CONSELHEIRO NA ATUALIDADE

Infelizmente, o aconselhamento pastoral, a partir do século XX, foi tomado por um psicologismo doentio, irresponsável e antibíblico. Recorrendo à falsa psicologia, alguns pastores intentaram resolver o problema de suas ovelhas, utilizando-se das técnicas de Sigmund Freud e Carl Jung. Destes, alguns se fizeram subservientes. Em vez do gabinete pastoral, o consultório. Em vez da ministração dos meios da graça, o divã. Em lugar da obra regeneradora do Espírito Santo, a hipnose. Substituindo a Palavra de Deus, os compêndios desses sábios que, hoje, já começam a ser seriamente questionados pela mesma comunidade acadêmica que um dia os aplaudiu.

Insurgiram-se contra o psicologismo no aconselhamento pastoral dois teólogos bastante conceituados nos Estados Unidos: Jay Adams e John MacArtur Jr. Ambos são de opinião (e com eles concordo plenamente) que a psicologia secular, tendo em vista seus fundamentos humanistas e anticristãos, jamais poderá adequar-se às necessidades do verdadeiro aconselhamento bíblico, pois este tem como alicerce: 1) a soberania da Bíblia Sagrada; 2) a regeneração em Cristo; 3) o amor a Deus e ao próximo; 4) o andar segundo a vontade de Deus; 5) a responsabilidade pessoal; 6) o pecado como a causa de todos os males que atormentam o ser humano; e 7) a existência das penalidades eternas.

 

CONCLUSÃO

Quem não se entusiasma em ouvir os chamados pregadores de multidões? Esses abençoados servos de Deus vêm divulgando massivamente o evangelho de Cristo, mostrando ser a mensagem da cruz simplesmente irresistível.

No entanto, quem haverá de observar o conselheiro pastoral que, no anonimato de seu gabinete, reconstrói vidas que, mais adiante, reconstruirão outras vidas? Tenho certeza de que Billy Grahan tornou-se uma personalidade pública porque alguém, em particular, falou-lhe dos mistérios de Deus.

Conselheiro, o seu ministério é mui importante. Sem ele, eu não estaria  escrevendo este livro, nem incentivando-o a prosseguir num mister tão glorioso.

 

 

 

 

O conselheiro cristão (parte II)

As qualificações do conselheiro

 

Quando trabalhava na Imprensa Metodista, na outrora pequena e encantadora São Bernardo do Campo, pus-me a ler, certa vez, alguns trechos do Diário de Wesley. De início, não encontrei um teólogo; deparei-me logo com um admirável condutor de almas. Naquele cavalheiro inglês, destacava-se o amor daquele que se desfizera em desígnios para reconduzir-nos a Deus; era um amor provado e sacrificial.

Em suas visitas pastorais pela Inglaterra do século XVIII, onde o sofrimento humano era grande, aprumava-se Wesley em seu cavalo e, internando-se por aqueles sombrios condados, punha-se a confirmar as ovelhas do Cristo. Nesta casa, deixava um consolo; naquela, administrava uma exortação; mais além, aplicava uma admoestação paterna; edificantes e amorosas palavras semeadas num campo já exausto de esterilidades.

Naquele cavalariano solitário, reuniam-se as qualificações todas de um conselheiro comprovadamente bíblico. Sabia ele que a saúde do rebanho de Cristo somente seria possível se cada uma de suas ovelhas viesse a receber todo o bálsamo que nos proporciona a Palavra de Deus.

Se neste ministério quisermos ter êxito, cultivemos, diuturnamente, as qualificações que tornam o ministro um autêntico conselheiro. Caso contrário, as almas que nos foram confiadas pelo Sumo Pastor jamais terão saúde espiritual.

 

I. VOCAÇÃO ESPECÍFICA

Afirmou Samuel Johnson que “a maioria dos homens possui fortíssimo e ativo preconceito em favor da sua própria vocação”. O que escreveu Johnson cumpre-se na vida de muitos obreiros de Cristo. À semelhança de Gregório Nazianzeno, preferimos sempre a tribuna, mesmo que a circunstância nos reclame a privacidade do gabinete. Queremos ser pastores do rebanho, mas não da ovelha solitária e sofrida.

Como agia o Maravilhoso Conselheiro?

