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o arrebatamento da igreja P.2
o arrebatamento da igreja P.2

 

h            Aplicação ética da «doutrina da parousia» (3:11-13).

 

3:11: Ora, uma vez que todas estas coisas hão de ser assim dissolvidos, que pessoas não deveis ser em santidade e piedade,

O ímpio vive para o mundo e para o que nele há; o indivíduo pervertido corrompe os elementos físicos e abusa de seu próprio corpo, que participa dá matéria. O que farão tais homens quando desaparecer a matéria? Os meios de sua satisfação lhes serão tirados. Aqueles que tiverem confiado no mundo eterno serão vistos, então, como aqueles que tomaram a mais sábia decisão. Agora mesmo, conforme diz o autor sagrado, devemos estar comprovando a prioridade do mundo eterno, andando corretamente neste mundo, sem abusar de seus elementos. Essa é a aplicação ética da doutrina da «parousia»; ensina-nos que a satisfação a longo prazo e duradoura só pode ser obtida nas realidades espirituais, porquanto as coisas físicas são temporárias. O homem é uma alma eterna, pelo que também existirá por toda a eternidade. (Ver II Co 4:17,18 e 5:1-10, onde aparece a mesma mensagem). A alma perdurará mais do que este mundo, pois, na realidade, não pertence ao mesmo. O homem se encontra apenas em uma peregrinação, habitando na tenda do corpo. Algum dia, a alma humana retornará ao seu verdadeiro elemento, e será julgada de acordo com o que tiver praticado nesta esfera terrestre.

«Porque os zombadores supõem a permanência das coisas conforme elas são, e não 'esperam pelos novos céus e pela nova terra'. O que é temporal e transitório ocupa a atenção deles. Mas a santidade e a piedade pertencem à ordem eterna. Tal como 'a fé, a esperança e o amor' (ver I Co 13:13), permanecem. As palavras, 'os elementos... serãodissolvidos pelo fogo' e 'vidas de santidade' se referem ao modo como os piedosos se conduzem. A alusão é, fundamentalmente, à 'vida e à piedade' (1:3), que Cristo outorga aos homens. As qualidades pelas quais as vidas dos crentes devem ser caracterizadas, portanto, são amplamente exemplificadas na glória e na excelência de Cristo (ver 1:3). No que diz respeito específico aos homens, essas qualidades são alistadas em II Pe 1:5-7». (Barnett, in loc).

«... santo procedimento...» Uma vida consagrada ao desenvolvimento de virtudes santas, como aquelas alistadas em II Pe 1:5-7; uma vida de santificação (ver I Ts 4:3), de desenvolvimento positivo quanto ao fruto do Espírito Santo em seus variados aspectos (ver Gl 5,22,23), como o amor, a alegria, a paz, a longanimidade, a bondade, a fé, etc. (Comparar também com I Pe 1:15, onde é empregada a mesma expressão).

«...piedade...» No grego é «eusebeia», que indica todas as atitudes e ações piedosas. Mas também é possível que o termo seja semitécnico: «piedade, segundo as exigências da igreja cristã, em contraste com o sistema dos gnósticos. Nas epístolas pastorais, o termo também assume sentido semitécnico, porquanto aquelas epístolas também foram escritas contra a heresia gnóstica, que pervertia a «piedade» substituindo-a por uma ética licenciosa.

No original, ambas as expressões, «santo procedimento» e «piedade» estão no plural, embora várias traduções retenham o singular, por ser isso mais natural nos idiomas modernos.  O plural indica muitas formas e manifestações de conduta santa.

«...tais como...» Como deve ser o crente, terreno ou espiritual? Qual é a nacionalidade ou origem deles? Qual é a pátria dos crentes? As ações de cada qual revelarão a resposta. Pessoas provenientes de países diferentes têm costumes e características diferentes.

3:12: aguardando, e desejando ardentemente a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se dissolverão, e os elementos, ardendo, se fundirão?

Este versículo nada adiciona de novo, mas, por ser um sumário do que dizem os versículos anteriores, é acrescentada maior ênfase. A «parousia», visto que trará uma mudança tão radical, incluindo a destruição total da Criação material antiga, e igualmente o estabelecimento de uma ordem totalmente espiritual, deveria ser ansiosamente aguardada. Por isso mesmo, Jesus ordenou a seus discípulos que «vigiassem» (ver Mt 25:13). Paulo disse: «...vigiemos e sejamos sóbrios» (I Ts 5:6), também em associação ao ensino sobre a «parousia». «Ora, o fim de todas as cousas está próximo; sede, portanto, criteriosos e sóbrios a bem das vossas orações» (I Pe 4:7).

