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confissão de fé HELVETICAS 1562
confissão de fé HELVETICAS 1562

                             SEGUNDA CONFISSÃO HELVETICAS 1562

                                                   Segunda Confissão Helvética (1562)  

                                                     Henrich Büllinger (1504 - 1575) 

 A última das grandes confissões reformadas do século XVI tem todas as características de uma confissão magisterial, mas também é um produto do próprio contexto histórico das igrejas reformadas dos países ou regiões de língua alemã que num período relativamente curto (1530 – 1570) presenciaram o surgimento de várias declarações de fé exprimindo os princípios e os fundamentos espirituais das comunidades reformadas. Na verdade, a segunda confissão helvética não apenas fecha um período histórico, mas, pelo menos no mundo reformado suíço de língua alemã, ela vem exprimir uma necessidade de unidade doutrinária consensual que os muitos credos confessionais do período exigiam de certo modo, já que a diversidade de confissões estava vinculada, sobretudo ao posicionamento confessional de comunidades específicas e não a uma igreja como um todo, ou pelo menos a uma igreja com uma tradição tão marcante quanto a Reformada. É bem verdade que Heinrich Büllinger, o autor dessa confissão, não a escreveu com esse propósito, mas a própria exigência do cenário reformado suíço onde já existiam outros escritos confessionais impunha o reconhecimento de um escrito confessional que se impusesse pela sua autoridade teológica e influência dogmática. Isso porque a Primeira Confissão Helvética (1536) do qual também Büllinger participou da elaboração, tinha o reconhecimento apenas dos cantões suíços que haviam abraçado da Reforma (Zurique, Basiléia, Berna, Schaffenhausen e Biel), ao passo que a segunda também se tornou aceita na Alemanha (Palatinado e Anhalt) e também na Escócia, França, Polônia e Hungria. Desse modo, a Segunda Confissão Helvética detém uma proeminência distinta não apenas do ponto de vista do esmero de sua elaboração como de seu reconhecimento que transcendeu as fronteiras lingüísticas e territoriais alemãs.

A exemplo das confissões de Schleitheim (1527) de Augsburgo (1530), da Confissão Escocesa (1560) e Belga (1561), frutos das lucubrações intelectuais de lideranças distintas, isto é, Michael Schattler, Phillip Melanchthon, John Knox e Guido de Brès, a Segunda Confissão Helvética também é produto da obra de um homem, Heinrich Büllinger (1504 – 1575). A vida e o ministério pastoral de Büllinger tem muitas semelhanças com as de Lutero e Calvino e pode ser, de certo modo, igualmente apresentada como uma lenta e gradativa evolução do catolicismo para o mundo da Reforma, passando pelo luteranismo para desaguar no meio caminho zwingliano, entre Lutero e Calvino. Büllinger, nascido em Aargau em 1504, estudou em Emmerich e em Colônia onde a exemplo de Lutero, descobriu a Bíblia por meio dos pais (Crisóstomo, Agostinho), sendo posteriormente nomeado professor da escola instalada no mosteiro de Kappel, perto de Zurique. Ali se tornou luterano pela influência de Melanchthon, mas por volta de 1525 já havia sido inteiramente conquistado para o partido de Zwínglio, auxiliando-o na implementação da Reforma em Zurique, sendo nomeado pastor da comunidade de Bremgarten, em 1529. Como Lutero, casou-se com uma ex freira, e em 1531 em decorrência da morte de Zwínglio na batalha do mosteiro de Kappel, pelas suas íntimas relações com o reformador, foi convidado a assumir as funções de pastor e pregador da Grossmunster, a Grande Catedral de Zurique, que sob sua direção permaneceu até a sua morte. Não se limitou, como se pode ver pela sua atividade nas duas confissões helvéticas, exclusivamente às atividades pastorais, mas atuou diretamente em vários eventos da Reforma, ora polemizando com Lutero no debate sobre a ceia, assumindo abertamente o partido da representação memorial de Zwínglio (1536), ora conciliando-se com Calvino no Consenso Tigurino sobre o mesmo tema (1549). Foi sem dúvida um dos grandes nomes da Reforma suíça e a presente confissão reflete poderosamente a dimensão do seu intelecto.

A Segunda Confissão Helvética começa (Capítulo I), com uma declaração sobre a Escritura. Ela é Palavra de Deus sendo, por conseguinte, autoridade de Deus por si mesma e nisso se coloca em posição de proeminência em relação aos homens como testemunho do que expressa. Ela expressa por inteiro os meios pelos quais o homem pode se salvar do pecado e sua pregação também se constitui na Palavra libertadora. Quando esta Palavra de Deus é agora anunciada na Igreja por pregadores legitimamente chamados, cremos que a própria Palavra de Deus é anunciada e recebida pelos fiéis; e que nenhuma outra Palavra de Deus pode ser inventada, ou esperada do céu: e que a própria Palavra anunciada é que deve ser levada em conta e não o ministro que a anuncia, pois, mesmo que este seja mau e pecador, contudo a Palavra de Deus permanece boa e verdadeira. Assim, Büllinger tem um pensamento similar ao de Lutero acerca do poder da Palavra, mas, vai ainda além e afirma que a pregação da Palavra também se constitui num ato de libertação tanto quanto a sua leitura ou ensino. Desse modo, o ministério da pregação é consideravelmente reforçado porque na expressão daquilo que o texto fala, o pregador nada mais está fazendo que não expressar a vontade de Deus e sendo ele mesmo agente dessa revelação na Palavra. Por isso, a direção do Santo Espírito é fundamental, verdadeiramente a Palavra não pode ser pregada plenamente sem Ele. É talvez por isso que na lista de heresias rejeitadas pela Confissão, Büllinger destaque especialmente os gnósticos marcionitas os quais negaram que as Escrituras procediam do Espírito Santo. Como nas demais confissões evangélicas e reformadas, os apócrifos veterotestamentários são rejeitados inteiramente.