Se num momento pronunciava à multidão sequiosa o Sermão do Monte, no outro, ei-lo a receber o confuso Nicodemos. Se agora acha-se a discursar no átrio do Santo Templo, daqui a pouco estará instruindo a mulher pecadora. E se logo mais ocupará a tribuna de alguma sinagoga para discorrer acerca das profecias messiânicas, depois, certamente, haverá de se recolher com algum publicano para falar-lhe dos mistérios do Reino de Deus.

Com o Maravilhoso Conselheiro, aprendamos este princípio básico: Se aspiramos ao episcopado, aspiremos também ao ministério do aconselhamento. Pois todo pastor é um conselheiro, apesar de nem todo conselheiro ser pastor. Há  cristãos que, embora não hajam sido chamados ao pastoreio, sentem-se vocacionados a administrar os conselhos de Deus.

Doutor dos gentios e mestre consumado das Sagradas Escrituras, sabia Paulo que uma de suas missões era, justamente, o aconselhamento. Aos presbíteros de Éfeso, protestou: “Nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus” (At 20.27). Aliás, era o apóstolo um conselheiro que gerava conselheiros. Na Macedônia, aconselhara Priscila, que aconselhou o esposo Áquila. E já devidamente fundamentados na fé cristã, vão ambos aconselhar o impetuoso e eloqüente Apolo: “E chegou a Éfeso um certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, varão eloqüente e poderoso nas Escrituras. Este era instruído no caminho do Senhor; e, fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João. Ele começou a falar ousadamente na sinagoga. Quando o ouviram Priscila e Áqüila, o levaram consigo e lhe declararam mais pontualmente o caminho de Deus” (At 18.24-26).

Eram Priscila e Áquila ministros formalmente reconhecidos pela comunidade cristã? O que sabemos é que, chamados a ministrar conselhos, foram imprescindíveis na formação de um jovem que seria contado entre os campeões de Deus.

 

II. PREDISPOSIÇÃO PARA AMAR SACRIFICIALMENTE

Ao longo de minha vida, encontrei pessoas que — investindo em mim não somente o seu tempo, mas o próprio coração — aconselharam-me nas crises e souberam como orientar-me nos dilemas e tormentas. Minha mãe  lia-me, todas as noites, os Provérbios de Salomão. Com uma simplicidade que beirava a singeleza, mostrava-me que o êxito na vida não é um simples acaso; é o resultado de uma existência comprometida com Deus. Passados já todos estes anos, aquelas dissertações ainda me norteiam, apontando-me o rumo a seguir.

Nem todos os conselhos de meu pai eram serenos. Às vezes, impunha-me ele dura disciplina, dissuadindo-me a não seguir caminhos tortuosos. Se naquele momento o castigo parecia pesado, nos instantes de crise nem castigo parecia; era uma instrução sem palavras que, agora, ia traduzindo-se em amorosas prevenções. Muito aprendi com aquele homem que, prematuramente, foi recolhido pelo Senhor. Houvesse-lhe eu  seguido todos os conselhos, certamente meus êxitos teriam sido bem maiores.

Até o dia de hoje, procuro minha mãe para buscar aquele conselho natural e espontâneo, mas eficaz. Um conselho desprovido de academicismos, porém carregado de sabedoria; um conselho sem retórica, entretanto eloqüentíssimo; um conselho sem a tecnicidade de uma psicanálise, todavia capaz de me ler o coração e decifrar-me os enigmas da alma; um conselho gratuito, no entanto amorosamente inestimável.

Se você almeja aperfeiçoar-se no ministério do aconselhamento, ame como o Senhor amou. O amoroso conselheiro não se limita a aconselhar; dá-se ele em prudências e encorajamentos. Não se enfada em ouvir agruras alheias; toma-as para si. Não se perturba com as lágrimas; ternamente as chora. Não alimenta falsas expectativas; aviva as esperanças mesmo onde não há esperança alguma para reavivar. Não analisa o aconselhado como se fora este uma cobaia; sintetiza o bálsamo da fé e ministra-o ao enfermo. O amoroso conselheiro ama em conselhos e em conselhos entrega-se às ovelhas de Cristo, pois amando-nos Ele com um amor eterno, fez de seu apostolado um ministério de aconselhamento. Do início ao fim de seu sacerdócio terreno, sacrificialmente aconselhou aqueles a quem Deus tanto ama.