«...apressando...» Consideremos os pontos abaixo:

1. Alguns eruditos assumem a idéia de que podemos «literalmente apressar» a vinda do citado dia, mediante o evangelismo. Dificilmente esse é o sentido dessa palavra, embora, isoladamente, ela pudesse ter tal significado. Ao conduzirmos os eleitos ao seio da família de Deus, presumivelmente o dia de Cristo pode ser apressado. Porém, o plano de Deus é fixo.

2. Outros pensam que a idéia aqui é a de «desejar anelantemente». Esse é um significado legítimo do vocábulo grego, mui provavelmente o sentido tencionado pelo autor sagrado. Pelo menos, isso é o que algumas vezes podem fazer, mas de modo algum poderemos abreviar a ocorrência da «parousia», sem importar o que fazemos. Não obstante, a tradição judaica asseverava que os pecados dos homens impedem a vinda do Messias, e que se todo o povo de Israel, em um único dia, se arrependesse do pecado, o Messias certamente viria logo em seguida, porquanto o empecilho moral seria removido. É possível que, ao escrever assim, o autor sagrado estivesse pensando sobre essa tradição judaica. A santidade, pois, é vista aqui como uma maneira de apressar (literalmente) a vinda de Cristo, e não o evangelismo ou a introdução dos eleitos de Deus no rebanho, o que deve acontecer antes da vinda de Cristo. Apesar de que essa idéia fazia parte das tradições judaicas, podendo ela ter entrado no texto, contudo, sabemos que, na realidade, isso não pode acontecer. O autor sagrado talvez tivesse usado tal tradição meramente como artifício retórico, para salientar a necessidade de vigilância e de vivermos santamente, sem esperar que, com isso, os crentes realmente apressassem a volta de Cristo. Também devemos orar «como se» isso pudesse abreviar tal acontecimento. (Ver Mt 6:10 e I Co 16:22).

 

«...dia de Deus...» Essa expressão equivale a «dia do Senhor», usada no décimo versículo deste capítulo, onde as notas expositivas devem ser consultadas. (Ver o «dia de Deus» usada também em Jr 41:10 e Ap 16:14).

 

«...os céus, incendiados, serão desfeitos...» Essa idéia é amplamente1 comentada nos versículos sétimo e décimo deste capítulo).

 

«...elementos...» Há notas expositivas a respeito no décimo versículo.

 

«...se derreterão...» Neste ponto é empregado um vocábulo diferente do que figura no décimo versículo, embora a mesma coisa seja indicada. O incêndio será derretedor. Está em foco a idéia da reversão de todas as coisas ao fogo.

 

«...o dia que vem, os abrasará, diz o Senhor...» (Ml 4:1).

 

3:13: Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça.

 

Os novos céus e a nova terra produzirão a ordem eterna, na qual, homens, remidos em Cristo, compartilharão da «natureza divina» (ver II Pe 1:4). Esse é o alvo mesmo de toda a existência humana, sendo promessa digna de por ela esperarmos e por ela vivermos, até que se cumpra. Tudo isso está contido em uma promessa (a do segundo advento de Cristo, que inaugurará essa nova forma de existência; ver o nono versículo deste capitulo). E essa promessa é apenas uma, dentre muitas «grandes e preciosas promessas» (ver II Pe 1:4). As mensagens profética e apostólica confirmavam, ambas, a validade dessas promessas. (Ver II Pe 1:19,21; Ap 21:1; Enoque 91:16; Is 65:17 e 66:22, quanto a essas profecias que mencionam, especificamente, «os novos céus e a nova terra»). Por conseguinte, estamos aguardando o cumprimento disso tudo. E esse mesmo verbo é usado novamente no versículo décimo segundo e no versículo décimo quarto. Portanto, essa idéia é fortemente salientada, fazendo frente à negação dos gnósticos de que a «parousia» teria realmente lugar.