O capítulo II defende a tese de que a Escritura se interpreta por si mesma sendo inteiramente dispensável o parecer dos pais e, principalmente, da autoridade da Igreja Católica Romana. Contudo, para uma interpretação exata e sagaz, segundo os traços intelectuais de cada um dos autores e uma competente exegese lingüística. Na verdade, até certo ponto o parecer dos pais da igreja pode ser aduzido como autoridade, mas não sem esquecer que mesmo sendo autoridade ela diverge entre si continuamente, e por isso não pode ser aceita de forma integral e nem isenta de críticas. E não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça nesta questão, visto que todos eles, unanimemente, não procuram igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas, mas nos mandam verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam, aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em desacordo. A Confissão é ambígua em relação aos Concílios já que não se diz quais são os concílios que devem ser acatados, ao passo que no tópico sobre as tradições, a Bíblia é, mais uma vez, colocada fora e totalmente acima das tradições humanas. Portanto, em questão de fé, não admitimos juiz algum, a não ser o próprio Deus, que, pelas Santas Escrituras, proclama o que é verdadeiro, o que é falso, o que deve ser seguido ou o que deve ser evitado. Assim, apoiamo-nos exclusivamente nos julgamentos de homens espirituais, por eles tomados à Palavra de Deus.

Como todas as confissões do século XVI, a Segunda Confissão Helvética (capítulo III), reafirma a doutrina da Trindade e a subseqüente rejeição de todas as heresias que negam a unidade plena das três pessoas, seja pelo modalismo sabeliano, seja pelo adocianismo ariano:

 

Entretanto, cremos e ensinamos que o mesmo Deus imenso, uno e indiviso é inseparavelmente e sem confusão, distinto em pessoas - Pai, Filho e Espírito Santo - e, assim como o Pai gerou o Filho desde a eternidade, o Filho foi gerado por inefável geração, e o Espírito Santo verdadeiramente procede de um e outro, desde a eternidade e deve ser com ambos adorado. Assim, não há três deuses, mas três pessoas, consubstanciais, co-eternas e co-iguais, distintas quanto às hipóstases e quanto à ordem, tendo uma precedência sobre a outra, mas sem qualquer desigualdade. Segundo a natureza ou essência, acham-se tão unidas que são um Deus, e a essência divina é comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

 

A seguir, no capítulo IV, seguindo a tradição zwingliana, Büllinger investe contra toda e qualquer forma de imagem como personificação do Sagrado e da fé por meio das imagens. A questão das imagens surgiu no decorrer da Reforma em decorrência da radicalização de alguns grupos, especialmente na Suíça onde Zwínglio baniu as imagens de Zurique e da qual Johann Eck, o nefasto oponente de Lutero em Leipzig, deixou uma descrição indignada em carta ao imperador Carlos V: Os altares são destruídos e postos abaixo, as imagens dos santos e as pinturas são queimadas ou quebradas ou desfiguradas (...) eles não tem mais igrejas e sim estábulo[2] A decisão de Zurique foi seguida pela Basiléia onde Ecolampádio implementou uma reforma iconoclástica tão radical quanto aquela realizada em Zurique. Na Alemanha, Andreás Karlstadt, mentor e depois adversário de Lutero foi, ao lado de Thomas Müntzer, um dos expoentes da iconoclastia, envidando esforços para a sua supressão das imagens em Zwickau e Orlamünde, onde era pastor nessa época. [3] Assim, nada mais natural que Karlstadt se aproximasse de Zwínglio para quem a iconoclastia era um ponto de importância exponencial em sua teologia, ao passo que em Lutero não parecia ter muita importância. [4] Para Büllinger, nenhuma forma de arte pode representar a Deus que sendo totalmente abscôndito é, por essa razão, irrepresentável, valendo a mesma coisa para Cristo e os santos. A Bíblia, como diz Büllinger, rejeita totalmente as imagens como expressão para a definição do Sagrado e desse modo, na relação entre o homem e o Deus Abscôndito (Lutero) a fé terá de ser suficiente, através da confirmação da pregação do Evangelho. Demais, diz Büllinger, para onde quer que volvamos os olhos, vemos as criaturas de Deus, vivas e verdadeiras ao nosso olhar, as quais, se bem examinadas como convém, causam ao observador uma impressão muito mais viva do que todas as imagens ou pinturas vãs, imóveis, frágeis e mortas, feitas pelos homens, das quais com razão disse o profeta: “Têm olhos, e não vêem (Sal 115.5). O protestantismo magisterial reformado suíço, muito mais do que o anglicano e o luterano, deu ao protestantismo essa peculiaridade iconoclasta.

Para a confissão Helvética (capítulo V), somente Deus deve ser adorado e invocado por meio da mediação de Jesus Cristo, devendo ser totalmente abolido o culto aos santos embora o mérito e a devida honra devam ser dadas a eles. É somente por meio de Deus que todas as coisas de fato acontecem e a Sua vontade se materializa plenamente (capítulo VI). Deus criou todas as coisas boas que, ao serem criadas, partiram de um único e mesmo principio, o que dessa forma faz a confissão atacar novamente o gnosticismo marcionita e sua doutrina dos Dois Princípios, das Duas Naturezas e do Demiurgo que dividiria com o Deus verdadeiro a regência do Universo. O diabo e os anjos maus que se rebelaram junto com ele só fazem o que lhes é peculiar, isto é, mentir indisfarçadamente (João 8.44). O homem é constituído de corpo e alma sendo a primeira matéria totalmente perecível por ser mortal, e a segunda imortal por sua própria natureza. A doutrina do pecado e da queda do homem (capítulo VII) segue plenamente a tradição reformada, embora se reconheça que desde a criação o homem fora criado bom e reto, embora, por instigação da serpente, tenha se afastado de sua vocação, advindo com isso o pecado e a morte.