   

III. CONHECIMENTO BÍBLICO E TEOLÓGICO

Num momento bastante confuso de minha adolescência, fui procurar o maestro Walter de Morais que, naquela época, regia a orquestra da Assembléia de Deus em São Bernardo do Campo. Diante de minhas angústias, aquele homem calmo e sem pressa pôs-se a aconselhar-me como se visse ali, bem à sua frente, um jovem que, sequer, sabia ler o interlúdio da vontade de Deus. No compasso certo, respeitando os acidentes e pausas de uma vida ainda sem harmonia, ia o irmão Walter ajudando-me a solfejar aquele drama numa clave de sol, até que os raios da Palavra de Deus vieram a espargir-me a alma. Com a batuta de quem sabe conduzir os mais diversos instrumentos, ensinou-me ele a andar no ritmo que o Senhor Jesus prescreve aos seus filhos.

Qual o segredo daquele conselheiro? Era um teólogo profundo e prático.

Hoje, infelizmente, valoriza-se muito mais a psicologia humanista do que a teologia. E nem por isso os problemas emocionais entre os crentes diminuíram. Não pense você que estou abrindo uma guerra contra os psicólogos cristãos; reconheço o seu labor e o seu esforço como auxiliares no aconselhamento; alguns problemas lhes reclamam a intervenção. Não podemos esquecer-nos, todavia, de que, nesse ministério, a Bíblia Sagrada é imprescindível como imprescindível é o conhecimento das doutrinas cristãs. 

 

IV. EXPERIÊNCIAS RELEVANTES

Jesus era um homem de dores e que sabia o que era padecer. Com as nossas angustias, amargurou-se Ele; com os nossos sofrimentos, foi a sua alma profundamente lacerada. Ao descrever-lhe a paixão, profetiza Isaías que os homens haveriam de esconder o rosto de nosso Senhor, pois a sua face, embora divina, humanamente desfigurara-se. Todo esse sofrimento, porém, proporcionou-lhe as necessárias condições para que fosse reconhecido como o Maravilhoso Conselheiro.

Como Deus, não carecia o Senhor de experiências humanas para aconselhar os homens. No entanto, como homem, mostrou sua divindade pelas experiências que teve de nossa humanidade. Demonstra-nos isso que o conselheiro pastoral, para ter êxito em seu ministério, necessita de conhecimentos práticos e relevantes. Doutra forma, ser-lhe-ão insuficientes as teorias; não poderá confirmar e fortalecer as ovelhas de Cristo.

Vejamos as indispensáveis experiências no ministério do aconselhamento.

1. A experiência com Deus. O verdadeiro teólogo não pode ser um mero teórico; ele é, acima de tudo, um homem que conhece a Deus de modo experimental. E se experimentalmente conhece a Deus, não haverá de ignorar a alma humana, pois esta carrega em si a imagem e semelhança do Criador. É exatamente aí que reside o requisito básico de um conselheiro pastoral. Mas em que consiste, exatamente, essa experiência com Deus?

Se o psicólogo humanista presume cuidar da mente humana, prescindindo de sua experiência com Deus, o mesmo não acontece com o conselheiro cristão. O primeiro imagina ser a ciência a resposta para todos os dramas humanos; o segundo está convicto de que somente Deus é capaz de nos preencher o vazio da alma.

Por conseguinte, é imprescindível que o conselheiro conheça experimentalmente a Cristo. Doutra forma, não será cristão nem conselheiro. Haja vista Nicodemos. Embora mestre e orientador espiritual em Israel, ignorava que, sem a genuína conversão, jamais poderia ensinar os judeus. Por isso exorta-o Cristo com uma pergunta intrigante: “Tu és mestre de Israel e não sabes isso?” (Jo 3.10). Não era Nicodemos uma perfeita figura dos psicólogos seculares que, apesar de seus esforços, buscam curar as feridas de seus clientes, sendo que eles mesmos são pacientes em estado terminal?

2. Experiência de vida. A experiência de vida é a soma de todos os conhecimentos, vividos ou presenciados, que nos habilitam a agir de forma sábia e piedosa diante de Deus e dos homens. Ela é imprescindível ao conselheiro pastoral, pois não lhe basta a vocação; aliada a esta acha-se a experiência.

Dirigindo-se aos coríntios, Paulo evoca-lhes os sofrimentos e angústias da vida cristã. Se por um lado as angústias e sofrimentos trazem-nos desconfortos, por outro, proporcionam aos atribulados um bálsamo de indescritível poder curador. Ouçamos o apóstolo:

 

"Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados de Deus. Porque, como as aflições de Cristo são abundantes em nós, assim também a nossa consolação sobeja por meio de Cristo. Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; ou, se somos consolados, para vossa consolação é, a qual se opera, suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos. E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” (2 Co 1.3-7).