 

O autor sagrado quis ensinar que os antigos céus e a antiga terra (talvez incluindo até mesmo as dimensões espirituais) serão completamente aniquilados. Haverá uma criação inteiramente nova, a qual esperamos ansiosamente. Não distingue o autor sagrado entre os conceitos do «arrebatamento», da «segunda vinda para julgar», do «milênio» e do «julgamento final», isto é, uma ordem de eventos diversificada e bastante longa. Ele reúne o conceito escatológico inteiro no termo «parousia», mais ou menos como fazem hoje em dia os a-milenistas. Por conseguinte, se contássemos exclusivamente com este versículo, seríamos todos, forçosamente, a-milenistas. Os capítulos décimo nono a vigésimo segundo do livro de Apocalipse, entretanto, nos fornecem a ordem cronológica desses acontecimentos, juntamente com a idéia que não sucederão todos ao mesmo tempo, mas antes, estender-se-ão por considerável espaço de tempo. A nova criação, no livro de Apocalipse, não surge senão depois do «milênio» do «julgamento final». Ainda temos de aprender muita coisa sobre essas questões, mas a razão informa-nos que mudanças tão gigantescas não poderão ocorrer em uma simples e isolada ocorrência.

 

«...habita justiça...» A grande «mudança» que será operada pela «parousia», embora venha a ser drástica e esbraseada, produzirá um bom resultado. O estabelecimento final da santidade de Deus será uma realidade. (Isso pode ser comparado aos capítulos vinte e um e vinte e dois do livro de Apocalipse, que encerram as mesmas idéias, embora de forma mais elaborada). A própria história, segundo certo ponto de vista, está mostrando aos homens que o caminho de Deus é melhor, e que, eventualmente, o divino caminho da santidade haverá de dominar a tudo. Entretanto, é mister um período de tempo excessivamente longo para convencer disso aos homens, pelo que também o processo histórico é tão prolongado. Isso não significa, entretanto, que modificações gigantescas e abruptas não possam ter lugar. O presente capítulo assegura-nos que assim ocorrerá.

 

Tudo isso pode ser comparado com a idéia do «domínio universal do direito», o que será instaurado pela vinda do Messias. (Ver Is 65:25 e Ap 21:27). A justiça, que agora é quase uma estranha neste mundo, finalmente obterá residência fixa na nova criação. Será estabelecida para sempre ali. Será a proprietária e a dona-de-casa, e não uma mera hóspede. Se os pagãos pensavam que isso é possível, conforme Platão acreditava, quanto mais os crentes em Jesus, que possuem nas mãos a palavra profética de Deus! «A terra inteira, que trouxe em seu seio o corpo do Senhor, será um paraíso». (Anselmo)

 

5. Epístolas de Paulo em apoio à doutrina da «parousia» (3:14-17)

 

O autor sagrado mostrara que a tradição profética do A.T. e a tradição apostólica geral favorecem a doutrina da «parousia». Agora ele passa a mencionar especificamente certas epístolas de Paulo, que ele considerava terem posição canônica. Não sabemos quantas seriam. Mas, pouco depois, pelos meados ou fim do século II D.C., cerca de dez dessas epístolas foram recebidas pela igreja cristã.

 

Ao levar sua epístola à conclusão, o autor exorta à manutenção da esperança sobre a parousia, o que ele vê como fator que inspira à santidade, resguardando os crentes contra o tipo de lapso moral que era tão comum no seio da heresia dos gnósticos. Paulo, ao apoiar suas idéias, certamente não ensinaria qualquer doutrina de «liberdade» que entrasse em contradição com isso. Os gnósticos, eventualmente, perverteram a «liberdade» pregada por Paulo quanto a questões indiferentes, tais como os alimentos que os cristãos têm o direito de consumir, ou como as festas religiosas a serem celebradas, etc. (Ver o décimo quarto capítulo da epístola aos Romanos e os capítulos sexto e oitavo da primeira epístola aos Coríntios). Os gnósticos tinham feito dessa «liberdade» uma mera licença para abusar do corpo com toda a forma de imoralidade.

 

3:14: Pelo que, amados, como estais aguardando estas coisas, procurai diligentemente que por ele sejais achados imaculados e irrepreensíveis em paz;

 

«...por essa razão...», isto é, devido à grande promessa acabada de mencionar, a segunda vinda de Cristo e ao estabelecimento de um eterno estado santo, um novo mundo governado pela santidade, e de que tudo quanto é terreno e meramente material será eliminado. Os crentes devem ser «zelosos» por não terem qualquer mácula ou defeito, para que vivam acima de toda e qualquer censura.

 

«...amados...» Esse termo fala sobre os remidos como participantes do amor de Deus, como membros da santa e divina família. Tal vocábulo também assinala, com freqüência, a transição para um novo parágrafo ou idéia, casos em que se torna um artifício literário.

 

«...estas cousas...», a saber, os novos céus e a nova terra, inaugurados através da «parousia», ou segundo advento de Cristo, bem como a santidade que ali haverá de dominar (ver os versículos onze a treze deste capítulo).