Para Büllinger, todos os homens nascem no pecado original (capítulo VIII), que ele sabiamente não procura rotular nem especular, seguindo assim a sua promessa de só comentar as coisas que foram perfeitamente reveladas e discerníveis na Palavra de Deus (Deuteronômio 28.28). Por essa razão, entende ser desnecessária a classificação medieval de pecados veniais ou mortais já que todos os pecados procedem da mesma essência e são conhecidos como pecados da mesma forma, embora sejam distintos entre si conforme a gravidade. A confissão, todavia, não é feliz em responder a principal crítica que é desferida contra os advogados da predestinação radical – a de que destinando os homens não eleitos a serem condenados pelo pecado dos mesmos, Deus forçosamente se tornaria autor do pecado. Quando, portanto, se diz nas Escrituras que Deus endurece, cega e entrega a uma disposição réproba de mente, deve-se entender que Deus o faz mediante um justo juízo, como um Juiz Vingador e justo Como Deus pode se vingar de quem não tenha nem o discernimento da consciência pecadora, já que não foi apresentado à sua condição (por não conhecer ou não ouvir a pregação do Evangelho), e como Ele será juiz se não há o pecado consciente já que – assim diz Büllinger em sua perigosa interpretação da Escritura – é o próprio Deus quem entrega o homem a uma consciência réproba? Assim, ao tentar negar esse pormenor, a confissão suíça acaba na verdade corroborando com esse pensamento e com isso fortalecendo a crítica de Brunner e de outros à teologia esotérica [5] da predestinação radical.

Também no capítulo IX Büllinger faz uma afirmação perigosa: diz que os homens só praticam o mal conscientemente e que não são capazes de realizar o bem. É bem verdade que isso ele diz em relação à questão do livre arbítrio como instrumento per si de salvação, mas como Lutero e Calvino repete a máxima da incapacidade humana e discernir sobre o significado da salvação: Com referência ao bem e à virtude, o entendimento do homem, por si mesmo, não julga retamente a respeito das coisas divinas. A Escritura evangélica e apostólica requer regeneração de todos aqueles de entre nós que desejamos ser salvos. Com isso fica em aberto a questão da necessidade do arrependimento. Mas, como me arrepender se não sou capaz de praticar o bem, e conseqüentemente, de ver a Escritura como um bem em si, se meu entendimento é tão obnubilado que não é capaz de discernir minimamente o certo e do errado? A pregação de arrependimento do Cristo (Mateus 4.17) torna-se, assim, inócua. Por outro lado, Büllinger admite um livre-arbítrio, mas não, ao contrário de Lutero, apenas com relação às coisas humanas [6] mas na relação do homem regenerado em relação a Deus. Por isso, o homem ainda não regenerado não tem livre arbítrio para o bem e nenhum poder para realizar o que é bom. Enquanto Lutero e Calvino aniquilam o livre-arbítrio rejeitando até mesmo seu significado, Büllinger reconhece a sua importância, ainda que restrita apenas à esfera dos eleitos de Deus. Como diz a confissão:

 

Na regeneração, o entendimento é iluminado pelo Espírito Santo, para que compreenda os mistérios e a vontade de Deus. E a própria vontade não é somente mudada pelo Espírito, mas é também equipado com poderes, de modo, que ela espontaneamente deseje o bem e seja capaz de praticá-la (Rom 8.1 ss). Se não concedermos isso, negaremos a liberdade cristã e introduziremos uma servidão geral. Mas também o profeta registra o que Deus diz: “Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei" (Jer 31.33; Ez 12.36.26 ss). E o Senhor também diz no Evangelho: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36). E São Paulo também escreve aos Filipenses: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo, e não somente de crerdes nele” (Fil 1.29). E outra vez: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus” (v. 6). E ainda: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (2.13).

 

E ainda:

 

Todavia, ninguém nega que nas coisas externas tanto os regenerados como os não-regenerados gozam de livre arbítrio. O homem tem em comum com os outros animais (aos quais ele não é inferior) esta natureza de querer umas coisas e não querer outras. Assim, ele pode falar ou ficar calado, sair de sua casa ou nela permanecer, etc. Contudo, mesmo aqui deve-se ver sempre o poder de Deus, pois essa foi a causa por que Balaão não pôde ir tão longe quanto desejava (Num, cap. 24), e Zacarias, ao voltar do templo, não podia falar como era seu desejo (Luc, cap. 1).

 

Enquanto Lutero fala numa vontade cativa que permanece presa, inteiramente na dependência de Deus como um agente totalmente passivo do processo, Büllinger concebe que o homem tem sim a liberdade cristã, desde que o no exercício da sua condição de salvo, eleito e regenerado. O fato de Büllinger escrever isso na segunda metade do século XVI, já tendo sido em sua maior parte suprimido das tradições protestantes a influência mental e teológica do mundo medieval, que se faz presente sobretudo em Lutero, e não usando a pejoração semimaniqueísta de Calvino para descrever o livre-arbítrio, revelam certa independência de espírito de Büllinger, sem fazer com que ele deixe de transitar pela tradição reformada livremente.

Outro ponto interessante é o apreço que Büllinger manifesta pelas artes, pois é manifesto que não fazemos nenhum progresso em todas as artes sem a bênção de Deus. Certamente, a Escritura atribui todas as artes a Deus; e, na verdade, até os pagãos atribuem a origem das artes a deuses, que seriam os seus inventores. Com isso, Büllinger reconhece a participação e a ação de Deus em todos os níveis do conhecimento e que a cultura é a expressão da Sua vontade e concessão, o que é certamente um ponto de partida meritório de toda uma série de reflexões que muitos outros depois, especialmente Paul Tillich, farão sobre o assunto.                          