 

É por isso que o neófito não pode ingressar no ministério cristão. Não lhe discutimos a conversão nem a chamada; questionamos-lhe, entretanto, o tempo de  investidura num cargo que requer experiências, que demanda vivência com as dores alheias, que reivindica uma parecença com aquele Homem de dores e que sabia o que era padecer.

A experiência não pressupõe necessariamente madureza biológica. Há velhos inexperientes como há jovens experimentados e sábios. Em Eclesiastes, afirmou Salomão: “Melhor é o jovem pobre e sábio do que o rei velho e insensato, que se não deixa mais admoestar” (Ec 4.13). O legítimo conselheiro, pois, é o que, antes de aconselhar, busca o conselho na Palavra de Deus e com os que lhe são mais sábios e experimentados. Sua pobreza material não lhe desmerece a riqueza do saber. Não é rei, mas a sua palavra impera nos momentos difíceis daqueles que lhe buscam orientação.

O pastor de minha infância não tinha ainda trinta anos quando foi convocado  para integrar o Conselho de Doutrina da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Entre os mais velhos, portava-se ele como discípulo, ainda que pudesse erguer-se como mestre. Foi assim que o pastor Roberto Montanheiro firmou-se como um grande pastor de almas; estava o conselho divino permanentemente em seus lábios. Se por um lado buscava conselho, por outro, ministrava-o alegremente, abrindo a Bíblia Sagrada que, sublinhada de várias cores, mais parecia o arco de Deus numa permanente aliança com o seu povo.

 

V. HUMILDADE

Por seus contemporâneos, era Sócrates tido como o maior dos conselheiros. Ao contrário dos sofistas, que se interessavam apenas por fama, riqueza e poder, punha-se o filósofo grego a discutir com os seus interlocutores até que estes reconhecem a sua ignorância. Ele, porém, não se considerava sábio. Modéstia? Hipocrisia? Ou apenas o reconhecimento de alguém que, diante da vastidão da alma humana, é obrigado a admitir a própria insignificância?

Conta-se que, certa feita, chamaram Pitágoras de sábio. O pensador, entretanto, diante de um tão elevado epíteto, respondeu: “Não sou um sábio; sou apenas um amigo da sabedoria”. Em termos mais específicos: “Não sou um sofos; sou apenas um filosofo”.

Se algum conhecimento temos, de Deus o recebemos. Do Senhor, e somente dEle, vêm-nos a iluminação: Ele é o Pai das luzes (Tg 1.17). Confessemos, pois, nossas limitações como o fez Daniel diante do rei da Babilônia: “E a mim me foi revelado este segredo, não porque haja em mim mais sabedoria do que em todos os viventes, mas para que a interpretação se fizesse saber ao rei e para que entendesses os pensamentos do teu coração” (Dn 2.30). Não era Daniel o mais sábio conselheiro de Nabucodonosor? Não tinha ele conhecimentos e dons sobrenaturais? Todavia, reafirma a sua completa dependência de Deus.

No ministério do aconselhamento, deparamo-nos com situações tão  difíceis e enigmáticas que, diante destas, nos faltam palavras. À semelhança de Eliseu, vemo-nos constrangidos a confessar: “Que te hei de eu fazer?” (2 Rs 4.2). Naquele momento, não sabia o profeta como resolver o problema da pobre e endividada viúva que estava prestes a perder ambos os filhos a um credor incompassivo. Todavia, Deus lhe ilumina a mente e com a iluminação nasce o milagre.

Nem sempre receberemos a iluminação no desempenho do aconselhamento pastoral. Nessas horas, tranqüilizemos o nosso consulente: apesar de não termos condições de ajudá-lo, iremos orar e aconselhar-nos com outros colegas, a fim de termos uma imagem mais definida do problema. O bom conselheiro, quando necessário, busca conselho para ajudar aos que lho pedem. O reconhecimento de nossas limitações não haverá de nos desmerecer diante das ovelhas. Pelo contrário! Devotar-nos-ão maior respeito; sabem elas que, como homens de Deus, jamais iremos agir leviana e afoitamente.  

 

CONCLUSÃO

O que faz o conselheiro não é a erudição, é a sabedoria espiritual; não é a eloqüência, é a palavra ungida; não é o domínio das línguas originais, é o controle da própria língua e a discrição no falar; não é o brilho da personalidade, é o caráter provado e íntegro. Sem a integridade de caráter, o conselheiro bíblico inexiste.