 

«...empenhai-vos...» No grego temos «spoudadzo», «apressar», mas tombem, metaforicamente, «ser zeloso», que é o uso que aqui tem o termo. Somos convocados a nos mostrarmos «intensos» no tocante às realidades do mundo eterno, aplicando as suas características agora mesmo, à vida presente, para sermos cidadãos dignos dos mundos eternos. É como se o autor sagrado tivesse escrito: «Fazei todo esforço» para mostrardes que pertenceis a uma ordem santa e superior, rejeitando as práticas condenáveis da ética dos mestres gnósticos, que são próprias de homens que, finalmente, haverão de perecer, assim que o mundo material chegar a seu fim.

 

«...sem mácula e irrepreensíveis...» O trecho de II Pe 2:13 mostra-nos que os hereges gnósticos tanto estavam «maculados» (com culpa e pecado), como eram «condenáveis», do ponto de vista da santidade autêntica; as mesmas palavras gregas básicas ali usadas são empregadas aqui. O autor sagrado, desse modo, conclama os seus leitores a agirem de modo oposto ao que faziam os gnósticos. Os crentes não devem caracterizar-se por «máculas morais», e nem darem razão para «condenações justas».

 

«...em paz...», isto é, com a devida reconciliação estabelecida com Deus (ver Cl 1:20), estando justificados e andando de modo a não quebrarem a harmonia com ele (ver Rm 5:1). Essa paz «primária» com Deus, obtida mediante o perdão dos pecados, a justificação e o andar santo, deve tornar-se a atmosfera característica da comunidade religiosa cristã, cujo resultado seja que os homens vivam em paz e harmonia uns com os outros. Isso é visto como algo impossível sem a santidade. Os gnósticos, que inauguraram uma ética estranha, tinham perturbado a paz da igreja. Pode-se comparar isso com Ef 4:3, que diz: «...esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz...» (Ver também Jo 14:27 e 16:33).

 

«...achados por ele...», isto é, «quando ele vier» (a concretização da «parousia»), então essas condições deverão caracterizar aos crentes. Naturalmente, o autor sagrado também dá a entender um «estado presente», na avaliação que Cristo faz das condições espirituais dos crentes e que corresponda às condições antecipadas para a «parousia». Assim sendo, são salientadas as idéias de «agora, sob os olhos de Cristo», e «quando de sua vinda», igualmente.

 

«...para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém, santa e sem defeito» (Ef 5:27).

 

3:15: e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amada irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada;

 

Isso lança os olhos de volta ao nono versículo deste capítulo, onde é declarado que uma das razões pelas quais a «parousia» vem sendo adiada é que seja dada bastante oportunidade para os homens se arrependerem, escapando assim ao julgamento merecido. Essa «demora», da qual os falsos mestres zombavam, na realidade, era uma gentileza misericordiosa de Deus, visando o bem deles. Não é incomum ver homens dotados de mente pervertida a amaldiçoarem aquilo que visa ao seu bem. A depravação tem um meio de corromper até mesmo o processo de raciocínio.

 

«...salvação...» Neste ponto, essa palavra significa as seguintes coisas:

1. Escapar do castigo;

2. participar do mundo eterno, no qual habita perfeita Santidade;

3. em II Pe 1:4 indica a participação na «natureza divina».

Nunca inclui apenas «ir para o céu quando morremos, porque nossos pecados foram perdoados». Envolve muitíssimo mais do que isso—a nossa transformação segundo a imagem de Cristo (ver Rm 8:29 e II Co 3:18), em que chegamos a participar de toda a plenitude de Deus, à semelhança do homem Jesus Cristo, que participa dessa plenitude (ver Ef 3:19 e Cl 2:10). Envolve sermos, em nosso ser essencial, aquilo que Cristo é, e também participar daquilo que ele possui (ver Jo 5:25,26; 6:57 e Rm 8:17.

 

«...nosso Senhor...» Isso porque ninguém pode ter a Jesus como seu Salvador se também não o tem como seu Senhor. A salvação consiste em darmos plena lealdade a Cristo como Cabeça de todas as coisas (ver Ef 1:10 e Cl 2:19). Mediante sua liderança, todas as bênçãos chegam agora até nós. Enquanto não o admitimos em sua posição legítima de Senhor absoluto, ele não nos pode dar aquilo que quer.