 

 

A Grossmunster, a Grande Catedral de Zurique, onde Büllinger atuou como pregador de 1531 a 1575.

 

 

 

O capítulo X, que se dedica à predestinação, começa repetindo o que já fora afirmado nas demais confissões reformadas, isto é, que Deus predestinara na eternidade os salvos e os condenados sem qualquer respeito humano. Os eleitos estão nessa condição sem qualquer mérito pessoal, mas apenas de Cristo, mas, por outro lado, deve o eleito examinar-se para terem certeza que está plenamente inserido na fé da comunidade e para reconhecer – isto é, se reconhecer – que Cristo está nele, pois do contrário já poderá ser contado entre os rejeitados (2 Coríntios 13.5). Nisso a confissão apresenta uma resposta tão ambígua quanto à de Lutero no seu comentário aos Romanos: Se alguém tem muito medo de não ser eleito ou é tentado por causa de sua eleição, exorta Lutero, que agradeça por este temor e alegre-se por estar com medo (...), portanto, que se lance corajosamente na fidelidade de Deus[7] Ou seja, mesmo eleito ele precisa examinar-se freqüentemente para que esteja implícita em seu coração a segurança de sua eleição. Com isso, Lutero e Büllinger se unem para nos dizer que a eleição não é condição sine qua non, mas precisa ser evidenciada, praticada, exercitada pela fé e pela vida cristã, ou seja, assegurada diariamente, pois do contrário não haverá eleição. A expressão de Lutero – lançar-se na fidelidade a Deus – vai bem de encontro à concepção da segunda confissão helvética sobre o livre-arbítrio, pois uma vez salvo – isto é, confirmada a certeza da salvação no coração do crente – ele irá empenhar-se com denodo para assegurá-la por amor a Deus, e tornando assim sua também a responsabilidade de ser salvo. Contudo, a antropologia negativista das confissões reformadas, ao tratar de forma tão ambígua o ser humano e seu papel na salvação, deixa sempre uma dúvida no ar: se o crente está salvo (afinal, Deus não escolheu os salvos desde a eternidade?) como então devo trabalhar para a minha salvação se o decreto da salvação está assinado e Deus não é homem para que minta e nem filho do homem para que se arrependa, e não tendo prometido o Altíssimo, assim ele não o fará, como diz Moisés (Números 23.19)? Mas a antropologia negativa das confissões reformadas não nos dá essa resposta embora cobre do homem uma responsabilidade e segurança eletiva da salvação (para usar uma expressão mais recorrente na moderna teologia calvinista), uma coisa que, segundo eles, foi decidida à revelia do homem antes mesmo do mundo existir. Futuramente, a doutrina da santificação de Wesley procurará dar uma resposta a essa indagação ao reconhecer que o crente deve sim santificar-se não porque esteja salvo (porque na soteriologia wesleyana, Deus quer a salvação de todos, embora saiba que nem todos a procurarão), mas porque a santificação é condição essencial para a salvação.

Büllinger também se preocupou com a possibilidade de tendências antinomistas surgirem no seu meio em decorrência da doutrina da predestinação, e por se preocupar com o assunto, mostra mis uma vez que a questão da aristocracia dos eleitos não é mesmo um assunto fechado.

 

Por isso, não aprovamos as afirmações ímpias de alguns que dizem: “Poucos são os eleitos, e, como eu não sei se estou no número desses poucos, não me privarei dos prazeres”. Outros dizem: “Se sou predestinado ou eleito por Deus, nada me impedirá da salvação, já certamente determinada, seja o que for que eu fizer. Mas, se estou no número dos rejeitados, nenhuma fé ou arrependimento poderá valer-me, visto que a determinação de Deus não pode ser mudada. Portanto, todas as doutrinas e advertências são inúteis”. Mas o ensino do apóstolo contradiz estes homens: “O servo do Senhor deve ser apto para instruir... disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento ... livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade (II Tm 2.24-26).

 

Aqui mostra a confissão extrema sagacidade. Reconhece que somente pela santificação o crente será salvo, e admite que não cabe ao cristão especular sobre quantos serão salvos ou arremessados na suprema danação. É como (Deus) se dissesse: Não vos compete inquirir com muita curiosidade acerca dessas questões, mas antes esforçar-vos por entrar no céu pelo caminho estreito. Então o crente tem sim responsabilidade em se salvar, e se tem a responsabilidade de se salvar pode também ter o desejo de seguir a porta larga (Mateus 7.13). Assim, na soteriologia de Büllinger, o cristão eleito deve desejar a salvação e buscá-la sempre.