Tem você essas qualificações? Sente-se habilitado a desempenhar semelhante tarefa? Se você foi, realmente, chamado para ser um conselheiro pastoral, busque aperfeiçoar-se neste ministério. Ore. Consagre-se. Leia a Bíblia Sagrada. Estude as doutrinas bíblicas. Medite. Procure entender o seu semelhante. Acima de tudo, ame; ame sacrificialmente. Interceda por aqueles que buscam não somente o seu conselho, mas um arrimo nos momentos de provações e amarguras.

Você não foi chamado para ser um profissional do aconselhamento. Chamou-o Deus, a fim de que você atue como um ministro do conselho e da palavra da sabedoria.  

 

Obs.: Para outras informações sobre o ministério do aconselhamento pastoral, leia o Manual do Conselheiro Cristão da CPAD.

 

 

 

O conselheiro cristão (parte 3)

A vida espiritual do conselheiro cristão

 

INTRODUÇÃO

Antes de seu real encontro com o Senhor Jesus, experimentou Martinho Lutero uma profunda crise espiritual. Assaltado por dúvidas, acometido por uma forte convicção de pecado e já antevendo as penalidades eternas, fechou-se em sua cela. E, ali, passou a penitenciar-se. Açoitava-se e oprimia-se. Sentindo a miséria de uma crença baseada em tradições e viciada pela Escolástica, restava-lhe apenas uma expectativa terrível de juízo. Foi nesse momento que Lutero buscou os conselhos de um piedoso monge.

Diante da visão daquele jovem trancado em si mesmo e fustigado pelo terror do inferno, Staupitz aconselhou-o a procurar a justificação através dos méritos de Jesus Cristo. Já fortalecido por tão imprescindível verdade, Lutero saiu a reformar a Igreja. E, assim, no dia 31 de outubro de 1517, fixa as Noventa e Cinco Teses nas portas da Catedral de Wittemberg, deflagrando um movimento, que, em breve, haveria de mudar a configuração espiritual, política e cultural da Europa.

Jamais poderemos esquecer-nos da influência de Stauptz no ministério de Lutero. Se este foi um gigante na vida espiritual, aquele fora um titã na carreira cristã, pois soube como encaminhar um jovem confuso até que este, alcançando a maturidade, viesse a destacar-se como o maior homem de seu tempo.

Mas, para que venhamos a aconselhar corretamente é urgente que cultivemos a nossa espiritualidade. Desde já, comecemos por ler a Bíblia Sagrada de maneira devocional, sistemática e ordenada.

 

I. A LEITURA DA BÍBLIA

No desempenho do ministério cristão, somos tentados a ler a Bíblia com os olhos do erudito e com a mente do exegeta. Todavia, temos de encaminhar-nos às Sagradas Escrituras com a alma do peregrino que, orando e chorando, vai ao encalço do Grande Rei. Martin Anstey exorta-nos a aproximar-nos dos profetas e apóstolos de forma submissa e profundamente consternada: “A qualificação mais importante exigida do leitor da Bíblia não é a erudição, mas, sim, a rendição; não é a perícia, mas a disposição de ser guiado pelo Espírito Santo”. Isto não significa, porém, que devamos desprezar as ciências bíblicas. Que a nossa leitura prioritária, no entanto, seja a devocional.

1. A leitura devocional da Bíblia. Ao cantar as belezas e as infinitudes da Palavra de Deus, o salmista humildemente confessa: “Oh! Quanto amo a tua lei! É a minha meditação em todo o dia!” (Sl 119.97). Se o livro de texto do conselheiro é, de fato, a Bíblia, como poderá ele exercer o seu ministério se com o Livro de Deus não tiver a necessária intimidade? Diante das urgências cotidianas de suas ovelhas, o conselheiro haverá de se privar diariamente com as Sagradas Escrituras.

Que ele, por conseguinte, consagre as primeiras horas de seu dia a ler, meditar e inteirar-se das promessas da Bíblia. Você a lê e nela medita todos os dias? Ou somente a abre para esboçar mensagens e sermões? Considere a exortação de Oswald Chambers: “Cuidado com a racionalização da Palavra de Deus”. A heresia começa quando o teólogo, deixando a devocionalidade das Escrituras, põe-se a racionalizá-las como se elas fossem obrigadas a conformar-se com a lógica meramente humana.