 

«...o nosso amado irmão Paulo...» O autor sagrado lançara mão do testemunho do A.T. para consubstanciar seus argumentos, juntamente com o testemunho dos apóstolos em geral (ver II Pe 3:2); e agora ele aponta para Paulo em particular. Isso se devia ao fato de que algumas das epístolas de Paulo já tinham ganho grande prestígio no seio do cristianismo primitivo, sendo bem conhecidas pelos leitores da presente epístola. Tanto para o autor sagrado, como também para seus leitores, algumas das cartas de Paulo eram consideradas «Escrituras». Portanto, temos nelas ocomeço do processo, «canonizador» das Escrituras do N.T. Mais tarde, pelos meados ou fins do segundo século da era cristã, dez epístolas paulinas (juntamente com os nossos atuais quatro evangelhos) receberam posição canônica. Essas dez epístolas eram todas aquelas que agora são atribuídas ao apóstolo dos gentios, com exceção das «epístolas pastorais» e, naturalmente, da epístola aos Hebreus. Um dos primeiros pais da igreja, Márciom, declarou-se em favor dessas dez epístolas de Paulo e de uma forma mutilada do evangelho de Lucas, como se fora o evangelho de Paulo. Isso provocou atividade similar entre os estudiosos cristãos primitivos, e assim, pelos fins do segundo século de nossa era, catorze dos livros do N.T. se tinham tornado o primeiro «cânon» neotestamentário.

 

O fato que o autor sagrado se escuda em Paulo está vinculado aos seguintes particulares:

1. Porque Paulo favorecia a doutrina da «parousia»;

2. porque Paulo favorecia a exigência moral do evangelho, salientada pela crença na iminente volta de Cristo;

3. porque era necessária a «paciência», na espera por esse evento tão glorioso;

4. porque a presente demora se deve  à «longanimidade de Deus», o qual espera que os homens se arrependam.

(Quanto a passagens paulinas sobre a «parousia», das quais podemos extrair esses pontos, ver os capítulos quarto e quinto da primeira epístola aos Tessalonicenses, I Co 15:51 e ss. e Rm 8:18 e ss.).

 

«...amado irmão...» Tal tratamento mostra o grande respeito do autor pelo nome de Paulo. Talvez isso figure aqui para deixar entendido que nenhuma desarmonia essencial havia entre Pedro e Paulo, conforme alguns pensavam que haveria. Ambos os apóstolos ensinavam a salvação pela graça divina; ambos defendiam a «parousia» e o que nela está envolvido.

 

«...sabedoria que lhe foi dada...» Devemos pensar aqui sobre a «sabedoria divina», através da revelação, segundo se vê em Ef 1:17,18. Mui provavelmente, o autor sagrado reivindicava, desse modo, a «inspiração divina» para as epístolas de Paulo, pelo menos para aquelas que ele conhecia pessoalmente.

 

Notemos a similaridade deste versículo com o que diz Policarpo em sua epístola aos Filipenses (3:2): «Nem eu e nem qualquer outro como eu podem igualar-se, em sabedoria, ao bendito e glorioso Paulo... o qual vos escreveu epístolas, e mediante as quais, se lhes derdes atenção diligente, podereis ser edificados na fé». Policarpo (falecido em 155 D.C.?) reflete assim a mesma atitude para com as epístolas de Paulo que o faz o autor sagrado; Policarpo e o autor desta epístola, mui provavelmente, sejam contemporâneos.

 

3:16: como faz também em todas os suas epístolas, nelas falando acerca destas coisas, nas quais há pontos difíceis de entender, que os incultos e inconstantes torcem, como o fazem também com as outras Escrituras, para sua própria perdição.

 

«...acerca destes assuntos...» Quais? Temas como a «parousia», as exigências morais do evangelho, a sua influência purificadora, a demora de Deus, esperando pelo arrependimento dos homens, a volta iminente de Cristo, aquilo que é exposto no terceiro capítulo da presente epístola. A tradição profética do A.T., os ensinamentos dos apóstolos e agora, os ensinamentos de Paulo, em particular, são tidos como elementos consubstanciadores da doutrina geral ensinada por esta epístola, em contradistinção às perversões dos falsos mestres, os hereges gnósticos.

 

«...em todas as suas epístolas...» Não sabemos quantas cartas paulinas foram aceitas como «escrituras» quando este versículo foi escrito. Bem provavelmente, durante a própria vida de Paulo, algumas das suas cartas formaram a base docomeço do cânon do N.T. Alguns intérpretes acham que o «cânon» aqui é aquele do segundo século, datando II Pe, portanto, tardiamente, fora da era apostólica. Paulo deixou bem claro que as suas idéias teológicas resultaram de visões e revelações. Muitos crentes do tempo de Paulo, portanto, que levaram seriamente estas declarações, teriam tido um grande respeito pelas cartas de Paulo, e logo, teriam atribuído uma posição a elas igual àquela das escrituras do V.T. O cânon Muratoriano (de cerca de 190 D.C.) continha 10 epístolas de Paulo (a nossa coletânea, menos Hb e as cartas pastorais). É dito neste documento que eram «santificadas e honradas pela Igreja Católica».