O capítulo XI afirma que Cristo foi predestinado desde a manhã dos tempos para ser o salvador do mundo e nesse sentido repete o credo niceno-constantinopolitano sobre as duas naturezas de Cristo e as demais confissões acerca do seu nascimento virginal condenando não somente o arianismo, mas também as blasfêmias do espanhol, Miguel Serveto, e de todos os servetanos, que Satanás, por meio deles, retirou do inferno, por assim dizer, e vai espalhando por todo o mundo, audaciosa e impiamente. Cristo é verdadeiro homem e tem carne verdadeira (rejeição ao docetismo) e é verdadeiro Deus e senhor (contra Ário e Serveto). Mas o que chama atenção é que a Segunda Confissão Helvética reconhece que Cristo é o salvador de toda a humanidade, e nesse sentido seu pensamento colide com Lutero e Calvino que pensavam exatamente o contrário, ou seja, que Cristo morreu apenas pelos eleitos. Além disso, ensinamos que o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, foi, desde a eternidade, predestinado ou pré-ordenado pelo Pai para ser o Salvador do Mundo. E ainda: Ensinamos e cremos que este Jesus Cristo, nosso Senhor, é o único e eterno Salvador do gênero humano, e também do mundo inteiro, em quem pela fé se salvaram todos os que antes da Lei, sob a Lei e sob o Evangelho foram salvos, e em quem se salvarão todos os que ainda vierem a salvar-se até o fim do mundo. No capítulo XII a confissão fala das duas leis, a Deus ou natural, perfeita e perene, e a judiciária, feita pelos homens para regulamentar as relações sociais e econômicas. A lei de Deus nos foi dada para que reconheçamos em pecado e em dissociação de Deus e desse modo passemos a buscá-lo verdadeiramente, porque evidentemente a Lei não pode nos salvar, como também a carne não pode. Com Cristo, estabelece-se um novo conserto no qual a Lei é ab-rogada e a Graça passa a operar para a nossa salvação, permanecendo como um legado no qual as virtudes e os vícios permanecem enumerados para a instrução do crente não devendo, por conseguinte, ser excluída da Igreja. Na verdade (capítulo XIII), O Evangelho opõe-se à Lei. A Lei opera a ira e anuncia a maldição, enquanto o Evangelho prega a graça e a bênção. Do mesmo modo, assim como existe um dualismo lei-graça, igualmente pode se contar o dualismo promessas terrenas e as celestiais, que revelam o modo como Deus, por meio da Sua Palavra, trabalha em nossas vidas. A promessa da conquista de Canaã ou da libertação do cativeiro da Babilônia são promessas terrenas. A volta do Senhor Jesus e aParousia, todavia, encontram-se nas promessas celestiais. Ambas se relacionam tanto no AT quanto no NT, e nesse sentido o Evangelho está inserido de ambas as promessas, pois assim como o Cristo prometido se realizou com seu ministério na História, do mesmo modo a sua ressurreição anuncia eventos que ainda haverão de acontecer, mas que também se apresentam como eventos históricos.

O Evangelho é mensagem de salvação, mas para que signifique salvação, necessita que resulte em verdadeiro arrependimento (capítulo XIV): Por arrependimento entendemos uma volta atrás da mente no pecador provocado pela Palavra do Evangelho e pelo Espírito Santo, e recebida pela verdadeira fé, com o que o pecador imediatamente reconhece a sua corrupção inata e todos os seus pecados denunciados pela Palavra de Deus; e entristece-se por eles em seu coração, e não apenas os lamenta e francamente confessa diante de Deus com um sentimento de vergonha, mas também com indignação os abomina; cuidando agora zelosamente de emendar-se, num esforço constante em busca da inocência e da virtude, no qual esforço se exercita santamente em todo o resto de sua vida. O arrependimento é dom de Deus e só por meio dele é que teremos verdadeira conversão a Deus. A Segunda Confissão Helvética rejeita o sistema confessional católico por não ter base bíblica e que estes devem ser confessados apenas a Deus e, eventualmente, a um ministro da Igreja, se ele assim o desejar. Sobre a doutrina das chaves, a confissão segue Lutero: as chaves, de acordo com a Bíblia, são dos apóstolos e não apenas de Pedro; os ministros da pregação também receberam essas chaves de Paulo (2 Coríntios 5.18), logo, também os ministros do Evangelho também absolvem, ligam e desligam aqueles que ouvem a Palavra, crêem e se arrependem ou que, em ouvindo, ainda assim não mudam seus caminhos. As indulgências e as satisfações também são condenadas. Somente Cristo salva o expiar os pecados de todos. O capitulo XV que fala da justificação, segue Lutero passo a passo: somos justificados apenas por causa de Cristo porque Ele tomou os pecados do mundo e os carregou para si, satisfazendo desse modo a justiça divina. Somos justificados somente pela fé, sem o concurso de obras externas, mas não porque a fé nos salve, mas sim a graça que opera mediante ela a fim de que também a fé não se torne uma obra externa (Efésios 2.8ss). Portanto, diz Büllinger, porque a fé recebe Cristo, nossa justiça, e atribui tudo à graça de Deus em Cristo, por isso a justificação é atribuída à fé, principalmente por causa de Cristo, e não porque ela seja obra nossa, visto que é dom de Deus. Em suma, somente por meio da fé recebemos a Cristo. A confissão, decerto pensando nas pesadas críticas de Lutero, também faz apologia da carta de Tiago e afirma que ela de forma alguma contradiz a Paulo, nem ao NT: E assim São Tiago não contradiz coisa alguma nesta nossa doutrina. É que ele fala de uma fé vã e morta, da qual alguns se vangloriavam, mas que não tinham Cristo vivendo neles pela fé (Tiago 2.14 ss). São Tiago disse que as obras justificam, contudo sem contradizer o apóstolo (do contrário ele teria de ser rejeitado), mas mostrando que Abraão provou sua fé viva e justificadora pelas obras. É isso o que fazem todos os piedosos, confiados, porém, só em Cristo e não em suas próprias obras. O apóstolo ainda diz: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morre Cristo em vão”, etc. (Gal 2.20). Teria Büllinger percebido na crítica de Lutero a Tiago uma ameaça ao rompimento do dogma da unidade temática e textual da Bíblia, bem como da unidade intrínseca da mensagem do evangelho corroborada no NT, além da idéia de que, ao rejeitar ou desqualificar Tiago em relação aos demais conjuntos neotestamentários, especialmente paulinos, não estaria o reformador alemão criando um cânon dentro do cânon?