2. Pesquisa e erudição bíblicas. Se você consegue ler a Bíblia todos os dias de forma devocional, já se encontra preparado para pesquisá-la exegética e eruditamente. Aliás, os maiores teólogos foram homens de comprovada piedade. Haja vista João Calvino. Lendo-lhe as Institutas da Religião Cristã, deparamo-nos, em primeiro lugar, com alguém que se curvava de contínuo diante do Senhor Jesus; somente, então, aparece o erudito.

Infelizmente, nem sempre a pesquisa das Sagradas Escrituras conduz o homem à piedade. A história de Renan o comprova. O cético francês empreendeu uma árdua viagem pelo Médio Oriente, tendo em mira um único objetivo: desmistificar o Cristo de Deus. Embora conhecesse intelectualmente a Bíblia, desta nada conhecia espiritualmente. Em sua busca pelo Jesus histórico, acabou por perder o Jesus da história da salvação. Como pôde este erudito conhecer tanto a Palavra de Deus e ser, por Deus, tão desconhecido?

Como você pesquisa a Bíblia? Submisso a ela? Ou racionalizando seus ensinamentos? Mesmo na pesquisa não haveremos de prescindir da piedade que, conforme enfatizou Paulo, em tudo é proveitosa. Seja um erudito. Entretanto, não se esqueça: a sua erudição tem de ser consagrada inteiramente ao Senhor Jesus.

O conselheiro bíblico não pode, sob hipótese alguma, prescindir da leitura da Bíblia, porque, no desempenho de sua tarefa, haverá de buscar conselho na fonte de todos os conselhos: as Sagradas Escrituras. Em seu último sermão à Igreja em Éfeso, afirma o apóstolo Paulo: “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos; porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus” (At 20.26,27).

Este é o nosso compromisso: ministrar à Igreja de Cristo todo o conselho divino. Doutra forma, jamais seremos tidos como conselheiros realmente bíblicos e relevantes. Sempre que se defrontar com uma situação difícil, volte-se às Escrituras; estas o ajudarão a confirmar as ovelhas do Senhor. Você constatará que a Palavra de Deus é uma fonte inexaurível de conselhos.

  

II. A ORAÇÃO

Pode haver algo mais doce que a oração? É o refúgio onde se esconde o peregrino em sua jornada à Cidade de Deus. Experimente orar pela madrugada quando o silêncio cobre a noite e abafa a agitação de um dia que não mais voltará. Ao descrever a jornada do Cristão, o escritor inglês John Bunyan descreve-o como alguém que, tendo na mão um livro, vai orando e chorando em direção à Nova Jerusalém.

Nas Sagradas Escrituras, os conselheiros tiveram uma vida de oração e intercessões amorosamente sacrificiais. Abraão, Moisés, Samuel e Jeremias não se agastavam pedindo coisa alguma para si; desgastavam-se rogando a Deus que tivesse misericórdia daqueles que, muitas vezes, rejeitavam-lhes os conselhos.

1. Abraão. O patriarca intercedeu por duas das mais pecadoras e impenitentes cidades de todos os tempos. Oraria você por Sodoma? Rogaria por Gomorra? Ele bem sabia que ambas mereciam apenas uma coisa: a pena máxima. Porém, naquele momento teve a máxima pena daqueles homens e mulheres que, estragados pelo pecado, eram incapazes de diferençar sua destra da sinistra.

O capítulo 18 de Gênesis é, sem dúvida, a passagem clássica da intercessão.

Portanto, mesmo que não haja mais esperança, intercedamos pelos que caminham em direção ao inferno. Se fomos chamados a aconselhar, também fomos convocados a interceder, inclusive por aqueles que nos ignoram as advertências.

2. Moisés. O legislador dos hebreus aconselhou o povo até consumir-se no Sinai. Do nascer ao pôr do sol, punha-se à disposição do povo para aconselhá-lo, estressando tanto a si próprio quanto à congregação. Continuasse daquele jeito, acabaria por comprometer a qualidade de seus conselhos. Não é o que estamos a constatar em nosso ministério? Se até aquele momento, aconselhava, teria agora de ser aconselhado. Sugere-lhe, então, Jetro, seu paciente e observador sogro, a escolher varões de comprovada reputação e sabedoria para ajudá-lo naquele mister.

Em Israel, muitos podiam aconselhar como Moisés aconselhava; mas ninguém seria capaz de interceder como intercedia Moisés.

Pecando os israelitas, o conselheiro dá lugar ao intercessor. E, pondo-se já entre Deus e o povo, roga e arrisca-se por este. Num dado momento, ante a expectativa de o Senhor destruir a semente de Abraão, insta-lhe: “Agora, pois, perdoa o seu pecado; se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32.32). Foi a mais ousada intercessão da História Sagrada. E como era um homem que conversava face a face com o Senhor, sua intercessão ultrapassou os limites da coragem e do amor.