 

«...certas cousas difíceis de entender...» O autor sagrado admite aqui que os escritos de Paulo incorporam coisas difíceis. Mas nenhum indício é dado sobre quais seriam essas dificuldades. Provavelmente, o autor sagrado só menciona esse aspecto a fim de enfatizar, ainda mais, que embora certos pontos das epístolas paulinas fossem difíceis de compreender, quanto aos pontos essenciais—como a moralidade correta e a validade da esperança sobre a «parousia», contudo, tais ensinamentos deveriam ser acolhidos com alegria. A despeito do fato de que certos pontos são difíceis de entender, admitindo certa variedade de interpretações, isso, porém, não significava que podiam ser manuseados de modo a enganar a outros, com a distorção de seus ensinamentos claros, a fim de que ensinassem algo inteiramente diferente.

 

«...ignorantes e instáveis...» Isso aponta para os falsos mestres e seus discípulos. Os falsos mestres, na realidade, «ignoravam» as verdades espirituais; e tinham convencido a certos indivíduos «instáveis» a seguirem-nos em suas idéias absurdas. Isso pode ser comparado com II Pe 2:14, onde também há a mesma idéia. Eles é que tinham abandonado o «reto caminho», tendo preferido seguir doutrinas espúrias, como o fizera Balaão no passado (ver II Pe2:15,16), que fora repreendido por uma muda besta de carga. Os mestres gnósticos eram «heréticos» que atraíam vítimas, para aceitarem suas doutrinas perniciosas (ver II Pe 2:10-22).

 

«...ignorantes...» No grego é «amathes», que literalmente significa «sem erudição». «Mathtes» é «aprendiz», «discípulo». Os gnósticos não eram «aprendizes» (portanto, não eram «discípulos» autênticos de Cristo). Antes, eram «ignorantes» acerca da doutrina cristã, tendo-a substituído por ensinamentos espúrios. Nossa palavra moderna, «matemática», vem da raiz desse termo grego; a matemática é um ramo da «erudição».

 

«...instáveis...» No grego é «asteriktos», «fraco», «instável». É a forma privativa de «steridzo», «firmar», «estabelecer», «fixar». Tais indivíduos nunca se tinham mostrado firmemente fundados na verdade cristã, pelo que facilmente tinham sido arrastados para o erro dos gnósticos. Essa palavra é usada em II Pe 2:14 para indicar os discípulos dos falsos mestres. Neste caso, parece indicar tanto os mestres heréticos como seus discípulos. (Comparar com Tg 1:6, onde tais indivíduos são comparados a «ondas» do mar, devido ao fato de terem fé instável).

 

«...deturpam...» No grego é «strebloo», «torturar», «distorcer», «torcer». Isso significa que faziam as epístolas de Paulo dizer algo que ele nunca quis dizer, ignorando aspectos que ali não são ignorados. Em outras palavras, as epístolas de Paulo eram forçadas a servir à heresia gnóstica, o que é uma desgraça. Os mestres gnósticos pervertiam a doutrina paulina da «liberdade cristã», transformando-a em licença para a devassidão. Negavam ou modificavam totalmente o ensinamento paulino sobre a «parousia», eliminavam a exigência moral do evangelho. E faziam com que Paulo tivesse ensinado tão deturpadas doutrinas.

 

«...as demais Escrituras...» Isso aponta para o A.T. A grande maioria dos mestres gnósticos negava totalmente a veracidade do A.T. Márciom procurou eliminar do cristianismo toda e qualquer forma do judaísmo; e, nesse processo, descobriu ser mister negar a validade do A.T. como revelação da parte de Deus. Evidentemente, várias formas de gnosticismo tentavam usar trechos do A.T. em favor de suas idéias, assim «torcendo» aqueles documentos em seu próprio favor. O autor sagrado, mediante essa expressão, classifica definidamente algumas das epístolas de Paulo como «Escrituras», o que subentende o início da formação do «cânon» do N.T.

 

«...para a própria destruição deles...» Tal desonestidade, que ousava até mesmo perverter trechos bíblicos, não pode deixar de ser julgada pelo Senhor. Comparar com II Pe 2:1,3-7,9,12,14 e 3:7,9 onde é prometida a destruição (a ira e o juízo divinos) para os falsos mestres e seus discípulos.