O capítulo XVI define a fé como um ato de total confiança por meio do assentimento do Espírito e a convicção da verdade tal qual apresentada nas Escrituras. Ela é dom de Deus que opera por meio da ação do Espírito. Deus pode aumentar a fé quando ela se torna elegchos, isto é, a certeza dos fatos que não se vêem (Hebreus 11.1). A fé é alimentada pela pregação da Palavra de Cristo e atua por meio do amor (Gálatas 5.6). Somente mediante a fé, é possível realizar boas obras, como também pensa Lutero, sendo que nada que o homem faz por si mesmo é efetivamente do agrado de Deus. Em suma, as boas obras, quando feitas com fé, não devem de forma alguma ser rejeitadas. Elas são agradáveis a Deus, mas não representam a salvação. A salvação é impropriamente atribuída a elas; ao passo que é com absoluta propriedade que ela é atribuída à graça. O capítulo XVII define a Igreja como a comunhão dos santos que pode ser encontrada em toda parte do mundo. Ela não é um grupo sectário que se isola do resto do gênero humano, como criam os donatistas, nem tampouco é a Igreja Romana que se intitula exclusivamente como portadora da salvação quando somente Cristo é o cabeça da igreja. A Igreja, e aqui Büllinger segue diretamente Lutero [8], está dividida em duas formas, a Igreja Militante (Eclésia Militants) e a Igreja Triunfante (Eclésia Triunfants). A Igreja divide-se em diferentes partes ou formas, não por estar dividida ou rasgada em si mesma, mas por ser distinta pela diversidade dos seus membros. Militante e triunfante. Uma é chamada a Igreja Militante e a outra a Igreja Triunfante. A primeira ainda milita na terra e luta contra a carne, o mundo e o Diabo, que é o príncipe deste mundo, e contra o pecado e a morte. A outra, já deu baixa e triunfa no céu depois de ter vencido esses inimigos, e exulta diante do Senhor. Entretanto, essas duas igrejas têm comunhão e união uma com a outra. Para Büllinger, a Eclésia Militants surgiu ainda no AT com os patriarcas, assumindo formas diferenciadas sob Moisés, pela Lei e sob Cristo pelo Evangelho. A fé em Cristo congrega os povos e aglutina os dois testamentos em uma mesma mensagem de salvação. Somente Cristo é o cabeça da Igreja e por isso

 

Não aprovamos a doutrina do clero romano, que faz do seu Pontífice Romano o pastor universal, o cabeça supremo da Igreja Militante aqui na terra, e assim o próprio vigário de Jesus Cristo, que tem, como eles dizem, toda a plenitude de poder e soberana autoridade na Igreja. Cristo o único pastor da Igreja. Ensinamos que Cristo, nosso Senhor, é e continua a ser o único pastor universal e sumo Pontífice diante de Deus seu Pai, e que na Igreja ele mesmo realiza todas as funções de um pontífice ou pastor, até o fim do mundo.

 

Deus está presente e atuante na vida da comunidade não obstante em certos momentos ela pareça extinta ou quase morta, e tal como na parábola do joio e do trigo, nem todos os que estão na igreja são de fato igreja, ou seja, vivem a comunhão do Senhor. Contudo, isso não nos permite fazer julgamentos de valores das pessoas pois de fato só Deus sabe de todas as coisas. A Confissão lembra que embora se almeje a unidade, não se pode esquecer que dissensões sempre existiram na Igreja, inclusive na era apostólica. As dissensões na verdade são, para Büllinger, o instrumento pelo qual Deus elucide a verdade, e para que os que forem realmente aprovados sejam de fato revelados e honrados.

A Confissão Helvética entende como sinais da verdadeira igreja, a pregação da Palavra, adoração a Deus em Espírito e em verdade, a aceitação de Jesus como seu único e suficiente salvador e único mediador diante de Deus; os crentes não praticam a sua própria justiça, mas antes esperam a justiça no Senhor; os crentes carregam a cruz e participam dos sacramentos instituídos pela Palavra, ficando de fora todos os demais grupos humanos que mesmo que se intitulem cristãos não seguem nenhuma dessas práticas. Por outro lado, embora a igreja apresente os seus sinais externos que representam a prática da é da comunidade, nem por isso se pode dizer que representem esses sinais os elementos identificativos da Eclésia, pois também pode acontecer de a igreja cair, de dividir e até seguir falsas doutrinas como ocorrera na Galácia e em Corinto. Como lembra a confissão:

 

Entretanto, pelos sinais acima mencionados, não restringimos a Igreja ao ponto de ensinarmos que estão fora dela todos aqueles que ou não participam dos sacramentos, pelo menos não voluntariamente ou por desprezo, mas antes, forçados pela necessidade, involuntariamente se abstêm deles ou deles são privados, ou em quem a fé algumas vezes falha, embora não seja inteiramente extinta e não cesse de todo; ou em quem se encontram as imperfeições e erros devidos à fraqueza. Sabemos que Deus teve alguns amigos no mundo fora da comunidade de Israel.

 

Desse modo a Igreja é uma entidade que não se prende ao espaço físico. Ela está onde os amigos de Deus se encontram para reverenciar a Sua Santidade, ainda que impossibilitados de celebrarem-na por outros meios. Somente pela fé dessas comunidades é que é possível chamá-las de Igrejas de Cristo. Ali onde o evangelho for pregado e seus ministros estejam trazendo a mensagem do Cristo crucificado, não obstante a ausência de ritos e sinais, ali estará a Eclésia militants.