Como intercede você em favor daqueles que lhe procuram os conselhos de Deus? Limita-se a dar-lhos? Ou coloca-se no ilimitado terreno da intercessão onde nenhuma lágrima é demasiada e nenhum soluço é o bastante. Seja amoroso nos conselhos; na intercessão, ousado.

3. Samuel. Num momento em que Jeremias clamava em favor dos filhos de Judá, que, já adiantados em rebeliões e apostasias, não mais reconheciam a voz profética, responde o Senhor ao seu mensageiro: “Ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, não seria a minha alma com este povo; lança-os de diante da minha face, e saiam” (Jr 15.1). Moisés e Samuel! Eis os dois maiores intercessores do Antigo Testamento. Colocou-os Deus na História Sagrada, a fim de que mostrassem, aos santos de todas as épocas, o valor de uma intercessão realmente amorosa.

Samuel era um intercessor tão cônscio de suas obrigações que supunha estar pecando caso não rogasse a Deus por seu povo: “E, quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós; antes, vos ensinarei o caminho bom e direito” (1Sm 12.23). Apresenta-se, pois, o profeta não apenas como intercessor, mas também como conselheiro do povo hebreu. O que nos mostra esta passagem? Como conselheiros, não nos restrinjamos ao gabinete; vamos além: avancemos sobre o altar da oração onde, diuturnamente, estaremos a rogar pelos que nos procuram uma palavra de orientação. Conselho sem oração pouco efeito tem; acompanhado de intercessões e súplicas, opera maravilhas, mesmo restringindo-se a uma única palavra.

4. Jeremias. Nenhum profeta sofreu tanto quanto Jeremias. Bem jovem ainda foi chamado a profetizar aos filhos de Judá, que, à semelhança dos israelitas do Reino do Norte, haviam apostatado de sua fé e agora achavam-se prestes a ter um destino semelhante ao de seus irmãos setentrionais. Deus haveria de desarraigá-los daquela boa e pródiga terra, e metê-los num país dominado pela maldade e pelas mais abjetas abominações.

O profeta, no entanto, embora soubesse ser o castigo divino inevitável, põe-se a interceder pelos filhos de Judá. Ele de tal forma perturba os céus, que leva o Senhor Deus a repreendê-lo por aquele impertinente rogo: “Não rogues por este povo para bem. Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor e quando oferecerem holocaustos e ofertas de manjares, não me agradarei deles; antes, eu os consumirei pela espada, e pela fome, e pela peste” (Jr 14.11,12).

Intercederia você por alguém que já estivesse prestes a ser rejeitado por Deus?

Que o Senhor julgaria o Reino de Judá, não havia qualquer dúvida. Jeremias, porém, insta-lhe em favor dos judeus e por eles derrama a sua alma. Interpõe-se ele, aliás, entre um Deus irado e um povo impenitente. Falhou o intercessor? Ignorou-o Deus? Passados setenta anos, eis que volve o Senhor a sua misericórdia a Judá, trazendo-o de volta à terra que mana leite e mel (Jr 25.11). Nenhuma intercessão é inútil.

5. Jesus. Como não ler o capítulo 17 de João sem derramar lágrimas? Ali, o Filho de Deus, já vivendo a agonia e a dor de sua paixão, põe-se a interceder pelos seus discípulos, pela Igreja e por aqueles que a esta viriam juntar-se. E a intercessão que fez em favor de Pedro: “Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo. Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos”? (Lc 22.31.32).

Se Jesus, por um lado, foi o Maravilhoso Conselheiro, por outro, mostrou-se como o inimitável intercessor.

Tem você intercedido por aqueles a quem aconselha? Ou a sua obrigação termina justamente no final da sessão de aconselhamento? Você não é um mero profissional do conselho. À semelhança daqueles médicos de família, acompanhe a evolução espiritual e emocional de suas ovelhas; não se descuide delas. 

 

III. A FIDELIDADE À SÃ DOUTRINA

Ao contrário dos psicólogos meramente humanistas que optam por esta ou por aquela escola, o conselheiro cristão tem de estar plenamente comprometido com a sã doutrina. Afinal, de sua teologia é que serão erguidas as bases das orientações que haverá de ministrar às ovelhas de Cristo. Escrevendo ao jovem pastor Timóteo, o apóstolo Paulo prescreve-lhe: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1Tm 4.16).