 

As palavras «...as demais Escrituras...», que temos neste versículo, têm sido interpretadas por alguns estudiosos como «até mesmo as Escrituras», procurando assim eliminar a idéia que os escritos de Paulo são chamados aqui de «Escrituras». Mas isso não é visto com bons olhos pela maioria dos intérpretes.

 

3:17: Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que pelo engano dos homens perversos sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza;

 

«...amados...» (Ver as notas expositivas sobre tal tratamento dos crentes, no décimo quarto versículo deste capítulo). O autor sagrado tinha confiança de que, embora o perigo fosse grande, e embora os mestres gnósticos já exercessem grande influência sobre a igreja da Ásia Menor, a grande maioria da igreja não seria arrastada por tal erro. Portanto, não hesitou em Chamar seus leitores de «amados», como membros que eram da família divina, amados diretamente pelo Senhor Deus.

 

«...prevenidos... de antemão...» Do quê? Da natureza dos falsos ensinamentos dos gnósticos, e de como isso contradizia tanto os ensinamentos do Antigo, como os do Novo Testamento, incluindo, particularmente, os escritos do apóstolo Paulo. E também, de como tais falsos ensinamentos levam à condenação. O autor sagrado encoraja aqui os seus leitores a permitirem que os falsos mestres caíssem sozinhos na perdição.

 

«...acautelai-vos...» No grego é «phulasso», «guardar», «proteger», «vigiar». Aqueles crentes precisavam «proteger-se» contra o erro, agora que tinham sido tão claramente avisados a respeito. De outro modo, seriam como Balaão, arrastados para o caminho errado, necessitados de algum jumento mudo que os advertisse. O autor sagrado, antes disso, já os tinha exortado a agirem de acordo com tal entendimento (ver II Pe 1:20), tendo despertado a mente sincera deles com um «lembrete» (ver II Pe 3:1).

 

«...arrastados pelo erro desses insubordinados...» No grego é «sunapago», «levado embora». Essa palavra foi usada por Paulo, acerca de Barnabé, quando ele passou para o lado de Pedro, em Antioquia. «...ao ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles...» (Gl 2:13). O abutre «agarra» a sua presa; um animal feroz e «leva embora»; e a palavra inicial desta porção bíblica tem exatamente esse sentido. Os falsos mestres eram animais predatórios, atrás de vítimas. Assim também o demoníaco era «apanhado» por um espírito imundo (ver Lc 8:29—onde é usado o mesmo termo deste versículo). O navio de Paulo foi «apanhado» pelo vento e lançado ao redor (ver At 27:15, onde também é usado o mesmo vocábulo).

 

«...erro...» No grego, «plane», «engano», «ludibrio».

 

«...insubordinados...» No grego, «athesmos», «sem princípio». Os falsos profetas não se conduziam por qualquer guia orientador. Andavam desorientados. O mesmo vocábulo é usado para indicá-los, em II Pe 2:7. Em II Pe 2:8 também são chamados «iníquos», e onde é usado o vocábulo grego «anomos».

 

«...descaiais...» No grego é «ekpipto», «cair fora de». O autor considerava possível a queda da fé. A apostasia lhe parecia possível. Ele não deixou esta advertência devido a nenhum motivo, apenas para «assustar» a seus ouvintes.

 

«...vossa própria firmeza...», isto é, a posição firme deles no evangelho da verdade, e no qual tinham recebido a certeza da salvação. (Ver também II Pe 1:12, onde é usada a mesma palavra). Aqueles crentes, até então, eram «constantes» na verdade; mas o erro gnóstico ameaçava tirá-los de seu «alicerce». Talvez haja a intenção de ser usada a metáfora da «edificação». (Comparar com I Pe 2:4,5 quanto à metáfora da «edificação espiritual». Comparar este versículo com Jd 24, de cujo trecho provavelmente foi tomado por empréstimo).

 

«A perda da estabilidade começa no ceticismo a respeito da 'verdade que tendes' e termina por transformar-se em licenciosidade». (Barnett, in loc).

 

«O estado de graça é a fortaleza. Ali o próprio Deus é o fortim e o castelo; Cristo é a rocha sobre a qual somos edificados; ali somos certificados do privilégio de que tudo coopera juntamente para nosso bem, de nós que amamos a Deus; ali somos guardados para a salvação, mediante o poder de Deus. Um crente cai daí, de sua própria fortaleza, quando perde a graça, negligenciando a vigilância e a oração, não dando mais ouvidos à Palavra de Deus, cedendo gradualmente à comissão de pecados intencionais, os quais, mediante algum dogma bem sazonado, ou apenas mediante algum juízo apressado, ele considera erroneamente como algo bem diferente e em conseqüência, se desculpa e até se justifica». (Roos, in loc).