Os ministros da igreja foram instituídos por Deus e serão mantidos para o governo da Igreja até o final dos tempos (capítulo XVIII). Os patriarcas e os profetas são considerados os primeiros ministros da Palavra, vindo depois Cristo unigênito, o mais perfeito mestre do mundo, em quem está escondida a sabedoria de Deus, a qual veio até nós através da mais santa, simples e perfeita de todas as doutrinas. E finalmente, por meio de Jesus, os apóstolos. A partir daí, notadamente nas cartas paulinas, o ministério sacerdotal neotestamentário é estabelecido. Bispos são os supervisores e vigias da Igreja, que administram o alimento e outras necessidades da vida da Igreja. Presbíteros. Os presbíteros são os anciãos e, por assim dizer, os senadores e pais da Igreja, governando-a com sadio conselho. Pastores. Os pastores não só guardam o rebanho do Senhor, como também providenciam as coisas necessárias a ele. Mestres. Os mestres instruem e ensinam a verdadeira fé e piedade. Portanto, os ministros da Igreja podem, agora, ser chamados bispos, anciãos, pastores e mestres. A confissão não aponta claramente para uma governança eclesiástica episcopal: o bispo supervisiona o andamento da vida cristã das comunidades, mas é o presbitério – o senado da igreja local – quem cuida diretamente dos assuntos da comunidade, deixando ao pastor a responsabilidade pelo zelo do rebanho do Senhor. Com isso, Büllinger, sem excluir as atribuições episcopais, coloca no presbitério o governo de fato da comunidade. Todas as demais ordenanças eclesiásticas – cardeais, arcebispos, arciprestes, monges, etc – devem ser rejeitadas por não terem amparo na Escritura para sua fundamentação organizacional. O ministro é um pregador, mas é também um mestre, um professor da Palavra, além de ter o dever de assistir os enfermos e os aflitos de espírito. Contra os donatistas a confissão reafirma que sabemos que os sacramentos são santificados pela instituição e pela palavra de Cristo, e que são válidos para o fiel, embora administrados por ministros indignos. Ou seja, é a Palavra de Deus e não a ordenança do ministro que valida o sacramento, independentemente de sua conduta de vida. Por outro lado, a confissão também reconhece o sacerdócio de todos os crentes embora nem todos sejam ministros pois este sacerdócio é comum a todos os cristãos, ainda que a ordenação ministerial não o seja. Os sínodos representam a instância máxima para o exame da doutrina e onde os cismáticos devem tratados. Contra os anabatistas, a Confissão Helvética reafirma a necessidade do sustento pastoral e, a exemplo das demais confissões examinadas, reafirma que somente os sacramentos do Batismo e da Ceia devem ser considerados bíblicos. (capítulo XIX). Na verdade, exceto pelo fato de se diferenciarem externamente, os sacramentos do NT em nada mais se distinguem do AT exceto o fato de se destinarem até o final dos tempos. O batismo foi instituído diretamente por Deus (capítulo XX) e é para toda a vida pois só deve ser ministrado uma única vez. É pelo batismo que somos recebidos na família cristã e nos tornamos de fato filhos de Deus. Apenas a água deve ser aceita dentre os sinais externos por ser por meio dela que a ministração do batismo é realizada, devendo ser rejeitados como adendos externos velas, orações exorcistas e outras práticas. A Confissão Helvética também recomenda o batismo dos infantes, mas ao contrário da Confissão Belga que liga esse sacramento ao AT, a Confissão Helvética liga esse sacramento ao NT (Mateus 19.13-14) e ataca os anabatistas: Por que, então, não deve o sinal da aliança de Deus ser conferido a elas? Por que não devem aqueles que são propriedade de Deus e estão na sua Igreja ser iniciados pelo santo batismo? Condenamos os anabatistas em outras das suas doutrinas peculiares, que eles sustentam em oposição à Palavra de Deus. Não somos, portanto, anabatistas e nada temos em comum com eles.

Quanto a ceia do Senhor (capítulo XXI), essa celebração é ato memorial: o corpo e o sangue de Cristo permanecem em sua essência, isto é, como o pão e o vinho, mas são recebidos espiritualmente como a carne e o sangue do Cordeiro. No passado, os cafarnauenses acharam que a carne do Senhor devia ser comida desse modo, mas são refutados pelo próprio Senhor, em João, cap. 6. Desde que a carne de Cristo não pode ser comida corporalmente, sem infâmia e selvageria, assim ela não é alimento para o estômago. A interpretação da ceia do Senhor como presença literal dos elementos da carne e do sangue sob os elementos como advoga Lutero é assim rejeitada e imputada como barbárie e a simples idéia da concepção da presença real do corpo e do sangue de Cristo sob os elementos como pura idolatria: Nós, pois, não identificamos o corpo do Senhor e seu sangue com o pão e o vinho a ponto de dizer que o próprio pão é o corpo de Cristo, exceto no sentido sacramental; ou que o corpo de Cristo está oculto corporeamente sob o pão, de modo que deve ser adorado sob a forma de pão; ou ainda que, quem quer que receba o sinal, recebe também a própria realidade. O corpo de Cristo está nos céus, à mão direita do Pai; e, portanto, nossos corações devem elevar-se para o alto e não se fixarem no pão, nem deve o Senhor ser adorado no pão. Contudo, o Senhor não está ausente de sua Igreja, quando esta celebra a Ceia. Somente quem estiver na comunhão do Senhor e tiver se examinado intimamente pode receber a Santa Ceia, pois do contrário, estará participando dela apenas para a sua própria condenação (2 Coríntios 11.26-29).