Se o conselheiro não acreditar em Deus, como haverá de assegurar a alguém desesperado que o Todo-Poderoso está no comando de todas as coisas? Se não crer na infalibilidade das Sagradas Escrituras, como poderá recomendar-lhe a leitura àqueles que necessitam de se alimentar diariamente com a Palavra de Deus? Se não professar a Jesus Cristo como o único e suficiente Salvador, como terá condições de prescrever esperança aos que se acham à beira do abismo? Se não estiver convicto a respeito da vida eterna, como lidará com a alma humana, que, à semelhança da corça, suspira pelas correntes das águas? E, se não acreditar no céu, como haverá de ministrar o alento de vida eterna aos que estão prestes a deixar a terrenal?

Antevendo o ministério de Timóteo nessa área tão delicada do ofício pastoral, Paulo insiste: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina”. O que significa esta recomendação? Em primeiro lugar, que temos de dispensar à doutrina o mesmo cuidado que dedicamos ao nosso bem-estar físico. Se não o fizermos, jamais teremos condições de exercer o ministério do aconselhamento cristão.

Já imaginou um conselheiro desprovido de doutrina? Sem o alicerce da verdadeira teologia? O que esperar de tal obreiro? Um ministro assim, perdido em si mesmo, precisa ser rapidamente aconselhado a que busque urgentemente o Senhor, e mergulhe nas Sagradas Escrituras, a fim de compreender todo o conselho de Deus.

 

IV. A FIDELIDADE À IGREJA

Deve o conselheiro conscientizar-se de sua responsabilidade não apenas diante da Bíblia Sagrada, mas também ante a sua convenção e igreja local, pois estará trabalhando preciosas vidas que, restauradas, por-se-ão a serviço do Corpo de Cristo e não à sua mercê.

Se você foi chamado para o serviço de aconselhamento, exerça humildemente o seu ministério e jamais presuma, de si mesmo, ser alguma coisa. Tem você experiência? Demonstre-a através de uma vida fiel e dedicada à sua igreja. Jamais deixe de ser leal ao seu pastor. Conselheiro, tenha-o por conselheiro. 

 

V. A VIDA FAMILIAR

Não são poucos os conselheiros que vivem um ministério hipócrita e desprovido de resultados concretos. Ensinam o amor entre os cônjuges, mas tratam a esposa com rispidez e tirania. Prescrevem a fidelidade, porém são infiéis à companheira de sua mocidade. Exortam os pais a que façam o culto doméstico, contudo raramente estão em casa para cultuar a Deus em família. Afinal, sua agenda requer que estejam sempre ausentes da esposa e dos filhos.

Que condições reúne tal conselheiro para socorrer as famílias alheias? Se alguém não cuida de sua própria casa terá cuidado da Casa de Deus?

Ouvi, certa vez, a história de um conselheiro, que, para os de fora, vendia a imagem de um marido honrado, de um pai extremoso e de um sacerdote que jamais se descuidara do bem-estar moral e espiritual de sua família. Sua esposa, porém, confidenciou a uma amiga estar cansada de tanta brutalidade. No púlpito, um santo; no gabinete pastoral, principalmente quando atendia as irmãs, gentil e cavalheiro. Todavia, não passava de um engodo. Ao invés de aconselhar, carecia de conselhos.

Um conselheiro pastoral não haverá de descurar-se quanto à sua reputação doméstica, porque o Senhor Jesus requer estejamos nós em perfeita sintonia com Deus e com a sua Palavra. Sem tais requisitos, pode haver tudo, menos conselho.

É a vida familiar do conselheiro o seu cartão de visitas, o seu melhor marketing. Se a esposa e os filhos dão-lhe testemunho, todos poderão depositar nele irrestrita confiança.  

 

CONCLUSÃO

Se você deseja, de fato, dedicar-se ao aconselhamento pastoral, busque aprimorar-se espiritualmente; ore, leia a Bíblia, tenha os seus momentos devocionais; adore a Deus com o seu trabalho, e não somente com a sua voz. Em santidade, entregue-se ao serviço das ovelhas de nosso Senhor.

Agindo assim, você será bom ministro de Cristo Jesus. Não importa quão erudito e culto seja você; não importam os seus diplomas nem as suas credenciais; o mais importante é que todos o reconheçam como um autêntico homem de Deus. E, como Josué, possa você afirmar ousadamente: “Eu e a minha serviremos ao Senhor”.