 

6.     Conclusão e Bênção (3:18).

 

3:18: antes crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a gloria, assim agora, como até o dia da eternidade.

 

A melhor maneira de evitarmos a queda é através do crescimento cristão positivo. Cumpre-nos crescer na «graça», isto é, na provisão terna, e isso é obtido através da nossa transformação segundo a imagem de Cristo, o que é produzido pelo poder do Espírito Santo (ver II Co 3:18 e Gl 5:22,23). Submetemo-nos a esse processo gracioso empregando os meios espirituais a nosso dispor, como o estudo das Escrituras, a oração, a prática de boas obras, cumprindo a lei do amor, a busca pelo Espírito e pelos seus dons espirituais e ministeriais.

 

«...conhecimento...» Essa palavra não indica apenas o melhoramento de um maior número de proposições teológicas aprimoradas. Antes, esse «conhecimento» é de natureza mística e experimental. 1. Consiste de nosso «vir a conhecer a Cristo», segundo diz Paulo em Fp 3:10. 2. Trata-se do conhecimento dado pela iluminação do Espírito (ver Ef 1:17). Esta segunda epístola de Pedro tem início com a ênfase sobre o «conhecimento» de Cristo como nosso Salvador e Senhor. E agora, no encerramento, o autor sagrado retorna a esse tema inicial. O «conhecimento» exposto pelo autor sagrado faz contraste com o «conhecimento» falsamente místico e mágico do sistema gnóstico, que consistia mais de ritos e cerimônias.

 

«...Senhor e Salvador Jesus Cristo...» Cristo é «Senhor», pois ninguém pode tê-lo como seu Salvador, se também não o tem como seu Senhor. Os mestres gnósticos tinham chegado a negar o senhorio de Cristo, porquanto faziam dele apenas um senhor entre muitos, pois o reputavam apenas um dos muitíssimos «aeons» ou manifestações angelicais de Deus. Jesus Cristo também é o Salvador, porque nos salva da ira e da perdição, conduzindo-nos à vida eterna, ao estado de bem-estar espiritual constante.

 

«...a ele seja a glória...» Consideremos os pontos seguintes: 1. Está em foco a glória que nossas palavras podem dar a Cristo nossos louvores. 2. Também está em pauta a glória que nossas vidas podem dar a Cristo. Cristo é exaltado como Senhor não apenas por nossas palavras, mas também através de nossa reta conduta cristã.

 

«...tanto agora como no dia eterno...» No presente nós exaltamos a Cristo, como ele merece, mediante nossa posição doutrinária, mediante os louvores de nossos lábios e mediante a santidade de nossas vidas, em contraste com as degradações dos gnósticos.

 

«...no dia eterno...» Essa expressão se encontra somente aqui em todo o N.T. Cristo será sempre o grande objetivo de nossa «vida», pois ele é «tudo para todos» (ver Ef 1:23). No grego, temos aqui uma das fórmulas que significam «eternidade», porquanto haverá um dia contínuo e interminável, um período de luz divina e bem-estar. A eternidade é aqui encarada como um dia eterno, no qual nunca chega a noite. Usualmente, nas páginas do N.T., a eternidade é retratada como uma interminável sucessão de eras.

 

«Trata-se apenas de um dia, mas de um dia eterno, sem ontem que o anteceda e sem amanhã que o siga; não será produzido pelo sol natural, que então não mais existirá, e, sim, por Cristo, o Sol da Justiça». (Agostinho).

 

Isso equivale, pelo menos em certo sentido, ao «dia do Senhor» (ver o décimo versículo deste capítulo), e ao «dia de Deus» (ver o décimo segundo versículo deste capítulo), embora isso não envolva a idéia negativa de julgamento. Antes, temos aqui o dia do bem eterno, que Deus inaugurará.

 

«Cristo é central e crucial; Cristo compartilha da glória do Deus eterno; Cristo haverá de ser glorificado então; Cristo é a glória daquele dia eterno, que envolverá e cumprirá todos os nossos dias». (Homrighausen, in loc).

 

« A eternidade é um inalterável, interminável, sem nuvens e imutável DIA!» (Adam Clarke, in loc).

 

 

Bibliografia R. N. Champlin,enciclopédia de teologia e filosofia,2010

Comentario do novo testamento,Normam R.Champlin,2010