O culto da Igreja (capítulo XXII) deve ser pautado pela leitura da Palavra, pela prática de orações e súplicas, a ministração dos sacramentos e recolhimento da coleta para os pobres e para o pagamento de taxas e outras obrigações da Igreja. Em princípio, as reuniões devem ser públicas, exceto se todavia, as perseguições não lhe permitirem, havendo assim a necessidade de que sejam secretas, e devem ser celebradas em língua local de modo que a mensagem pudesse ser assimilada plenamente por todos. A prática das orações deve ser estimulada não sendo especificada nenhuma liturgia especial nesse sentido, exceto pelo cuidado para que não se tornem longas, maçantes e cansativas (capítulo XXIII). Lamentavelmente, Büllinger repete o mesmo pensamento equivocado de Calvino quanto à música e seu papel na liturgia. O cântico ser usado com moderação no culto. O Cântico chamado Gregoriano encerra muitas coisas tolas; daí com justa razão ser ele rejeitado por muitas de nossas igrejas. Não se deve condenar as igrejas, que embora tendo bom sermão não têm um bom cântico. Nem todas podem contar com a vantagem de ter boa música. Sabemos pelo testemunho da antiguidade que se o hábito de cantar é muito velho nas Igrejas Orientais, só tardiamente foi aceito no Ocidente.

No capítulo XXIV a Confissão abole os feriados santos deixando somente o domingo de descanso do Senhor. O jejum é ato meritório da medida em que a carne é refreada em suas paixões, mas torna-se completamente inócua quando destituída dessa significação, ao passo que o jejum da Quaresma é totalmente abolido. Todos os alimentos foram feitos para serem recebidos por obra do Senhor que os santificou e nos deu a mercê para seu consumo. Quanto à catequese ou confirmação (capítulo XXV), essa instrução deve ser realizada desde a mais tenra idade, bem como se deve ter em conta a responsabilidade pelo cuidado aos doentes e moribundos. O capítulo XXVI prescreve o sepultamento cristão dos mortos e a evitar o excessivo reverenciar dos falecidos, decerto para evitar os devaneios advindos do culto aos mortos de onde decorreu à praga das indulgências. Toda e qualquer intercessão pelos mortos, cujas almas voltam diretamente para Cristo, deve ser imediatamente abolida como superstição pagã, especialmente o purgatório considerada doutrina anticristã, e as estórias de aparição de espíritos tratadas na confissão como superstição. A diversidade de ritos da igreja (capítulo XXVII) é tratada da seguinte forma:

 

De nenhum modo aprovamos a opinião daqueles que pensaram que a Igreja de Cristo deve ser regulamentada por diferentes ritos, como uma espécie de treinamento. Pois, se os apóstolos não quiseram impor ao povo cristão cerimônias ou ritos, que foram indicados por Deus, quem, pergunto eu, em perfeito juízo haveria de impor-lhes invenções imaginadas pelo homem? Quanto mais aumenta o volume de ritos na Igreja, tanto mais ela se despoja da liberdade cristã, de Cristo, e de sua fé nele, enquanto o povo busca nos ritos aquilo que deveria buscar somente pela fé no Filho de Deus, Jesus Cristo. Por conseguinte, basta aos crentes, alguns ritos moderados e simples, que não sejam contrários à Palavra de Deus.

 

A Confissão Helvética reconhece uma diversidade de ritos mas não isso não tem importância na medida em que esses ritos não divergem da doutrina e da fé pois é próprio das igrejas seguirem liturgias diferentes obedecendo particularidades históricas e psicológicas, bem como as diferenças entre os diversos grupos. Sobre os bens da Igreja (capítulo XXVIII), esses existem em decorrência da necessidade da Igreja de sustentar as escolas e os edifícios onde o culto é ministrado, bem como para o cuidado das mesas, e portanto, devem ser preservadas. O casamento (capítulo XXIX) deve ser abençoado tanto por ser uma bênção de Deus como por ser um antídoto para a incontinência. Todavia, os que possuem o dom do celibato devem ser tidos na mais alta conta pois o celibato é reputado como um dom divino, que conduz naturalmente ao ser humano a um maior e mais eficaz serviço da obra do Senhor. A magistratura (capítulo XXX) é ordenança instituída por Deus que pode ser muito benéfica para a igreja, na medida em que o magistrado sendo cristão, garantir a pregação livre da Palavra de Deus. Na verdade, e aqui o pensamento de Büllinger, dentro de sua visão magisterial não se difere em nada da de um Lutero, ou mesmo de tratadistas medievais como Adalberon de Laon, a magistratura existe fundamentalmente para proteger a Igreja e permitir a pregação do Evangelho. Segundo o exemplo dos mais santos reis e príncipes do povo do Senhor, promove o magistrado a pregação da verdade e a fé sincera, extirpa as mentiras e toda a superstição, juntamente com toda impiedade e idolatria e defende a Igreja de Deus. Assim, a Segunda Confissão Helvética também entende a magistratura como um ofício eclesiástico ainda que exercido no âmbito secular, pois destina-se a combater os adversários da igreja (as mentiras) e a ser pregoeiro da verdade (a doutrina cristã). Nesse sentido, a definição de Büllinger não poderia ser mais magisterial:

 

Tenha ele, pois, em suas mãos a Palavra de Deus, tomando cuidado de que não se ensine nada contrário à mesma. Governe também o povo, que lhe foi confiado por Deus, por meio de boas leis, elaboradas segundo a Palavra de Deus, conservando-o na disciplina, no dever e na obediência. Exerça o seu ofício de magistrado, julgando com justiça. Não faça acepção de pessoas, nem aceite subornos. Proteja as viúvas, os órfãos e os aflitos. Use sua autoridade para punir os criminosos e até bani-los, bem como aos impostores e bárbaros. Pois, não é sem motivo que ele traz a espada. (Rom 13.4). Portanto, desembainhe a espada de Deus contra todos os malfeitores, sediciosos, ladrões, homicidas, opressores, blasfemadores, perjuros, e contra todos aqueles, a quem Deus lhe ordenou punir e mesmo executar. Reprima os hereges incorrigíveis (verdadeiramente heréticos), que não cessam de blasfemar contra a majestade de Deus, e de perturbar e mesmo pôr em perigo a Igreja de Deus.

fonte www.avivamentonosul.blogspot.com